Bordiga: "Espécie humana e crosta terrestre"

[Tradução revisada e atualizada em 18/nov/2025]

Nota e comentário da tradução

Recentemente, foi traduzido e publicado por um amigo, também aqui na Espartaco, o texto Bordiga e o destino da espécie de Jacques Camatte, no qual, em dada passagem, são mencionados os textos Espécie humana e crosta terrestre e Espaço contra cimento de Bordiga. Já algum tempo, esse mesmo amigo solicitou-me a tradução destes dois textos em questão (os quais estão disponíveis em italiano no site da Quinterna) e, como bom procrastinador que sou, enrolei por quase três meses até terminar a tradução do primeiro, que é o presente. Pretendo ainda a tradução do segundo em breve — e com "breve", quero dizer: vá lá saber quando.

Geralmente, as traduções dos textos de Bordiga tendem a alterar traços de sua escrita a fim de que esta torne-se mais facilmente 'inteligível' ao leitor médio — e não só dele, é evidente. No entanto, ao fazê-lo, o texto acaba perdendo algo de essencial de seu conteúdo original, algo de poético, que aqui empenhei-me em preservar. De qualquer forma, Bordiga não é lá o autor mais agradável de se traduzir, e muitas de suas sentenças dificilmente poderiam fazer algum sentido fora do âmbito gramatical do italiano. Às vezes, nem mesmo no italiano o que ele diz possui algum nexo — vai ver a radioatividade das lasanhas de microondas tenha tido algum dedo nisso.

Os colchetes, em geral, são acréscimos meus, à excessão daqueles presentes nas passagens e citações, que são comentários de Bordiga aos textos mencionados. Também, por pura diversão, tomei a decisão de retraduzir o nome dos autores mencionados no texto. Bordiga traduz Georg Hegel por Giorgio Hegel, que aqui foi retraduzido como Jorge Hegel. Também traduz Karl Marx por Carlo Marx, que aqui foi retraduzido como Carlos Marx. Os pobres Jorge e Carlos sofreram o terrível destino de ter o nome passado por terceira mão.

Quanto ao conteúdo geral, é de se afirmar que Bordiga, de fato, foi um marxista, possuindo a clássica repetição do discurso imanentista de classe que já estamos tão habituados. Dados momentos do texto poderiam ser resumidos em: Hegel é filosofia burguesa e ruim, já Marx, o grande revolucionário, desonrou e rompeu com ele; ou então: o marxismo é o grande representante do proletariado revolucionário mundial e sabe-se lá mais o que.

Deixando de lado o imanentismo maçante clássico do marxismo e as estúpidas e errôneas tentativas de previsões — como de que os latifúndios chegariam a um fim seguido do advento dum novo "capitalismo industrial" —, o texto traz consigo uma interessantíssima problematização da técnica e da civilização. Quanto à técnica, não é lá a mais articulada e melhor das problematizações, chegando a conclusões apressadas e estando bem distante daquela que autores como Heidegger, Marcuse, Benjamin ou Arendt já haviam feito bem antes, mas, se considerarmos o círculo teórico italiano daquele momento — que era praticamente um cemitério —, ela é bem avançada. Já quanto à problematização da civilização, essa sim cabe a um bom aprofundamento e leitura.

Dentre os principais teóricos italianos, desde fascistas até esquerdocomunistas, é quase que um consenso a ideia de que Roma foi o berço da civilização humana. No entanto, é evidente, por razões diferentes. Enquanto para os fascistas isto se deu em detrimento de seu humanismo, que também germinou dentre os romanos, para os esquerdocomunistas era muito mais pela questão do surgimento da civilis, da cidade, e, junto dela, o nascimento duma nova contradição que há de se agravar com a modernidade e assombrar a humanidade até o presente: aquela entre campo e cidade. O presente texto de Bordiga volta-se justamente para pensar essa questão. A começar, com o afastamento de visões segundo as quais a luta anticivilizatória agarraria-se numa espécie de utopia consoladora na qual as pessoas girariam dançando em torno dos frutos caídos no colo da copa das árvores. A civilização, tal qual traz Bordiga à tona, implicou na antítese campo-cidade, criando consigo o meio urbano, a cidadania e a sociedade civil — e, é claro, no que mais tarde chamou-se de humanismo, sobrepondo a vontade humana ao meio natural como seu soberbo. Inclusive, o nome "civilização" passa a ser empregado a partir de Erasmo de Rotterdam, considerado o pai do humanismo — o que nos faz pensar que a razão fascista para apreender o processo civilizatório não estivesse lá tão distante da realidade.

