Badiou: Esqueçam das eleições, duma vez por todas!

Imagem via: CNN.

Nota da tradução

Amanhã ocorrerá o primeiro turno das eleições. Deixemos nossa animosidade de lado: as coisas permanecerão as mesmas. 

Lula ou Flávio, pouco importa. Não é como se pudéssemos mudar a base eleitoral. Lula provávelmente vencerá; mas e se Flávio vencer, ou então a suposta intervenção estadunidense imaginária ocorrer antes do segundo turno, e daí? — daí, nada. O que se produz é uma massa histérica e frenética por resultados, ansiosa em vão. Devemos nos subtrair dessa sociedade de massas, e nela não tomar participação: fique em casa, ou no bar; se decidir ir às escolas para votar, então o faça pelo prazer de teclar um amontoado de zeros ou números aleatórios (quem sabe não aperte um 13 ou um 22 por acidente?). Sob a aparência de normalidade (ou não), não nos deixemos reduzir a mais um número entre outros nas pesquisas.

Nesse contexto, deixo aqui uma pequena e rápida tradução, do inglês, dum texto de Badiou, escrito no contexto das eleições francesas de 2017, que elegeram Macron pela primeira vez. O texto pode ser encontrado disponível na libcom.org. Uma boa leitura — e lembrem-se:

Vote consciente. Vote nulo.

— Straw.

Nota da libcom

Após a vitória de Trump, na véspera da votação final na França, e com as eleições antecipadas no Reino Unido se aproximando, Badiou responde às críticas que o atacam pela rejeição radical do voto democrático. Primeiro publicado no Urbanomic, traduzido por Robin Mackay.

(1° de outubro de 2017).

Esqueçam das eleições, duma vez por todas!

Eu entendo a amargura daqueles protestando contra os resultados das eleições na França — em particular daqueles desapontados por Mélenchon ter seguido após o primeiro turno. Dito isso, de qualquer maneira, eles disseram e fizeram aquilo que puderam: não houve fraude alguma nessa eleição, nenhuma aberração particular.

Em fato, houveram apenas duas anomalias político-partidárias, as quais infelizmente (pelos poderes reais estabelecidos) resultaram na decomposição do bloco parlamentar central, feito pela esquerda e pela direita clássicas. Por quarenta anos, por dois séculos até, foi esse bloco que deu suporte ao desenvolvimento do capitalismo local. Agora, a incumbência local da suposta esquerda, Hollande, não concorreu, o que dividiu seu partido. Por outro lado, a direita clássica, devido às primárias desastrosas, não apostou em seu melhor cavalho velho, Juppé, mas na triste figura da burguesia local, tão distanciada dos quitutes "societários" do capitalismo moderno.

"Normalmente", o segundo turno teria sido Hollande/Juppé, ou, no pior dos casos, Le Pén/Juppé. Na ausência dos dois partidos do governo, conforme eles desmoronavam, nossos verdadeiros mestres por dois séculos — nomeadamente, os proprietários e gerentes do capital, estavam um pouco perdidos. Mas felizmente (para eles) com seus políticos pessoais usuais, os velhos veteranos da reação, junto com (é claro) a ajuda do resíduo social-democrata (Valls, Le Drian, Ségolène Royal, etc.), improvisaram juntos um substituto apresentável ao bloco parlamentar central decorrente. É isso que o Macron é. O que eles também fizeram — algo muito útil, e que terá grande importância daqui em diante — foi convocar Bayrou, o velho mago centrista, um homem de várias batalhas eleitorais, talvez até o mais difícil deles. Tudo isso foi feito com enorme brio, num tempo recorde. O sucesso ao final é praticamente garantido.

Nessas condições, de modo inteiramente compreensível, o voto confirma, mais claramente do que o convencional, que a subjetividade da direita pró-capitalista, incluindo nela sabe-se lá como as formas fascistóides, é absolutamente majoritária na França.

