Susan Song: Poliamor e anarquismo queer: infinitas possibilidades de resistência

 Traduzido por: Miguel Arthur


Metropolitano, Louis Fratino


Originalmente publicado em Queering Anarchism: Essays on Gender, Power, and Desire, em 2012.


NOTA DO TRADUTOR

Traduzi o seguinte texto pois, apesar de não me entender como um anarquista, considero as elaborações contemporâneas de seus autores sobre o patriarcado, o gênero, a heteronormatividade, a sexualidade, a monogamia etc. de grande valor para a crítica revolucionária de todo o existente (inclusive por um viés marxista). O encontro entre as diversas correntes históricas do movimento operário (anarquismo, marxismo etc.) e a teoria queer tratou de expandir ainda mais o escopo teórico e prático daqueles que almejam a superação do capitalismo e suas opressões. Portanto, assim como o movimento ecológico, negro, feminista etc., a teoria queer deve ser criticamente incorporada e absorvida pelo partido revolucionário histórico em sua ação destruidora do capital, do Estado, do progresso, da civilização e todas as suas instituições que aniquilam os humanos e não-humanos a cada dia, afirmando uma nova comunidade: o comunismo. Bom texto!

Texto base: https://theanarchistlibrary.org/library/susan-song-polyamory-and-queer-anarchism-infinite-possibilities-for-resistance


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Intersecções anarquistas e queer

Este artigo discute a relevância da teoria queer na prática do anarquismo sexual e por que os anarquistas devem criticar a monogamia compulsória como um tipo de relação. A teoria queer se opõe à heteronormatividade e reconhece os limites das políticas de identidade. O termo queer implica resistência ao “normal”, onde o “normal” é o que parece natural e intrínseco. A heteronormatividade é um termo que descreve uma série de normas baseadas na suposição de que todo o mundo é heterossexual, de gênero masculino/feminino e monogâmico. A isto se soma a suposta e implícita permanência e estabilidade dessas identidades. A teoria queer também critica a homonormatividade, onde se espera que as relações não heterossexuais se assemelhem às heteronormativas, por exemplo, sendo gênero-normativas, monogâmicas e baseadas em ter um parceiro. Dessa forma, a teoria e prática queer se opõe à expectativa de que todo mundo deveria ter um tipo de relação monogâmica, cisgênero[1] e heterossexual.

Em Anarquismo, pós-estruturalismo e o futuro das políticas radicais, Saul Newman distingue o anarquismo de outras lutas políticas radicais. Newman conceitualiza os movimentos anticapitalistas e antiguerra emergentes que são “antiautoritários e não institucionais […] como […] lutas anarquistas”.[2] Ele descreve esses movimentos como aqueles que “se opõem à tendência centralizadora de muitas lutas radicais que tiveram lugar no passado, […] eles não possuem como objetivo a tomada do poder estatal como tal ou o uso dos mecanismos e instituições do Estado”.[3] O anarquismo é entendido aqui como a resistência à institucionalização, hierarquia e à completa ou parcial assimilação política dentro do Estado.

Newman também cita pensadores como “Bakunin e Kropotkin, que se recusaram a ser enganados pelos teóricos do contrato social, esses apologistas do Estado como Hobbes e Locke, que viram a soberania como algo fundado pelo consenso racional e o desejo de escapar do estado de natureza. Para Bakunin, isso era ficção, um “engano indigno”. […] Por outras palavras, o contrato social é meramente uma máscara para a legitimidade do Estado; na verdade, a soberania foi violentamente imposta ao povo, em vez de surgir através de seu consentimento racional”.[4] Ele descreve a resistência contra o Estado mediante o reconhecimento de sua legitimidade como uma forma aparentemente escolhida. De uma forma similar, a teoria queer pode atuar para criticar os discursos biologicistas sobre o gênero e a sexualidade ao dizer que são “naturais”, apontando para as diversas formas pelas quais são conceituados e influenciados pelos contextos históricos e sociais. A teoria queer afirma que a sexualidade, como categoria e forma de identificação, embora considerada “biologicamente natural”, é, na verdade, construída socialmente.