Diante da falta de alimentos e recursos num período devastado do pós-guerra e do rápido crescimento populacional, Bordiga pensou em meios de superação da contradição entre campo e cidade — a qual implicaria, é evidente, na derrubada da modernidade capitalista e da civilização enquanto tal. Não pensou do nada, mas antes, a partir daquilo que mais era evidente: a relação entre o humano e a Terra, ou, melhor dizendo, entre espécie humana e crosta terrestre, por mais conturbada que esta se encontrasse naquele momento, e mais ainda no presente. Nenhum futurismo, como o mesmo expressa, com pílulas de nutrientes e tecnologia exarcebada irá nos salvar, tampouco alguma espécie de primitivismo paradisíaco do além.

Espécie humana e crosta terrestre

O argumento da "linha do tempo" precedente: utilidade pública, cocanha privada era intenso para ser claro como o dia — na presente economia social, a iniciativa e a escolha restam sempre aos caçadores do lucro especulativo, não só quando com os meios próprios e na própria sede fazendo-os em negócios privados, mas antes no caso das chamadas obras públicas, as quais a sede vem da autoridade ocupada "pelo movimento da utilidade geral" removendo o antigo solteiro possessivo.

A iniciativa, a escolha, a decisão sobre a oportunidade desta ou daquela atuação (estrada, ferrovia, obra hidráulica, obra de prédio público, recuperação de zona da cidade ou do campo, operação marítima e por aí vai) e a prioridade dum em relação ao outro parecem, mas não são, ditados por um centro que tem aquela visão suprema do interesse público. Sou inventado, sempre, idealizado, imaginado, lançado, empurrado, feito passar por instituições e conduzido à porta, ou como hoje é dito com eufemismo "jogado" — jogado no sentido próprio dos navios, e no sentido econômico e clássico "carregado" — por um grupo privado que tem feito seus cálculos e previsto um altíssimo lucro.

Ao contrário, enquanto pelos negócios no sentido privado absoluto é caro o financiamento e elevado o risco dum tipo de efeito desfavorável, a probabilidade que há colocado o útil crescente uma perda; no caso da obra dos negócios em que eles trazem a sagrada estimativa do bem público, é muito mais fácil de obter a boas condições a finança da antecipação — é quase matematicamente exclusivo que você enriqueça de benefício, não digamos negativo, mas limitado. Interesses passivos e eventualmente aumentos da despesa prevista a você é fato, em todo caso, meio de revelar-se sob o balanço da não menos clássica Calça: iria então bem lhe dizer: obra de utilidade privada e fraude pública. 

A questão não vale somente para entender os processos recentes da economia capitalista, vulgarmente desta economia controlada e direta, e que qualitativamente nada nos apresenta de novo, quantitativamente (por quantas inundações diariamente do mais) nada de imprevisível, mas conduz à imposição marxista geral do processo social e à demonstração do efeito universal, que de toda grandeza que otimiza o presente período capitalista, nenhuma tem sido tida como causa primária e empurrado como motriz outro fim que serve aos interesses da classe dominante, dos seus membros ou dos seus grupos, mas do benefício social geral.

A questão da qual falamos, também tratada limitadamente pela obra de transformação de prédios da grande cidade, sempre mais vasta e clamorosa na época contemporânea, sempre mais exaltada e estampada como obra-prima da civilização e da sábia administração, se conecta com aquela do alongamento do animal-humano sobre a terra, e a solução não civil e perfeita, mas insensata e deformada, que tem alguma presença no modo de produção capitalista. Somos completos no quadro da atroz contradição que o marxismo revolucionário denuncia como próprio da atual sociedade burguesa, e que não se limita à partição do produto do trabalho e aos consequentes relatórios sobre a produção, mas — inseparavelmente — se estende à deslocação geográfica e territorial dos instrumentos e plantas da produção e do transporte, e então do homem mesmo, que talvez em nenhuma outra época histórica apresentou características tão desastrosas e enriquecedoras.

ONTEM

Não é sem sumamente aproveitar o sol que citamos passagens nas quais Marx condena e zomba a concepção de Jorge Hegel; enquanto de acordo com os usuais amadores e facilitadores ele teria sempre manifestado por seu "mestre" o máximo temor reverencial.

A enrolação da qual andaremos nos ocupando em breve é para tanto que vale a pena reiterar que a subversiva e radical interpretação marxista do mundo humano, se pela estrutura ela mesma há feito tesouro de todo o vastíssimo resultado da época precedente (não deixando de lado a explicação de nenhuma enunciação e construção passada adiante, também as relativas à "cultura" burguesa com ar suficiente e presunçoso tolamente risível), uma variedade de professores sobretudo tem sido derrotada e dispersa: os filósofos do direito e os ideólogos da pessoa humana

No grandioso proceder de sua demonstração de que todo valor — na economia privada e mercantil — vai se misturando com o trabalho humano socialmente investido no "bem" de toda nossa estrutura, e quando todo acúmulo e reserva de novo valor e de nova riqueza deve corresponder ao trabalho desembolsado e "não consumado", ou a uma diferença mercantil entre o trabalho realizado e o quanto de subsídio deixado foi consumido pelo trabalho, Marx chega ao justo ponto de mostrar que a riqueza consumida, outra que a do proletário e do capitalista, mas do proprietário fundiário, não deriva daquela origem. Em termos econômicos: a renda fundiária não é senão uma parte do mais-valor, retendo ao valor gerado pela força social do trabalho.

