O Imperialismo como Demiurgo e a Ruptura com o Paradigma de Marx


A ideia de que o conflito central da história não se dá entre classes transnacionais, mas entre nações exploradoras e nações exploradas, possui uma linhagem que remete a sintomas comuns, mas trajetórias independentes. O conceito de "Nação Proletária" foi cunhado originalmente por Enrico Corradini e adotado pelo fascismo de Mussolini. Nele, há um politicismo típico do nacionalismo italiano: a luta de classes interna deveria ser projetada para fora para não enfraquecer o Estado. A Itália era a "proletária" e a Inglaterra a "burguesa".

Embora Lênin tenha buscado dar um rigor econômico ao fenômeno em Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo (1916), ele produziu uma mudança de paradigma na análise. Sua teoria assume um caráter político e não dialético. Ao propor que o proletariado dos países centrais era "comprado" pelas migalhas do imperialismo, Lênin deslocou o potencial revolucionário para as periferias, quebrando com a centralidade da (crítica da) economia política que sustenta o comunismo em Marx.

Essa semente não causou diretamente o Maoismo, pois Mao foi independente em sua leitura, sendo, na verdade, pouco fiel ao rigor de Marx e herdando dele apenas insights. Na "Teoria dos Três Mundos" e na Revolução Cultural, Mao consolidou sua própria transmutação: o sujeito da história deixou de ser o operário definido pela posição na produção e passou a ser o "povo" definido pela geografia e postura anti-Ocidente. Stalin já havia preparado o terreno ao subordinar a luta de classes à sobrevivência do Estado Soviético, transformando a geopolítica na nova moralidade proletária. O que hoje chamamos de "campismo" é o herdeiro dessas três ideias independentes que compartilham um politicismo causado pela intensificação das brigas entre capitais nacionais.

A maior limitação dos grupos terceiro-mundistas contemporâneos é o apagamento das burguesias locais. Ao classificar um país inteiro como "proletário", ignora-se que a extração de mais-valia ocorre de forma brutal dentro de regimes "anti-imperialistas". A elite russa, iraniana ou chinesa detém meios de produção e explora sua própria classe trabalhadora, mas essa contradição é silenciada em nome de uma suposta unidade nacional. A análise deixa de ser material e torna-se diplomática: se um Estado se alinha contra a OTAN, ele é automaticamente "progressista", independentemente de sua estrutura social interna.

A crítica mais profunda reside no fato de que essa visão é metodologicamente estranha ao marxismo. O materialismo em Marx é uma investigação da imanência e da especificidade. Os "leninistas" modernos tomam a abstração "Imperialismo" como um Demiurgo — um ente externo que move as peças do tabuleiro. Vale notar que Marx também toma o Capital como um Demiurgo, um "sujeito automático" e autônomo. A diferença é que o realismo de Marx reside em conceber o capital como uma objetividade (como na forma da extrusão) e como uma relação específica de sujeito-substância.

O terceiro-mundismo, por outro lado, usa o imperialismo como um template pré-fixado. Eles não investigam o objeto; aplicam uma regra procedimental sobre ele. Substituem a relação capital-trabalho por uma "metafísica da soberania". É um retorno ao idealismo: a crença de que a superestrutura política define a natureza de um regime, ignorando sua base econômica.

Em última análise, o discurso das viúvas da URSS não passa de um moralismo geopolítico. Ao abandonarem o rigor da análise de classe e o modo de exposição dialético — que parte do abstrato ao concreto —, eles não avançam o marxismo, mas ressuscitam o nacionalismo conservador. Falham em distinguir a abstração reificada da coisa real, resultando em uma metafísica do poder que serve apenas às novas elites globais.

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