Isso se demonstra vendo como “homossexual” e “sexo” foram criados como categorias biológicas. No final do século XIX, o termo “homossexual” surgiu como uma maneira de definir a identidade daqueles que participam em atos sexuais com pessoas do mesmo sexo. A termo homossexualidade surgiu como uma forma de definir a heterossexualidade, o que aponta para sua origem artificial e socialmente construída. Os discursos biológicos e médicos sobre a sexualidade e o gênero mudaram ao longo da história. Em Inventando o Sexo, Thomas Laqueur adverte como o sexo foi criado por razões políticas, e não científicas ou médicas “em algum momento do século XVIII”.[5] “Os órgãos que partilhavam um nome (ovários e testículos) foram distinguidos linguisticamente. Os órgãos que não haviam se distinguido por um nome (a vagina, por exemplo), receberam um”.[6]

O orgasmo feminino e seu papel na concepção, se houver algum, também foi debatido como um assunto contemporâneo. A diferença sexual se converte em uma forma de articular uma hierarquia de gênero onde as mulheres são vistas como inferiores aos homens. Esse modelo de diferença sexual é, segundo Laqueur, “tanto produto da cultura como foi, e é, o modelo de sexo único” [7]. Esta transição é demonstrada em momentos como quando as observações de Graaf produziram a afirmação de que “os testículos femininos deveriam ser chamados ovários”.[8] Os anatomistas do século XVIII também “realizaram ilustrações detalhadas de um esqueleto explicitamente feminino para documentar o fato de que a diferença sexual era mais profunda” [9]. Neste modelo de sexo único, o corpo masculino é a norma com a qual se comparam outros corpos. Este modelo assume, problematicamente, que a diferença biológica cria uma diferença “normal” a nível social. No entanto, Laqueur desestabiliza a ideia do sexo como uma categoria “natural” que aponta as diferenças biológicas significativas, e em seu lugar postula que a construção do sexo está influenciada e formada pela hierarquia de gênero e os impulsos políticos.


Políticas de classe e além

A teoria queer desnaturaliza as hierarquias de gênero, sexualidade e influência política, e é uma valiosa ferramenta para a prática anarquista. A teoria queer questiona o que é “normal” e o que cria diferenças hierárquicas entre nós, abrindo novas frentes de luta fora da política de classes por si só. Da teoria feminista surgiu a ideia de que o gênero é um construto social, não biológico, e portanto não é inato, natural, estável ou essencial à identidade de alguém devido a sua biologia. Em vez disso, o gênero é um produto das normas sociais, do comportamento individual e do poder institucional. Os estudos gays e lésbicos contribuíram para o discurso sobre gênero e sexualidade ao introduzir a homossexualidade as identidades LGBT como áreas a serem exploradas. Seguindo o trabalho da teoria feminista e dos estudos gays e lésbicos, a teoria queer entende a sexualidade e os comportamentos sexuais como similares na construção sexual e historicamente contingentes. A teoria queer leva em conta uma multiplicidade de práticas sexuais que desafiam a heteronormatividade, como a não-monogamia, as relações BDSM e o trabalho sexual.

A teoria queer abre espaço para criticar como nos relacionamos socialmente entre nós de uma forma distintamente diferente da prática anarquista típica. Onde o anarquismo clássico está majoritariamente centrado em analisar as relações de poder entre as pessoas, a economia e o Estado, a teoria queer entende as pessoas em relação com o normal e o anormal, criando uma infinidade de possibilidades de resistência. A teoria queer busca romper com o “normal” com o mesmo impulso que os anarquistas realizam contra as relações de hierarquia, exploração e opressão. Podemos usar a teoria queer para conceituar novos tipos de relações e relações sociais que resistam ao patriarcado e outras opressões, criando uma distinta forma de relação social anarquista queer. Tendo em conta as múltiplas e fluidas formas de nos identificarmos e relacionarmos sexualmente que vão além do binarismo gay/hétero, a prática de um anarquista queer permite desafiar o Estado e o capitalismo, bem como desafiar as opressões sexuais e as normas que estão com frequência incrustadas no Estado e em outras relações sociais hierárquicas.

Anarquismo queer como uma forma social

A recusa queer da instituição do casamento pode ser baseada em uma oposição anarquista às formas de relações hierárquicas e à assimilação do Estado. Um anarquista que cuida des filhes de alguém como alternativa a criar uma família pode ser entendido como representação de uma relação queer. Gustav Landauer em A revolução e outros escritos, escreve que “O Estado é uma relação social; uma certa forma de pessoas se relacionando com outras. Pode ser destruído mediante a criação de novos relações sociais; isto é, mediante pessoas se relacionarem com outras de forma diferente”.[10] Como anarquistas interessades trabalhando em áreas de políticas sexuais e lutando contra todas as opressões, podemos criar uma nova forma anarquista queer de nos relacionamos que combine os conceitos anarquistas do apoio mútuo, a solidariedade e a associação voluntária com uma análise queer da normatividade e o poder. Devemos nos esforçar em criar e aceitar novas formas de relação em nossos movimentos anarquistas, que destruam o Estado e que lutem contra as opressões dentro e fora de nossos quartos.