Tal tese deve eliminar uma oposta (originária da escola fisiocrática) que afirma que riqueza e valor poderiam surgir da terra, ainda antes que dos aportes do trabalho humano.

No atual estágio histórico, e dada a medida da terra, da população e do alimento, ocorre de se fazer justiça de toda visão "arcaica" que apresenta uma humanidade pequena, serena e ingênua vivendo dos frutos caídos no colo das copas das árvores de vegetação espontânea, sob a qual estariam cantando e se beijando. Tanto se disse que aconteceu em Thaiti e em outros colares de ilhas do Pacífico, no clima de permanente primavera: mas com o tempo você somente articulou uma colônia moderna do capitalismo, e num lugar de amor aberto e gratuito que vêm importando amor mercantil e casas fechadas. Como bem disseram os franceses (o jogo de palavras está na pronúncia): Civilização e sifilização (sivilisasion e sifilisiasion) — carta moneta e espiroqueta pálido.

Marx descreve então o relatório do homem e da terra. Porém não é o homem Espécie, mas são os senhores Pessoas.

Marx imprime — e o falamos aprendendo firmemente — que ele trata da propriedade da terra tal como se apresenta quando o modo de produção capitalista é plenamente desenvolvido. Ele bem sabe que em quase todas as aldeias é sobrevivente outra forma da propriedade da terra: a feudal, que “pressupõe (...) que o produto direto seja (...) um simples acessório do solo (sob forma de servo da gleba, do servo camponês, escravo, etc...)”; e então há a característica da senhoria sobre uma massa de homens — aquela da propriedade parcelada, que supõe que “os trabalhos agrícolas não são estados expropriados de suas condições de trabalho” ou da terra e das ferramentas e ações.

Interessa então a Marx abstrair da tal forma pré-capitalista e considerar a agricultura organizada com a presença destes elementos: o proprietário fundiário, que recebe um cânone periódico do inquilino capitalista; este inquilino que possui o capital de exercício e paga o salário; e a massa de operários agrícolas. Marx diz que a tal fim lhe basta por sua pesquisa considerar absolutamente análoga a fazenda capitalista manufaturada e aquela agrária, o capitalista que produz manufaturados e aquele que produz alimentos: ou melhor, para ser claro, reduz a questão ao grão, nutrimento essencial do povo moderno. Deve-se somente explicar a função duma terceira pessoa, que falta na manufatura (em geral), mas que é sempre presente na agricultura capitalista: o proprietário; e indagar a fonte de seu benefício, ou a renda fundiária.

Também aqui é mostrado como, se o desenvolvimento do capitalismo impõe que se faça um quadrado puro da forma agrária feudal e da pequena propriedade, que juntam-se todos os servos da terra e se ruínam ao máximo os cultivadores diretos, capotando tudo no proletariado sem nem terra nem reserva (reserva é uma provisão de objetos de consumo, ou de dinheiro suficiente a se aquisitar quando não se há outra renda), todavia aquela forma individual de propriedade do solo compatível com o capitalismo completo não é senão pelo mesmo uma condição necessária. Em outras palavras: a propriedade fundiária desaparecerá antes do capitalismo industrial, e mesmo, como magnificamente ilustrado em passagens que vem do Antiproudhon de 1847 e numa das últimas cartas de Marx (lida na reunião de Milão, em setembro, do nosso movimento): a supressão da propriedade privada do solo não significa uma passagem ao socialismo:

“Certo, como veremos mais à frente, a propriedade fundiária se distingue das outras formas de propriedade pelo fato de que, num certo grau de desenvolvimento, essa parece superficial e danosa, mesmo do ponto de vista do modo de produção capitalista”.

Como foi dito em Milão, o "mais à frente" vem depois do dramático colchete quadrado de Engels que fecha o quanto falamos do terceiro livro (no capítulo 52°, enquanto estamos no 37°): “Que o manuscrito se interrompe...”. E nós sustentamos que a coroação da obra teve que ser o capítulo-programa sobre o falecimento social da produção capitalista ao socialismo.

Tornando, depois desta elucidação, sempre é necessário que se repita, certo o método que deliberadamente aplicamos, a definição marxista da propriedade sobre a terra, contraposta àquela da filosofia idealista, reportada em nota, não resta senão transcrevê-la:

“A propriedade fundiária pressupõe o direito monopolístico, da parte de certos indivíduos, de disporem de determinada porção do globo como da esfera reservada à sua vontade privada, com exclusão de todos os outros.”

