O Eclipse da Coexistência: As Origens Reais do Conflito Árabe-Israelense
Diferente da narrativa popular de um ódio milenar ou de uma terra estagnada, o período do Mandato Britânico foi marcado por uma simbiose econômica e social profunda. Um ponto crucial que foi ignorado pela historiografia clássica é que a presença judaica nunca foi uma novidade na região; judeus sempre habitaram a terra e, historicamente, nunca foram lidos como estrangeiros pelos seus árabes. A imagem do judeu como um colonizador externo é uma interpretação anacronista, fabricada décadas depois por sociólogos e teóricos supostamente anticoloniais que projetaram conceitos europeus sobre uma realidade levantina muito mais integrada.
Nas primeiras ondas migratórias do final do século XIX, os judeus vindos da Europa e do Iêmen não fundavam enclaves isolados, mas sim colônias agrícolas chamadas Moshavot (como Petah Tikvah ou Rishon LeZion). Como não conheciam o clima local, esses imigrantes dependiam inteiramente dos fellahin (camponeses palestinos) para aprender a cultivar oliveiras e citrinos. Os palestinos trabalhavam nessas colônias e os judeus compravam suprimentos das aldeias árabes.
Cidades como Jaffa, Haifa, Jerusalém e Hebron eram verdadeiros mosaicos. Em bairros densos, era comum que famílias judias e palestinas compartilhassem o mesmo pátio interno (hush). As crianças cresciam brincando juntas e vizinhos árabes frequentemente cuidavam das luzes ou do fogo para os judeus no Shabat. Os mercados (souks) eram o centro dessa vida: o camponês palestino trazia seus vegetais e o artesão judeu oferecia seus serviços. Não era uma relação de colono e colonizado, mas de atores econômicos em um mesmo território.
Essa harmonia era sustentada por uma estrutura social onde, para o camponês palestino, a lealdade principal era à sua vila e ao seu clã (hamula), não a um Estado Palestino que ainda não existia como conceito político. Existem registros de inúmeros pactos de não agressão e amizade entre chefes de aldeias árabes e líderes de colônias judaicas.
O cenário mudou com o desenvolvimento tecnológico do Mandato Britânico (1922-1947). A entrada de capital e medicina elevou o padrão de vida árabe na Palestina a níveis recordes. O microbiologista judeu Israel Kligler liderou a erradicação da malária drenando os pântanos — as "terras podres" que foram as únicas que os árabes aceitaram vender. Essa vitória sanitária gerou empregos e atraiu uma imigração árabe sem precedentes vinda de países vizinhos. Entre 1922 e 1947, a população muçulmana quase dobrou, e o crescimento foi mais forte justamente onde a presença judaica era maior, como em Haifa (86%) e Jaffa (62%).
O ponto de ruptura não foi religioso, mas sistêmico. Reformas otomanas permitiram que terras fossem registradas em nome de poucos aristocratas — os Effendis, que residiam em Beirute ou Paris. Esses latifundiários vendiam terras para organizações judaicas a preços inflacionados, embolsavam o ouro e depois usavam a retórica nacionalista para canalizar a frustração dos camponeses deslocados contra os judeus. O antissemitismo foi a ferramenta perfeita para as elites árabes protegerem seus privilégios feudais, desviando o foco da exploração que elas mesmas praticavam.
A liderança radical, encabeçada pelo Mufti de Jerusalém, percebeu que o sucesso sionista — com seus sindicatos e ideais igualitários — ameaçava o poder dos clãs tradicionais. Em 1929, o Mufti espalhou boatos sobre a destruição de Al-Aqsa, resultando no Massacre de Hebron, onde comunidades judaicas milenares foram atacadas. A Grande Revolta Árabe foi, na verdade, uma limpeza étnica interna dirigida pelo clã Husseini contra moderados como o clã Nashashibi, que aceitava a cooperação. Milhares de árabes foram mortos por seus próprios irmãos por se recusarem a apoiar o extremismo.
Mesmo durante a guerra de 1948, provocada pela rejeição árabe à partilha da ONU, muitos camponeses se recusaram a lutar contra seus vizinhos judeus, priorizando laços de convivência de décadas. A tragédia foi selada quando Estados vizinhos ocuparam Gaza e Cisjordânia por 19 anos sem nunca permitir um Estado palestino soberano. A propaganda moderna transformou Israel em um projeto colonial para ocultar que a liderança árabe optou pela guerra em vez de uma cooperação que já trazia prosperidade mútua. O muro de hoje foi construído por balas disparadas por radicais contra moderados nos anos 30, e é mantido por uma narrativa que prefere o mito político à evidência histórica.
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