Espartaco: Questões


Sumário:
1. O que é a Espartaco?
[Apresentações à revista]
Straw — Denny — Adel — Sarah — Miguel Arthur
2. Quais os projetos em andamento?
[Traduções, ensaios, etc. em andamento]
Straw — Miguel Arthur — Adel — Denny — Felip — Epona — Sarah — Nick Clark
3. Quais perspectivas a serem assumidas para uma análise e crítica sistêmica?
[Horizontes para uma análise / crítica do sistema capitalista e da modernidade; da civilização, da dominação técnica, etc.]
Straw — Miguel Arthur — Felip — Hatuey — Denny — Nick Clark
4. O que entende-se por comunismo?
[Uma vez a Espartaco sendo uma revista comunista, essa é uma questão a ser levantada e discutida]
Miguel Arthur — Straw — Felip — Hatuey — Denny — Nick Clark
5. Qual posicionamento tomar diante das eleições?
[Frente ao ano de eleições que estamos, devemos nos preparar e pensar em modos de lidar com isso]
Straw — Felip — Adel — Miguel Arthur — Denny — Nick Clark — Epona
6. Qual posicionamento diante dos genocídios palestino e curdo?
[Genocídios silenciados e gritantes no presente]
Denny — Sarah — Hatuey

1. O que é a Espartaco?

[Apresentações à revista]

— Straw:

Toda hora, ao mencionar o projeto da revista, perguntam: "Espartaco? O que é a Espartaco?". Se isso ainda não se fez claro, a Espartaco é a Congregação da Igreja Neopentecostal Sagrado Coração de Lacan dos Últimos Dias — convertam-se ou arrependam-se ao dia do arrebatamento final.

— Denny:

A Espartaco é um periódico de orientação pós-moderna e matriz plural. Propõe-se, por sua constituição multifacetada, a estabelecer interlocução crítica com as indagações axiais da modernidade, visando à dilatação de horizontes intelectuais. Materializa-se tanto na produção ensaística autoral quanto na tradução de pensadores de elevada densidade teórica.

— Adel:

O Espartaco é uma plataforma digital de pensamento crítico. Historicamente, os movimentos de esquerda sempre utilizaram periódicos e revistas para sistematizar e difundir suas teses; o Espartaco assume esse legado em um formato contemporâneo. Nosso diferencial reside na independência: buscamos oferecer uma alternativa intelectual e política que não se subordina às correntes hegemônicas da esquerda atual, preservando um espaço para a divergência e a construção de novas perspectivas.

— Sarah:

A Espartaco é um periódico virtual para tradução e disseminação de textos da esquerda não-tradicional (vide, que não seja Social-Democracia, principalmente, e Marxismo-Leninismo).

— Miguel Arthur:

Grupo de divulgação livre e debate da teoria comunista, filosofia, teoria social, arte etc., abrangendo textos autorais, traduções, poesias e ensaios.

2. Quais os projetos em andamento?

[Traduções, ensaios, etc. em andamento]

— Straw:

Não deve ser segredo que nos últimos meses a Espartaco permaneceu parada. No mais, houveram os artigos do Denny e minha tradução da MTAP. Tendo isso em vista é que foi-se decidida pela organização desse post e por uma repaginação da revista — daí que algo novo possa surgir. Renovação constante, é disso que se trata.

Até algum tempo atrás, estive engajado, aqui na Espartaco, numa série de ensaios voltados a uma análise da GRCP — O grande Ícaro vermelho no céu —, propondo uma compreensão metafísica da história e uma leitura teleológica do comunismo. No entanto, foram interrompidos. As partes 4 e 5 foram escritas, mas acabei por não publicar, e nem tenho a intenção. Também estive engajado, mas por fora, num projeto de traduções online, no qual fiz traduções parciais ou fragmentadas de textos do Land e do Camatte, mas que não seguiu em frente e acabou por ser interrompido. Tenho intenção de ajuntar estas traduções parciais e completá-las para publicação por aqui.

No mais, estarei traduzindo o texto Conversando com Camatte de Armando Ermini para publicação na Espartaco. Penso também em retomar as traduções de Bordiga em algum momento. E, claro, novos ensaios.

