Pragmatismo e covardia: uma análise da esquerda brasileira
A esquerda brasileira, observamos com grande facilidade, tem um enorme medo de lidar com os problemas batendo à sua porta. Ao se defrontar com um problema complicado — isso se reconhecerem-no enquanto um problema, ao invés de ajoelharem-se perante a ele —, tentam fugir do mesmo, afirmando que nada possa ser feito a seu propósito, e que a única alternativa restante é ter que conviver com o mesmo. Comporta-se como uma prefeitura, ignorando os buracos no asfalto e fugindo da responsabilidade dos mesmos. No entanto, para não parecer tão ignorante, decide apontar pequenas rachaduras na calçada como se fossem o maior dos problemas, e vangloriam-se por terem "acabado" com estas — enquanto isso, o enorme buraco no asfalto permanece.
Ao serem confrontados com a questão da China ser capitalista, os esquerdistas em geral tendem a assumir uma posição de dizer coisas como: "a China é o socialismo do século XXI", "a China é socialista, apenas com características capitalistas", "a China é socialista, porém adaptada ao mercado", "o socialismo não funciona na vida real como na teoria, e a China teve de se adaptar", etc... Tentam passar fita isolante por cima duma cratera no meio da rua como se isso fosse resolver a algo. Não se pode questionar o socialismo chinês, afinal, ele foi apenas uma adaptação para as condições do século XXI, e, frente a elas, não há nada que possa ser feito, é o único modelo que funcionaria no presente. Afinal, a China é o grandioso "socialismo do século XXI" (Jabbour). Não bastando isso, ao observarem confrontações frente às suas grandes cartadas, querem saltar por cima do problema, como se ele fosse irrelevante. Jones Manoel, durante a organização do primeiro congresso do PCBR, afirmou que tratar da questão da China ser socialista ou capitalista era irrelevante, e não impactava o movimento e nem a luta pregada — coisa que diz muito.
Talvez o melhor exemplo que possamos observar hoje seja na questão das inteligências artificiais. Assim que estouraram, a esquerda se dividiu entre aqueles que passaram a defendê-las com unhas, garras e dentes, engolindo com enorme facilidade o discurso neoliberal vigente de que elas eram o futuro, e aqueles que perceberam sua problemática, mas acreditaram que eram um problema que, estando ali, não se tinha mais o que fazer. O PCO, naquele momento, não demorou muito para publicar textos falando sobre como as IAs eram benéficas e iriam reduzir a jornada de trabalho — algo que até agora não observamos, mais de dois anos depois, nos pondo em dúvida sobre as nem um pouco suspeitas previsões do futuro por parte do PCO. O PT e o PCB, então, foram os primeiros partidos a publicarem imagens geradas por IA a rodo, inclusive nas situações mais idiotas e desnecessárias — vide aniversário do Che Guevara. Alguns, como veremos logo à frente com o JAV, até problematizaram a questão das IAs, porém não por elas mesmas, e sim por questões abstratas que as envolviam. Indo para casos individuais, alguns esquerdistas reconheceram que a IA era um grande problema, mas que, no entanto, nada poderia ser feito. Ivana Jinkings, editora-chefe da Boitempo, recentemente falou que as IAs já estão aí, e que agora a questão é saber como lidar e conviver com elas. Etc. Etc. Basta um problema pertinente aparecer frente à esquerda, e tão logo tentarão saltar por cima do mesmo com as palavras de Napoleão.
A esquerda brasileira, em seu discurso, não se distancia da social-democracia europeia pós-anos 90, que afirma que, com a derrocada do "comunismo" soviético, não haveria mais espaço para superação do sistema capitalista. Agora, teríamos que lidar com o capitalismo e nos contentar em melhorá-lo, visando um Estado de bem-estar social. Na verdade, essa questão não é nem mesmo novidade. Já no final do século XIX e início do século XX, Bernstein afirmava que o socialismo só poderia ser desenvolvido gradualmente através do capitalismo, com reformas e lutas moderadas, e que o capitalismo não poderia ser inteiramente superado; que, por conseguinte, o socialismo teria que se adaptar às condições impostas pelo sistema capitalista. Qual a diferença entre a forma discursiva de Bernstein da forma discursiva da esquerda brasileira?
