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O Eclipse da Coexistência: As Origens Reais do Conflito Árabe-Israelense

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Diferente da narrativa popular de um ódio milenar ou de uma terra estagnada, o período do Mandato Britânico foi marcado por uma simbiose econômica e social profunda. Um ponto crucial que foi ignorado pela historiografia clássica é que a presença judaica nunca foi uma novidade na região; judeus sempre habitaram a terra e, historicamente, nunca foram lidos como estrangeiros pelos seus árabes. A imagem do judeu como um colonizador externo é uma interpretação anacronista, fabricada décadas depois por sociólogos e teóricos supostamente anticoloniais que projetaram conceitos europeus sobre uma realidade levantina muito mais integrada. Nas primeiras ondas migratórias do final do século XIX, os judeus vindos da Europa e do Iêmen não fundavam enclaves isolados, mas sim colônias agrícolas chamadas Moshavot (como Petah Tikvah ou Rishon LeZion). Como não conheciam o clima local, esses imigrantes dependiam inteiramente dos fellahin (camponeses palestinos) para aprender a cultivar olivei...

Nem Europeia, nem Subsaariana: A Identidade do Egito

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​ O Norte da África (o Magrebe e o Egito) não deve ser confundido, do ponto de vista fenotípico ou genético, com a África Subsaariana. Historicamente, o Deserto do Saara funcionou como uma barreira geográfica muito mais seletiva do que o Mar Mediterrâneo, que sempre atuou como uma ponte. Os Berberes (Imazighen) são o povo indígena da região, onde o fenótipo de "pele oliva" é a característica nativa. Estudos de DNA antigo — como os publicados pelo Instituto Max Planck na Nature Communications — demonstram que os egípcios da antiguidade eram geneticamente mais próximos das populações do Levante e do Oriente Próximo do que das populações ao sul do Saara. Portanto, a população egípcia atual guarda uma forte continuidade com seus ancestrais faraônicos. Um dos maiores erros do revisionismo recente é tratar "egípcio" como uma categoria racial uniforme, ignorando o período helenístico. Cleópatra não era etnicamente egípcia, mas sim macedônia (grega), pertencente...

O Altar do Capital: As Cruzadas como Mecanismo de Expansão e Controle Social

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A narrativa tradicional das Cruzadas, frequentemente pintada como uma resposta heróica da Cristandade à expansão islâmica, desmorona diante de uma análise histórica rigorosa. O que a história revela não é um choque de civilizações inevitável, mas uma operação de engenharia política e econômica desenhada para salvar uma elite europeia em crise, utilizando a fé como verniz para o saque e a pacificação interna. O chamado do Papa Urbano II em 1095 não foi um ato de piedade, mas um golpe de mestre geopolítico. Em uma Europa fragmentada por guerras senhoriais e pela existência de "antipapas", a Igreja precisava de um projeto unificador que a colocasse no topo da hierarquia feudal. Ao inventar a figura do "pagão idólatra" — uma caricatura grosseira de um mundo islâmico que os cavaleiros do norte sequer conheciam —, o Papado criou uma identidade europeia baseada na exclusão. A construção desse "Outro" diabólico foi o laboratório para a desumanização qu...

O Imperialismo como Demiurgo e a Ruptura com o Paradigma de Marx

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​ A ideia de que o conflito central da história não se dá entre classes transnacionais, mas entre nações exploradoras e nações exploradas, possui uma linhagem que remete a sintomas comuns, mas trajetórias independentes. O conceito de "Nação Proletária" foi cunhado originalmente por Enrico Corradini e adotado pelo fascismo de Mussolini. Nele, há um politicismo típico do nacionalismo italiano: a luta de classes interna deveria ser projetada para fora para não enfraquecer o Estado. A Itália era a "proletária" e a Inglaterra a "burguesa". Embora Lênin tenha buscado dar um rigor econômico ao fenômeno em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916), ele produziu uma mudança de paradigma na análise. Sua teoria assume um caráter político e não dialético. Ao propor que o proletariado dos países centrais era "comprado" pelas migalhas do imperialismo, Lênin deslocou o potencial revolucionário para as periferias, quebrando com a centralidade...

Grupo Gemeinwesen: Teoria mínima do processo de abstração (MTAP)

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Pintura: Mont Marte Australia. Nota da tradução Ao início do ano, entrei em contato com o ilcovile.it (onde o texto original pode ser encontrado), solicitando se poderia traduzir o MTAP, ou a Teoria mínima do processo de abstração (IT: Teoria Minimale del Processo d'Astrazione ), do Grupo Gemeinwesen. Fui respondido por Stefano Borselli, um dos autores, o qual, muito gentil, disse-me que não precisava de permissão para traduzir o texto, mas que agradecia por ter entrado em contato e que a iniciativa de tradução lhes tocava o coração. Este texto denso, rico em conteúdo e referências, sejam elas diretas ou indiretas, inicia-se com uma epígrafe de Camatte e outra de Heráclito, e encerra-se com Weiss. Nisso, creio que a passagem de Heráclito, que é o fragmento 89, possa iluminar o caminho percorrido pelo texto. “Heráclito e Weiss, ambos ditos Obscuros, iluminam os dois extremos nesta condição.” — em certo sentido, é a obscuridão que ilumina aqui, bem como no...