O grande Ícaro vermelho no céu (I): Aspectos da Revolução Cultural


A Revolução Cultural Chinesa, ou Grande Revolução Cultural "Proletária", mudou o curso de toda luta revolucionária mundial para sempre — ficou claro naquele momento que as coisas jamais poderiam ser as mesmas novamente. Para entendermos seu impacto, porém, devemos olhar para ela com cuidado. Não trata-se duma história narcisista dum grande Sol vermelho no céu, mas antes, da história controversa e dramática do grande Ícaro vermelho no céu. O Ícaro é uma multidão de indivíduos.

Antes do mais, devemos delimitar o modo com o qual devemos tratar o evento que esta foi. Não poderíamos pretender, ingenuamente, tomá-la em sua totalidade, tampouco visar "explicá-la" num só curto texto. A ideia, a princípio, é a publicação duma série de pequenos ensaios a seu propósito, abordando-a em diversos aspectos. Pretendem-se, inicialmente, fora o presente, os seguintes: a demissão de Hai Rui; o niilismo de Mao; a questão da impessoalidade; a nova Comuna de Paris; a Ópera de Pequim; o Maio de 68; e o Kampuchea Democrático. Não há ordem segundo a qual estes devem ser escritos ou lidos, serão publicados conforme a consideração da autoria, e a numeração servirá apenas para indicar a sequência em que forem sendo lançados. Tendo em vista o planejamento prévio, devemos agora pôr em questão a abordagem a ser feita, sua premissa e seus objetivos.

Pretendemos, através da abordagem de seus problemas relativos, o acesso à totalidade problemática que constitui o evento. Isto significa: metafísicamente. Uma mera representação do evento enquanto um suceder de acontecimentos não nos interessa: queremos tocar em seu essencial, em seu singular. Com isso, carrega-se também como outro polo objetivo uma desconstrução da historiografia. A historiografia é a ciência da história — e ciência e metafísica são como água e óleo. Estamos fartos de compreensões técnicas e cheias de velamentos ideológicos acerca da história da humanidade, é passado o momento de mudar isso. Certamente é impossível compreender a história sem mistificações ao seu redor, no entanto, devemos ter em vista, no mínimo, boas mistificações, e não devemos negá-las como se não estivessem ali ou como se pretendessêmos neutralidade, tampouco validá-las segundo direcionamentos ideológicos. A presente abordagem histórica é dialética, pois tenta tomar a eventualidade em sua movimentação — o que, novamente, quer dizer metafísica, pois a dialética não é senão uma via ontológica. É também fenomenológica, pois pretende uma apreensão dos fenômenos através dos fenômenos eles mesmos — e, como sabemos, uma ontologia / solo metafísico só é possibilidade enquanto fenomenologia, e vice-versa (constituindo assim como que uma bifagia). Tomados problemas concernentes à totalidade do evento de tal maneira, acreditamos poder chegar a uma inserção em sua singularidade e atingir uma dimensão essencial da história.

Tamanha foi a espontaneídade e eventualidade da Revolução Cultural que ela não poderia deixar-se abordar doutra maneira, a menos que velada, falseada, reduzida e desfigurada — o que a historiografia de melhor faz. Há de se afirmar o seguinte: a GRCP constituiu o momento em que foi estabelecido um reinado do caos sobre a Terra. O caos deixa-se entender tendo o abismo como horizonte. Abismo significa, etimológicamente: sem-fundo. Se algo é sem-fundo, não pode ser esgotado, apreendido em totalidade ou em verdade enquanto saber. Assim sendo, a Revolução Cultural torna-se um evento histórico perfeito para o estabelecimento duma compreensão metafísica da história. Ela, pois, constituiu um mundo às avessas — e não apenas pela China ficar do outro lado do globo em relação à nossa nada boa e nem tão velha América.

Por muito, a GRCP tornou-se um item intocado da história, jogado no canto dum cômodo empoeirado — todos sabem que ela está ali, mas ninguém se atreve a mexê-la, exceto alguns ex-militantes do Maio de 68 ou influenciadores liberalóides querendo condená-la como a segunda maior tragédia da história da humanidade. E, de fato, ela assim o exige, por ser vista como demasiado delicada e complicada para uma abordagem devida. É talvez o evento histórico mais marcante do século passado, mas, simultâneamente, quase que um nicho. Todos possuem conhecimento a seu respeito, mas somente ao modo de Agostinho.

Mesmo entre os chineses, há um enorme apagamento a seu propósito. O governo chinês oficialmente condena a Revolução Cultural como uma empreitada sanguinária e terrível. Os liberais chineses, então, chamam-na de "carnaval anarquista", referindo-se também a Mao Zedong como um "tirano anarquista". Da parte de muitos anciãos, ela é lembrada com um certo carinho, incompreendido pelos jovens de hoje, que apenas o ignoram. Huang Zhangjin, a esse propósito, em 2012 escreveu o texto Saudades do anarquista (怀念那个无政府主义者), onde diz:

“é difícil dizer que um povo que sofreu tanto não esteja cheio de repressão e ódio interno e queira uma democracia no estilo da Revolução Cultural e um carnaval anarquista. Claro, você pode dizer que a curta rebelião total foi apenas uma rebelião sob ordens, mas sua performance foi uma espécie de carnaval anarquista. Porque em muitos corações desesperados, não se acredita mais que a burocracia de hoje seja uma ferramenta e um meio para realizar demandas justas. Yang Jia matou seis policiais com as próprias mãos, e a simpatia unilateral foi, na verdade, a afirmação do povo sobre seu comportamento de autoajuda, e um dia também foi o solo para a repentina explosão do carnaval anarquista.”