E agora a nota:

“Nada é mais cômico do que o modo com o qual Hegel explica a propriedade privada da terra. O homem enquanto indivíduo deve dar realidade para sua vontade como animal de natureza externa [fazendo dessa vontade pessoal o animal da vontade externa], e então apreender a posse dessa natureza como sua propriedade privada. Se tal é o destino do indivíduo, do homem enquanto indivíduo, a consequência seria que todo ser humano deve ser um proprietário fundiário, por poder atuar enquanto indivíduo. A livre propriedade privada do solo — um produto muito moderno — não é uma relação social definida, segundo Hegel, mas uma relação entre o homem, considerado como indivíduo, e a natureza, o direito absoluto do homem de apropriar-se de todas as coisas (Hegel, Filosofia do direito, Berlim 1840, p.79). É, avançando tudo evidente que o indivíduo sozinho não pode, com sua 'vontade', afirmar-se como proprietário contra a vontade alheia que quer de mesmo modo tomar forma no mesmo brando da terra. Para fazer isto ocorre bem outra [coisa] que a boa vontade [que quer, quer dizer Marx, empregar com finíssima ironia o jargão hegeliano do qual 1840 é perfeitamente padrão, um bom fraco de espancamentos]. Não se pode além disso absolutamente calcular onde 'o indivíduo' colocará o limite da realização da própria vontade, se a existência de sua vontade se realizará em uma aldeia inteira ou se terá precisado de todo um grupo de aldeias para 'manifestar', apropriando-se, 'a supremacia de minha vontade em confronto com o objeto' (p.80). Aqui Hegel falha plenamente. 'A tomada da posse e da natureza de todo individual; eu não tomo posse que de quando se acha em contato com meu corpo, mas o segundo ponto é ao mesmo tempo que as coisas externas tem uma extensão maior daquela que posso abraçar. Quando eu possuo uma coisa, você é também uma outra coisa que a é coligada. Eu tomo posse com a mão, mas o raio de ação do mesmo ato pode ser ampliado' (p.90). Mas esta outra coisa é de novo coligada a uma outra, e desaparece como o limite entre o qual a minha vontade pode derramar-se como animal da terra. 'Se eu possuo qualquer coisa, a minha razão traz de súbito a dedução que é meu contanto que aquilo constitua progresso imediato, mas antes aquilo que se prova coligado. Aqui deve afirmar os seus princípios o direito positivo, porque nenhum outro pode ser deduzido de tal conceito' (p.91). Aquilo constitui uma confissão ingênua do 'conceito' [Marx continua] e demonstra que o conceito, o qual comete em parte o erro de considerar uma conceção jurídica da propriedade fundiária bem definida e aparentemente à sociedade burguesa como uma conceção absoluta, não compreende nada da forma efetiva desta propriedade fundiária. Você acha ao mesmo tempo contida a confissão de que os motivos precisos do desenvolvimento social, ou econômico, possuem e devem portar o 'direito positivo' a modificar seus princípios.”

Finaliza a importantíssima nota de Marx.

A especulação idealista aproxima a vã relação entre a pessoa e a coisa-terra, e a descreve como uma projeção do primeiro dos misteriosos fluídos da vontade-magnetismo. O marxismo coloca saindo antes os fetiches da pessoa, e aproxima então o proceder histórico, grandemente variável, das relações entre o homem, como espécie e como sociedade, e a produção agrária, e ao final o estabelece positivamente na sua realidade de relações entre classes de homens, que nela a produção rural têm diversas tarefas e se repartem variavelmente o produto e os benefícios. A super-impotência do filosofar e da filosofia burguesa!

Estes passam de Hegel, e a rude massa apontada pelo estudante Carlos [Marx], vem bem a mostrar o quanto de fedor do hegelianismo vem do volumoso grito dos stalino-torino-marxistas [marxistas stalinistas da região de Torino]. Quando um autointitulado marxista tiver sacrificado a isto devido à pestilenta tese: a dignidade da pessoa humana, de um canto, e a divisão da terra dos agricultores do outro, não atendendo à bobagem: tudo já terá sido cortado.

No capítulo estudado, Marx não faz senão acenar à precedente história da ocupação, da organização da terra por parte do homem, antes da presente fase capitalista. Ele todavia esclarece ao início que não se trata dum simples "direito de superfície", naquilo que o atual direito positivo estabelece como propriedade do solo, transmissível com um intercâmbio contra o dinheiro. Trata-se dum estágio do alongamento da planta humana na "crosta" terrestre, ou um extrato que se estende no subsolo e no suprassolo. Marx, enfatizo, adverte não somente que na palavra terra ele compreende também as águas enquanto economicamente utilizadas, mas trata, desenvolvendo a teoria da renda fundiária, não apenas daquela que se tomava do cultivo dos campos, mas antes das minas, do solo edificante, das construções de prédios e de todas as outras plantas fixadas ao solo, e que se davam acima ou abaixo.