Porém, a covardia não é a única característica de lidar com os problemas por parte de nossa esquerda. Existe uma característica muito mais gritante e insuportável, íntima e inseparável da primeira: o pragmatismo. Em que consiste o pragmatismo da esquerda? Uma vez fugindo de problemas pertinentes e de suas raízes, necessitam deslegitimizar toda luta ou problematização destes, sob o discurso de que, na prática, isto não importa. O que há de comum em toda a esquerda brasileira, desde a centro-esquerda do PDT e do PT, até a esquerda radical do PCBR e da UP, é precisamente isso: o pragmatismo — somente a "prática" importa, e nada além da "prática". Por qual razão botar "prática" entre aspas? Pois, em meio a tudo isso, esquece-se de questionar o que constitui a prática. A prática isso, a prática aquilo. "Mas o que é a prática?" — "Essa pergunta é irrelevante, meramente teorética, e não importa à prática!". O pragmatismo mata a utopia e a revolta, é única e somente combustível de dogmatismo e duma luta sem rumo.
Ao final de sua vida, Luís Carlos Prestes disse em entrevista que o socialismo não era algo definido. Que, se se perguntasse a Marx, ao velho barbudo, o que era o socialismo, ele responderia: "não sei". Jones Manoel e outras figuras marxistas proeminentes endossam esse discurso, dizendo que a questão da China e outras experiências serem socialistas ou não é algo irrelevante para a luta. Mas, se não questionamos as experiências que tomamos como referência daquilo que entendemos como "socialismo", como determinar pelo que estamos lutando? Estaríamos numa enorme luta sem rumo, sem saber pelo que? O socialismo pode ser qualquer porcaria, oras! Basta um país se autoproclamar socialista, e pronto, o será. Socialismo pode ser qualquer coisa, desde que esta se pinte de vermelho. O hoxhaista médio da UP constantemente repetirá que Marx não definiu o que era socialismo ou comunismo, pois isso seria idealismo, coisa dos "socialistas utópicos". Certo, mas então, por que esperar que as pessoas dirijam todos seus esforços a uma luta por algo do qual nem saibam o que é ao certo? Seguindo por um princípio identitário-ideológico, ao ver um discurso cativante, os jovens de hoje se atraem com enorme facilidade para o canto da sereia marxista, e tão logo passam a se organizar em partidos ou uniões da juventude — dois simples passos e caem num elevado dogmatismo.
Em abril de 2023, o Jornal A Verdade (da UP/PCR) publicou o texto IA: entre o progresso e o preconceito, como criar uma tecnologia mais justa. O texto, definitivamente, aponta uma problemática — porém a problemática errada. Vejamos: "Os vieses encontrados nos sistemas de IA derivam, em grande parte, dos dados usados para treiná-los. Muitas vezes, esses dados não são representativos de todos os grupos da sociedade, especialmente aqueles que são marginalizados. Esta falta de representatividade nos dados e na indústria de tecnologia como um todo, pode levar a resultados discriminatórios. [...] Um exemplo notável é o sistema jurídico, onde a IA está sendo cada vez mais usada. No entanto, quem garante que os algoritmos usados para determinar sentenças sejam justos e imparciais?" Como podemos observar, o problema aqui apontado não é o sistema jurídico, nem a inteligência artificial, e, menos ainda, o sistema jurídico estar usando da IA para determinar suas sentenças; longe disso, o problema, certamente, é como o sistema jurídico está usando a IA para determinar as sentenças. Questiona-se o menor dos frutos da árvore, mas não a árvore ela mesma, e menos ainda suas raízes. Não é pôr a vida de um indivíduo nas mãos da IA que é o problema, mas, sim, de onde a IA tirou seus dados para, então, punir o indivíduo. Além do mais, o texto em questão aponta a necessidade dos dados da geração de mídia da IA serem colhidos de fontes que apresentem maior diversidade, porém, para isto, é evidente, seria necessário colher de fontes para além da base geral da internet, recorrendo a conversas particulares e dados pessoais — algo que, inclusive, muitas empresas vem fazendo ilegalmente.
