Heidegger e o nazismo


A coisa mais fácil imaginável hoje é deslegitimar toda a obra e pensamento de determinado autor a partir de juízos moralistas. Em alguns casos, para tentar evitar a imagem de moralismo, o indivíduo deslegitimador pode até alegar coisas como: "não descarto tudo desse autor, pois tenho pensamento crítico; ele deve ter sim coisas aproveitáveis, mas..." e logo em seguida há de soltar a frase mais imbecil que você já ouviu. É impossível dissociar um autor de sua obra, é impossível matar o autor, pois a obra se determina a partir do autor. Mas justamente nisso devemos reconhecer que, como seres humanos, todos os autores são contraditórios. No entanto, Heidegger é um caso muito especial, pois Heidegger não escreveu obras, mas sim, como ele mesmo dizia, caminhos — seriam os caminhos trilhados por Heidegger facilmente descartáveis como pretendem nossos espertalhões contemporâneos?

De acordo com a revista Jacobin, a filosofia de Heidegger é indissociável do nazismo. De acordo com a Frente Marxista-Leninista do Brasil, Heidegger seria um pseudofilósofo verborrágico com o único propósito de endossar o nazismo. Jacobinistas e marxistas-leninistas, o auge de podridão da esquerda, se propondo, através de moralismos, descartar todo um pensamento e teoria, quelle surprise! Certamente não é um caso único, coisa que já há muito testemunhamos, com os marxistas querendo descartar toda filosofia pré-Marx sob o julgamento de "idealismo". Ninguém há de se espantar ao se afirmar que o esquerdismo não passa dum elevado moralismo, apenas pintado de cores quentes. Em verdade, tanto a moral esquerdista quanto a moral kantiana — a qual os marxistas acusam de idealismo — partem da raíz da falsa dicotomia platonista e se manifestam enquanto būshido, o "código dos samurais" — onde está o distanciamento entre as duas? A moral kantiana, ao menos, tem alguma condizência e lógica. Já os esquerdistas, ao que parece, ainda não levantaram de seu sono dogmático.

Os marxistas, em especial, tendem a descartar a teoria de determinados autores a partir de julgamentos morais pois são incapazes de notar as contradições inerentes que qualificam um pensamento. Tão maior sejam as contradições dum pensador, tão maior será ele. Marx foi um dos teóricos mais contraditórios que já viveram, no entanto, os marxistas, que se dizem seus seguidores, recusam-se a reconhecer isso, pois iria contra seu discurso ideológico e dogmático. As contradições são o princípio da dialética, a αρχή desta, e os marxistas, seguidores do "materialismo histórico-dialético", negam tal princípio. Negando as contradições inerentes ao próprio autor que dizem seguir com o objetivo de transformá-lo num ídolo, acabam fazendo o mesmo, porém de forma inversa, com outros. Hão de ignorar contradições inerentes a determinado autor com o objetivo de transformar um traço em sua totalidade, com o intuito de descartá-lo e transformá-lo num verdadeiro demônio. Chega a ser irônico quererem atacar os liberais por condenarem Marx por atos de sua vida pessoal, pois o julgamento por estes feito é igualmente moralista, apenas possuindo uma diferente projeção.

Analisaremos aqui a relação de Heidegger com o nazismo, a fim de desmistificar uma das maiores cartadas morais do presente no campo da filosofia.

Em 1933, Heidegger foi eleito pela Universidade de Friburgo ao cargo de reitor. Com a ascenção e desenvolvimento do regime nazista, no entanto, foi coagido a se juntar ao partido nacional-socialista para manter seu cargo recém-recebido de reitoria. Representantes do comitê distrital do partido foram até ele diversas vezes oferecendo-lhe o cargo. Heidegger, ouvindo suas propostas e visando manter sua posição, decidiu juntar-se ao partido — não só isso, como acreditou, ingenuamente, que o novo regime poderia trazer tempos de prosperidade e renovação para a Alemanha e para o "Dasein ocidental" —, porém, sob as condições de que mantivesse plena liberdade de publicação e de manifestação de seu pensamento, sem censuras por parte da organização, e que pudesse rejeitar livremente qualquer cargo ou posição no partido ou no nome deste. Jaspers, numa carta de 1945 para o comitê de desnazificação da universidade, afirma: “penso que Heidegger certamente não percebeu todos os reais poderes e objetivos dos líderes nacional-socialistas. O fato de que ele tenha acreditado que pudesse preservar uma livre manifestação da vontade o demonstra."

Durante aquele período, trocou favores com a direção do partido, realizando seis breves discursos em sua defesa ao longo do ano de 1933. Não tardou até que velhos amigos se distanciassem do mesmo. Hannah Arendt, judia, ex-aluna e amante de Heidegger, imediatamente cortou contato com este. Marcuse, ex-aluno e amigo, também judeu, rapidamente cortou contato. Por um certo tempo, Heidegger ainda manteve contato com Jaspers, colega e amigo próximo, mas, repentinamente, houve um estranho distanciamento por parte do próprio. Jaspers imaginou que o distanciamento havia se dado por sua esposa ser judia, no entanto, anos mais tarde, Heidegger esclareceu-se dizendo que o real motivo era de que ele não tinha nem mesmo coragem de olhar na cara de Jaspers por conta de suas associações com o nazismo, e que estava profundamente envergonhado. Talvez o mais doloroso distanciamento tenha sido em relação a Husserl, seu grande amigo e mestre, também judeu. Não tardou até que o regime quebrasse a sua palavra e começasse a censurar seus textos, removendo a dedicatória a Husserl na primeira página de Ser e tempo (1927). O contato entre os dois foi forçosamente cortado.