A utilização de toda esta forma exige o porte dum capital financeiro para semear, lavrar, colher, escavar, edificar, etc. O direito do "imóvel" que inscreve cada trama a um padrão, estabelece que o empreendedor que tem recolhido o capital não pode iniciar a empresa se não tiver permissão de cruzar os limites do perímetro e colocar-se na obra, aduzindo os seus salariados e assalariados. Ele abre assim uma brecha de tempo no monopólio do possuidor, ao qual o "direito positivo" — salvo aquela suprema fineza da expropriação forçada — não pode vetar de colocar-se no meio legal com uma cadeira ou espreguiçadeira e a pança ao sol, ou lua, que seja, somente a proteção dum cinto ou duma série de sinais: "vetado o ingresso".

Um monopólio, então, e não uma propriedade como aquela dos objetos de consumo. Ora, a permissão de romper ou interromper o monopólio deve ser paga: e o empreendedor capitalista versa o aluguel anual. Ele ganhará tanto de menos, tirando essa soma do valor total que terá ao todo, quando terá pago 1.000 de capina e vendido 2.000 de grãos. Então a terra, por si, e até a caloria que o solo irradia, não rendem nada para aquele da cadeira e da espreguiçadeira; e no entanto ele devora a renda, enquanto a mesma é direito estatal do valor-trabalho, saindo fora daquele que danou as costas e não a pança ardente do sol e despedaçada, pingando suor, o ventre fecundo da terra virgem e não-mãe.

Marx demonstra que a mesma lei da descida do texugo do valor do capital, além de todos os outros fatores, exalta o máximo valor do monopólio fundiário, e que a exaltação é em estado máximo pela forma não puramente agrária, como a mina e o solo edificante, sobretudo na grande cidade.

Somos nós que, depois de prosseguir e de chegar com Marx à demonstração que a relação moderna entre o homem e a terra é a pior, quanto a tipo de utilização, também de "equipamento" em meio de muitas várias plantas, da casca terrestre, percorremos com escassos recordes a história humana da conquista da crosta, cercando nesta não a tomada mediana do ato de vontade, mas os efeitos físicos do trabalho e do esforço de gerações, feito não porque em princípio fosse a região ou a consciência, mas porque em princípio era o necessário, e nos vários estados de desenvolvimento variavelmente se proveu da coletividade humana à própria segurança, vida e multiplicação, e com várias histórias de sucesso ou de catástrofe.

Não é o homem o único animal que deixou rastros na crosta da terra, e não se limita a percorrer com passo leve no qual ele lambe apenas a superfície limite, deixando rastros não muito maiores do nado do peixe na água ou do vôo do pássaro no ar. Em certo sentido o homem é inferior, e o sonho de Leonardo [Da Vinci] não é ainda bem-sucedido e desprendido do solo, com sua força muscular e não com veículos, que de resto deixa inaugurar a uma ovelha. Na água as suas melhores ações não têm consentido a Piccard quaisquer centenas de metros, enquanto a vida pulsa na batisfera e talvez você tenha se originado. Na crosta sólida, se talvez ele espere o primado entre a espécie zoológica, não foi todavia o primeiro a deixar pegadas de vazio ou de crias, porque muitos animais percorreram com galerias no subsolo, e a misteriosa planta-colônia animal, o coral, construiu com seu cadáver calcário, mas que os nossos edifícios, verdadeiramente isolados que consideramos como parte integral do esqueleto geofísico.

Se o homem então foi antes nômade até ao lado das bestas e logo não teve interesse algum em fazer "plantas fixas", de modo que seu primeiro ato de vontade — como havia dito Hegel — não deu alma ao solo, à placa e à pedra, mas somente a um ramo rasgado como porrete ou então uma pedra cortada por um machado, era o estado já produzido dos outros seres "colonizadores" da crosta e autores da "obra estável", e não somente dos seres fixos, mas dos seres autopropulsados em qualquer caso, se é verdade que o castor tem uma habitação e o elefante um cemitério.

Deixamos o nômade que na sua crosta terrestre deixa somente lábil rastro dificilmente disperso, e viemos à primeira sociedade fixa. Distante a ideia de traçarmos a história; correram milênios porque somente a pressão do aumentado número e por efeito do primeiro recurso técnico do trabalho, iniciou-se a construção verdadeira e própria que andava além da tenda do beduíno ou do sino de gelo de Lapão. O homem fora levado a escavar dentro da terra, antes de tudo, a pedra e os cimentos que lhe serviram e erigiram sobre a terra a primeira casa e edifícios diversos, e imprimiu sob a crosta selvagem a primeira estrada, os canais, e tantas outras estações e pistas que superaram séculos e séculos do furo do tempo cancelado e avulso.