— Miguel Arthur:

Irei publicar na Espartaco 4 dos meus últimos textos traduzidos: "Este mundo que devemos deixar" (Camatte), "Contra a utopia do capital" (Yann Sturmer), "A conquista do espaço no tempo do poder" (Eduardo Rothe) e "O ponto-limite da igualdade capitalista" (Chris Chen). Fora esses, iniciarei a tradução de mais textos do Camatte em breve ("Ecos do passado"), que pretendo postar na Espartaco.

— Adel:

Embora cada colaborador possua autonomia em suas frentes de pesquisa, meu foco atual concentra-se em duas linhas principais:

• Atualização Teológica: Realizo um trabalho de releitura e contextualização de textos da Teologia Latino Américana. O objetivo é tensionar esses clássicos com as demandas da realidade contemporânea, preenchendo lacunas históricas ou teóricas sob a ótica do tempo presente.

• Crônica Político-Eclesial: Acompanhamento e análise das movimentações institucionais e sociais na interseção entre a política e as comunidades de fé.

— Denny:

Encontram-se em elaboração análises dedicadas à autodeterminação dos povos, com ênfase na questão israelo-palestina, bem como estudos versando sobre matrizes civilizacionais orientais e um ensaio específico acerca do conflito iraniano.

— Felip:

No momento estou trabalhando na produção de artigos que abordam autores pós-marxistas como Guy Debord e Jean Baudrillard, buscando entender como esses autores e até movimentos possam contribuir ao nosso entendimento de uma sociedade pós-capitalista e a construção dela, diferentemente de partidos tradicionais que ou caem no imobilismo esperando a revolução ou se submetem ao legalismo democrático. Isto no mundo moderno que enfrenta uma atomização globalizada dos indivíduos.

— Epona:

Estou escrevendo um ensaio de minhas impressões sobre O Anti-Cristo de Nietzsche.

— Sarah:

Estou deve fazer um ano traduzindo diálogo com os mortos, do PCI, mas infelizmente a USP não tem me ajudado no quesito tempo.

— Nick Clark [novo integrante da revista]:

No momento, tenho estudado a teoria crítica cultural relacionada à IA, tecnologia, e às transformações que elas já estão realizando na sociedade e a partir das próximas décadas.

3. Quais perspectivas a serem assumidas para uma análise e crítica sistêmica?

[Horizontes para uma análise / crítica do sistema capitalista e da modernidade; da civilização, da dominação técnica, etc.]

— Straw:

Creio que, antes do mais, devemos delimitar o conceito de sistema. Nunca houve, e nem nunca haverá, em toda a história da humanidade, sistema algum senão o capitalismo — e precisamente por isso que ele é capaz de se apresentar enquanto único sujeito possível da história, o Sujeito automatico. Ocorre que a noção dum sistema totalizante é própria da modernidade, e nunca antes houve sequer possibilidade de conceber algo do gênero, pois a modernidade inaugura a Era das imagens de mundo, onde mundo é reduzido a imagem, e imagem corresponde sistema. “À essência da imagem de mundo corresponde a conexão recíproca, o sistema.” (Heidegger) — às ciências, a pesquisa enquanto exploração organizada; à razão, o iluminismo; à máquina, que torna-se no mundo inteiro de seu operador, o sistema fabril; à própria concepção e entendimento de "mundo" modernas, o capitalismo. Mundo torna-se em imagem, num movimento abstrativo-redutivo, onde não pode ser concebido senão dela. Imagética, não imaginação. É nesse mesmíssimo movimento que pode-se conceber a totalização duma imagem, tal qual do capital ou do sistema técnico enquanto Sujeitos abstratos absolutos. Nunca na história isso foi possível anterior à modernidade. Nunca existiu feudalismo. Conceber um "feudalismo" é portar uma ideia própria e anacrônica da modernidade e reduzir todo um período histórico a uma imagem de mundo sistêmica — que é exatamente o que a historiografia faz. De mesmo modo, não existe possibilidade dum "sistema" alternativo que venha a se estabelecer e superar o capitalismo, do projeto totalizante duma razão alternativa ou coisa do gênero. Sempre que concebido algo assim, apenas se emprega novamente a circulação do capital de mesma maneira. Socialismo é capitalismo. Todas as ideologias — que por si só são uma criação da modernidade e funcionam perfeitamente à sua lógica, como falsa consciência imagética — que buscaram estabelecer algo "outro" que o "capitalismo", apenas o reforçaram, através dum enorme culto ao trabalho e ao mercado. Não há distância entre marxismo, fascismo ou liberalismo. Se há uma perspectiva de superação, ela deve ser pensada para além desses mecanismos.

