Uma releitura do pós-modernismo através da Wertkritik


Aqui propomos uma releitura do que se entende por pós-modernismo através da Wertkritik, ainda ecoando em Heidegger e agregados.

Kurz, em seus estudos acerca do processo modernizador, forneceu-nos bases necessárias para uma nova compreensão do que se entende por "pós-modernismo". No entanto, limitado pelas condições que vigoravam no pensamento contemporâneo e sendo incapaz de elevar certos aspectos de seu pensamento às suas lógicas consequências, permaneceu numa superficial compreensão de tal fenômeno, e opôs-se ao mesmo. Talvez isso se dê, principalmente, pelos autoentitulados "pós-modernos" que afirmavam que já havíamos atingido a pós-modernidade, que o processo modernizador já havia chegado ao seu fim. De certa forma, até hoje essa estúpida crença se perpetua, dificultando o entendimento da autêntica γιγαντομαχία sob o pensamento e a teoria que estamos presenciando.

Talvez devamos começar questionando: o que é o processo modernizador? O que é a modernidade? O que é o modernismo?

Em Canhões e capitalismo, Kurz afirma que a invenção da arma de fogo foi o que "abriu os portões" para o processo modernizador. Sem seu advento, este não seria possível. A arma de fogo foi responsável por uma completa reorganização das instituições políticas e militares; desde então, nenhum conflito, guerra ou disputa jamais foi o mesmo. No entanto, portões abertos não significam que o processo ele mesmo já tivesse ali seu início, significam apenas possibilidade. Abram os portões do rancho, mas isso não é garantia que bois sairão dali, pois para saírem, é necessário antes haver bois, e haver para onde saírem. As bases do processo modernizador estavam dadas, porém ele não tinha ainda uma forma, não tinha uma estruturação propriamente, precisava ainda dum impulso, um conteúdo, algo que estourasse-o. Séculos depois, o iluminismo é aquilo que dá a este sua forma. Através do iluminismo, o processo modernizador tem seu início, recebe uma forma, explode. E com isso, inicia-se a modernidade. Para onde o processo modernizador avança, lá chega a modernidade.

Já havia um longo tempo naquele momento, o sistema do capital havia surgido. Com o processo modernizador, o sistema do capital sintetizou-se, através da modernidade, naquilo que hoje conhecemos como capitalismo — a partir daí, desenvolve-se também a Revolução Industrial, que eleva o mesmo para outros patamares. Os bois, ao serem inventados, tinham para onde sair. Não à toa, tomando Adorno e Horkheimer, Kurz afirma que toda crítica ao iluminismo é também uma crítica à estruturação do capitalismo, e vice-versa.

O iluminismo chega eventualmente ao fim, e a ele sucede o modernismo — moldado a partir do processo que o iluminismo deu início. Para alguns, tornou-se difícil distinguir um teórico iluminista dum modernista. José da Silva Brandão, por exemplo, afirma em sua introdução à Essência do cristianismo que “Feuerbach foi um iluminista”. De fato, Feuerbach mesclava muito com o iluminismo, mas isso era apenas uma consequência do período em que viveu, onde o modernismo estava ainda apenas em seu início, e o iluminismo já era hegemônico no campo teórico. Feuerbach foi um modernista, sem sombra de dúvidas — iluminista, porém, jamais.