Se formos conferir a tribuna de debates do PCB, observaremos que os problemas pertinentes por eles erguidos são todos um monte de lero-lero. Na tribuna de debates de janeiro de 2024, a primeira das cinco teses é de que chamar a burguesia de burguesia e o proletariado de proletariado eram de difícil compreensão para o trabalhador médio. Vejam só os debates que preocupam o partido. O tão idealizado e imbecil trabalhador médio, incapaz de compreender palavras tão difíceis, precisa de um discurso tão simples, mas tão fácil de entender... Falta apenas mastigar a comida pra que ele consiga engolir, pobrezinho...
A idealização do trabalhador médio por parte da esquerda é a coisa mais comum de se encontrar. Para desligitimar um debate ou um discurso, basta falar qualquer porcaria comovente sobre o "trabalhador médio" que é incapaz de compreender tais palavras tão complicadas. Vamos discutir a questão da propriedade estatal ser também uma forma de propriedade privada, ou então, algum problema filosófico. Basta iniciar a discussão e, rapidamente, um mal-amado aparecerá falando: "essa discussão é impertinente, não muda nada na vida da Dona Maria, que tem 300 filhos e trabalha 25 horas por dia no interior do Piauí!". Ou então, o indivíduo até possa entrar na discussão, mas, ao ver que está perdendo em quesito de argumentação, decide se aproveitar das brechas para dizer: "ok, mas agora, diga isso que você está dizendo para a Dona Maria, que tem 800 filhos, trabalha em 90 empregos, não cursou nem mesmo a escola e vive na vila da puta que pariu em Pernambuco! Você trata a questão de forma verborrágica, academicista, intelectual, idealista, etc. etc." Parece que a Dona Maria Hipotética é a cartada última para toda discussão ou debate que o esquerdista tenta fugir. Pelo amor de Satã, alguém empurre essa velha hipotética desgraçada das escadas logo duma vez, pois não aguento mais ouvir falar dela!
A Dona Maria Hipotética, longe de ser apenas acéfala e incapaz de compreender as palavras que lhe são dirigidas, é ainda reacionária e discriminatória. Ao se falar da inclusividade lgbt, interseccionalidade, desconstrução de gênero ou coisa do tipo, tão logo aparece um militante esquerdista do PCO, da UJS ou de qualquer partido ou união da juventude genérica dessas pra dizer que tal discurso deve ser deixado de lado, pois pode afastar o trabalhador médio da luta. "Certo, você diz que gênero precisa ser abolido, mas agora, explique isso para a Dona Maria, que tem 1848 anos de idade, vive numa dispensa dum consultório odontológico em Anta Gorda - RS, não é dessa geração e não sabe nem mesmo o que gay significa!". "Seu discurso é identitário! Inclusividade forçada! O que a Dona Maria do subterrâneo de Ratanabá, evangélica, ultrarreligiosa e que não tem contato com esse tipo de coisa vai pensar a propósito? Isso afasta os trabalhadores da luta!". Certamente devem haver muitas escadas no mundo das ideias, mas nem todas elas seriam o bastante.