— Miguel Arthur:

No atual período da sociedade capitalista, sob a 2ª fase da subsunção real do trabalho ao capital, a contradição proletariado-capital se encontra no limite da própria reprodução das classes. Ao levar a cabo a proletarização da sociedade, o revolucionamento técnico do processo de trabalho e seu molde à sua imagem, o capital não mais se apresenta como um ser externo ao proletariado. Diante da incapacidade deste em se reconhecer enquanto sujeito social e se identificar com seu trabalho, um período de transição ao comunismo — i.e., ditadura do proletariado —, seja na forma de ditadura partidária ou autogestão dos conselhos, torna-se inviável, aparecendo como mera gestão das formas capitalistas. A afirmação de classe, a unificação dos proletários enquanto proletários para a sublevação ao nível de classe dominante, agindo como sujeito histórico, já não está mais no horizonte. Atualmente, o proletariado só pode realizar o revolucionamento do modo de produção na direta autonegação da própria condição de classe, na comunização das relações sociais. A unidade do movimento revolucionário é criada na atividade de imediata autoabolição do proletariado e criação do indivíduo imediatamente humano. Tal processo se origina de maneira interna ao próprio movimento revolucionário, emanando do crescimento de uma insurreição revolucionária geral e suas crescentes contradições, impondo-se como medida necessária para a superação dos próprios limites da revolução, ao proletariado se deparar com a impossibilidade de se unificar — e, consequentemente, afirmar — fora do movimento de direta abolição da própria condição de classe. Portanto, a comunização não é um movimento prefiguracionista, de "tornar comum" ou qualquer coisa do gênero, mas um processo de desfazer revolucionário das relações constituintes do capital, emergindo objetivamente do movimento revolucionário de nosso período histórico (segunda fase da subsunção real) e sua condição estrutural específica na história da luta de classes. 

Exemplos de teóricos da Teoria da Comunização marxista: Théorie Communiste, Endnotes, Jacques Camatte (1968-1972), Phil A. Neel, Jasper Bernes, Friends of Classless Society etc.

— Felip:

Perspectivas plurais são necessárias já que dentro do capitalismo tudo, inclusive as ideias e o campo do pensamento são tratados como mercadorias competindo entre si, onde muitas vezes é considerado incabível a possibilidade de cooperação entre visões de mundo e sociedade diferentes, isso não significa no entanto uma resignação parcial ou completa à teorias e análises sistêmicas que são efetivamente falsas, manipulatórias do real, oriundas desta sociedade espetacular e que servem para a manutenção e perpetuação da mesma, é preciso discernimento crítico, uma compreensão histórico-filosófica e diálogo com outros que também compreendem a grave situação que nos encontramos para podermos ter um bom julgamento sobre o sistema que vivemos e termos alguma perspectiva de mudança.

— Hatuey:

A união simbiótica do saber ancestral e da curiosidade e criatividade do futuro incerto são ótimas maneiras de construir uma nova visão de mundo, é assim como Guy Debord disse, reconhecer que o proletário está à margem da vida. Unir o que há na antropologia dos povos indígenas, quilombolas junto da situação contemporânea para construir um movimento socialista e anticapitalista efetivo e combativo. Para isso, é preciso de crítica, estratégia e ter em mente algumas coisas: a via institucional e o pensamento tradicional da velha europa não trouxeram para a humanidade se não a mais pura miséria existencial. Partidos políticos se tornaram empresas especializadas em gerir infraestruturas, parlamentos grandes balcões de negócios mascarados de governança e as atividades plenas do dia a dia foram transformadas em gaiolas invisíveis direcionadas para o trabalho. A construção de grupos não apenas armados, mas de forma geral que descentralizem ao máximo sua prática revolucionária rompendo com todas essas velhas ideias já tem metade do caminho andado. No cenário brasileiro em específico, a luta pela terra se mostra de suma importância para isso, visto que as elites socioeconômicas mais poderosas do país controlam este setor e é nele onde está localizado algo que parecemos ter esquecido: a vida.

— Denny:

A análise e a crítica sistêmica devem assumir uma perspectiva antropológico-filosófica que conjugue a crítica da dívida e do Estado formulada com a esferologia e a crítica da domesticação elaboradas.  

Extraindo o instrumental para desnaturalizar as categorias econômicas fundamentais, compreendendo mercado, moeda e Estado não como invariantes antropológicas, mas como contingências históricas que obliteram a primazia da dádiva e da ajuda mútua enquanto fundamentos do laço social.  