Ao final de O colapso da modernização, Kurz afirma a necessidade duma oposição à razão abstrata dos iluministas. A razão abstrata foi essencial para a fundamentação das relações mercadológicas hoje vigentes. Foi graças a ela que pudemos observar o surgimento da primeira forma de identidade, no dinheiro. Espantem os filósofos e os pensadores, mas uma identidade foi possível com o advento da modernidade — ao custo, porém, da nulidade. O dinheiro, aqui não se refere às cédulas e demais representações que podemos tocar, palpar e, até mesmo, comer — sob a perspectiva de que tudo é comestível, mas que há coisas que somente uma vez na vida podemos comer. Mas sim, à abstração que se encontra na forma do dinheiro. O dinheiro possui identidade em si, porém é uma identidade nula — a nulidade provinda de sua abstração generalizada é o que possibilita a identidade. O dinheiro nas civilizações anteriores era apenas um meio de troca, o processo modernizador o fez chegar a outro patamar. Uma vez chegado aí, o dinheiro reflete as demais relações da sociedade, que passa, então, a buscar a identidade. Neste momento, surgem as ideologias — falsas consciências que almejam uma forma de identidade. Tudo que é ideológico, cai no modernismo, e o modernismo ele mesmo é ideológico. A hegemonia passa a se transformar. Aquilo que era concebido como hegemonia anteriormente, agora muda. A hegemonia torna-se ideológica. Em suma, a razão abstrata iluminista é o que possibilita o surgimento dos ideologismos, novos hegemonismos, identitarismos, mimimimismos e todo o mais. Ao voltar-se contra a razão abstrata iluminista, que é a origem de tudo isso, voltamo-nos contra o modernismo e contra a modernização. A questão agora é como se dá tal voltagem contra. Nisso, proponho entendermos o seguinte: ao voltar-se contra, porém ainda inserido e preso à razão abstrata, ao racionalismo e ao iluminismo, desenvolve-se um modernismo contramodernista — que é o caso de Marx, por exemplo —; ao voltar-se contra, porém, num movimento de superação determinado, desenvolve-se o pós-modernismo.

O erro de Kurz consiste em entender que o pós-modernismo seria uma suposta identidade surgida em torno da crença de que já teríamos atingido o período pós-moderno. E, de fato, para alguns autores de seu tempo, assim o era compreendido. Não somos pós-modernos, pois ainda estamos inseridos na modernidade. Porém podemos ser pós-modernistas, no sentido de movimento de superação do modernismo e de suas bases. O pós-modernismo não é uma identidade, mas um movimento de superação das identidades; o pós-modernismo não é uma ideologia, mas uma bandeira a ser hasteada. Assim também são seus filhos, tal qual o pós-marxismo. O processo modernizador está chegando ao seu fim, estamos nos tempos finais do capitalismo, apenas experienciando seu longo baile de despedida de crise constante — nisto, um novo espectro ronda a saída do cemitério onde o baile ocorre, o espectro pós-modernista.

Evidentemente, o capitalismo está colapsando, numa fase de constante crise, e, hora ou outra, ele e o processo modernizador deverão chegar a um fim. A emergência do aquecimento global é uma evidência disso. Porém, o fim do capitalismo não significa socialismo, ao contrário do que os esquerdo-otimistas gostam de imaginar. O fim do capitalismo pode muito bem nos conduzir a um sistema muito pior. O sistema do capital já precedia ao capitalismo — quem garante que não continuará existindo após seu final? Além do mais, o processo modernizador chegar a um fim não quer dizer que o processo civilizatório também chegará. A modernização acaba, mas a civilização não necessariamente. E, havendo ainda civilização, estaremos em grandes problemas. Tampouco o fim do capitalismo quer dizer fim da propriedade privada. Portanto, é necessário lutar contra o sistema de modo radical, e não apenas atacando a forma que ele atingiu, mas também, as suas bases e raízes — a propriedade privada, o trabalho, a civilização, etc... Do contrário, ainda estaremos sujeitos à dominação e à opressão, apenas transformando o modo destas. Tendo isso em vista, o pós-modernismo não pode se contentar apenas em ser contramoderno, mas deve passar a ser, também, contracivilizatório e socialista — e, em certa medida, já se dirige neste caminho.