Muitas coisas desta passagem podem ser destacadas, desde o emprego de "rebelião total" até a perda no credo da burocracia. Talvez partindo daí possamos traçar o desenvolvimento que lhe precede — uma espécie de breve prelúdio da catástrofe.

A China havia seguido, até então, pelos moldes burocráticos e estatistas ditados pela teoria marxista-leninista, apesar de que duma maneira, no mínimo, contraditória — e já devo adiantar que esta palavrinha irá repetir-se incontáveis vezes ao longo dos ensaios. Estabeleçamos o delineamento que se deu a priori.

Toda revolução, de acordo com o leninismo clássico, deve começar com um caráter democrático-burguês, e, somente conforme for avançando, há de atingir um caráter verdadeiramente socialista. Diz Lênin, em A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky, de 1918: “Sim, a nossa revolução é burguesa, enquanto caminhamos juntamente com o campesinato no seu conjunto. Tínhamos clara consciência disso, dissemo-lo centenas e milhares de vezes desde 1905, nunca tentamos saltar por cima deste degrau necessário do processo histórico nem tentamos aboli-lo com decretos.” Porém: “(...) a revolução não pode deter-se nisto, pois o país avançou, o capitalismo deu passos em frente, a ruína atingiu proporções nunca vistas, o que exigirá (quer se queira quer não), exigirá passos em frente, para o socialismo.”¹ Partindo de tal princípio, o grupo de estudos de Yan-an, na China, propõe o que chamou-se de democracia nova, que Mao brevemente expõe, em 1940, com a simplicidade de sempre: “minhas toscas e rápidas afirmações poderão apenas valer como um bater de gongos e tambores, anunciador das representações teatrais (...)” — já ali pondo em mesa, mesmo que de forma vaga, a necessidade duma revolução cultural: “lutamos não apenas por uma revolução política e econômica mas também por uma revolução cultural na China”². A ideia era basicamente a seguinte: tomado parte do território chinês pelo partido comunista e pelo exército popular, sob a prolongada guerra de guerrilhas, haveria de se estabelecer uma organização nestas regiões. Certamente, porém, não era um "socialismo" propriamente dito, tampouco a tão esperada ditadura do proletariado. Era, antes, o movimento da revolução democrático-burguesa, a organização da democracia nova. Em cooperação entre as diferentes classes, deveriam ser destruídas a velha democracia, a velha cultura, a velha economia, etc. e substituídas por novas, constituindo um momento de transição.

A teoria marxista-leninista consistia em: primeiro, a revolução democrático-burguesa, que então, conforme o desenvolvimento contínuo da mesma, haveria de atingir o caráter de revolução socialista, criando consigo uma ditadura do proletariado, um Estado proletário, sob a liderança do partido comunista. Uma vez chegado aí, o Estado proletário haveria de, por conta própria, "esvaziar seu próprio conteúdo" (Engels) e chegar, enfim, à sociedade comunista, sem classes e sem Estado — o que, vale sempre lembrar, teve uma mudança drástica com a figura de Stalin, que evidenciou que o marxismo jamais teve realmente por meta a destruição do Estado. Tudo isso abaixo da asa duma poderosa vanguarda: em nível nacional, a vanguarda do PCCh; internacionalmente, da URSS (isto é, do PCUS)
 — até meados da WWII, a vanguarda era tida como a Internacional "Comunista", apesar de sob a liderança da União Soviética.

Em 1949, o Partido Comunista Chinês havia vingado vitória sob a guerra popular, e anunciou a criação da República Popular da China. Vendo a vitória próxima, já em meados de 1948 a URSS decide deixar de financiar o Kuomintang e direcionar seu apoio para o PCCh, que Stalin havia chamado anteriormente de "partido dum tipo titoísta", e seus dirigentes de "comunistas de margarina". O período de democracia nova prosseguiu, e, com o apoio da URSS, parecia que a tão esperada ditadura do proletariado e o comunismo estavam enfim próximos. Mas nós bem sabemos que não foi nem de perto que ocorreu. O tal do "caráter verdadeiramente socialista" não foi atingido, a ditadura do proletariado não chegou, e a URSS não vanguardeou o desenvolvimento do "socialismo". Ao invés disso, a democracia nova e suas empreitadas pareciam cada vez mais estagnadas, o partido e o Estado fundiram-se numa bizarra e degenerada união excludente em relação às massas, e a China tornou-se numa espécie de semi-colônia da URSS, assim como a maioria dos países "populares" que naquele momento fizeram suas revoluções.