Também adotar a crítica à modernidade como projeto de imunização e de engenharia antropotécnica, revelando a civilização enquanto processo de domesticação que produz sujeitos adaptados à reprodução do capital mediante a construção de esferas de conforto e autoalienação.  

A intersecção de ambas as perspectivas permite apreender a modernidade capitalista como dispositivo esferológico de endividamento generalizado — material, simbólico e existencial — e, simultaneamente, delinear a crítica como gesto de dessubjetivação e de abertura de novas antropotécnicas emancipatórias.

— Nick Clark:

Como spengleriano, acredito que uma análise crítica mais profunda do nosso tempo exige uma postura cíclica, comparativa e morfológica da história.

4. O que entende-se por comunismo?

[Uma vez a Espartaco sendo uma revista comunista, essa é uma questão a ser levantada e discutida]

— Miguel Arthur:

O movimento real que abole o atual estado de coisas; Gemeinwesen universal que supera o capital, as classes, a sociedade, o Humano, a cisão humano-natureza etc. e institui o devir infinito da espécie humana em continuidade com o cosmos.

— Straw:

O comunismo é teleológico e arcaico. Mas não emprega teleologia no sentido dum fim ideal a ser atingido ou instaurado. Não é teleológico no sentido aristotélico-cristão. É teleológico num sentido inseparável de seu arcaísmo, unindo télos e arkhé — seu fim reside em seu próprio conteúdo. O comunismo não é um estado ideal de coisas, uma totalização sistêmica à parte ou um projeto totalizante duma razão alternativa (como uma espécie de "razão proletária"). O comunismo é um movimento dialético, o qual oferece a única perspectiva de superação da realidade (ou ordem de vigência) na qual nos encontramos, para além do impaciente aguardo pelo colapso catastrófico. Nisso, ele opera num duplo aspecto (eidos): por um lado, num aspecto de negativação, de crítica e destruição do vigorante e do real; por outro, num aspecto de afirmação daquilo que há de mais fundamental em nosso ser, apontando necessariamente à "comunidade". São ambos inseparáveis um do outro.

A existência e a vida "humana" fundamentam-se num ser-comum em relação ao mundo e aos outros. No entanto, através dum movimento de decadência, desvio, ambiguidade, impessoalização, massificação, egoísmo, a-gentes, etc., somos cada vez alienados do que nos há de mais próprio, de nossa constituição neste mundo e do próprio mundo enquanto tal. Somos preguiçosos e nos deixamos afogar numa estrutura de dominação e de narcisismo — quer egóico, quer de multidão. O comunismo, enquanto movimento, é aquilo que possibilita um recolhimento à nossa constituição fundamental, através da afirmação e do estabelecimento da comunidade e da harmonia — não apenas humanas, mas com o mundo como um todo, num só corpo de compaixão e acolhimento, sem excluir ser ou vida alguma (“também os animais são teus irmãos” — dizia São Francisco). Mas essa "comunidade" não pode ser entendida de qualquer maneira. Não fala-se aqui da comunidade abstrata do capital (enquanto Gemeinschaft), tampouco da "comunidade" que o fascismo (e igualmente o leninismo) projeta no Estado. Fala-se duma comunidade essencial, onde reconheço aquilo que é cada vez meu, que assumo minha individualidade, e, inseparável minha individualidade do conjunto e só em razão dele sendo, vivo em comunidade — um conjunto sem unidade (Badiou).

Mas a afirmação duma comunidade essencial — a qual dirige-se necessariamente à formação duma "comunidade de novo tipo" (Camatte) — requer uma ruptura (krisis) da realidade. Portanto, de nada basta apenas pretender afirmar o ser-comum humano diante dum sistema de injustiça e preguiça — e, de mesmo modo, de nada adianta quebrar e destruir as coisas sem visar com isso a algo. Portanto, o comunismo é também um movimento de negativação universal, de destruição, crítica e destroço constante. Ele quebra as máquinas; ele rompe com velhas ideias, velhos costumes, velhos hábitos e velha cultura. Em prol de que o novo possa surgir e o ser-comum tenha seu recolhimento, há a necessidade da superação da realidade — a necessidade de negar. Em prol da negativação da modernidade, da civilização e da dominação, deve haver a afirmação duma perspectiva além — aquela que já está ali a todo momento, enquanto arkhé.