Frente a tudo isso, uma enorme angústia se manifestava em Heidegger, e tão logo já confessou a alunos que sua filiação ao partido havia sido a "maior estupidez" de sua vida. Em 1934, desenvolveu-se uma enorme hostilidade à sua reitoria por parte do ministro, pressionando-o para que substituísse os decanos das áreas de direito e medicina na universidade por possuírem posições "politicamente inaceitáveis". Após tais demandas (as quais foram por ele recusadas) e uma enorme pressão, renunciou ao cargo de reitoria e então começou a se manifestar contra o regime. Não podia sair do partido, lhe era proibido, mas arranjou outras formas de se voltar contra este. Na tradicional cerimônia de posse de seu sucessor à reitoria, recusou-se a comparecer, afirmando que não havia nada a lhe transmitir — o sucessor, por sinal, foi aclamado como "o primeiro reitor nacional-socialista", o qual já era integrante do partido e não necessitou de nenhuma coação. Parou de comparecer às reuniões do comitê e de associações do partido para as quais era convocado, deixou de seguir os protocolos da universidade, parou de realizar a saudação ao führer antes de todo curso ou palestra (a qual era obrigatória), etc... Durante todo aquele período, aproveitou-se de seu cargo para acobertar e proteger alunos judeus de deportação, para que pudessem permanecer estudando ali.

Os tempos eram insuportáveis. A técnica reinava, o regime pressionava, e sua liberdade de manifestação estava sob constante censura. Frente a tudo isso, ainda em 1934, Heidegger decide voltar para sua vila de origem, onde foi muito bem recebido e passou um certo período na antiga residência de sua família, a qual era acoplada a uma igreja. Não muito depois, isola-se de quase todo contato com a humanidade numa cabana no meio da floresta negra. Permanece isolado por 10-12 anos, retornando em poucos momentos, para palestras, mini-cursos ou visitas.

Cabe uma análise um pouco mais aprofundada sobre a censura sofrida por Heidegger antes (e mesmo durante) seu isolamento. Em seus cursos de filosofia, manifestou-se contra a eugenia e os biologismos dogmáticos e primitivistas de Rosemberg. Numa carta de 1945, relata: “Encontrei-me em uma situação essencialmente diversa da de outros representantes de disciplinas científicas, nas quais não havia, imediatamente ou em princípio, necessidade de formular pontos de vista metafísicos fundamentais; e foi precisamente o que eu fiz durante todo o meu tempo na sala de aula. Desde que a ideologia nacional-socialista se tornou cada vez mais inflexível e menos inclinada à interpretação puramente filosófica, o fato de que eu atuasse como filósofo foi, por si mesmo, uma expressão suficiente de oposição. Durante o primeiro semestre após minha renúncia, ministrei um curso de Lógica e, sob o título "A Doutrina do Logos", discuti a essência da linguagem. Procurei mostrar que a linguagem não era a essência biológica-racial do homem, mas, ao contrário, que a essência do homem estava calcada na linguagem como uma realidade básica do espírito. Todos os estudantes inteligentes entenderam essa palestra, assim como sua principal intenção. Ela foi igualmente compreendida pelos espiões e informantes que relataram minhas atividades a (Ernst) Drieck em Heidelberg, a (Alfred) Baumler em Berlim e a Rosemberg, diretor dos serviços científicos nacional-socialistas. Posteriormente teve início uma polêmica maliciosa contra minha pessoa e meu pensamento no Volk im Werden, uma revista editada por Krieck. Durante os doze anos da publicação, difi-cilmente houve um número que não contivesse algum ponto dúbio ou infame sobre meu pensamento. Todas essas declarações da imprensa do Partido tinham o mesmo tom sempre que eu falava para organizações acadêmicas, nas minhas palestras sobre "As Origens do Trabalho Artístico", ou sobre "Os Fundamentos Metafísicos da Pintura Moderna Mundial". Nenhum membro da Universidade de Freiburg foi tão difamado nos anos 1933-34 em jornais e publicações e, ainda, no jornal da Juventude Hitlerista, Vontade e Poder." Naquele momento, Nietzsche e Hegel eram figuras que o regime nazista visava cooptar. Graças aos esforços dos marxistas e social-democratas alemães, com especial destaque a Marcuse, apesar de distante do território germano, a figura de Hegel não pôde ser cooptada com tanta facilidade. Nietzsche, no entanto, tornou-se a própria figura de representação da "filosofia" nacional-socialista. Heidegger, como um grande nietzscheano, voltou-se contra tal cooptação. Na mesma carta, afirma: "Na verdade, é injusto ligar Nietzsche ao nacional-socialismo, uma ligação que — sem mencionar o essencial — ignora sua hostilidade ao anti-semitismo e sua atitude favorável à Rússia." Em 1936, engajou-se numa série de mini-cursos da filosofia de Nietzsche que visava limpar sua imagem da que o regime imputava sobre o mesmo. Não muito depois, foram impostas novas medidas de censura, as quais apenas reforçaram seu isolamento.