No início, talvez até houvesse algum certo desenvolvimento de cooperação internacional e "entre povos". Em 1950, houve a libertação do Tibete, tão marcante e que simbolizou, além dum aparente progresso da revolução, também um momento de solidariedade. Na mesma época, com a Guerra das Coréias, a China, apesar de sua falta de recursos, enviou aviões para socorrer os jucheístas, visto que a URSS recusava-se a enviá-los — neste contexto, Stalin declarou que a ajuda dos chineses "provou" seu caráter internacionalista. No entanto, não foi muito além disso.

Perante o domínio soviético, é interessante observar que os chineses conseguiram irritar profundamente o PCUS e Stalin, por sua insistência em fazer as coisas ao seu próprio jeito, como uma forma de engajamento na construção duma cultura nova. Apesar de todo espelhamento econômico na URSS, ainda sim queriam fazê-lo a seu modo. Huang, a esse propósito, diz:

“O objetivo de "ultrapassar a Grã-Bretanha e alcançar os Estados Unidos" foi baseado no surpreendente salto de capacidade de produção durante a era de Stalin. Entretanto, sua aversão instintiva à divisão profissional do trabalho significava que era impossível para a China alcançar resultados comparáveis aos de Stalin. Os produtores industriais soviéticos sempre foram famosos por serem "estúpidos, grandes, obscuros e ácidos", mas mesmo esses mestres não toleravam a natureza rude e casual de seus aprendizes chineses. Durante o período da lua de mel sino-soviética, os especialistas que vieram para a China continuaram reclamando que os processos de produção soviéticos e os padrões de controle de qualidade foram arbitrariamente modificados por seus aprendizes chineses. Eles não conseguiam entender por que os chineses ainda sorriam e insistiam em sua "combinação de métodos locais e estrangeiros" e na "participação dos trabalhadores na gestão" quando um grande número de produtos defeituosos e descartados apareciam” — acrescenta, após, não sem uma certa reverência mística ao período, que: “a fonte espiritual de "nunca acreditar cegamente em especialistas" estava em Mao Zedong”³.

Em suma, apesar de tudo, o domínio soviético perante a China fracassava profundamente, o que fez dos representantes soviéticos extremamente hostis aos representantes chineses em seus encontros ao início dos anos 50 — basta ver Molotov, por exemplo. A China não passava duma cópia mal-feita da URSS, tentando imitar suas políticas e empreitadas, espelhando-se nela a todo momento, mas, simultâneamente, visando combiná-las com sua infeliz tentativa de reconstrução democrático-cultural e sua realidade humilde.

Farta disso, em 1956, com a ascenção de Kruschov, encontrou-se a desculpa perfeita para o rompimento sino-soviético, que iria processuar até 1960. Em 1958, num encontro com o embaixador Yudin, da União Soviética, Mao decide abrir o jogo, expondo uma enorme fúria:

“Vocês nunca confiaram no povo chinês! Vocês apenas confiaram nos russos! Para vocês os russos eram as pessoas da primeira-classe, enquanto os chineses estavam entre os inferiores que eram burros e desimportantes. Por conseguinte vocês vieram com a proposição de propriedade e operação conjunta. Bem, se vocês querem propriedade e operação conjunta, que tal ter tudo — deixe nós tornamos numa mera propriedade e operação conjunta o nosso exército, marinha, forças aéreas, indústria, agricultura, cultura, educação. Podemos fazer isso? Ou vocês talvez queiram ter todos os mais de dez mil quilômetros costeiros da China e nos deixar apenas mantendo uma força guerrilheira. Com algumas poucas bombas atômicas, vocês acham que estão na posição de controlar a nós perguntando pelo direito de aluguel e arrendamento. Além disso, o que mais vocês tem para justificar sua proposta? Lushun e Dalian estavam sobre seu controle antes. Vocês departiram destes lugares depois. Porque esses lugares estavam sob seu controle. Era porque a China estava sob a autoridade do Kuomintang. Por que vocês se voluntariaram a sair? Porque o Partido Comunista tomou controle da China. Por pressão de Stalin, o nordeste e Xinjiang tornaram-se esferas soviéticas de influência, e quatro propriedades conjuntas e empresas de operação foram estabelecidas. Camarada Kruschov mais tarde propôs para ter estes estabelecimentos eliminados, e fomos gratos por isso. Vocês russos nunca tiveram fé no povo chinês, e Stalin estava entre os piores. Os comunistas chineses eram retratados como Tito o Segundo; o povo chinês era considerado como uma nação atrasada. Vocês russos haviam com frequência constatado que os europeus olhavam com menosprezo aos russos. Eu acredito que alguns russos olhem com menosprezo para o povo chinês.”⁴

