Papa saiu, fumaça subiu
Agora, em meio à tarde desta quinta-feira, foi nomeado pela conclave o Papa Leão XIV, ex-cardeal Robert Francis Prevost, o primeiro papa estadunidense.
Prevost havia sido o mais recente a ser colocado enquanto candidato ao papado, há apenas seis dias atrás. Enquanto o mundo olhava para Parolin, Zuppi e Tagle, os quais aparentemente tinham mais força entre a conclave, os votos acabaram voltando-se para o agostiniano estadunidense. Próximo de Francisco e também de Parolin (o cardeal conservador italiano apoiado pela direita), Prevost atuou durante 20 anos no Peru, e em 2023 moveu-se para o Vaticano a convite de Francisco. Foi acusado três vezes de colaborar com acobertamento de abuso sexual dentro da igreja, em Chicago e no Peru. Na última vez, tendo sido em relação a acusações de abuso por parte do prefeito da diocese onde atuava como bispo. De acordo com o mesmo, neste último caso, aconselhou às vítimas que encaminhassem a questão aos civis, já que as acusações haviam sido arquivadas pela polícia.
Aparentemente moderado, o que causa preocupação é a escolha do nome. O último papa assim chamado foi o Papa Leão XIII, autor da Rerum Novarum (1891). A encíclica em questão condena o comunismo, alegando que estaria fadado à fome; condena as greves e as reivindicações da luta dos trabalhadores, dizendo que prejudicavam o interesse comum e causavam conflitos; defende a propriedade privada, e alega que é tarefa do Estado proteger os interesses desta; etc... Também defendia que pobres necessitavam continuar existindo, para que sua miséria fosse perpetuada geração após geração, com estes dependendo da boa ação de caridade dos outros para continuar vivendo. A encíclica foi uma das principais bases do fascismo italiano, referenciada por figuras desde Mussolini até Gentile.
“O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e frequente, porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranquilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte, mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão-de nascer os conflitos entre os operários e os patrões.” (Rerum Novarum; Papa Leão XIII).
Nenhuma escolha de nome por parte dum papa é à toa, ainda mais neste caso. No entanto, ainda é cedo para dizer algo.
Por quase uma hora, a ânsia tomou conta de todos ao ver a fumaça branca ecoando no céu através da TV ou das redes sociais, curiosa para saber quem havia sido escolhido. Agora, a ânsia diz respeito aos eventos que se seguirão. O que devemos esperar? Neste momento, a questão mais feita entre os brasileiros é certamente a mesma que se faz ao começar a ver uma novela pela metade e sem pegar o contexto: “esse personagem é do bem ou do mal?”.
— Straw
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