De 1934 em diante, passou a ser excluído, por medida de Rosemberg, de qualquer participação na delegação alemã no Congresso Internacional de Filosofia. Em 1937, na Conferência de Descartes, em Paris, foi convocado duas vezes pelos franceses, porém inibido pelo regime alemão de comparecer. Textos como Kant e o problema da metafísica foram censurados e proibidos da reedição. “A partir de 1938, ninguém mais podia citar meu nome nem criticar meus trabalhos devido a instruções secretas dadas aos editores de periódicos." Durante um longo período, Heidegger foi silenciado de qualquer edição ou periódico, e só tomou conhecimento das instruções secretas da Gestapo em 1940, quando lhe foi confidenciada anonimamente uma delas por parte de amigos, a qual dizia: “O ensaio de Martin Heiddeger, "A Concepção Platônica da Verdade", a ser publicado brevemente pelo jornal de Berlim, Jahrbuch für geistige Überlieferung, editado por Helrnut Küper, não deve ser citado ou criticado. A participação de Heiddeger nesse número do jornal, que em outra situação poderia ser comentada, não deve ser mencionada." Toda e qualquer participação de Heidegger em jornais ou periódicos, antes tão comentadas, criticadas e bem-afamadas, agora eram vazias e deviam ser deixadas de lado. Apenas Vontade e poder e outros veículos relacionados ao partido poderiam comentar a propósito, com o objetivo de difamar Heidegger. Não muito depois, o mesmo ensaio ali referido, A concepção platônica da verdade, foi aceito pelo editor, e pretendia-se a publicação duma edição especial e ser vendida nas livrarias — o que acabou nunca acontecendo, pois o ensaio foi censurado e sua venda proibida. O mesmo ocorreu com vários ensaios e contribuições que se seguiram. Apenas em 1943 três pequenas conferências de Heidegger foram publicadas clandestinamente, porém sem ter muita repercussão. De resto, sua censura acabou por tornar-se absoluta e escancarada.

Durante o período da guerra, recebeu propostas de Portugal, Itália e Espanha para dar palestras e conferências com fins propagandistícos. No entanto, recusou-as formalmente, afirmando que “não estava disposto a emprestar meu nome para propaganda no exterior, uma vez que não me era permitido publicar artigos no meu próprio país.”

Em 1945, com o fim da guerra, iniciou-se um comitê de desnazificação na Universidade de Friburgo, o qual pediu esclarecimentos por parte de Heidegger em relação ao seu envolvimento com o nazismo. De prontidão, respondeu-lhes com a carta aqui mencionada. O comitê também pediu a avaliação por parte de Jaspers, renomado professor antinazista e ex-colega de Heidegger. Creio que a análise da carta de Jaspers seja interessante para a abordagem, afinal, foi decisiva para a não reintegração de Heidegger na docência.