O rompimento sino-soviético foi acalorado, e, nisso, em 1958, com a presidência de Mao, lançou-se a campanha do Grande salto adiante — ou, abrasileiradamente, grande pulo pra frente — que pretendia desenvolver as potências econômicas chinesas e torná-la independente em relação ao exterior. A campanha durou quatro anos, encerrando-se em 1962, seguida da deposição de Mao e marginalização de sua figura no partido. Acontece que grande parte das iniciativas da campanha resultaram em desgraça. Uma delas foi a do estabelecimento de fornalhas no campo para desenvolver a metalurgia e siderurgia ali, usando de metais reciclados. Em parte, funcionou. No entanto, a maioria dos camponeses que engajaram-se nestas atividades acabaram produzindo metais fracos e que facilmente quebraram. Muitas iniciativas de desenvolvimento da agricultura no campo foram tomadas, porém logo quase todas fracassaram devido a uma série de tragédias climáticas. No ano de 1960, 18.1% do solo fértil chinês foi atingido por terremotos, enchentes, pragas e coisas do tipo. Talvez a única iniciativa que poderia ser dita "bem-sucedida" daquele período tenha sido o surgimento de comunas autossuficientes no campo, que rapidamente foram burocratizadas sob a direção de comitês do partido. Naquele momento, deu-se um grande período de fome ao redor da China, onde aproximadas oito a dezesseis milhões de pessoas morreram, tendo seu auge em 1961.

Não bastando o fracasso do Grande salto adiante, os neoliberais de hoje fizeram questão de criar novas histórias ao seu redor — algumas, inclusive, muito engraçadas. De acordo com o Vintage News, Mao criou uma campanha chamada "Campanha das quatro pragas", onde decretava, por lei, a caça aos pardais. Em dois anos, os chineses haviam matado um bilhão de pardais. Faltando pardais para comer as minhocas no campo, acabou a comida na China e começou a fome, matando cinquenta milhões de pessoas. Desesperado, o governo chinês, em 1960, importou novos um bilhão de pardais da União Soviética. É de se perguntar: como os pardais foram importados? Vieram voando? Foi de avião? Eles voaram no avião? Voaram voando? — Recentemente, o geógrafo e entusiasta do socialismo chinês Elias Jabbour afirmou e defendeu tal estória num podcast, afirmando-a como um exemplo de engajamento de massas típico do povo chinês.

Durante todos aqueles anos, havia se desenvolvido a ala direitista do PCCh, que rapidamente se apossou de sua direção. Aproveitando-se do fracasso do Grande salto adiante, a ala direita estabeleceu uma burocracia definitiva que haveria de tomar as rédeas do Estado chinês dali em diante.

A China estava miserável — onde estava a autossuficiência pretendida? A China não havia ultrapassado a Grã-Bretanha, nem chegado próxima dos Estados Unidos. A unidade partido-Estado foi apossada de vez e totalmente pela ala direitista do partido, demonstrando nenhuma pretensão de "poder popular" ou baboseira do tipo — onde estava a ditadura do proletariado? O engajamento em iniciativas de desenvolvimento duma democracia nova, duma cultura nova, etc. era quase que inexistente — onde estava o encaminhamento para o "caráter verdadeiramente socialista" e contínuo da revolução?

Ali estava mais do que claro que as fórmulas marxistas-leninistas haviam chegado a um ponto de saturação máxima e que já não havia mais espaço para o marxismo enquanto potência modernizadora, o que haveria de evidenciar-se de forma surpreendentemente chocante para os ocidentais trinta anos mais tarde, com a queda dos escombros restantes do grandioso império vermelho.

Toda essa insatisfação geral preparou solo para o que teria início entre 65-66 — a terrível, a Grande Revolução Cultural, ou o "carnaval anarquista". Toda a repressão e ódio interno culminaram numa explosão de espontaneísmo nunca antes vista na história — apesar de alguns prelúdios ou outros, com especial destaque à Primavera de Budapeste.

Já desde meados de 1962, após o fracasso do Grande Salto Adiante, a ala esquerda do partido passou a pregar como campanha uma espécie de revolução cultural, que chamaram de Revolução Cultural Socialista. Teve lá alguns empreendimentos na área das artes, em especial a premissa da Revolução da Ópera de Pequim, mas não estendeu-se muito além. A Revolução Cultural da qual falamos só tende a ser considerada a partir de 1966, devido a uma profunda mudança na intensidade e caráter das potências revolucionárias. Foi em agosto de 1966 que a "Revolução Cultural Socialista" morreu. Em seu lugar, agora empregava-se a chamada Grande Revolução Cultural Proletária.