O grande conflito, a γιγαντομαχία que hoje encontramos, não é entre esquerda e direita — espectro que há muito já perdeu qualquer significado —, mas sim, entre modernismo e pós-modernismo. Esquerda e direita inicialmente surgem para distinguir aqueles que eram mais próximos dos jacobinos e aqueles que eram mais próximos dos girondinos — foi, talvez, a primeira composição ideológica frente ao processo modernizador, surgida com a Grande Revolução Francesa. A partir daí, o espectro esquerda-direita passa a se transformar em algo completamente abstrato e identitário, refletindo perfeitamente as relações do dinheiro que hoje encontramos. Chega até mesmo ser absurdo querer reduzir todo um pensamento e uma luta a um espectro abstrato e ideológico, vazio de significado. A existência de esquerda e direita apenas sustenta a razão abstrata, é essencialmente modernista. Aqueles que ainda sustentam tal espectro, ainda de prendem ao modernismo. Chego a um liberalóide médio, e lhe pergunto: o que define esquerda e direita? Há de me responder algo relacionado ao Estado. Quanto mais se volta contra o Estado, mais de direita; quanto mais apoia o Estado, mais de esquerda. Porém o liberalóide não para pra se questionar o que é o Estado moderno, ou, mais ainda, o que é o Estado propriamente dito; tampouco para pra analisar sua composição, aquilo que o fundamenta — assim sendo, como pode ele determinar o quanto alguém defende o Estado ou não? Os marxistas acreditam lutar contra o Estado, porém mais fortalecem o mesmo do que qualquer coisa — quantas vezes o assim chamado "movimento operário" ajudou as forças capitalistas e estatais a se desenvolverem mais do que elas mesmas seriam capazes individualmente? Já os liberais, imersos nas atividades estatal e corporativa, não reparam na ligação entre ambas, e também ajudam a fortalecer o Estado mais do que qualquer coisa. Agora, chego a um marxista, populista ou trabalhista médio — no fim das coisas, os três dão no mesmo — e faço o mesmo questionamento. Hão de responder algo como: o espectro se determina na causa "do povo". Quanto mais próximo das "massas" e "do povo", mais de esquerda; quanto mais distante e mais próximo dos interesses da burguesia, mais de direita. Mas, como se determina de qual destes se está mais próximo? Como saber se realmente se representa em sua luta a causa "das massas"? Para isto, não teriam as massas elas mesmas de, espontaneamente, compor a luta? Mas isso contradiz à ideologia destes — basta observar a UP e demais partidos, que se autodeclararam os grandes representantes das massas, mas negam os impulsos espontâneos destas e visam se colocar acima. Além do mais, estes que se declaram de esquerda e acreditam estar mais próximos "do povo", por alguma razão, possuem quase sempre inclinação para a atividade partidária, que visa se colocar acima do povo e dominar o movimento revolucionário tal qual empresas em frente ao mercado. Hoje, no Brasil, os partidos de esquerda são todos empresas, e tentam transformar o movimento e a luta numa expansão mercadológica. Basta um impulso espontâneo surgir, uma movimentação popular se iniciar, e tão logo os partidos de esquerda estarão disputando para ver quem o domina primeiro. Com o advento da luta contra a 6x1, o PSOL tentou tornar-se em proprietário desta, com Rick Azevedo tentando, até mesmo, patentear a VAT. Uma vez tornado o movimento revolucionário em objeto de disputa e de propriedade, não estariam os partidos de esquerda se afastando da "causa do povo"? Poderíamos ainda passar um longo texto discutindo a ausência de sentido do espectro, mas seria desnecessário, afinal, as ideologias não se propõem a ter sentido e condizência, e sim a falsear e velar a consciência. Pasme Chantal Mouffe, mas não pode haver diálogo partindo de identidade e ideologia.

A raíz do iluminismo está no racionalismo. Com o início do processo civilizatório, no Império Romano, surge o racionalismo. Apesar de estúpido, o racionalismo romano ainda era, em certa medida, provindo da realidade, determinado por esta. Já o iluminismo transforma tal racionalismo num racionalismo abstrato. Uma vez tendo o feito, então passa ele a determinar a realidade, e não o inverso. O Cogito ergo sum é um exemplo. Devemos virar tal relação do avesso — não no objetivo de retomar o racionalismo pré-iluminista, mas de destruir o racionalismo como um todo, começando por suas abstrações no momento vigentes. Heidegger dá um grande passo em relação a isso, invertendo o Cogito ergo sum em Sum ergo cogito — não apenas o faz, como vai além, retomando Parmênides e afirmando o Cogito como possibilidade somente através do Sum. Pensar é ser. Nesta relação, o ser envolve o pensar, e não o contrário. O pensar é uma consequência de sermos. Somente podemos pensar a partir do momento em que somos.

