A dificuldade do básico
Hoje, vivemos numa sociedade de positividade, baseada no desempenho, que constantemente busca pelo avanço. A busca insaciável pelo avanço já se inicia nos primórdios do processo civilizatório, com o Império Romano. O iluminismo, inaugurando o processo modernizador, expande-a. Com o ateísmo, surge um novo Deus, o Deus Ciência — Deus não morreu, apenas tornou-se inconsciente e projetou-se doutra maneira, ninguém é livre da fé —, que é o Deus do avanço. Tudo caminhou até o ponto onde encontramo-nos aqui e agora: para os tempos de positividade. No auge do colapso da modernização, em seu momento mais enfermo, a vigência social torna-se em pura positividade, desenvolvendo a patologia lógica para a qual tudo isso se direcionava. A Wertkritik foi cega e precipitada durante seu início por não conseguir ver o resultado óbvio para onde tudo se dirigia. Toda crise requer tempos de prosperidade, e, tendo entrado a modernização num ponto irretornável de constante crise, o vigor da positividade apareceu como sua aparente solução. A excessiva positividade dos presentes tempos não é nenhuma espécie de reterritorialização perpetuadora do capitalismo, como já acreditariam os deleuzianos, mas sim, o resultado lógico de todo o processo modernizador, o ponto final onde ele evidentemente se encontraria se deixássemos as coisas caminharem até aqui. Em tempos assim, as pessoas sempre ou quase sempre correm para o avanço, esquecendo-se do mais básico e do mais elementar.
Talvez devamos começar questionando: o que é o avanço? Avançar, ao contrário das pressuposições às quais o senso comum costuma nos levar, não é nenhuma espécie de progresso. Avançar nem sempre é "para frente". Se dizemos, por exemplo: “o exército nazista avançou sobre o território francês" ou "o aquecimento global teve um enorme avanço nos últimos anos", certamente tratam-se de avanços, porém não são, nem de perto, uma forma de progresso. Os políticos repetem constantemente clamores pelo avanço em suas variadas formas. Os ateus prezam e rezam pelo constante avanço científico e tecnológico. Todo avanço é tido, logo de cara, como algo bom. As Inteligências artificiais são um avanço tecnológico, como poderiam ser algo ruim? Nesse sentido, poderíamos falar dum fetiche pelo avanço como sintoma da patologia positiva vigente.
A nação mais avançada científica e tecnologicamente do mundo durante a primeira metade do século passado foi a Alemanha nazista, seja na maquinaria fabril, nas técnicas do cinema, etc. — mas era lá isso algo bom? Certamente que não. Os estudos e pesquisas mais desumanos e horrendos eram feitos em nome da ciência e do avanço.
Hoje, a sociedade é do desempenho e da positividade. Estamos na forma final do sistema capitalista, com a mais gritante patologia já vista em toda a história da humanidade reinando.
Ao final do documentário d'A sociedade do cansaço de Byung-Chul Han, é-nos narrado: “O antigo aeroporto de Tempelholf encontra-se no coração de Berlim. O centro da cidade está, portanto, completamente vazio. É a luminosidade clara dentro dessa cidade. O vazio é o centro, e tomara que permaneça vazio por muito tempo. O capitalismo não gosta do vazio e tranquilo." — a afirmação que talvez queiramos destacar aqui é: o capitalismo não gosta do vazio e tranquilo. Mas, acrescentamos: ...nem do básico e do simples. Por qual razão chegamos a essa conclusão?
Não gostamos do tédio, pois ele evidencia o peso de nossa existência e o nada, logo, precisamos sempre fugir do tédio. Consumimos, trabalhamos, e, de certa forma, a fronteira do que é consumir e do que é trabalhar já não são mais claras, e sua abstração elevou-se a um nível além do que poderíamos imaginar. Queremos estar sempre à frente, em todos os âmbitos da vida. Queremos estar à frente em classificações, em méritos, em compreensão, em esforço, no trabalho, etc... Somos criados acreditando que tudo é possível, e uma vez sendo crido tudo possível e tendo plena liberdade, engajamo-nos no máximo desempenho, caminhando rumo ou ao Burnout, que é um elevado estágio do fetiche pelo avanço no consumo e no trabalho, ou à depressão, que é a quebra narcísica do excesso de positividade. Não contentamo-nos com o simples, com o básico, com o elementar, queremos mais, temos uma sede insaciável pelo avanço, pelo desempenho e pelo máximo de tudo, e é essa sede que traz nossa própria ruína. No neoliberalismo vigente, não precisamos nem mesmo mais dum capitalista, pançudo e que carrega um charuto e um saco de moedas, para nos explorar, pois somos plenamente capazes, todos, de explorar a nós mesmos. A autoexploração é tão eficiente quanto a exploração do outro.