No curso e decorrer dos acontecimentos, dois papéis são geralmente considerados inaugurais para a Revolução Cultural. Primeiro, em maio de 1966, um Dazibao apareceu na Universidade de Pequim, assinado por Nie Yuanzi, do departamento de filosofia. O Dazibao apelou aos estudantes do campus para "incendiar a Revolução Cultural nas universidades", opondo-se aos revisionistas, contrarrevolucionários e autoridades acadêmicas — o que acabou por dar início a uma série de revoltas estudantis. Segundo, em oito de agosto do mesmo ano, membros da ala esquerda do Comitê Central do PCCh lançaram e aprovaram os 16 pontos — os quais acabaram ficando conhecidos por vários nomes, como "circular de dezesseis pontos" ou "decisão em dezesseis pontos". Esses 16 pontos tratavam-se, pois, duma rasteira na ala direita e na direção do Estado, quase que um golpe de enxada em suas cabeças. Acontece que a ala esquerda do partido era majoritária em quantidade — tinha um poder extremamente reduzido, é evidente, mas ainda sim, era majoritária em número. Com a aprovação geral e circulação massiva do documento, deram-se os 16 pontos. (Já adianto que, nas próximas linhas, a palavra "massas" será repetida tantas vezes que fará o leitor questionar se estamos falando mesmo da história chinesa e não do cardápio dum restaurante italiano). O primeiro ponto declara chegado o momento dum "novo estágio da revolução socialista", colocando como necessidade o desenvolvimento de novas ideias, nova cultura, novos costumes e novos hábitos — uma pintura de oposição aos chamados "quatro velhos". O segundo ponto delimita o curso atual que a Revolução Cultural vinha tomando. O terceiro coloca em questão se o partido e suas unidades seriam realmente capazes ou não de liderar as massas na grande empreitada que a revolução pretendia ser (seria esse um alerta de spoiler?), afirmando: “se eles [os líderes partidários e suas autoridades] fizerem uma autocrítica séria e aceitarem o criticismo das massas, o Partido e as massas aceitarão seus erros. Mas se essas pessoas no comando não o fizerem, então continuarão a cometer erros e tornar-se-ão obstáculos ao movimento de massas.” O quarto ponto, talvez mais essencial, coloca em cena que somente as massas podem realizar, espontaneamente e por si mesmas, a revolução — “o único método deve consistir nas massas libertando a si mesmas”. Junto deste ponto, há a proibição do partido valer-se de medidas para tentar dirigir ou ditar as massas populares e seu curso. “Acredite nas massas, confie nelas e respeite suas iniciativas. Joguemos fora nosso medo. Não nos assustemos com suas perturbações. (...) Deixemos as massas educarem a si mesmas neste grande movimento revolucionário, aprenderem a distinguir entre o certo e o errado e entre a maneira correta e incorreta de se fazer as coisas.” O quinto ponto volta-se para a defesa da aplicação da linha classista, declarando uma luta de duas linhas, tanto interna, no âmbito do partido, quanto externa: direita contra esquerda, ideologia burguesa contra ideologia proletária — “Concentremos todas as forças para derrubarmos o punhado de direitistas ultrarreacionários burgueses e revisionistas contrarrevolucionários”. O sexto ponto volta-se para a questão da contradição no seio do povo e para a constante necessidade da discussão. “É normal para as massas carregar consigo diferentes visões. Conflito entre diferentes visões é inevitável, necessário e benéfico.” Como deveriam se desenrolar as discussões a seu propósito? Teria de ser, é evidente, tendo em vista o estabelecimento duma democracia de novo tipo — “Qualquer método forçando uma minoria a ter uma diferente visão é impermissível. A minoria deve ser protegida, pois às vezes a verdade está com os minoritários. Mesmo que a minoria esteja errada, deve ter o direito de argumentar seu caso e manter suas visões. Onde há discussão, deve ser conduzida pela racionalidade, não por coerção ou força.” O sétimo ponto trata a respeito da representação contrarrevolucionária das massas, e, mais importante, traz consigo uma espécie de passe livre para o movimento estudantil: “No curso do movimento, nenhuma medida deve ser tomada contra os estudantes em universidades, colégios, ensino médio e ensino fundamental devido a problemas que surjam com o movimento.” O oitavo ponto trata a propósito dos quadros do partido, categorizando-os e declarando: “Os direitistas anti-partidários e anti-socialistas devem ser completamente expostos, refutados, derrubados, descredibilizados e ter sua influência eliminada. Ao mesmo tempo, eles devem receber a chance de mudar e virar a página.” O nono ponto trata dos grupos, comitês e congressos culturais, espelhando sua organização a partir da Comuna de Paris. O décimo ponto trata da necessidade duma transformação na educação, desenvolvendo uma espécie de educação proletária. O décimo primeiro pronto trata da crítica por nome na imprensa, e, em relação ao partido, afirma: “O criticismo de qualquer um por nome na imprensa deve ser levado em consideração e decidido através de discussão nos comitês do partido no mesmo nível, e em alguns casos levado a maiores níveis dos comitês do partido para aprovação.” O décimo segundo ponto fala a propósito dos cientistas, técnicos, etc. e sua importância. O décimo terceiro ponto fala dos arranjos e meios de integração e construção do movimento educacional socialista na cidade e no interior. O décimo quarto ponto coloca em meta um estímulo pelo aumento da produtividade. O décimo quinto ponto trata da importância do exército popular em meio à empreitada. E, por fim, o décimo sexto ponto é como que uma garantia dum viés ultraesquerdista para todo o seu decorrer, afirmando que o pensamento de Mao Zedong deve ser sempre colocado em horizonte, que todos os membros do partido devem estudar suas obras — mas não apenas isso! Devem envolver-se com as contradições e estudar tanto o pensamento direitista e burguês quanto o esquerdista e proletário, devem ter sempre em vista ambos os lados da discussão e etc...