Poderíamos sumarizar da seguinte maneira: destruir a realidade, criando algo radicalmente novo. Aonde isto há de nos levar? É incerto. Não devemos (e nem sequer podemos) imagetizar uma "sociedade comunista" e idealizá-la. Temos em vista o movimento da mudança, e nada mais. “É um convite para dançar, com desfecho incerto” (Kurz). O comunismo é uma ideia, no sentido mais platônico (não platonista) possível — uma ideia inseparável da práxis, que não existe senão em sua efetivação e execução. Não poderia haver nada tão revolucionário quanto o comunismo, mas, ao mesmo tempo, é impossível que ele se realize enquanto "revolução", no sentido vulgarmente compreendido. O comunismo deve começar aqui e agora — espontânea, explosiva e livremente. Comunismo é movimento, é constância, é processo, é destruição, mudança e criação; é uma práxis, é um circuito de arcaísmo, é espontaneísmo, é teleologização — é comunização. Voltar à caverna em prol duma marcha conjunta pela libertação e pela vida verdadeira ao lado de fora — não poderia haver nada tão revolucionário quanto.

“Quem quer que pense na árvore não deve apenas pensar nas raízes, mas também na floresta. (...) A floresta, porém, não é uma mera multiplicação, uma mera soma das árvores juntas, mas ela muda a forma e a vida individuais. Formada pelos indivíduos, ela possui efeito em sua formação. (...) O mito, como quer que seja, reconhece na árvore não apenas a árvore da vida, mas também a árvore do mundo. Enraizadas no chão primordial, florescendo no cósmo, juntam sóis e estrelas. Pai e mãe estão unidos em eterno esplendor. Esta é a madeira da vida no centro da Cidade Eterna, onde não há nem separação, nem santuários.” (Jünger).

— Felip:

É uma concepção e projeto ativo de construção de uma sociedade alternativa e mentalidade coletiva, uma tentativa histórica que transcende os projetos passados mas que também se constrói encima deles. É a busca de superar a mentalidade de união na aparência e divisão das pessoas em sociedade urbana, o projeto comunista é em síntese a negação visceral do capitalismo e tudo o que ele implica, mas diferentemente de projetos reacionários, se entende que não existe um retorno ao passado, e que o futuro está em ativa disputa e construção.

— Hatuey:

O comunismo é o processo da abolição da mercantilização da vida e das lógicas do capital através da ação armada e da organização descentralizada. É também a destruição das estruturas da sociedade moderna como o Estado-Nação, o dinheiro e a divisão social do trabalho; ele não possui um estágio ou objetivo final, mas propõe a vida duma sociedade pelo bem comum em prol da equidade.

— Denny:

Comunismo é a constatação de que o tecido social subsiste porque, na esfera do cotidiano, operamos sob uma lógica de reciprocidade, e não sob imperativos mercantis. Caso cada interação humana demandasse contrapartida pecuniária ou formalização contratual, o edifício civilizacional ruiria em instantes. Já praticamos o comunismo no âmbito das relações de amizade e parentesco.  

Uma vez assimilada tal premissa, impõe-se apenas a dilatação do escopo. Se o mundo é uma construção coletiva, por que obliteramos a possibilidade de reconstruí-lo?

— Nick Clark:

Não sou comunista, mas acredito que, hoje mais do que nunca, é necessário separar o marxismo da tradição marxista “ortodoxa”. Para tornar o pensamento marxiano útil como ferramenta de análise, vejo que autores como Zizek e Fisher são fundamentais. O marxismo, enquanto teoria crítica, permanece essencial para compreender certos aspectos do capitalismo. Já o comunismo, entendido como movimento político revolucionário de caráter totalitário, deve ser evitado.

5. Qual posicionamento tomar diante das eleições?

[Frente ao ano de eleições que estamos, devemos nos preparar e pensar em modos de lidar com isso]

— Straw:

Boicote eleitoral.

A reeleição de Lula pode esconder a crise por um momento a mais, irrompendo dramáticamente em seguida; enquanto a vitória de Flávio, Renan ou outro há de necessáriamente evidenciá-la ao modo dum tobogã. Escolher um lado nas eleições não é mais do que escolher entre duas modalidades de queda num mesmo buraco — o fim é o mesmo. Podemos nos inserir nas eleições, bem como podemos optar pelo lado de fora delas: voto nulo, boicote e desmistificação. Creio que a perspectiva que melhor se alinhe às nossas proposições seja a segunda, se é que não seja a única perspectiva possível aqui.