Até a produção prevalente era aquela agrária, a densidade da população baixa, as necessidades limitadas, e todavia era já afirmada a exigência da sede territorial fixa e da estabilidade deles, não somente contra a calamidade natural mas também contra a ofensa e a invasão ou destruição de outros grupos humanos, e foi apenas embrionário o escambo de produtos entre terra e terra, o tipo de "equipamento da crosta terrestre" da parte da sociedade humana tinha a marca duma pouco profunda intervenção. A parte da grande longa maior do espaço necessário ao povo não tinha outra intervenção que o cultivo, que comporta o roubo por poucas palmas, concordando sem dúvidas em negligenciar os terrenos pouco férteis ou inseminados dos períodos de alagamento, malsania pantanosa, furiosas ventanias e marés, escassez de chuva, de altimetria e coisas do tipo.

Entre os campos cultivados, algumas rudimentais habitações dos agricultores, uma modesta rede de estradas de pedestres ou de caminhada com montagens, escassas obras hidráulicas de subsídio à técnica rural.... Às vezes um castelo, no qual residia um senhor ou um capitão de [forças] armadas, e mão a mão em torno deste as casas dos aldeãos e dos primeiros artesãos. No Medievo, mais ainda nos tempos clássicos, alguns, pouco populados, distante entre eles e a cidade, coligavam da via mais insegura e percorriam trilhas puxadas por meio de animais — pouco importantes fins ao menos no décimo segundo século [foram] as cidades marítimas e portuárias pela escassa incidência na economia geral do tráfego de navegação, por antigas que são as empresas então estupefadas de algumas populações costeiras.

Decididamente a população espalhada prevalecia sobre a população aglomerada.

Conhecemos esta música da sinfonia iluminista — uma das mais tolas: é a aglomeração da cidade que têm desenvolvido a escola, a cultura, a civilização, a participação de todo o povo à vida política, à liberdade, à dignidade da pessoa humana! Estamos sempre lá. Mais vendem-se indivíduos amassados em migalhas e em milhões em tocas fedorentas, em matadouros militares, em quartéis e prisões, quanto mais eles vendem por multidões reduzidas em cogumelos pela bomba não atômica e atômica, tanto mais a farisaica adoração do indivíduo espalha e atormenta!

Mas a aglomeração urbana, antes de tudo, desenvolve epidemia e pestilência, superstição e fanatismo, degeneração física e criminal, formação do Lumpenproletariat e das camadas do crime deteriorantes que comparam-se com aquelas do banditismo da estrada principal de um século atrás, escalada assustadora de todas as estatísticas da delinquência, e muito mais nas aldeias progredidas e ricas do que nas atrasadas, e sobretudo naquelas com a unidade urbana mais grande.

Não trata-se aqui de fazer uma apologia à situação atual das massas no campo, sendo raros os exemplos dum verdadeiro proletariado agrícola que seja bem alojado em habitações modernas espalhadas pelo seu território e não à sua volta aglomerados em centros grossos de outros 50 mil habitantes. Por mais que então reflita o pequeno cultivador direto, habitante duma casa-cabana sob seu pedaço de terra, menos que nunca este oferece-se ao tipo desejável. Desta camada da população, cujo hoje vêm ao mesmo tempo sendo as Hosanas dos fascistas, centrocatólicos e falsos esquerdistas que são os democratóides e stalinistas, eis aqui o que diz Marx:

"A pequena propriedade fundiária cria uma classe de bárbaros que são pela metade de fora da sociedade, que uniram toda a rudeza das formas sociais primitivas com todas as dores e toda a miséria dos países civilizados."

Mas (e se for capaz de ao seu tempo completar o melhor desenvolvimento deste quadro), não aconteceu de melhorar para a grande propriedade rural e para a indústria moderna. A primeira conduz à progressiva redução da população agrícola e da fertilidade do solo, a segunda destrói "a força de trabalho e então a força natural do homem". Nesta ferem a mão, acrescenta Marx. E para eles, como para nós, pior da rudeza sã e vigorosa da população bárbara é a degeneração das massas na época capitalista, que os nossos inimigos chamaram com o vocabulário de civilização; aplicando bem e em senso próprio porque eles querem dizer o modo urbano de viver, o modo próprio de viver dos grandes monstros aglomerados que é a metrópole burguesa.