A decisão em dezesseis pontos, apesar de estabelecer quase que plena confiança aos impulsos espontâneos das massas para o decorrer da Revolução Cultural, garantindo liberdade de rebelião ao movimento estudantil, ainda crê numa espécie de salvação do partido-Estado. Até então, os integrantes da ala esquerda do partido haviam, por anos, defendido que a ala direita e burocrata poderia encontrar uma resolução através da discussão interna, que, assim, chegaria a uma síntese que encerraria com a "via capitalista" e seu curso. Os 16 pontos evidenciam que a discussão interna no partido de nada adiantaria para resolver os problemas: eles não se localizavam no interior do partido, mas no cenário chinês como um todo. A questão era, portanto, de incitar as massas à rebelião e à autolibertação. Ainda sim, porém, acreditou-se num potencial de liderança e salvação do partido em meio a todo o processo — o que foi um tiro no próprio pé. Era mais do que evidente que a ala direita e burocrata, com todo seu poderio, continuaria nas rédeas do Estado, e, mesmo que as perdesse por um momento que fosse, não tardaria a retomá-las. Era também mais do que evidente que esta faria um profundo esforço repressivo contra o movimento espontâneo de massas, mesmo com a proibição que veio junto com a aprovação dos 16 pontos. À prova disso, não tardou até que as forças militares virassem as costas à revolução. Em 1971, Lin Biao, até então dá ala esquerda do Comitê Central e organizador do famoso Livrinho vermelho, aproveitando-se dum momento de fraqueza e aparente vitória contrarrevolucionária, tentou dar um golpe militar no Estado — nosso Kornilov chinês! Cabe mencionar: fracassou, tentou fugir de avião, o avião caiu, e Lin morreu — as moiras definitivamente capricharam nesta parte do roteiro.

A Revolução Cultural foi talvez o evento histórico mais controverso já presenciado. Uma multidão opondo-se à toda a autoridade, ao mesmo tempo em que apoiando-se na autoridade. Uma ala esquerda voltando-se contra o partido, ao mesmo tempo que servindo-se dele e visando como que uma recuperação sua. Estatistas defendendo o fim do Estado e opondo-se ao próprio Estado do qual integravam. Direitistas e contrarrevolucionários atacando a organização comunal, ao mesmo tempo que formando suas próprias comunas. Sindicalistas opondo-se a todo e qualquer governo, formando seu próprio governo paralelo. Sequestradores que não sequestravam de verdade. Marxistas-leninistas que embasavam-se o tempo inteiro na experiência stalinista, ao mesmo tempo que assumindo sua saturação máxima. A defesa pela abolição da divisão do trabalho, simultânea a um profundo culto do mesmo. Estudantes pregando uma "linha correta" livre de velamentos e falseamentos, ao mesmo tempo que defendendo veementemente seu viés ideológico. A proposição da destruição dum mundo antigo, apoiando-se ainda neste e amarrada em seus moldes. Um simbólico Ícaro conflitante entre Narciso e Eros, usando sua contradição de propulsor para chegar até o sol e virar carvão.

Badiou diz: “O que a Revolução Cultural revela, e constitui sua singularidade, é que na figura do Estado socialista o que se opõe ao movimento comunista é simplesmente o próprio Estado socialista. Por quê? Porque ele funde o Estado e o partido, portanto despolitiza as situações, trabalha de modo isolado e autoritário, porque está desligado das massas populares e porque muitos de seus membros encontram, em sua associação com as autoridades, com os quadros, uma renda garantida. Mao chegará ao ponto de dizer que uma nova burguesia se reconstituiu no próprio Partido Comunista.”⁵ Aqui, o pior de todos os inimigos da luta comunista foram o próprio Estado e partido autoproclamados como condutores para o comunismo.

O comunismo, no meio em que se encontrava, era visto como uma sociedade ideal a ser atingida, uma imagem de mundo idealizada, uma alternativa de projeto totalizante da razão. Era como se gritassem: ”não mais a razão burguesa, mas a razão proletária!” — como se não fossem condição uma à outra. A todo momento, apoiavam-se em ideais do racionalismo iluminista. Era mais do que evidente que isso conduziria a um profundo irracionalismo, afinal, o racional e o irracional não são senão duas faces da mesma moeda. Talvez um dos acontecimentos mais ilustrativos de irracionalismo tenha sido um caso do verão de 1968. Na Universidade de Tsinghua, duas facções de estudantes fanáticos lutavam entre si, chamavam-se "Céu" e "Terra", por conta dos vínculos duma com o curso de aeronáutica, e doutra com o de geologia. Realizaram brigas, ataques de foguetes e granadas, etc. Uma violência extrema reinava. Até que, às 10 da noite de 27 de julho, noite em que um massacre estava por acontecer no campus, por volta de 30 mil trabalhadores desarmados ocuparam a universidade e puseram um fim a todas as brigas. Um famoso lutador universitário conhecido como "Urso" ficou nu até a cintura e escondeu-se atrás duma barricada de arame enfarpado eletrificado, segurando uma faca e um machado, e gritou: "O presidente Mao diz que qualquer um que reprimir o movimento estudantil terá um mau fim! Quem entrar em nosso prédio será cortado pela metade!"⁶ Os trabalhadores que o cercavam, então, replicaram: "Use a razão, não a violência!". Ao início do dia seguinte, Kuai Dafu, líder da facção Céu, enviou um telegrama a Mao Zedong solicitando a captura de quem quer que tivesse intervido no conflito e impedido a guerra de acontecer. Mao, então, respondeu que ele próprio havia sido o responsável pelo envio dos trabalhadores. Relata-se que Kuai desatou em lágrimas numa reunião mais tarde. Mao ulteriormente viria a dizer: "toda essa coisa de céu e terra não é clara para mim".

