Build The Party: Lições da insurreição egípcia: comunização, estratégia e solidariedade
Traduzido por: Miguel Arthur
A Chama, Jackson Pollock
Texto originalmente publicado em janeiro de 2013.
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Durante a última semana, o Egito testemunhou uma rápida proliferação de violência insurrecional, que começou em 25 de janeiro com o segundo aniversário da queda de Mubarak, intensificando-se com as sentenças de morte proferidas aos 21 ultras de Al-Masry em Porto Said e a subsequente declaração de um estado de emergência, em 27 de janeiro, nas províncias ao longo do Canal de Suez. Alexandria, Porto Said, Suez, Ismaili e Cairo viram extensos enfrentamentos e a rejeição de todos os toques de recolher, com Porto Said efetivamente se separando e líderes militares alertando sobre um colapso estatal. Dentro desta situação, uma força explicitamente revolucionária se anunciou, chamando-se Black Blocairo, Black Block Egypt, ou simplesmente Black Block, indo além do uso da máscara negra e da violência como uma tática, rumo a uma posição mais organizada e explicitamente insurrecional no Norte da África; aprendendo com anos de revolta e negando desistir, eles estão levando as coisas adiante quando outros escolheram render-se.
Embora as forças de segurança tenham perdido o controle das ruas em algumas cidades, sua ausência não gera uma revolução e, em paralelo, o próprio Estado pode não estar no controle, mas isso não significa que esse governo — ao contrário do governo — não funcione. Uma revolução deve abolir tudo, tanto através da insurreição quanto através da comunização.
Medidas comunistas
Como fazemos com que ela viva? Esta é a pergunta mais poderosa colocada por uma insurreição e certamente a menos pensada. Muitos de nós hoje não temos experiência, enquanto outros estão apenas preocupados com o imediato, pensando como peões e não como estrategistas. Agora precisamos nos perguntar que tipos de medidas comunistas seriam necessárias para fazer de uma insurreição uma revolução; que as revoltas gregas de 2008 e o Furacão Sandy são igualmente instrutivos não deveria ser uma surpresa.
Basta imaginar o território potencial de viver, de respirar uma revolução. Barricadas, edifícios ocupados, viaturas policiais tombadas, expropriação de armazéns, supermercados e terrenos; a tomada dos meios de comunicação e destruição daqueles de nossos inimigos; construção de clínicas de saúde e abastecimento autônomo de energia; a mobilização de milhares para um milhão de tarefas; a questão das armas, irredutível à operações militares. O curso da insurreição egípcia nos dá uma visão disso, que devemos preservar, mas também ajudar a tornar realidade em todas as partes.
Para todos aqueles que tentam influenciar o curso dos acontecimentos futuros, atuar decisivamente na história, aí está a realização do comunismo agora, e também a apreensão da cidade e seus fluxos. Assim, é preciso ter a previsão e o conhecimento estratégico de onde ir, conhecer onde estão as instalações de armazenamento de alimento na cidade e quais são as linhas chave de abastecimento. Saber a resposta dos problemas da expropriação: queremos usar isso? Tomar? Queimar? Se a insurreição se aprofundar, construiremos nossa força e aumentaremos nossas habilidades?
O governo é algo a se desfazer no nível da vida cotidiana, e apenas medidas comunistas podem fazer isso. Mas o ponto não é responder à questão das necessidades a partir da perspectiva dos insumos e produtos, mas melhor entrelaçá-las em um território ferozmente insurgente. A questão da alimentação é inseparável da elaboração de nossa relação com o mundo. Muitos de nós sabem como atravessar as chamas, mas a questão é também como conectar e sustentar essas coisas.
O povo de Bougainville lidou com isso em sua rebelião, comunizando armas, saberes tradicionais e tecnologia caseira, repelindo com sucesso os esforços de militares e multinacionais por décadas.
Solidariedade significa muito mais que ataque
A insurreição egípcia ressoa em nós, perguntando-nos: o que significa estar organizado globalmente? Ter laços de solidariedade e apoio ao partido insurgente do Egito é essencial, seja organizando uma #AnonOp para obstruir as comunicações policiais e militares no Egito, quebrando e paralisando os fluxos de cargas terrestres e marítimas ou encontrando uma forma de fornecer suprimentos essenciais. Uma revolução simplesmente não pode sobreviver só, especialmente com milhares de outras forças tratando de sufocá-la, como os partidos de esquerda que querem chegar ao poder, os islâmicos que esperam ganhar influência militarizando a luta como na Síria ou os generais esperando para massacrar todos.
É somente quando estamos organizados, e organizados em escala global, que podemos reunir a força necessária para derrotar nossos inimigos e o governo em seu conjunto. Portanto, a construção do partido está em todas as partes, construindo a prática do comunismo em densos níveis locais e regionais, em coordenação e cruzando todas as fronteiras. Há o compartilhamento de máquinas, espaços, financiamentos; a circulação de corpos, experiências e sonhos; a proliferação de bloqueios, revoltas e ocupações, a plantação de sementes e a queima de edifícios, a guerra a ser travada e o espírito que a anima; a construção de um processo insurrecional desde a base.
Acima de tudo, camaradas, não temam, sigam em frente.

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