HOJE

Não delineamos aqui o urbanismo e seus efeitos em todo o desenvolvimento social, mas na base "técnica" do modo de organizar o solo terrestre, porque, cessando de ser um espaço apenas ralado para o cultivo, é atrasado no íntimo com todas as plantas gerais completas que serviram a criar a plataforma dos edifícios completos; e têm estrada, esgoto, distribuição de água, eletricidade, gás, para luz, calor e comunicação de todos os gêneros, transporte público de todos os tipos. Ao fim dos tempos antigos, os espaços náufragos da cidade decaíram ou arrasaram ao solo da devastação, malgrado a menor densidade e intimidade das plantas com o subsolo, restando aridez e inadequação em toda cultura, um oásis de deserto em meio ao campo cultivado. Então o espalhar da cidade feriu o campo, que acompanha o afluir com um movimento inverso dos homens na primeira, comporta uma diversificada e muito profunda maneira de transformar a "crosta terrestre" da parte do homem, e desta diversos feitos tecnológicos surgiram e novos relatórios econômicos de valor e renda que Marx e Engels definiram, e não surgiram os relatórios sociais — e os programas de revolução social.

Ao sentir a técnica moderna, o sistema das grossas concentrações é "econômico" quanto à despesa que ocorre, em todos os sentidos, pelo "sistematizar a população no território de sua sede". Mas econômico por essa significa adequado ao perfil e ao monopólio da classe dominante. Esta ri ao ver propor como o melhor uma sistematização esparsa e mais uniforme, e pretende que seria uma "falsa despesa" a ramificação em tal caso bem diversa de todos os sistemas adutores e descarregadores de casos e de pessoas. Mas o nec plus ultra da prosopopéia é na ciência aplicada, que ostenta um incessante progresso, mas tende sempre demais a uma pilha de mentiras, de cálculos e deduções conscientemente errôneas, e a um emaranhado tremendo de superstições e senso comum, sob a pressão dos afazeres.

A Itália, país lotadíssimo, tem 150 habitantes em média por quilômetro quadrado. Mas na cidade, ao menos no núcleo desta, e sem considerar os mais desgraçados, são 400 habitantes num hectare, ou seja, 40 mil num quilômetro quadrado: então a densidade é de outras 250 vezes maior que a média, e em relação ainda mais elevada é a densidade média da cidade com aquela média rural. Enquanto a "política econômica" do capital tende a exasperar ainda o tremendo contraste, a política revolucionária o levará de frente com medidas radicais.

A engenharia moderna pretende ter realizado obras-primas com as massivas plantas unitárias por regarem uma cidade, iluminarem-na, moverem os seus transportes congestionados, manterem a estrada e o resto, remover e desperdiçar destruindo-os por fazerem-se inofensivos, ou mineralizando a parte orgânica ou levando-os para longe, nos grandes rios ou no mar, e naturalmente despreza o tipo de organização rural no qual em todas as fazendas, ou em grupos limitados, resolvem-se com meios quase que "naturais", por exemplo, a provisão d'água ou o serviço de disposição de desperdiçados.

O jovem fresco de grau e leitor da revista aggiornate [atualizações] torceria então o focinho se lesse a passagem de Engels que se segue (A questão da moradia, 1872) e condenaria-o como atrasado e "superado" pelo tempo e pela genial aplicação moderna. Engels rebate ao que havia dito que é uma utopia a abolição do contraste entre cidade e campo, porque é natural, ou melhor dito, comprovado historicamente que... :

"A abolição da antítese entre cidade e campo não é uma utopia, nem mais nem menos do quanto seria a abolição da antítese entre capitalistas e assalariados. Esta torna-se todo dia de mais uma exigência prática da produção agrícola e industrial. Ninguém lhe há solicitado mais do que Liebig nos seus escritos sobre química aplicada na agricultura, na qual ele negligencia continuamente a exigência de que o homem retornasse à terra que lhe leva, e na qual [ele] demonstra que o único obstáculo para fazê-lo é dada a existência da cidade, e especialmente da grande cidade".

Liebig! dirá o usual jovenzinho, mas que velharia! Quantos dados faltaram-lhe, que nós hoje temos depois dum século ou quase de pesquisa em todos os campos, químico, biológico e agronômico! Liebig vem citado também [junto] de Marx, e se ainda hoje merece mais fé dos universitários modernos, é porque tantas outras experiências modernas deram a eles uma falta notável: aquela dos prêmios ou salários... da parte de Montecani ou de Agfa:

"Se considerar-se que apenas aqui em Londres produz-se uma quantidade de fertilizante animal mais grande que qualquer produto de todo o reino de Sassonia, fertilizante que dia após dia vem em imensidão no mar e que esta costa é fabulosa; pensa-se as gigantescas plantas que fizeram-se necessárias para impedir que este fertilizante atormentasse a toda Londres, e verás que esta utopia da abolição da antítese entre cidade e campo assume uma notável prática. E também em Berlim, que em confronto é pequena [certamente não hoje, 1952], de ao menos trinta anos é sufocada ao fedor do seu mesmo desperdício. Doutro lado, é por sua vez duma pura utopia pretender, como o faz Proudhon, de reformar a sociedade burguesa e de manter a agricultura como é hoje. Apenas uma distribuição o mais uniforme possível da população sob todo o território, apenas uma íntima coordenação da produção industrial e daquela agrícola, acompanhadas da extensão da rede de comunicação que assim se faz necessária — considerando efetuada a abolição do modo de produção capitalista — são um grau de rompimento da população agrícola do isolamento e do abrutamento no qual essa vegetação quase sem cambiamento deu-se em milhares de anos".