Os revolucionários visavam edificar um mundo novo e destruir um mundo antigo, mas nas próprias premissas de destrutitividade e construção ainda se embasavam e se prendiam aos moldes do mundo antigo, ainda pensando sob um projeto totalizante da razão e sob a luz do iluminismo. Era evidente que isso não levaria a um rompimento real, era muito mais como uma espécie de escândalo teleologizante. Mao, em 1967, afirmou: “Muito provavelmente, o revisionismo vencerá, e nós seremos derrotados. Pela provável derrota, vamos chamar a atenção de todos”. O importante era estabelecer um caos completo e total, gritar tão alto, mas tão alto que o mundo inteiro pudesse ouvir. Nisso, a Revolução Cultural foi dum impulso a outro: de humilhação pública de autoridades acadêmicas até rebeliões generalizadas em prisões; de enforcamento de líderes do partido até fraude massiva de taxas; de comunas sindicalistas até destruição de monumentos históricos; de tomadas de prefeituras por estudantes até campeonatos de brigas de rua entre facções; de comunas universitárias até tentativas de golpe militar; etc. etc. Nunca, na história da humanidade, pudemos acompanhar uma ocorrência com tamanha intensidade existencial. Não à toa, desembocou numa série de outros eventos, como o Maio de 68, o Kampuchea Democrático ou o Movimento de 77.

A Revolução Cultural, apesar de toda a catástrofe, revelou uma outra face do comunismo, até então velada: uma face teleológica. Não o comunismo enquanto uma sociedade ideal a ser atingida, ou um projeto totalizante da razão, mas enquanto uma luta que começa aqui e agora, com as pessoas percebendo-se enquanto sujeitos do processo, assumindo uma vontade livre e um poder de negação. Marx e Engels, n'A Ideologia Alemã, dizem: “O comunismo não é para nós um estado de coisas que deve ser instaurado, um Ideal para o qual a realidade deverá se direcionar. Chamamos de comunismo o movimento real que supera o estado de coisas atual. As condições desse movimento resultam dos pressupostos atualmente existentes.”⁷ Também Rosa Luxemburgo assim tomava o entendimento do comunismo. Para ela, o comunismo já estava na própria organização e luta cotidiana, não à toa, condenou o ultracentralismo de Lênin, falando que este era avesso à espontaneídade e organicidade com a qual o comunismo deveria se dar — Nildo Viana propôs chamar o entendimento de Rosa Luxemburgo do comunismo duma "autogestão social", o que é algo a ser pensado. A sociedade comunista (isto é, uma sociedade onde o comunismo encontre sua generalização processual), apontava Rosa, somente poderia dar-se através de impulsos espontâneos das massas. Tal noção de comunismo, apesar de estar em Marx (e ter sido profundamente distorcida e como que arrancada dele) e em Luxemburgo, acabou por ficar esquecida, ou mesmo negligenciada. Sua retomada só ocorrerá no curso dos eventos que a GRCP dará origem.

Camatte acredita que o Maio de 68 inaugurou uma nova era da luta revolucionária. Em verdade, foi a Revolução Cultural. Ela foi uma espécie de Samhain: demarcou o fim duma roda de estações e o começo duma nova, de modo com que os espíritos descessem à Terra. Teleológica e arcaica como foi, foi simultaneamente o momento de saturação máxima do movimento revolucionário anterior, deteriorado como a potência modernizadora marxista, e o início duma nova era de movimentos revolucionários. Retomou seu princípio, sua arkhé, e em si mesma seu próprio fim, seu telos. Foi um evento, uma singularidade forte. Uma singularidade caracteriza-se por fazer sua intensidade de existência em máxima. Uma singularidade é um mundo, isto é, um acesso de totalidade conjuntural do fenômeno, um conjunto de todos os fenômenos possíveis. Mas não detém-se nisso: é uma singularidade forte. O que caracteriza a singularidade forte é tornar o impossível no possível, em intensificar sua totalidade para além do campo da possibilidade. A singularidade forte poderia deixar-se dizer como um sítio utópico, um situar-se utópico. Por quê? Porque a utopia é aquela até então inexistente, impossível. Fazer do impossível no possível é realizar utopias, o que significa progressão. Oscar Wilde dizia: "progredir é realizar utopias". A Revolução Cultural realizou utopias, ela própria foi uma experiência utópica — se formos assaltar o termo de Foucault. Ela foi, pois, um mundo às avessas, e extrapolou seus próprios limites de mundo.