A carta se divide entre seis pontos. O primeiro é a propósito de sua relação com Heidegger durante aquele período. Afirma que, desde o início do regime, em seus encontros, Heidegger havia sido impreciso sobre determinadas "questões delicadas"; que mantiveram contato via correspondência por um certo tempo ao início de seu isolamento e que, desde 1937, deixou de confirmar o recebimento das cartas de Jaspers e cortou de vez o contato. O segundo é explicitando alguns fatos sobre a relação entre Heidegger e o antissemitismo durante aqueles anos. Levanta em consideração uma avaliação confidencial escrita por Heidegger sobre o docente Eduard Baumgarten a mando do regime. Baumgarten buscava se filiar ao partido, e Heidegger ficou encarregado de avaliar sua "aptidão" para tal, já que havia convivido com o mesmo. Durante sua avaliação, fala que, após ter se frustado em conviver com ele, este passou a viver com o "judeu Fraenkel". Em seguida, é tratado a propósito do assistente de Heidegger no Departamento de Filosofia, o Dr. Warner Brock, que era judeu. Jaspers presume que Heidegger não tinha ciência sobre o semitismo de Brock. Em decorrência dos decretos do regime, Brock teve de ser deportado. Heidegger colaborou para que Brock fosse exilado na Inglaterra — o que, de certa forma, é compreensível, tendo em vista que, se não o fizesse naquele momento, teria sofrido graves consequências. No entanto, é interessante notar que Brock relata a Jaspers que Heidegger foi altamente irresponsável para com ele. Concluindo o segundo ponto, Jaspers diz: “Nos anos 20, Heidegger não era um anti-semita. As observações completamente desnecessárias sobre o "judeu Fraenkel" demonstram que, em 1933, tornara-se um anti-semita, pelo menos em certos contextos. Quanto a essa questão, nem sempre foi discreto, o que não exclui a possibilidade de que em outros casos, como suponho, o anti-semitismo contrariasse sua consciência e noção do que seja adequado.” Evidentemente, os meios em que vivemos afetam diretamente nossa consciência, pois somos seres sociais. Vivendo num meio extremamente antissemita, Heidegger oscilou para o antissemitismo em determinados contextos, apesar de contrariar, como Jaspers muito bem destacou, aquilo em que ele mesmo acreditava. Logo depois, no que acredito ser o terceiro ponto da carta (apesar desse em específico não ser demarcado por numeração), Jaspers afirma a capacidade de visão de mundo filosófica de Heidegger, a qual, apesar de fugir da "verdadeira ciência", atingia o cerne do pensamento filosófico. “Muitas vezes ele age como se combinasse a seriedade do niilismo com a mistagogia de um mago.” Após uma análise da capacidade de Heidegger na produção filosófica, afirma Jaspers que era uma medida necessária e urgente mantê-ll em condições de trabalhar e de escrever. No quarto ponto, fala sobre a possibilidade de reabilitação de Heidegger para a docência. Diz que, a rigor, inúmeros docentes que não eram realmente nacional-socialistas, mas que tiveram envolvimento com este, foram demitidos. Com Heidegger, se passava o mesmo. Estaria Heidegger apto para voltar à sala de aula? “Em nossa situação, a educação da juventude precisa ser tratada com a maior responsabilidade. Completa liberdade para ensinar é um objetivo atraente, que não pode ser realizado imediatamente. A maneira de pensar de Heidegger, que em sua essência me parece contrafeita, ditatorial e incapaz de comunicação [communikationslos], seria hoje desastrosa em seus efeitos pedagógicos.” Portanto, ao menos durante aquele momento, seria recomendável o afastamento de Heidegger da docência de jovens. O quinto ponto é meditando a propósito de em que medida Heidegger teve envolvimento com a ideologia nazista. “Até certo ponto, aceito a desculpa de ordem pessoal de que Heidegger fosse apolítico, de acordo com sua natureza. O nacional-socialismo que ele abraçou tinha pouca coisa em comum com o nacional-socialismo real. A esse respeito, gostaria, sobretudo, de chamar a atenção para a observação que Max Weber fez em 1919: crianças que se apoderam do leme da História são esmagadas.” Compara ali seu caso com Bäumler e Schmitt, mostrando-os como essencialmente distintos, mas com uma coisa em comum: usaram de suas capacidades intelectuais reais frente ao regime e suas posições e, nisso, arruinaram para sempre sua reputação na filosofia alemã. Encerra dizendo que 1934, 1938 e 1941 significavam etapas fundamentalmente distintas para Heidegger — ainda mais se considerarmos que as duas últimas se passavam num momento de alto isolamento. O sexto ponto, enfim, é sobre as medidas que Jaspers acreditava serem necessárias. A primeira era de que fosse fornecida uma pensão individual para Heidegger, para que pudesse permanecer escrevendo e desenvolvendo sua filosofia, com base nos grandes escritos importantes que certamente ainda estariam por vir. A segunda era a suspensão das atividades de ensino por vários anos. Tendo em vista os pontos anteriormente levantados, principalmente o quarto, Heidegger não estaria, de modo algum, apto para voltar à sala de aula. Com base nos ensaios que fossem sendo publicados ao longo dos anos e o desenrolar das atividades de Heidegger, deveria ser reconsiderada ulteriormente sua reintegração na docência universitária. Ao fim da carta, diz que, caso o encarregado do comitê quisesse levá-la ao conhecimento de Heidegger, tinha permissão para expôr os pontos 1, 2, 6 e um parágrafo específico do 3. Acredito que a proposição de Jaspers — que foi, inclusive, posta em prática — foi muito mais do que justa frente à situação.

A partir de certo momento entre o semestre final de 1947 e o início de 1948, Heidegger começa a sair de seu isolamento. Naquela situação, recebe a visita dum ex-aluno com o qual havia cortado contato, Marcuse, filósofo proeminente da Escola de Frankfurt, o qual, no começo dos anos 30, havia proposto um "marxismo heideggeriano". A visita, porém, acaba tendo um clima mais pesado e pouco esclarecedor. Não muito depois, Marcuse decide enviar uma carta a Heidegger visando maiores esclarecimentos sobre a situação. Marcuse envia, junto de sua carta, uma cesta básica de auxílio para Heidegger. Heidegger, então, dá ghosting em Marcuse até o ano seguinte, de 1948, quando decide lhe enviar uma carta dizendo que havia distribuído o material da cesta básica entre ex-alunos afetados pela guerra. Para limpar a consciência de Marcuse, assegurou que os alunos em questão não possuíram envolvimento algum com o nacional-socialismo em nenhum momento. As cartas trocadas entre Heidegger e Marcuse também são interessante objeto de análise em relação ao tema.

Durante a visita, é constatado por Heidegger que fora vigiado e censurado pela Gestapo durante aquele momento e que, portanto, uma maior oposição ao regime lhe era impossível. Marcuse, em sua carta, levanta que aquilo havia sido durante o período do regime, e que, portanto, era compreensível, porém, agora o regime já havia caído, e esperava-se por parte de Heidegger maiores esclarecimentos públicos em relação a isto. Constatam amigos e colegas de Heidegger que ele sempre foi alguém inclinado ao silêncio, e, vemos com clareza agora, foi assim que cavou a própria cova. O maior erro de Heidegger foi ter tardado e demorado tanto para se pronunciar publicamente após o final do regime nazista. Diz Marcuse em sua carta: “Eu e muitos outros o admiramos como filósofo, de quem aprendemos infinitamente. Porém, não podemos separar o filósofo do homem, porque isso contradiz sua própria filosofia. Um filósofo pode enganar-se com assuntos políticos, caso em que ele reconhecerá seu erro abertamente. Mas ele não pode se enganar com um regime que matou milhões de judeus, meramente por serem judeus, que fez do tenor um fenômeno cotidiano e que tomou por seu inimigo mortal tudo o que se refere às idéias de espírito, liberdade e verdade.” Mais à frente, questiona: “É realmente dessa maneira que você gostaria de ser lembrado na história das idéias?" A carta de Marcuse, em suma, é uma cobrança por um pronunciamento público por parte de Heidegger, para que sua imagem pudesse enfim ser limpa.