Como racionalismo, o iluminismo pode pouco ser considerado como filosofia. Filosofia requer pensamento, e racionalizar, tampouco raciocinar, não qualificam pensamento. A tradução da afirmação do humano em Aristóteles ao latim como Animale rationale é errônea. Um cachorro é capaz de raciocinar. Se pego uma bola e finjo jogar repetidas vezes, então repetidas vezes o cachorro irá atrás dela, até perceber que em nenhum momento a joguei de verdade, e parar — ali ele raciocina. Seria, por isso, o cachorro um ser pensante? Certamente que não. A atividade de pensar é diversa da atividade de raciocinar. O que é pensar? Heidegger afirma que, ao longo da história, muito se agiu, e pouco se pensou. Na sociedade de hoje, mais evidente o é. Nós raciocinamos, aviamos e damos-a-pensar, acreditando que, através disso, estamos pensando. Ao fazer um esforço do que acreditamos ser "pensamento", na verdade estamos apenas racionalizando — e isso revela novamente a influência do iluminismo nos dias de hoje. A verdade é que, na escola, aprendemos muitas coisas, mas pensar não é uma delas. Não sabemos pensar. Aquilo que hoje entende-se como "pensamento" é vazio. Aviar, dar-a-pensar, raciocinar, racionalizar, nada disso caracteriza pensar. Uma vez não havendo pensamento, não há filosofia. Arendt afirma que não havia filosofia entre os romanos, que não houveram filósofos entre estes. Do mesmo modo, a maioria dos estóicos não poderiam ser considerados como filósofos, pois partiam dum princípio de racionalidade, e não de pensamento. A ciência parte da vigência, de forma racionalista e categórica, essencialmente mecânica — e até mesmo necrófila —, portanto, é impossível se falar de pensamento científico. A ciência não pensa, se submete. Pode-se falar de raciocínio científico, racionalismo científico, mas pensamento científico, isto é uma impossibilidade. Pode-se falar de pensamento artístico, de pensamento filosófico, de pensamento matemático, de pensamento político, de pensamento psicanalítico ou do que for — mas científico, não. Uma vez o racionalismo sendo dominante em nossos tempos, surge a tentativa de arrastar o pensamento para a ciência, de transformar os diversos campos do pensamento em científicos — isto é, fazê-los abandonar a posição de pensamento. Nas escolas, a filosofia passou a ser tratada como "a primeira das ciências". A matemática foi transformada única e somente num estudo dos valores abstratos impostos pela lógica moderna, tornou-se vazia e presa à posição de ciência — uma vez o valor do dinheiro sendo uma completa abstração da nulidade, algum campo de investigação havia de se transformar num aparato para que este adquirisse sentido. A psicanálise, ao surgir, tentou se legitimar através da colocação dela mesma em posição de ciência a todos custo — tentativa falha e até mesmo estúpida de Freud. A política, então, nem se fala. É preciso libertar o pensamento humano do racionalismo e do cientifismo. É preciso libertar a política, a matemática, a filosofia, etc. Coisa que, situando-se no modernismo, é impossível, e que, por conseguinte, torna-se urgente sua superação. Hoje, uma teoria só é validada a partir do momento em que é considerada científica — por isso a filosofia e a arte são tão desprezadas na maioria das vezes, consideradas como coisas distantes ou alheias à realidade. Lacan afirma que a fórmula do "ateísmo" hoje presente não é de que Deus está morto, mas que Deus está inconsciente — a ciência é o novo Deus, o Deus racional.

A ratio romana encontra sua derivação a partir da νοείν do antigo grego — e não do λόγος, como apontava Cícero. Νοείν é a faculdade do perceber, na qual, capta-se a algo, e, captando-o, destacá-lo, e, destacando-o, torná-lo em vigência da percepção. A razão é precisamente isso: uma faculdade do perceber. O cachorro capta, destaca e torna em vigência da percepção a bola e o jogar desta, até se tocar de que não estava sendo jogada de verdade. Portanto, raciocina. Raciocinar é uma capacidade básica que qualquer bicho possui. Agora, precisamos apontar a diferença entre raciocinar e racionalizar. A racionalização, da qual se deriva o racionalismo, é um desenrolar a partir da razão, visando a Veritas. Percebo a algo, e através desta percepção, desenrolo o que me parece a Veritas, a verdade latina, a "razão" consciente, na qual um objeto está em concordância com seu próprio conceito. Neste movimento de racionalização, mais velo e encubro do que desvelo e desencubro — portanto, a racionalização é um movimento velante que parte da razão em caminho da veritas. Porém, a todos que já tocaram em Hegel, Heidegger ou qualquer outro, sabem que a veritas é uma impossibilidade. A verdade enquanto veritas, ou seja, a verdade enquanto suposto objeto em concordância com seu próprio conceito, é mediatizada, ou seja, a verdade não é verdadeira. Não apenas isso, como também pressupõe uma identidade. Neste sentido, caminhar em direção à veritas é uma idealização, um desenrolar da razão que acredita ter algo por meta, e que, ao longo do caminho, encobre e vela a razão inicial. É nisso que consiste a racionalização. É nisso que consiste o racionalismo. A ciência, por demais vezes caiu precisamente aqui, por seguir de acordo com o racionalismo e perder de vista aquilo que inicialmente era sua razão. A partir daí, a razão inicial torna-se em razão abstrata. Portanto, o racionalismo abstrato dos iluministas não passa duma consequência lógica do racionalismo romano.