Numa sociedade onde o avançado está sempre no horizonte, em todos os âmbitos, esquece-se do mais básico. Olhamos sempre "para frente", mas esquecemos de olhar para onde estamos, para cima, para baixo, para trás ou para os lados. Onde foi parar a verticalidade? Daí nasce o aceleracionismo, uma das maiores desgraças de nossos tempos. Uma criança, ao descobrir que o Sol irá explodir daqui sabem-se lá quantos milhões de anos, fica desesperada, pois a vigência sistêmica já interferiu em sua própria criação, fazendo-a pressupor no ilimitado da existência, o que condiz com o ilimitado do a ser explorado na natureza e no indivíduo, clássico raciocínio do sistema de mercadorias totalitário. O aceleracionismo é como uma criança desesperada.
Nick Land, em Uma introdução rápida ao aceleracionismo, propõe uma máxima rapidez. Se se quer engajar ou entender o aceleracionismo, é necessário ser rápido, e estar atento a todas as mudanças. O aceleracionismo, buscando acelerar todo um processo reterritorializador e o maximo avanço tecnológico, entra num frenetismo teórico doentio e precoce. “O aceleracionismo é simplesmente a autoconsciência do capitalismo, que mal começou. ("Nós ainda não vimos nada.")" — vejam o uso do "simplesmente", e questionem: haveria, realmente, algo de simples nisso? Certamente que não. Além do mais, a afirmação possui um suspense broxante como se sua proposição fosse a maior de todas as coisas.
O que move o aceleracionismo é o fetiche pelo avanço. Assim sendo, este não passa duma manifestação da excessiva positividade do presente. Os aceleracionistas acreditam viver no amanhã, no avanço, estarem à frente de todos, pipipi e popopó. O doentio desempenho do neoliberalismo não se encontra apenas no ambiente de produção com os trabalhadores, mas vai muito além, mostrando-se dentre os teóricos.
Observamos, também, seus sintomas nos próprios "revolucionários". Para o militante da esquerda médio, o capitalismo ser uma porcaria já é um pressuposto autossuficiente, agora basta descobrir como derrubá-lo. Um jovem militante da esquerda jamais saberia responder o que é o capitalismo ao certo, o que é uma revolução, nem nada do gênero. Quer-se partir para o mais avançado da questão, sem antes se propor a pensar o básico. O dogmático pragmatismo que encontra seu auge hoje na esquerda é apenas uma manifestação disso. Não querem pensar o porquê das coisas, apenas partir logo duma vez para as "coisas práticas". Não nos interessa o que é o capitalismo, o que é a modernidade, como estes fenômenos se manifestam e de que maneira interferem na ordem social, nada disso importa — queremos, única e somente, algo prático, que acabe com essa insuportabilidade logo duma vez! Não percebem os jovens militantes, no entanto, que esse seu raciocínio não passa dum fruto do próprio sistema. Queremos avanço, mas avanço em relação ao que? Qualquer coisa parece válida, desde que nos tire daqui. Chamar a China e demais países vermelhos de capitalistas é um absurdo, pois, "na prática", eles são as únicas aparentes saídas para tudo isso. Pensar é difícil, portanto, deixemos de pensar.
A filosofia, no presente cenário, torna-se odiosa. A única filosofia que interessa à esquerda é a do "materialismo histórico-dialético", e as únicas filosofias que interessam à direita são a teológica cristã e a filosofia reterritorialista que prevê o amanhã. Ambos partem de pressupostos de legitimação. Primeiro, faz-se o ato, e então, procura-se sua legitimação teórica. Não se pensa antes de se fazer algo, "pensar" vem depois apenas. A direita conservadora cria propostas, e então, busca legitimá-las através da teologia cristã. A direita aceleracionista e precoce surta com absolutamente tudo e cria as maiores conspirações, e justifica isso através do reterritorialismo. A esquerda realiza ações "práticas" e busca legitimá-las através dum suposto pensamento ou método. A filosofia só surge como desculpa à prática depois que esta já é consumada; antes disso, é academicismo puro, utopismo do pior tipo, idealismo da tal da torre de marfim. A filosofia não é importante na base das ações, mas no estágio já avançado de seu consumar, e nisso, de certa forma, perde seu caráter propriamente filosófico.
