Terra em Transe, a farsa latina
Glauber Rocha, (1939 - 1981), faz de Terra em Transe, a representação do cenário paupérrimo da política falsária da América-Latina, que perdura até os dias de hoje. Em 18 de Brumário de Luis Bonaparte de Marx, (1818 - 1883), há o excerto "...Toda a História é encenada duas vezes, primeira como tragédia e segunda como farsa...", esse fragmento comporta todo o cerne da crítica à obra de Glauber Rocha, a realidade latino-americano se viu diante de inúmeros Bolívares, de inúmeros Castelos Brancos, de inúmeros Tiradentes, mas vale lembrar de que só fora revestido sobre as traças de seu predecessor para que pudesse, por assim dizer, legitimar sua própria posição.
Dessa forma, o autor faz uso desse fato para adentrar a ficcional nação de El Dorado, que se vê impelida, pelas potências estrangeiras e sua instabilidade interna, a criação de novos ídolos travestidos de passado. Com essa introdução se é apresentada a resenha, a seguir.
"Não se muda a História com lágrimas"
Terra em Transe é um épico alegórico, onde seu Herói é reduzido a verme, o povo, este que todo tempo é colocado como o cerne de todas as intrigas, entretanto nunca lhe é permitido a fala, seus interesses? Esquecidos. Suas vontades? Reprimidas. Seus votos? Comprados.
Sem nunca ter visto o povo, articula a queda de Fernandes e usa para isso de todas as armas, que possam o levar ao poder, e para isso ele usará de todas as facções e ideias políticas. Afirmando hoje as mentiras de ontem, negando amanhã as verdades de hoje. Eis quem é a imagem da virtude da Democracia, eis quem é o Pai da Pátria.
Autor dessa frase e de tantas outras é o Eu-lírico da obra, Paulo, um pequeno-burguês intelectual, que tem seu horizonte teórico limitado ao seus limites materiais. Ele se coloca como porta-voz da política, do saber e por consequência do interesse geral do "povo", convoca as armas frente aos políticos, acovarda suas ações frente ao povo.
Paulo é a representação da pequena-burguesia, covarde, reacionária, democrata, extremista frente as formalidades, partidária quanto a sua representação.
Se você quer poder tem que experimentar a luta. Já lhe disse várias vezes que dentro da massa existe O Homem, e O Homem é difícil de se dominar, mais difícil do que a massa.
- A culpa não é do povo!
- Pois vai correndo atrás do primeiro que lhes acena com uma espada, ou uma cruz
Dessa forma, sob o Estado burguês de um país do terceiro mundo, a pequena-burguesia compreende as contradições e falha na sua materialidade, como Paulo. O povo é assassinado quando se levanta. E a burguesia nacional? Reprimida pelo capital externo.
- Quem mantem Fernandes na presidência?
- A Constituição.
- A Splint! Escute Júlio, você não lê seu próprio jornal?
Anunciei os perigos, mas o ricos nunca pensam que um dia podem acordar pobres.
Por outro lado, Diaz e Vieira se alocam como representantes de suas classes, Vieira, coligado com a Pequena-burguesia, forma a massa de representantes de um povo mudo, de uma massa calada pelos ditos salvadores.
Diaz por sua vez, é o representante da grande burguesia, vendido ao capital externo, entende a luta de classes, compreende seu papel como burguês e utiliza dos meios para que suas condições de existência se perpetuem.
- Sou um homem de esquerda.
- De quê? Olha imbecil, escute, a luta de classes existe, qual é a sua classe? Vamos Diga! Como feras famintas eles desejarão sempre mais até seu próprio sangue. Eles querem poder, povo no poder, isso nunca!
Don Julio Fuentes busca o desenvolvimento do país, meio de seu enriquecimento próprio, dono de meios de comunicação busca formas de sobrevivência frente a inevitável invasão do capital externo.
Vejo que de sangue se desenha o Atlântico, sob uma constante ameaça de metais a jato.
O resultado? O povo silenciado, a pequena burguesia derrotada, a burguesia nacional falida e por fim a invasão do capital externo pronto para expropriar todas as riquezas possíveis da nação.
- Lavei minhas mãos no sangue, mas nem tanto, fui humano.
- O sangue dos estudantes, dos camponeses, dos operários!
- O sangue dos vermes, lavamos nossa alma, purificamos o mundo!
- Nossas Riquezas, nossas carnes, nossas vidas, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso coração, o nosso amor, tudo! Vocês venderam tudo!
Destarte, Terra em Transe é uma alegoria ao Estado parasita num país subdesenvolvido, onde as vanguardas, arrogantes, se consideram acima do povo. Ignorando sua própria alienação. Em como quando as massas se levantam para seus próprios interesses, as outras classes não pouparão esforços em silenciar, assassinar, reprimir todas suas tentativas. Paulo não reconhece sua conivência, seu acovardamento, Vieira não compreende o materialismo. E como fruto da árvore burguesa lhe vem a submissão e esquecimento.
Estão vendo o que é o povo? Um imbecil, um analfabeto, um despolitizado. Já pensaram Jerônimo no poder?
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