O iluminismo só pôde envolver pensamento nos momentos em que se contradisse — afinal, "uma teoria sem contradições não é digna deste nome" (Kurz) —, nos demais, foi racionalista e seguiu por este princípio. Uma implacável busca pela verdade no sentido de veritas, encobrindo e abstraindo a própria razão, até o momento em que a razão abstrata se torna seu núcleo vital. Observar os iluministas correndo atrás da verdade é como observar um cachorro correndo atrás do próprio rabo — é algo cômico, um esforço inútil, porém cômico. O modernismo, enquanto resultado daquilo que o iluminismo inaugurou — o processo modernizador — seguiu pelo racionalismo em muitos momentos, porém, ao mesmo tempo, voltou-se contra este — afinal, o modernismo não poderia ser o mesmo que o iluminismo, do contrário se voltaria contra sua própria lógica veladora. Nisso, surgiram como produto autores e pensadores modernistas, os quais voltavam-se contra o iluminismo e o modernismo, porém ainda se prendendo a estes, ao cientifismo, ao positivismo, à razão abstrata, ao individualismo, etc... Tais pensadores, podemos chamá-los, na maioria dos casos, de modernistas contramodernistas. Exemplos seriam Hegel, Feuerbach, Marx, etc...

Marx, em particular, é um caso interessantíssimo. Talvez Marx tenha sido um dos mais contraditórios teóricos de nossos tempos — e justamente por isso, um dos maiores. Quanto maior sejam as contradições que se consegue aguentar, tão maior é o teórico. Aquele que tenta destruir as contradições, alcançar alguma forma de unidade, este está fadado ao fracasso e à anti-teoria — pois somente através da contradição e da hipocrisia pode haver a teoria. No Brasil, é quase impossível haver isso, afinal, o ser brasileiro só é possível através da hipocrisia. Sou hipócrita, logo sou brasileiro. Marx tinha algo de brasileiro em sua essência. Cabem analisar as diversas contradições e hipocrisias no pensamento de Marx — sendo aquela a propósito do trabalho a mais gritante —, porém, aqui, detenho-me à questão da compreensão da história, na qual Marx reconheceu suas próprias limitações. Através do experienciar da alienação, Marx foi o autor que mais se aproximou da compreensão da história em sua essência. No entanto, ainda encontrava limitações de seu tempo que o faziam admitir que ele era incapaz de pensar devidamente a história. Para ele, era impossível um método definido de compreensão da história — morrem aqui a historiografia e o materialismo histórico. Marx se encontrava envolto no modernismo, no humanismo, etc. e isto velou muito de seu pensar. Porém, ao voltar-se contra a historiografia e tentativas de metodologias exatas ou certas a propósito da história, Marx elevou-se muito além de qualquer outro modernista ao se propôr o entendimento desta. “Pelo fato de Marx, enquanto experimenta a alienação, atingir uma dimensão essencial da história, a visão marxista da história é superior a qualquer outro tipo de historiografia.” (Heidegger) — no entanto, deve ser corrigido em relação a esta passagem, ao lugar de "marxista", "marxiana", afinal, Marx não foi marxista. Com o tempo, os marxistas deturparam a compreensão da história de Marx ao máximo, transformando-a, precisamente, num método definido e exato, como uma fórmula padrão de como a história haveria de ser compreendida. Com Plekhanov, surge o "materialismo histórico", o qual até hoje é atribuído erroneamente como se fosse invenção do próprio velho barbudo. Seria possível, hoje, escrever, ao invés duma biografia de Marx, uma necrografia, a propósito de tudo que o marxismo o transformou ou tentou transformar.