Nesse mesmo fio, encontram-se termos como "academicismo", "intelectualismo", "elitismo", "idealismo", "pensamento pequeno-burguês", "utopismo", etc... Quer atacar alguma luta, autor, pensamento ou coisa do tipo? Basta acusar de academicismo, pensamento pequeno-burguês e baboseiras do gênero. Já vi gente acusando Kurz e a Wertkritik de academicismo, mas, eis o ponto interessante: Kurz nunca nem mesmo pisou numa faculdade, e se recusava a participar do meio acadêmico. Por ele tratar de questões consideradas demasiado "complicadas", imediatamente, torna-se em acadêmico. Ian Neves e tantos outros influenciadores do presente atacam a Escola de Frankfurt, dizendo que viviam apenas na teoria e ignoravam a realidade. Para os lukácscianos, então, a Escola de Frankfurt era o "Grande Hotel Abismo", preocupando-se única e somente com idealismos até o momento em que a realidade batesse à sua porta e eles desmoronassem. Recentemente, no texto Nem afropessimismo, nem decolonialismo, Douglas Barros acusou a luta decolonial de academicismo neoliberal, duma pauta que quer reduzir a luta contra o colonialismo e o neocolonialismo às universidades, etc... Em suma, tudo aquilo de que se discorda ou se acha complicado, imediatamente é inútil à prática e não é mais do que academicismo e idealismo barato. A filosofia, hoje, é tão odiada quanto nunca.
Não se contentando em atacar tudo que se é considerado demasiado teórico ou idealista, ainda por cima querem transformar a filosofia em puro pragmatismo. Reduzem a filosofia como um todo a "materialismo e idealismo", "metafísica e dialética", etc. Principalmente por parte da esquerda stalinista, observamos tentativas de explicação da filosofia como um todo da seguinte maneira: "a filosofia se divide em dois campos, o materialista e o idealista; nosso método é o materialismo histórico-dialético; o materialismo dialético é materialista por não ser idealista, e é dialético por não ser metafísico; materialismo é quando as ideias possuem base material, e idealismo é quando as ideias surgem antes da matéria". Bravo! E quem contestar tais afirmações, não passa dum idealista pequeno-burguês se opondo à grande ciência do proletariado. No entanto, talvez não devamos ser tão duros com nossos camaradas stalinistas neste quesito, afinal, tal não é mais do que uma derivação duma longa e vulgar tradição platonista, e suas leituras, como o Materialismo dialético e materialismo histórico de Stalin, apenas o atestam.
O que difere a esquerda da direita? Somente abstrações. Na verdade, a esquerda ela mesma "pensa" abstratamente, como já apontaria o velho Hegel. Mas, o que certamente há de comum em toda a esquerda é sua covardia e seu pragmatismo. Em verdade, talvez a UP pudesse servir de emblema da esquerda brasileira, por ser, em fato, a sua esquerda radical. O que quer dizer radical? De acordo com Camus, elevar algo às suas consequências lógicas. De acordo com Marx, tomar algo desde suas raízes. De acordo com Camatte, elevar algo à sua totalidade. Em todas essas definições, a UP/PCR se enquadra, elevando o pragmatismo e a covardia às suas consequências lógicas, à sua totalidade, tomando-as de suas raízes. A UP é pragmatista, dogmática, covarde, reducionista e, acima de tudo, extremamente chata — em suma, a face da esquerda brasileira. A partir deste momento, quando não conseguir dormir, ligue um discurso de algum integrante da UP/UJR, pois isso certamente lhe dará um imenso sono, com o indivíduo apenas repetindo as exatas mesmas coisas como um papagaio eletrônico do modo mais chato imaginável.
Camaradas, já é passada a hora de abandonarmos o autoproclamado movimento proletário e abraçarmos os devaneios pequeno-burgueses. A esquerda propaga uma luta chata e tediosa, ao mesmo tempo em que acusam de academicismo e pensamento pequeno-burguês uma luta mil vezes mais interessante e libertadora. Portanto, é para esta tão temida dimensão anti-ideológica que devemos nos dirigir. Maldito seja o socialismo científico, queremos é o socialismo utópico. Vamos pintar as unhas enquanto discutimos sobre a determinação ontológica do ser, a transmissão matemática na psicanálise lacaniana e outros temas dos quais a tal da Dona Maria Hipotética não entenderia uma única palavra. Vamos tomar Dostoiévski e reproduzir Crime e castigo, pois talvez precisemos mais dum novo Raskolnikov do que dum novo Lênin.
Por: Straw
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