Meio ano de ghosting depois, hesitante, Heidegger responde a Marcuse através de seis pontos. No primeiro, afirma que durante aquele momento em 1933 estava cego, e caiu numa crença de que o novo regime, que estava trazendo tempos de maior prosperidade, poderia, enfim, libertar o Dasein ocidental e evitar a "ameaça comunista", espantalho tão difundido na Alemanha durante aquele período. No segundo, afirma que em 1934 reconheceu seu erro e renunciou ao cargo de reitor em protesto contra o Estado e o partido. Durante muito tempo, suas atividades foram exploradas com objetivo propagandistíco ali e no exterior, de forma que se propagasse, principalmente fora do solo germano, a podre imagem dum "filósofo do nazismo" — até hoje infelizmente perpetuada. Não só isso, como também sua renúncia foi abafada, o que, diz, fugia à sua atenção e não poderia ser usado de argumento contra ele. No terceiro ponto, é dito: “Você está absolutamente correto sobre eu ter falhado ao não me retratar pública e claramente. Isso teria sido fatal para mim e minha família. Sobre o assunto, Jaspers disse que o fato de permanecermos vivos é nossa culpa.” No quarto, afirma que em suas palestras e cursos até 1944 se posicionou de maneira tão clara que conseguiu evitar que qualquer aluno se tornasse uma vítima da ideologia nazista, e que, se um dia essas palestras e cursos aparecessem à tona, o comprovariam. No quinto, afirma que uma declaração após 1945 também lhe parecia impossível, pois: “os defensores do nazismo anunciaram sua mudança de credo da maneira mais asquerosa; entretanto, nunca tive nada em comum com eles.” Temia que fosse equiparado ou colocado ao mesmo patamar que os nazistas reais. No sexto ponto, aponta que o holocausto foi algo acobertado do povo alemão, e do qual ele não poderia ter a mínima ciência. Menciona que, diferentemente do genocídio que os orientais aliados passaram a sofrer após 1945, cujo era de conhecimento público, mas as pessoas preferiam por ignorar, o genocídio de judeus nos campos de concentração era ocultado, silenciado, e não se poderia acusá-lo de compactuar com. Somente a partir de 1945 começou-se a ter conhecimento a propósito dos campos de concentração. Até então, acreditava-se que os judeus estavam sendo deportados ao exterior.

Tempos depois, Marcuse responde: “Por muito tempo hesitei em responder a sua carta de 20 de janeiro. Você tem razão: é realmente difícil conversar com pessoas que não estiveram na Alemanha desde 1933. Mas não creio que a causa disso seja nossa falta de familiaridade com a situação alemã sob o nazismo. Estávamos bem conscientes dessa situação, talvez até mais do que as pessoas que estavam na Alemanha. O contato direto que mantive com muitas dessas pessoas em 1947 convenceu-me disso.” Ataca a posição inicial de Heidegger de 1933 afirmando que a libertação do Dasein ocidental só era uma possibilidade através do comunismo. A sua resposta, em verdade, tem por objetivo abordar apenas um ponto, referente a ele ter julgado os atos dos alemães frente ao regime nazista por seu final e não por todo seu desenvolvimento. Apesar disso, Marcuse trata da questão como se os alemães já tivessem plena noção e conhecimento dos campos de concentração, uma abordagem extremamente errônea por sua parte. Ao final da carta, esclarece com enorme importância que sua oposição ao regime nazista não foi apenas devido à sua posição enquanto judeu, mas sim, também, uma oposição política. Marcuse, ao que parece, nunca recebeu uma resposta à carta.

Em 1950, com o reencontro na mirada, Heidegger volta a ver sua grande musa inspiradora, Arendt. Hannah, por sua vez, pôde pôr sua tese de doutorado em prática ali: que o perdão e a culpa eram dois versos da mesma moeda. Para Arendt, não perdoam-se atos, mas indivíduos que os cometeram. A partir dali, voltaram a trocar cartas até sua morte em 1975. Em suas correspondências, não há muito a propósito do envolvimento de Heidegger com o nazismo, coisa que provavelmente foi mais esclarecida durante seu reencontro, e Arendt apenas se pronunciaria a respeito durante o octagésimo aniversário de Heidegger, com a publicação do texto Heidegger aos oitenta. Para ela, Heidegger não teve aderência ideológica ao nazismo, e se teve, este tinha pouco ou nada haver com o nazismo real. Constata também que Heidegger nunca leu o Mein kampf e não teve contato com as principais obras de referência no nazismo. Para ela, Heidegger discorreu do mesmo caso de Platão, e bastaria observar a Carta VII. Platão se deixou enganar e se atraiu pelo discurso do Tirano Dionísio de Siracusa, pelo qual, logo após, voltou-se contra. Heidegger deixou-se levar, parcialmente, pelo discurso nazista e pela imagem do führer que era espalhada por todos os lados, mas não tardou até que passasse a adquirir nojo do mesmo. Arendt aponta que todos os grandes filósofos até então, por excessão de Kant, tiveram envolvimento ou apoiaram os respectivos líderes perversos de suas épocas, e que, se fossemos julgar e descartar Heidegger por isso, haveríamos de descartar toda a filosofia à excessão da kantiana.