O materialismo histórico-dialético poderia ser chamado de método tardio, em todos os sentidos. Primeiro, pois ele surge através da II Internacional, somando o "materialismo dialético" engelsiano com o "materialismo histórico" plekhanoviano, mas, ainda sim, é atribuído como criação de Marx — é uma invenção tardia, surgida num já avançado estágio, que se pressupõe estar ali desde o que acredita-se ser o "começo". Segundo, pois ele só aparece após ou no consumar do agir, e não antes deste. Tudo que é feito pelos partidos "comunistas", pelos países "socialistas", etc., possui sua legitimação no tal do método, porém, não antes do consumar deste agir, mas somente depois de já feito é que se busca uma forma de legitimação. Além de tardio, o que, por si só, já significa avançado, poderíamos falar doutra maneira que o método pode ser compreendido enquanto avanço: em sua própria explicação e teorização. Se tomarmos Engels, Lênin, Stalin ou qualquer outro autor marxista médio como base de entendimento, pode-se dizer que o materialismo histórico-dialético é o mais avançado de todos os métodos em sua própria elaboração teórica. Avançado por qual razão? Pois dispensa-se o básico, pulando diretamente para o mais avançado das questões. Em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia idealista clássica alemã, Engels opõe o materialismo ao idealismo e a dialética à metafísica, sem se preocupar muito na elaboração do porquê dessa suposta oposição, de forma extremamente reducionista. Stalin, então, em seu Materialismo dialético e materialismo histórico, baseia todas suas "explicações" única e somente na tal oposição. Poderíamos resumir seu livro em: "o materialismo dialético é materialista pois não é idealista e é dialético pois não é metafísico". Metade dos parágrafos do livro iniciam com: "ao contrário do idealismo, o materialismo..." ou "ao contrário da metafísica, a dialética...". No fim das contas, não é explicado nem o que é metafísica, nem idealismo, nem materialismo, e nem dialética. As questões mais elementares e mais básicas que deveriam ser abordadas são excluídas, e somente o mais avançado da questão é que é trazido ali. Avançado não quer dizer, essencialmente, o "mais difícil" da questão, muito pelo contrário. A questão estar avançada tampouco quer dizer que tenha tido elaboração correta. Podemos avançar toda uma questão sob falsos pressupostos, sob uma falsa dicotomia ou sob ideias imbecis, mas isso não irá tirar a posição de avançado desta. O materialismo histórico-dialético é o mais avançado método da atualidade, no entanto, também o mais vazio, e sem base nenhuma. O que é uma mesa? É o oposto dum pássaro. E o que é um pássaro? É o oposto duma mesa. Por qual razão são considerados opostos? Sabe-se lá, eles não possuem nenhuma característica explicativa além de sua suposta oposição, logo, não importa.
Como já apontou muito bem Heidegger em sua conferência A coisa, nunca estivemos tão próximos, mas, ao mesmo tempo, tão distantes das coisas. Uma TV me permite ver algo que está acontecendo lá na China, do outro lado do mundo; ela me aproxima, mas ao mesmo tempo, permaneço distante. Um celular me permite falar com pessoas do mundo todo, aproximando-me delas, mas, ao mesmo tempo, não é uma conversa próxima, é uma conversa distante, tanto no sentido da espacialidade, quanto no sentido da forma com a qual a conversa se dá online. A bomba do Irã faz com que este e Israel se aproximem, tanto no sentido de ser algo que parte do Irã até Israel, quanto no sentido de trazer um conflito mais à proximidade do que já estava; no entanto, também distancia, aumentando o ódio de um pelo outro, e levando israelenses desgraçados para o além. O avanço da técnica, em suma, cada vez mais nos aproxima, e cada vez mais nos distancia, tornando-nos alienados de forma quase que paradoxal. Isso é refletido da mais pura forma nos indivíduos de nossa sociedade, como aqui demonstrado.