Uma forma de nos envolvermos socialmente com uma análise queer é através da prática de alternativas às conceituações heteronormativas da sexualidade e do Estado existente. Podemos abraçar uma multiplicidade de práticas sexuais, incluindo BDSM, o poliamor e práticas queer heterossexuais (não as estabelecendo como novas normas, mas como práticas entre muitas variedades que estão frequentemente marginalizadas sob nossos entendimentos normativos da sexualidade). Nas relações poliamorosas, a prática de ter mais de um parceiro desafia a monogamia compulsória e as concepções do Estado sobre o que é uma relação social normal e apropriada. O poliamor é apenas uma das práticas que surgem quando pensamos em tipos de relação que podem (mas não automaticamente) incorporar distintos aspectos queer e anarquistas. O BDSM permite a desestabilização das relações de poder por meio da execução e desconstrução das relações de poder na vida real em um estabelecimento consensual e negociado. As práticas queer heterossexuais permitem a fluidez do gênero e das práticas sexuais dentro das relações heterossexuais. Embora praticar esses tipos de relação por si não torne alguém revolucionárie, podemos aprender com essas práticas como criar novas conceituações de relacionamentos sociais e, consideravelmente, desafiar a doutrinação normativa dentro da restritiva, limitada e hierárquica cultura sexual de nossa sociedade.


Poliamor como uma forma de anarquia queer

O poliamor se refere à prática de, aberta e honestamente, ter mais de uma relação íntima simultaneamente, com a consciência e o conhecimento de todes es participantes. Isso inclui relações como a troca de casal (swing), parceiros sexuais e as pessoas em relações abertas. O aspecto aberto e honesto do poliamor aponta às concepções anarquistas de associação voluntária e apoio mútuo. O poliamor também contempla o amor livre de uma forma que as concepções monogâmicas do Estado sobre a sexualidade não permitem. Emma Goldman em Casamento e amor escreve: “O homem comprou cérebros, mas todos os milhões do mundo fracassaram em comprar o amor. O homem dominou os corpos, mas todo o poder da Terra não foi capaz de dominar o amor. O homem conquistou nações inteiras, mas todos os seus exércitos não puderam conquistar o amor. […] O amor tem o poder mágico de fazer de um mendigo um rei. Sim, o amor é livre; não pode habitar em nenhuma outra atmosfera. Na liberdade, entregamo-nos sem reservas, abundantemente, completamente”.[11]

No amor livre residem as noções anarquistas do apoio mútuo. Voltando ao ponto anterior, o poliamor desafia a conceituação de parceire como posse ou propriedade. No lugar de ter a propriedade exclusiva de ume companheire, o poliamor permite aos casais compartilharem o amor com tantes companheires concordarem em ter. Diferente da monogamia compulsória, o poliamor permite mais de um casal, o qual pode desafiar as concepções do Estado do que é uma relação queer. A monogamia compulsória pode se referir às relações que se produzem em um contexto onde há pressão para se conformar com a monogamia. A monogamia compulsória é um conceito onipresente em nossas leis e instituições, onde a expectativa para se conformar à monogamia são recompensadas com ganhos sociais e materiais. Isso não quer dizer que aqueles que escolhem relações monogâmicas sejam mais restrites do que seus pares poliamorosos. Uma crítica às maneiras pelas quais a monogamia se tornou compulsória é muito diferente de julgar as práticas românticas/sexuais individuais.

O poliamor também pode desafiar as concepções estatais de posse e propriedade. O casamento como instituição é investido de noções de reprodução heterossexual e patriarcado. Pode se usar o trabalho de Sara Ahmed para ajudar ainda mais a conceituar o poliamor. Ela escreve: “De alguma forma, pensar sobre as políticas das linhas de vida nos ajuda a repensar a relação entre a herança (as linhas que nos são dadas como ponto de chegada dentro do espaço familiar e social) e a reprodução (a exigência de que retribuiamos o presente dessa linha com a ampliação da mesma). Não é automático que reproduzamos o que herdamos, ou que sempre convertamos nossa herança em posses. Devemos prestar atenção à pressão para fazer tais conversões”.[12] Sua análise demonstra como o poliamor pode desafiar as ideias de herança e posse. O poliamor, como forma, permite uma multiplicidade de companheires e não é necessariamente investido na reprodução sexual da mesma maneira que o casamento como instituição do Estado. Dessa forma, o poliamor pode interromper as práticas da reprodução e da herança a partir da criação de uma nova família e de tipos de relações não investidas na posse sexual e em formar parte das relações impostas e supervisionadas pelo Estado.