Jaspers, Marcuse, Arendt. Apesar de ter conseguido se redimir, ao menos parcialmente, com seus antigos colegas e amigos, alguns já não estavam mais ali. Husserl, a maior inspiração de Heidegger, havia morrido em 1938. Uma vez encerrada a guerra, Heidegger fez inúmeros tributos e homenagens a Husserl, a começar pela reinclusão de sua dedicatória na primeira página de Ser e tempo. Entre suas homenagens, destaca-se o texto Meu caminho para a fenomenologia, onde fala sobre sua relação com Husserl e sobre como ele o influenciou profundamente. Sem Husserl, seu método, seus livros, seu alcance inicial, nada disso seria possível.

Ao longo dos anos seguintes do pós-guerra, Heidegger passa a limpar, apesar de aos poucos, sua imagem — que hoje tanto empenham em destruir. Em 1952, escreve a famosa Carta sobre o humanismo, onde defende a compreensão de Marx da história, o comunismo, etc. e visa tirar do comunismo uma visão de "estilo de vida" ou "partido", retomando uma noção verdadeira e profunda do que ele realmente significava. Planejava, ainda em vida, a publicação de seus Cadernos pretos, nos quais haviam anotações pessoais e reveladoras de seu pensamento, e desmistificariam a ideia de adesão ideológica ao nazismo — infelizmente, sua publicação só se deu póstumamente, de forma bem conturbada, como veremos à frente.

Agora, chega a parte mais chata do texto, que é a análise das acusações proferidas pela Jacobin e pela Frente Marxista-Leninista do Brasil (FAE-BR). Poderíamos pegar uma infinidade de textos acusando Heidegger de ser o próprio filósofo do nazismo ou um demônio hitlerista, mas, nos contentaremos com dois apenas.

Em 28 de setembro do ano passado, a FAE-BR publicou o texto Martin Heidegger, o pseudo-filósofo nazista (o qual, no momento, está disponível em seu canal do Telegram). O texto começa acusando-o de ser um dos expoentes da filosofia burguesa contemporânea. Em seguida, afirma que Heidegger já era um defensor do nazismo antes mesmo de sua adesão ao partido, e que formou inúmeros grupos de estudos da ideologia nacional-socialista — no entanto, o texto não apresenta nenhuma prova ou fonte a respeito. Logo após, é dito: “Heidegger nunca rompeu seus laços orgânicos com o Partido Nacional Socialista" — o que se quer dizer com "laços orgânicos"? Isso não nos é informado. É dito que Heidegger permaneceu filiado ao partido — o que é um fato, por razões que já foram acima explicadas, sendo algo do qual não tinha a possibilidade —, mas, não apenas isso, como também um membro extremamente ativo do início ao fim. Como ele poderia ter permanecido tão ativo isolado no meio do mato e com pouquíssimo contato exterior? O texto não apresenta nenhuma fonte dessa suposta atividade, mas, quem somos nós para questionar? A seguir, é afirmado: “Heidegger se lançou na política e a usou para se tornar reitor de sua Universidade e expurgá-la de antinazistas e judeus.” Não é nem mesmo necessário destacar a ausência de fontes. Além do mais, ele foi eleito como reitor e só então se filiou ao partido por medidas de coerção; de que maneira teria ele "se lançado na política" para, então, atingir o cargo de reitoria? Respostas são o que nos faltam. Fora isso, a acusação de expurgar antinazistas e judeus da universidade é extremamente mentirosa, com ele tendo se recusado a substituir os decanos de direito e medicina por suas posições políticas, e tendo acobertado e protegido alunos judeus da deportação. É citada também uma passagem de Böhm acusando Heidegger dum intolerante fanatismo por Hitler — acusação da qual, basta olhar os cadernos pretos, já se dissolve. A seguir, há uma separação para uma outra parte do texto, intitulada: Martin Heidegger e a pseudofilosofia — essa sim nos parece interessante! No entanto, possui apenas um parágrafo. “Existe um debate sobre a filosofia de Martin Heidegger ser de fato, Filosofia ou não” — onde? Gostaria de saber mais sobre esse suposto debate, mas, no entanto, não existem fontes e nem menções... Após isso, é mencionado Bunge, dizendo: “porque a retórica de Heidegger é tão hermética que o que ele escreve é raramente compreendido, a menos que seja trivial. Tanto que se pode dizer que "isso" não é filosofia, mas verborragia e, portanto, pseudofilosofia.” Aparentemente, o filósofo da linguagem ter uma linguagem "complicada", justamente no estudo da linguagem, não passa de verborragia, um absurdo de incompreensibilidade! É citado como exemplo desse hermetismo verborrágico o conceito de nadificação. No entanto, se vamos descartar Heidegger por conceituar uma nadificação, então haveríamos de descartar também toda uma filosofia oriental fundamentada em torno do budismo Mahayana, que sustenta o mesmo.

Observamos, com estúpida facilidade, que o texto da FAE-BR não passa dum monte de acusações e disparates seguidos um do outro, sem fontes reais ou fundamentadas. Passemos ao texto da Jacobin, que, apesar de ridículo, aparenta ter alguma coerência.