Onde encontra-se a contradição fundamental e nuclear da Revolução Cultural? Na relação destruição-criação de mundo. Na tentativa de destruir um mundo antigo segundo os próprios moldes deste. Ela pôde vislumbrar um mundo novo, porém somente à medida em que prendeu-se no antigo. Momento de transição de estações que foi, ainda situou-se no anterior, sendo também a saturação máxima do mundo antigo. Devemos nos atentar a isso, se não quisermos criar o efeito duma espécie de "jaula de ferro". Como quer que seja, a contradição não esteve, ali, entre um mundo antigo a ser destruído e um mundo novo a ser atingido, mas no fato de que um se misturava com o outro de modo indissociável. A razão ainda reinou no auge da impessoalidade. Ícaro queimou antes de conseguir atingir o sol. A Revolução Cultural foi, de fato, uma terrível tragédia, mas não pelos motivos que os liberais acreditam. Ela indicou o caminho da luta comunista: o caminho de Sísifo. Exprimiu um dos sentimentos mais genuínos da humanidade, que é a revolta. A luta comunista está fadada a fracassar de novo e de novo, e a revolta que a incita, visando reacender a chama da utopia, há de surgir em si mesma — ou seja, espontâneamente. Qualquer que seja a forma, enquanto houver a (im)possibilidade do caos reinar sobre a Terra, a situação estará excelente.

É neste duplo aspecto que devemos jogar se quisermos atingir o essencial da GRCP e atravessar seus fenômenos ao longo destes ensaios. Assim, portanto, procederemos em nossa exposição.

[1] Edições Avante; A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky; tradução desconhecida. [Vide colchetes abaixo das notas].

[2] Período da Guerra de Resistência contra o Japão II: Textos selecionados; tradução desconhecida. [Vide colchetes abaixo das notas].

[3] Huang Zhangjin; 怀念那个无政府主义者 (— Saudades do anarquista). Disponível na Rede de pesquisa e divulgação da Revolução Cultural (Difangwenge).

[4] Disponível no Wilson Center Digital Archive.

[5] Ubu; Petrogrado, Xangai; tradução Célia Euvaldo.

[6] cit. de Asad Haider; Lavrapalavra; A demissão: a relevância da Revolução Cultural; tradução Matheus Muniz Weiss.

[7] Boitempo; A Ideologia Alemã; tradução Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano.

[Atualização (10/12): Agora, com a publicação do segundo ensaio, cujo link estará logo abaixo, atualizo o presente, sem mudar o texto na íntegra, apenas adicionando notas e colchetes a mais.

Nas notas 1 e 2, são mencionadas traduções "desconhecidas". Quanto à primeira, foi publicada pelas Edições Avante, sem menção do tradutor ou tradutora em questão. Mais tarde, a editora Boitempo valeu-se da mesma tradução, junto de Paula Vaz de Almeida, na montagem da coletânea Democracia e luta de classes. Na edição (revisada) inclusa na coletânea, no entanto, há algumas diferenças de citação, cujo incluo aqui para o leitor caso queira realizar a comparação: “Sim, nossa revolução é burguesa, enquanto caminhamos junto com o campesinato em seu conjunto. Tínhamos clara consciência disso, dissemos isso centenas e milhares de vezes desde 1905, nunca tentamos saltar esse degrau imprescindível do processo histórico nem tentamos aboli-lo com decretos.” (...) “a revolução não pode agora deter-se a isso, pois o país foi adiante, o capitalismo caminhou adiante, a ruína atingiu proporções nunca vistas, o que exigirá (quer queira, quer não) passos adiante, em direção ao socialismo.” Já quanto à segunda, o texto Sobre a democracia nova encontra-se em diferentes traduções nas coletâneas Período de Guerra de Resistência contra o Japão: Textos selecionados II e Obras escolhidas de Mao Tsé-Tung: Tomo II, da Casa de publicações de Pequim. No entanto, nenhuma das coletâneas ou traduções inclui menção ao tradutor ou tradutora em questão. Creio que, quanto à ausência duma tradução específica mencionada, a elucidação torne-se necessária.

O texto de Huang também não havia sido citado propriamente numa nota, com a fonte estando originalmente contida na própria menção. Isso foi alterado com a presente atualização. Em decorrência disso, a ordenança das notas foi alterada. Originalmente, contavam-se com 6 notas, agora passaram-se para 7.

Conforme a publicação futura da sequência do ensaio, talvez faça-se necessária uma nova revisão/atualização com notas adicionais, porém, novamente sem alterar a íntegra escrita do texto.]

[Atualização (26/12): Adiciono agora o link do terceiro ensaio, em conjunto com a atualização do segundo.]

Ensaios seguintes da sequência:
O grande Ícaro vermelho no céu II: O niilismo de Mao — Straw.
https://espartaquismo.blogspot.com/2025/12/o-grande-icaro-vermelho-no-ceu-ii-o.html 

O grande Ícaro vermelho no céu III: Impessoalidade e dimensão de cotidianidade — Straw.
https://espartaquismo.blogspot.com/2025/12/o-grande-icaro-vermelho-no-ceu-iii.html

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