Alguns dos intelectuais nacionais, e algumas de suas juventudes, recusaram enxergar isto, ou então amargamente reclamam a respeito. E daí? Será que eles, estes amantes da eleição democrática, querem mudar o eleitorado da mesma maneira que alguém troca de roupa? Quem quer que vote deve consentir à vontade da maioria, afinal de contas! Em verdade, esses dois grupos vêem o mundo de acordo com sua própria situação e seus próprios sonhos, sem chegar à inevitável conclusão: não podemos esperar absolutamente nada do voto "democrático".

Já em 1850, Napoleão III pôde enxergar que o sufrágio universal não era o horror que a burguesia direitista imaginava que fosse, mas uma verdadeira benção, uma inesperada e preciosa legitimação dos poderes reacionários. E isso é verdade ainda hoje, por todo o mundo. "Napoleão, o Pequeno" descobriu que, em qualquer coisa como condições históricas normais e estáveis, a maioria numérica é sempre fundamentalmente conservadora.

Vamos esboçar a conclusão calmamente. Ficar histérico sobre o resultado das eleições não leva a nada senão a uma depressão sem sentido. Precisamos nos acostumar com isso: jamais pôremos fim à nossa servidão sem — acima e além dos rituais eleitorais — a chegada conjunta histórica de quatro fatores:

1. Uma situação histórica instável, que fortemente chacoalhe as subjetividades conservadoras. Infelizmente, isso provávelmente significará guerra — como o foi na Comuna de Paris de 1871, na Revolução Russa de 1917, e na Revolução Chinesa entre 1937 e 1947.

2. Uma divisão ideológica fortemente estabelecida, naturalmente antes de mais nada entre intelectuais, mas acima de tudo entre as massas elas mesmas, uma convicção de que há duas vias e não uma apenas, de que todo o espaço do pensamento político deve ser estruturado em torno da contradição antagonística capitalismo/comunismo, ou algum equivalente destes. Deixem-me recapitular os princípios da segunda via: o estabelecimento, contra a propriedade privada, de formas coletivas de controle dos meios de produção, de crédito e de troca; uma polimorfia do trabalho, algo que é particularmente minado pela oposição entre trabalho intelectual e manual; internacionalismo como uma consequência; e formas de controle popular pondo fim ao Estado.

3. Um levantamento popular — certamente, como sempre, o levantamento duma minoria, mas uma que ao menos suspende o poder do Estado, um levantamento frequentemente ligado ao ponto 1 acima.

4. Uma organização sólida capaz de propôr uma síntese ativa dos três primeiros pontos, na direção da anulação do inimigo e de pôr no lugar, o quanto antes possível, os elementos constitutivos da segunda via, a via comunista — os elementos enumerados acima.

Dois destes quatro pontos (1 e 3), dependem da conjuntura. Mas deste ponto em diante, devemos atuar ativamente no segundo ponto, o qual é absolutamente crucial. E nós podemos também tratar do quarto ponto, em particular, à luz do segundo ponto, realizando reuniões comuns e ações entre alguns dos intelectuais, por um lado, e por outro do proletariado em três das suas formas atuais: operários e administração ativos, famílias operárias acometidas e desmoralizadas pela desindustrialização frenética da França ao longo dos últimos trinta anos, e o proletariado nômade, quer da África, do Oriente Médio ou da Ásia.

Ficar histérico sobre os resultados das eleições, numa moda declamatória e deprimida, não é apenas fútil — é positivamente prejudicial. Isso leva alguém a enquadrar-se no terreno do adversário, sem recursos. Devemos nos tornar indiferentes às eleições, as quais, no mais, envolvem uma decisão puramente tática entre: abster-se da participação nessa ficção "democrática", ou apoiar este ou aquele competidor por razões circunstanciais — as quais, precisamente, devemos definir de acordo com o contexto duma política comunista, um contexto que nada tem haver com rituais estatais de poder. Nosso tempo, que é sempre precioso, deve ser dedicado ao verdadeiro duro esforço da política, que pode apenas ser perseguido através dos quatro pontos postos acima.

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