O texto é de Gustav Jönsson, foi traduzido e publicado pela Jacobin em 10 de abril do ano retrasado, e intitula-se O nazismo de Heidegger é indissociável de sua filosofia — o título, apesar de tudo, é correto, pois para haver uma dissociação, seria antes necessário haver um nazismo em Heidegger. Majoritariamente, o texto consiste num monte de lero-lero vazio de conteúdo. Podemos observá-lo em passagens como: “Pode-se aprender muito com os hábitos de leitura: pela manhã, antes mesmo de Hitler se tornar chanceler, Heidegger lia o nazista Völkischer Beobachter ou o ultrarreacionário Die Tat; à noite, ele se enrolava na cama com algum panfleto fascista.” Passagens que certamente dizem muito, mas, ao mesmo tempo, não dizem porcaria nenhuma. Poético, certamente, mas vazio. Além do mais, o texto possui evidentemente um viés marxista, falando coisas como: “Como Hitler, ele nunca se cansava de apontar que o nacional-socialismo, quaisquer que fossem os elogios que prestasse ao “trabalhador”, não tinha ligação com o pensamento marxista. Mas se os preconceitos políticos e étnicos de Heidegger o tornaram suscetível ao nazismo, na verdade foram suas convicções filosóficas que mais importaram. Não era apenas no que ele acreditava, mas como ele acreditava; com o tempo, tornou-se cada vez mais vatico, cada vez mais irracional.” Heidegger nunca se empenhou em opor o marxismo ao nazismo, imagine, então, se o fizesse incansavelmente, como alega o texto! Além do mais, aqui também se evidencia a imagem a ser pintada: Heidegger é um expoente da filosofia burguesa que se opõe à eterna e imortal ciência do proletariado, o marxismo. Não só o texto possui viés marxista, como também, neoiluminista, problematizando as críticas de Heidegger ao niilismo iluminista como se fossem uma prova de seu terrível nazismo — mas agora, resta questionarmos: quem contará aos nossos grandes camaradas que o eugenismo nazista partia, precisamente, do iluminismo? Resta a dúvida. Num certo momento, é dito: “Sua mudança do catolicismo para o nazismo foi facilitada por seu desprezo pelos socialistas e judeus.” No entanto, veja-se bem: Heidegger abandonou o catolicismo já na década de 10, saindo do curso de teologia e dedicando-se inteiramente ao de filosofia. Basta olhar Meu caminho para a fenomenologia ou qualquer relato de alguém próximo (Husserl, Arendt, etc.), ou, mesmo, ler seus textos ao longo daquele tempo. O nazismo só começa a aparecer na década de 20. Se ele realmente abandonou o catolicismo para abraçar o nazismo, como o texto alega, então, creio, teria ele de ficar congelado numa câmara de hidrogênio durante 10-20 anos até o nazismo surgir e se desenvolver. Duns Scotto, Ser e tempo e outros textos publicados naquele período foram feitos via telepatia pela câmara de hidrogênio, evidentemente, apesar de contradizendo o grande catolicismo de Heidegger. Além do mais, tal mudança, como é dito, foi facilitada pelo grande ódio que, aparentemente, ele nutria pelos judeus, apesar de todo seu círculo de conhecidos e amados, à excessão de sua família e de alguns padres, ser judeu. Também é alegado que: “No final da [primeira] guerra, ele se convenceu de que a Alemanha precisava de uma revolução da direita que inaugurasse um espírito nacional.” — não só não o fez, como também se opunha aos ideologismos dicotômicos de esquerda-direita. Acusa também o texto Heidegger de se opôr ao eugenismo nazista apenas em prol dum eugenismo espiritual (?), no qual a "raça" seria determinada através do espírito do indivíduo. Como mostrado anteriormente através das próprias citações de Heidegger, tal acusação não se sustenta. “Costumava-se dizer, até pelos críticos, que Heidegger se opunha ao racismo ideológico nazista; em contraste, Heidegger pensou em raça em termos "espirituais".” De fato, ele pensou a raça de acordo com termos espirituais em seus Cadernos pretos, porém, opondo-se a tal noção. Neles, aborda a concepção de raça que partia da tradição cristão-judaica e que se baseava na religiosidade — se, como o texto alega, Heidegger era antissemita e anticristão (e não o era), logo, tais estudos não poderiam ser considerados nem sob a perspectiva mais vulgar como uma defesa disso (e, mesmo não o sendo, ainda sim não poderiam ser assim considerados). Ali é também afirmado que Heidegger leu o Mein kampf e passara a recomendar entusiasticamente o livro para todos de seu círculo — o que é facilmente desmentido. Uma das principais alegações do texto é a de que Heidegger teria desenvolvido, em seus cadernos pretos, uma filosofia do Volk. No entanto, todas as menções ao Volk em seus cadernos foram adicionadas pelo editor Peter Trawny, inclusive entre colchetes. Nas situações mais desnecessárias e sem indício algum, encontraremos estas menções, como: "folkish[-volkish]" ou "cultural[-volkish]" — a edição arbitrariamente adicionou inúmeras menções ao tal do Volk para alegar que Heidegger, de fato, desenvolveu uma profunda filosofia do Volk. Não se contentando com toda a mistificação em cima de Heidegger, o texto ainda busca satirizar Arendt, dizendo: “Hannah Arendt acabou concluindo que ele havia afundado na superstição, mas ela também sentiu o canto da sereia: ele os ensinou, disse ela, a “pensar apaixonadamente”. — nenhuma surpresa, afinal, Arendt é uma das figuras mais odiadas pela dita esquerda radical hoje.