Ademais, Marx foi um indivíduo de seu tempo. Ainda se prendia ao entendimento da epistemologia enquanto "ciência" — e isso já derivava de Hegel e outros. O início d'O Capital é o mais difícil, pois, de acordo com Hegel, o início de toda ciência há de ser o mais difícil — e Marx, evidentemente, entendia seu estudo acerca do capitalismo erroneamente como "científico". Tantos outras questões poderiam ser trazidas, mas aqui não me proponho a investigar o pensamento de Marx em sua profundidade, apenas trazê-lo como exemplo dum modernista contramodernista.

Onde surge, afinal, a desgraça do pós-modernismo? Certamente não é na filosofia. Afirma Badiou que a filosofia possui uma razão artística, e é mais do que correto ao afirmá-lo. Não há nenhum espaço pelo qual a filosofia pretenda mergulhar, no qual a arte já não tenha antes passado de alguma maneira. O pós-modernismo, de acordo com a releitura que queremos aqui trazer, surge na arte — mais especificamente, no dadaísmo. O dadaísmo foi a primeira manifestação de pós-modernismo. É interessante notar que, ao mesmo tempo em que este ocorria, havia o parnasianismo no Brasil, o qual era bem próximo. O parnasianismo propunha a arte pela arte — tal qual o dadaísmo. A diferença, no entanto, é que o parnasianismo permaneceu na suposta beleza da arte, enquanto o dadaísmo foi mais radical, e buscava a feiúra nela, buscava, mais ainda, questionar o belo e o feio. O parnasianismo foi burguês, limitado às elites brasileiras, enquanto o dadaísmo foi "proletário", anti-classista, e propôs-se a se desenvolver enquanto arte sem classe. Assim sendo, o parnasianismo pode ser qualificado enquanto um modernismo contramodernista, certamente, mas jamais enquanto pós-modernismo, apesar das aproximações com o dadaísmo.

O dadaísmo foi brutal, destruidor, abismal, avulso, irracional, ridículo, estúpido, absurdo — e aí está a arte. O maior mérito do dadaísmo consistiu em elevar o irracional ao nível de pensamento. O dadaísmo fundamentou pensamento a partir do irracionalismo e da irracionalidade. Tão brutal foi ele que, desde então, o pensamento artístico nunca mais foi o mesmo. A tradição que surge através do dadaísmo, i.e., a arte pós-modernista, se desenrola de modo avassalador e explosivo.

Apesar das definições da academia brasileira, o modernismo brasileiro não é aquele de Oswald de Andrade e outros, mas, muito pelo contrário, o de autores como Machado de Assis e José de Alencar — estes, sim, eram componentes da literatura modernista brasileira. Clarice Lispector, neoparnasiana e pós-modernista, odiava Machado de Assis — a relação entre ela e outros autores é deveras curiosa. Significa, pode perguntar o leitor, que devemos também odiar Machado de Assis? De modo algum. O modernismo também foi arte, e também expressou a algo. O modernismo desenvolveu pensamento artístico, pensamento filosófico, etc. apesar dos pesares. No entanto, há de ser superado. Não podemos nos manter ali.

A literatura russa é também particularmente curiosa nesse quesito. Gogol, Dostoiévski e Tolstói, em específico, podem ser qualificados como grandes autores modernistas contramodernistas. No quesito da "mentira pela arte", Dostoiévski há muito já havia precedido Suassuna, sendo indiretamente um dos precursores da literatura e teatro pós-modernista brasileiro.

Talvez o primeiro pensador filosófico pós-modernista tenha sido Heidegger. Houve uma ruptura com o modernismo em Ser e tempo, porém ainda preso neste em grande medida — nesse sentido, o "primeiro" Heidegger, o de Ser e tempo, poderia ser qualificado enquanto um modernista contramodernista. Já o "segundo" Heidegger, aquele que se isolou por 12 anos do resto da humanidade, este rompeu definitivamente com o pensamento modernista e articulou um movimento de superação filosófico do mesmo. A partir daí, Heidegger foi quem fundamentou o pós-modernismo filosófico. Simultaneamente a ele, encontrávamos engatinhando a Escola de Frankfurt, cujo pode certamente ser considerada pós-modernista também.

Kurz, apesar de acreditar se opôr ao pós-modernismo, é um dos maiores autores pós-modernistas de nosso tempo, e isso é inegável.

Por: Straw

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