Por qual razão é Heidegger considerado um filósofo "difícil demais"? Não é por ser complicado, não é por usar uma linguagem avançada demais que ninguém consegue compreender, nada disso. É por ser básico demais. Heidegger é um dos filósofos mais básicos da atualidade, e por isso, um dos mais difíceis. Num mundo onde as pessoas olham sempre para o avançado, é raro perceberem a base que o sustenta. Querem saltar logo duma vez para o topo da torre, sem antes observar o chão que permitiu que esta fosse edificada. Heidegger questiona as coisas mais estupidamente básicas, das quais falamos todos os dias, sem nos questionar o que significam. A linguagem, o ente, o espaço, o tempo, o vazio, o nada, o ser. As coisas mais cotidianas, mais básicas, mais elementares, mais próximas de nós, são, hoje, as mais difíceis de compreendermos, as mais distantes. O ente, num sentido mais originário, é aquele que se faz presente. Em toda palavra, onde seu sentido enquanto ente se faz, precisamente, presente, onde assim é manifestado, observamo-no, o que é curioso de nosso idioma, e basta ver: diferente, ausente, presente, contente, etc... Tudo aquilo que se deixa determinar em presença a partir do ser, é ente. Falamos dos entes o tempo inteiro, sem parar, e nunca paramos para reparar nisso. A partir do momento em que um autor decide pensar nessa questão, torna-se algo demasiado difícil para o entendimento. Da mesma forma, o ser, que é determinante de todos os entes. Falamos o tempo inteiro do ser, falamos o tempo inteiro que as coisas são. Nós somos. Mas o que determina as coisas serem? Isso é algo que jamais poderíamos questionar. Não se pergunta pelo ser. Ao se entrar em tal questão, torna-se algo quase que místico, apesar de ser o determinante de toda nossa existência. Nós somos, antes de tudo, na e pela linguagem, a linguagem é a casa do ser, inexistimos fora da linguagem, somos apenas uma possibilidade através dela, ela é nossa morada, estamos envoltos nela. Porém, em algum momento, propomo-nos a pensar a linguagem? Buscar tocar em seu essencial? Não, pois é demasiado difícil. Entre tantos outros exemplos que poderíamos tomar aqui. Ao buscar uma compreensão profunda de questões tão básicas, atribuímos enorme dificuldade. Se quero entender uma palavra em sua essência, e busco seu significado em suas origens, num idioma antigo, torna-se algo difícil de se digerir. Heidegger, em Parmênides, passa mais de duzentas páginas investigando o significado duma única palavra: αλήθεια, aletheia, verdade — algo que nós falamos o tempo inteiro. No entanto, sua obra é considerada demasiado "complicada". Não o é. A questão é a seguinte: hoje, o básico, o próximo, o simples é o difícil, e o complicado, o distante, o avançado, é o fácil. É para nós mais fácil defender algo em nome da verdade, sem saber o que a verdade significa, do que questionar: o que é a verdade? No essencial às coisas, a dificuldade impera. Isso tudo é aquilo que Nick Land, talvez o mais avançado teórico vivo hoje, chamou de "pomposidade heideggeriana". Nick Land vive no amanhã, por isso, considera o chão no qual pisa como algo a ser descartado, algo inútil. Ao aceleracionismo, o ar, o vento, nada disso importa, o que lhes importa é ser precoce. Todos temos um pouco de aceleracionismo, pois todos temos o fetiche pelo avanço. O fetiche pelo avanço é necrofilia pura. Talvez devêssemos focar naquilo que está à nossa frente, talvez devêssemos olhar para uma folha e questionar sua razão de ser, talvez devêssemos experienciar o tédio, talvez devêssemos ser biófilos.
As questões aqui demonstradas são tão automáticas, tão internalizadas, que o leitor provavelmente não percebeu que avançamos em todas essas questões sem ter definido o que é avanço. Falamos dos usos gerais da palavra avanço, falamos do que ele não é, mas não falamos o que significa avanço, não definimos avanço. A base sob a qual todo o texto se estruturou permanece indefinida àquele que o lê, o que só comprova o fetiche que vigora.
Nisso, retornamos à passagem de Byung-Chul Han mencionada ao começo. O capitalismo, a modernidade, não gostam do vazio, do tranquilo, do básico, do simples e, menos ainda, do nada. Não queremos apreender as coisas através delas mesmas, não queremos uma fenomenologia, queremos apenas satisfazer nosso fetiche inútil pelo avanço, desprovido de qualquer conteúdo ou pensamento. Não queremos pensar, queremos agir cegamente. Não queremos imaginação, queremos, antes de tudo, tornarmo-nos nas pessoas tratores de Zamíatin. Não queremos "pensar apaixonadamente", como propõe Arendt, queremos racionalizar aquilo que está à nossa frente. Precisamos ser rápidos, acima de tudo. Eis o puro suco de modernidade.
Por: Straw
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