As alegações partindo dos cadernos pretos são bem comuns, acreditando que, através deles, prova-se o suposto nazismo em Heidegger. No entanto, todas essas "provas" derivadas dos cadernos só podem ser assim consideradas se adulteradas ou tiradas de contexto e altamente distorcidas. Não só a edição de Peter Trawny arbitrariamente alterou o conteúdo do livro para sustentar as alegações do editor, como também este inventa inúmeros mitos a seu propósito no posfácio, como de que os cadernos eram ultrassecretos e de que Heidegger não pretendia sua publicação. No entanto, era comum que, ao alguém visitar sua cabana, ele mesmo mostrasse seus cadernos, tendo mostrado-os inclusive em entrevistas! Não só não eram um segredo, como atestam seus conhecidos que ele mesmo pretendia sua organização e publicação em vida. Além do mais, usa-se dos cadernos para dizer que Heidegger era profundamente antissemita. No entanto, todas as citações de Heidegger ao judaísmo neles são voltadas para a religiosidade judaica, e quase sempre em conjunto com a cristã. Não há nenhuma expressão de antissemitismo, exceto por uma única passagem que poderia ser assim interpretada, na qual ele se refere à psicanálise freudiana como "judaica" — o que era muito difundido entre os próprios círculos psicanalíticos, e que Freud ele mesmo chega a abordar. Isso, sem contarem as inúmeras críticas e ataques de Heidegger ao führer ao longo dos cadernos. Em alguns momentos, Trawny força tanto, mas tanto, que, se conseguisse forçar mais um pouquinho, cagaria.

Em 25 de outubro de sabe-se lá qual ano pós-2014 (o que não nos é informado pela revista), a Cult realizou uma entrevista com o professor italiano Francisco Alfieri, cujo foi intitulada como: “Não há nada nos cadernos pretos que possa indicar adesão de Heidegger ao nazismo”. Entrevista essa, inclusive, que recomendo muito a leitura. Nela, é dito: “Estou mais do que convencido de que as acusações de antissemitismo feitas contra Heidegger são o resultado de uma estratégia engenhosamente posta em ato para gerar confusão e para insinuar que finalmente foram encontradas provas tangíveis do compromisso do filósofo com o nacional-socialismo de Hitler.” Ao ser questionado, durante a entrevista, sobre qual era a chave de leitura para entender que o nazismo de Heidegger era um mito, Alfieri responde: “Não há nenhuma chave de leitura a esse respeito porque não há simplesmente nada nos cadernos que possa dar base para afirmar uma adesão de Heidegger ao nazismo. Aliás, o termo “mito” foi empregado pelo editor alemão dos cadernos pretos, mas a fim de promover as suas próprias e fantasiosas hipóteses, que são desmentidas categoricamente por boa parte da comunidade científica.” Não pretendo me aprofundar muito na entrevista, pois acredito que os interessados vão e procurem eles mesmos por sua leitura.

Se, como alegam a Jacobin e a FAE-BR, o nazismo é intrínseco à filosofia de Heidegger, indissociável desta, então, todos os autores heideggerianos ou que se influenciaram profundamente por Heidegger haveriam de ser, por conseguinte, nazistas, em ao menos alguma medida, e seu pensamento, portanto, também seria inerentemente nazista e indissociável deste. A partir daí, devemos descartar Lacan, Deleuze, Guattari, Arendt, Badiou, Jalal Al-e Ahmad, Ahmad Fardid, Kuki, Nishitani, Byung-Chul Han, Marcuse, etc... Toda a Escola de Kyoto, toda a filosofia iraniana contemporânea, toda a psicanálise pós-freudiana, quase todo o pós-estruturalismo, etc., imediatamente, tornaram-se nazistas.

Se Heidegger fosse mesmo um grande nazista, por qual razão não teria ele se filiado ao partido ou se engajado em suas atividades antes de 1933? E, mesmo que, em algum contexto, possamos considerá-lo como nazista, não teria ele, com seu profundo arrependimento, deixado de ser? 12 anos de isolamento no meio do mato não teriam mudado seu pensamento por completo?

Os mesmos esquerdistas que acusam Heidegger de nazismo por sua filiação ao partido também acusam Trotsky de menchevismo pela mesma razão. "São casos essencialmente diferentes!", há de gritar o trotskista. De fato, o são. Afinal, Heidegger teve atividades no partido nazista por menos de um ano e num contexto extremamente conturbado; já Trotsky, por uma década e meia foi um ávido militante do partido menchevique. Vamos mesmo julgar toda uma vida de mais de oito décadas por uma relação estabelecida durante tão curto período de tempo? Vamos mesmo descartar toda uma ampla e densa filosofia, todo um sistema de pensamento tão aprofundado e elaborado, em prol de atos individuais dos quais o autor rapidamente se arrependeu? Se o fizermos, não estaríamos atingindo o auge da ignorância?

Sei que o presente texto não vai mudar os julgamentos moralistas do Tribunal Materialista Histórico-dialético da Microrrepública Democrática do Upistão, mas, certamente há de garantir uma renovação de minha carteirinha na Comuna Federalista Heideggeriana-corinthiana.

Por fim, destaco as palavras de Arendt numa carta enviada a Heidegger em seu aniversário de 80 anos:

“Tomara que aqueles que vierem depois de nós, se evocarem nosso século e seu povo, bem como se tentarem se manter fiéis a nós, não se esqueçam das devastadoras tempestades de areia que varreram todos nós, cada um a seu modo, e nas quais, ainda assim, um homem como esse e sua obra foram possíveis.”

Por: Straw

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