Não deve crer-se que seja superada a tese de Liebig pela qual os ciclos de rotação de matéria orgânica necessária à vida caiam em passividade se renuncia-se à excreção humana e em parte animal. A renúncia é esta feita e passada em julgamento segundo uma artificiosa higiene edificial, que iria contra os ditados do valor especulativo se revogasse em dúvida que massas imensas de homens devam ser assalariados dentro de zonas arrendadas no subsolo da malha dos serviços urbanos e passadas a uma respiração do "pulmão de aço".

Todas as pesquisas modernas sob perspectivas da produção de alimentos em razão da população crescente, levando em conta a terra cultivável e o cálculo energético do aquecimento e dos químicos disponíveis, concluíram pela próxima deficiência de alimentos. Pensa-se que uma compensação será somente encontrada com meios adequados extrativos nos "planktons" da água marinha, ou nos corpúsculos dos animais aquáticos espalhados no mar, dos quais se resultaria uma espécie de caixa de conserva. Pode-se antes prever que, graças antes à transformação infraatômica, a química sucede na síntese das pílulazinhas nutritivas. Mas o fato é que à parte desta visão futurista (eles chamam a resposta da senhora cujo explica que no futuro as crianças serão feitas em laboratório: estou admirada, mas penso que retornará-se sempre com prazer ao antigo sistema!), hoje a circulação entre terra agrária, animais e homem cai em defeito sobretudo de substâncias nitrogenadas.

Porquê então segurar em não importância a perda enorme dos atuais sistemas esterelizantes de esgoto (à esterelização basta a forte diluição dum tempo de poucas horas), dado antes que as ações minerais de fertilização são por algum tipo de via de exaustão? A espécie humana destruiu então massas inumeráveis de calorias dos setores vitais, como faz com a conservação dos mortos. Não deve-se temer que, como os nazistas, passemos a industrializar os cadáveres: tanto que a soma dos excrementos dum homem na vida média é umas 300 vezes o peso de seu corpo. Mas substituindo os cemitérios com outro dispositivo, antes mineralizante, ganha-se terreno cultivável: hoje seria então para os construtores glutarem terreno edificável — mas não se iludam, não quebraremos tal galho a eles.

Somos então, com Marx e Engels, no tema não de utopia, não de hipóteses vagas, mas dum preciso programa social pós-revolucionário e pós-capitalista, ao prever os primeiros "projetos" unitários para a chegada à rede uniforme de equipamento da crosta terrestre, na qual nós os homens não seremos mais nem vilões nem cidadãos. A democracia burguesa horroriza-se, que à maior libertação da cidade iremos passar a adicionar a liberdade... de fertilização. Essa temo feito reduzir à liberdade de respirar. A névoa preta [que] desceu sobre a grande Londres havia arrastado, por semanas, toda atividade, pois depositava nos pulmões de que se aventurava pelas vias o pó do carbono mineral das milhares e milhares de chaminés concentradas ao redor da metrópole, e renderam perfeitamente inúteis os magníficos sistemas de iluminação, de transporte, e toda planta do trabalho; tanto que os ladrões e vândalos não têm lucrado muito.

Somos então bem outros do equilíbrio entre "interesses" do homem da cidade e daqueles do campo, dos quais daquela última declaração de Stalin. Este é um postulado em vão após o capitalismo, enquanto aquele da revolução socialista é na superação das classes sociais, e então a possibilidade que grupos sociais assegurem-se melhor e benéficamente em detrimento do outro grupo.

Não trata-se mais duma questão de repartição dos frutos duma agenda como que irracional, como é a crosta do nosso planeta a qual é voluta do sistema capitalista e de seus efeitos de pretensa modernização dos sistemas mais antigos. Não trata-se mais da economia entendida como litígio em torno da riqueza de bens ou de monetário; trata-se fisicamente de introduzir um todo diverso modo de equipamento técnico do solo, do subsolo e do suprassolo, onde talvez a fins arqueológicos irão todos tanto à pé das obras-primas do tempo burguês, a lembrar para aqueles que a secular obra, partida da explosão revolucionária mundial, terá se completado.

Il programma comunista, n.6 de 18-31 de dezembro de 1952.

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