— Felip:

O posicionamento público deve ser o de negação completa do sistema democrático atual e o não-apoio a qualquer candidato, nenhum deles nos representa e nenhum tem verdadeiramente um projeto pós-capitalista, e nem pode ter já que o legalismo das instituições nunca permitiria tal coisa, ademais não devemos pregar nem mentir como fazem certas seitas de que temos a solução, a da construção de uma mágica revolução, infelizmente não temos e precisamos enfrentar a derrota das teorias passadas frente a realidade, já que somente através de uma discussão profunda e sem dogmatismos podemos pensar em como mudar nossa atuação e torná-lá mais efetiva.

— Adel:

Minha diretriz ordinária defende o boicote eleitoral como forma de questionar a legitimidade do sistema vigente. Contudo, adoto uma postura pragmática em cenários extraordinários.

— Miguel Arthur:

Ao nível de organização comunista, recusa de coalizões com partidos burgueses e a política parlamentar, incentivando uma política revolucionária independente do proletariado em detrimento do voto; única forma de construir um movimento revolucionário crítico das formas políticas do capital e capaz de autocrítica constante, abrindo espaço para a superação de seus próprios limites e à autoabolição de sua condição.

— Denny:

Subsistem duas posições legítimas diante do pleito eleitoral: a abstenção integral, enquanto recusa ética à chancela do dispositivo político existente; e a postura realpolitik, que, sem abdicar da crítica estrutural, reconhece a urgência de uma análise pragmática da conjuntura, visando a transcender o horizonte polarizado e ossificado pelos dois grandes clãs do establishment (PT e PL).

— Nick Clark:

Minha posição tende a apoiar o candidato que represente a maior força disruptiva. No momento, apoio Renan Santos, não pela figura em si, mas pelo que ele traz consigo, um grupo dissidente com o objetivo de ruptura com o sistema atual.

— Epona:

Meu posicionamento é contra eleições burocráticas que não têm um pingo de participação direta.

6. Qual posicionamento diante dos genocídios palestino e curdo?

[Genocídios silenciados e gritantes no presente]

— Denny:

Impõe-se, primeiramente, apreender a situação concreta para além dos aparatos propagandísticos e das doxas que circulam nos âmbitos de coletivos ideológicos tribalizados, cujas arquiteturas de consciência apresentam-se já hermeticamente constituídas. Somente a partir desse discernimento torna-se possível mobilizar instrumentos semânticos de maior precisão.  

Constata-se, na contemporaneidade, uma necropolítica estruturada pelo governo Netanyahu, que, por intermédio de dispositivos biopolíticos, transgride os limiares éticos do conflito armado no tratamento dispensado à população palestina. Não obstante, cumpre reconhecer que tais circunstâncias não emergem ex nihilo, mas exprimem a cristalização de ressentimentos históricos oriundos de um estado beligerante cuja resolução permanece desprovida de horizonte previsível.

No tocante aos curdos, verifica-se uma condição de extrema vulnerabilidade, porquanto, à exceção do Estado de Israel, inexistem nações efetivamente comprometidas com sua situação diante de uma limpeza étnica em curso. A esquerda internacional, em nome do combate a supostas hegemonias políticas — leia-se antiamericanismo —, oblitera a existência desse povo para evitar sinalizações de virtude, negligenciando seu progressivo apagamento nos países do Oriente Médio onde se encontra disperso. Não há reconhecimento de sua identidade enquanto coletividade nacional, tampouco se instaura qualquer diálogo acerca de sua eventual autodeterminação, em prol da salvaguarda dos desígnios do pan-arabismo na região.

— Sarah:

Gostaria que essa pergunta se estendesse também ao genocídio no Sudão, obviamente temos que entendê-los como empreitadas de massacres regionais e inter-regionais decorrentes de conflitos de proxy inter imperialistas em um contexto global, mas sem diminuir suas particularidades específicas histórico-político-sociais que os tornam genocídios em primeiro lugar, sem dar preeminencia a uma análise simplista, como a do PCI.

— Hatuey:

A mercantilização da vida transforma as guerras e os genocídios em enormes disputas comerciais onde as empresas armamentistas batem recordes de lucro ano após ano, e a vida humana se torna o alvo a ser erradicado para que as engrenagens continuem girando.

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