Um apelo à liberdade sexual

Alguém poderia perguntar: como o poliamor é relevante para mim se não estou interessade em praticá-lo? Qual é o interesse de criticar a monogamia se estou em uma relação monogâmica satisfatória? Trazendo a teoria queer para nossos quartos e ruas, podemos começar a expandir o que poderia não ser pensado como uma necessidade de libertação. Quando as pessoas em relações monogâmicas satisfatórias consideram esse histórico de repressão sexual, possuem as ferramentas para entender o que significa se tornar sexualmente libertade apesar desse histórico, ainda que escolhem permanecer em relações monogâmicas. Podemos nos libertar das limitações e normas arbitrárias de gênero não apenas em nossos relacionamentos românticos, mas em nossa vida cotidiana. A teoria queer nos dá os espaços para transgredir e brincar com o gênero, além de questionar os limites das políticas de identidade. A sexualidade pode ser fluida e vir de muitas formas diferentes, assim como podem ser nossas expressões de gênero.

Queremos mais que apenas uma libertação de classe. Queremos ser libertades das expectativas burguesas de que devemos nos casar, que só existe o binarismo de homem e mulher nos rígidos papéis normativos, que podem namorar monogamicamente e expressar seu gênero de maneiras normativas e restritivas. Deveríamos lutar pela libertação do gênero e por nosses amigues e camaradas gênero-trangressivos, e lutar pela liberdade das expressões amorosas e sexuais consensuais. Essa guerra não está só nas ruas. Está em nosso banheiros, onde as pessoas trangênero e de gênero não-normativo são vigiadas por gente que não reconhece as identidades trans e nem outras identidades de gênero não-normativas, seja reforçando um sistema binário e cisgênero e ignorando a fluidez das identidades de gênero, ou marginalizando as pessoas trangênero como “outro gênero”. Está em nossas estruturas familiares, que criam uma ordem burguesa em nossa vida. Está em nossa produção de discursos em torno da sexualidade, onde a sexualidade é vista como algo a ser estudado sob um modelo ocidental, biológico e médico. Está em nossas reuniões e movimentos, onde as vozes que não pertencem a homens heterossexuais, brancos e cisgênero são marginalizadas. Devemos criar novas e diferentes formas de viver, permitindo formas mais queer de se relacionar e ser.

A libertação sexual parece diferente para cada indivídue. Segundo minha experiência, ser amarrade consensualmente por um amigue e espancade em um ambiente negociado é libertador. Beijar ou abraçar alguém com quem você negociou cuidadosamente o consentimento é explosivamente satisfatório. Para mim, estar em uma relação aberta, honesta e poliamorosa é, de longe, uma das relações mais libertadores e românticas da minha vida. Sem dúvidas, a libertação sexual é uma profunda experiência subjetiva.

A dicotomia problemática está em estabelecer uma conceituação do poliamor como uma forma anarquista queer e criar e reforçar, potencialmente, uma nova norma de poliamor como superior à monogamia e outras relações heteronormativas.

Voltando a Ahmed, o que é significativo quando consideramos novas formas de relação é a pressão para fazer transformações e isso deve ser considerado à medida que formamos novas formas de relação que desafiem o patriarcado,[13] o capitalismo a heteronormatividade. Devemos ampliar nossas ideias sobre como é a prática sexual anarquista, nos garantindo quebrar as normas de gênero, aceitar que a sexualidade e o gênero são categorias fluidas e instáveis, e desafiar as pressões para ser monogâmique como parte de nossa prática anarquista, desafiando as formas do Estado de nos relacionarmos uns com os outros. Deveríamos viver, trabalhar e nos organizar de uma forma que construa conscientemente uma cultura que incorpore essas normas de ser resistente ao patriarcado e à heteronormatividade. Este trabalho é fundamental para nossa libertação compartilhada do capitalismo, mas também do patriarcado, da heteronormatividade e das expectativas sexuais restritivas e coercitivas de todo tipo.


NOTAS

1. Cisgênero é um termo que se refere aes indivídues que possuem uma identidade de gênero que concorda com o sexo que lhes foi atribuído ao nascer.

2. Saul Newman, “Anachism, Poststructuralism and the Future of Radical Politics”. SubStance[36][2] (2007): 4.

3. Ibíd., 4.

4. Ibíd., 6.

5. Thomas Laqueur, Making Sex: Body and e Gender from the Greeks to Freud (Cambridge: Harvard University Press, 1990), 27.

6. Ibíd., 27.

7. Ibíd., 29.

8. Ibíd., 44.

9. Ibíd., 31

10. Gustav Landauer, Revolution and Other Writings: A Political Reader, ed. and trans. Gabriel Kuhn (Oakland: PM Press. 2010), 214.

11. Emma Goldman. Anarchism and Other Essays. 3rd ed. (New York: Mother Earth Association, 1917), 93.

12. Sara Ahmed. Queer Phenomenology: Orientations, Objects, Others. (Durham: Duke UP, 2006), 17.

13. O patriarcado se refere à um sistema de poder incrustado nas instituições e outros tipos de organização social que dá privilégios e outorga o poder aos homens sobre as mulheres e pessoas que não são cisgênero.

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