Enquanto galerias cobram entradas, a periferia assina os muros
A pixação é uma arte feita pelos esquecidos, pelos marginalizados, onde tem como essência a real expressão artística composta por manifestações políticas e sociais. Para os que observam exteriormente de modo superficial, enxergam somente rabiscos, entretanto, essa é a criptografia pregada e escancarada para todos os não entendedores dos meios de voz do gueto.
Ante tudo, é importante analisarmos o modo de organização dos pixadores como uma entidade composta pela classe excluída dos grandes centros urbanos. Não vemos, atualmente, nenhuma representação artística formal que visa a inclusão da comunidade periférica. Com base nisso, qual seria a motivação/sentido para o jovem oprimido estar constantemente ligado a exposições de arte que, normalmente, são apresentadas em bairros nobres e com a presença dessa classe? Consequentemente, essa comunidade que se sente expulsa dos movimentos artísticos acaba, por si só, criando um meio identitário e paralelo de expressão.
Dentro dessa construção, vemos os pixadores como indivíduos compostos por grandes doses de fervor para conquista de uma maior igualdade e justiça. Até os próprios moradores de favelas e guetos, às vezes, não podem compreender o que está sendo representado em uma letra de pixo, mas é isso que a arte te oferece. Cada letra, cada traço, convida o espectador a entrar em um mundo jamais percorrido, proporciona a verdadeira compreensão e olhar sobre o que é a realidade. Somente o ato da pessoa, percorrendo uma rua ou avenida, reparar numa pixação já é um passo extremamente qualitativo para a conscientização de classe.
Vivemos em uma bolha durante grande parte das horas dos nossos dias, a famosa alienação nos persegue deixando-nos cego. O pixo vem como prol criticar a nossa atual sociedade e, em especial, nosso sistema econômico que se beneficia com a decadência repentina dessa classe. Tentam colocar outros meios legais de expressão da periferia, uma tentativa de aliança frágil em prol de silenciar a voz da massa, todavia, se a expressão artística de bairros reprimidos for algo que agrada o Estado, perderemos nossa voz nas conquistas e nas contínuas lutas.
Essa exclusão, aliás, já nasce no início do processo de formação social: a escola. Não há o devido estímulo para a produção e sentimento de pertencimento artístico, sequer, na etapa da educação pública. Privam-nos desde sempre a nos expressar, resultado disso é toda essa revolta que caminha rumo a uma mudança brusca que assusta, desde os primórdios, a classe dominante e que, hora ou outra, irá chegar. O pixador é um complexo de sentimentos de inconformismo e ira provocado pela ausência da devida assistência.
Tudo se inicia, como citado anteriormente, na escola (o primeiro órgão de repressão estatal apresentado para o jovem e para criança) com rabiscos nas mesas e nas paredes dos banheiros como meio de concretizar aquele sentimento presente. Quando termina o estágio de educando e passa para a vida que se resume em acordar, ônibus, trabalho, ônibus, dormir… aquela indignação triplica, originando-se rabiscos de ódio nas telas urbanas.
A adrenalina guia-os para uma exposição no perigo, se encontram com a escuridão da noite em prédios, becos, vielas, outdoors… Colocam, no suor do concreto, um diário de tinta preta repleto de incômodo que irá causar o dobro na luz do dia. Se a pixação fosse algo legalizado, obviamente, não iria prevalecer a prática deste — como as autoridades falam — vandalismo. Encontraríamos outros meios de continuar contrariando os ricos e o Estado.
A vida do artista urbano muda quanto ele se inclue no risco de se expressar, transitando pela cidade ele analisa por completo os locais propícios para colocar, ali, a sua marca. Ser pixador é uma escolha e um estilo de vida no qual ele nega a adequação de regras impostas. Não se escreve “pichador” como a mídia burguesa faz, não é só um amontoado de letras, é um grito de recusa a ser corrigida, é o PIXO em sua fiel alma.
Por: João Antônio Gomes
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