Menos sério; mais estúpido, mais ridículo!
Quem foi o primeiro a levar a seriedade a sério?
O que é a seriedade? O que é ser sério? Bem, talvez para encontrar as respostas de tais questões, seja necessário investigarmos os usos que temos do que entendemos por "sério".
Primeiro, encontramos o uso do termo "relacionamento sério" — o que é um relacionamento sério? Um relacionamento gâmico. O que é um relacionamento gâmico? Vejamos. Tanto as palavras monogamia quanto poligamia partem do γαμιά do antigo grego, do qual, também, se derivam diversas ofensas relacionadas a furto e roubo. O que essa curiosa palavra diz? Algo relacionado à posse, ao apossar-se de algo, ao tomar de algo. Aí já encontramos escancarado o princípio do relacionamento gâmico, isto é, o relacionamento sério. Uma relação de monogamia é uma relação de dominação entre duas pessoas, onde uma se considera proprietária da outra. Já uma relação de poligamia é o mesmo, porém, com mais de duas pessoas. Os próprios nomes já dizem: μόνο (único) + γαμιά (posse), a propriedade sobre um; πόλις (muitos) + γαμιά, a propriedade sobre muitos. Monogamia e poligamia dizem respeito a uma relação de propriedade privada que há milênios já se inicia, e que, com a modernidade, se espandem sob o princípio identitário. Pode haver um relacionamento fechado entre duas pessoas sem haver uma relação de propriedade duma sobre a outra? Evidentemente, mas, aí, não seria monogâmico, tampouco sério. Pode haver um relacionamento fechado entre muitas pessoas sem haver uma relação de propriedade entre estas ou duma sobre as demais? Obviamente, mas, aí, não se trataria de poligamia, tampouco seria algo sério. Monoamor e poliamor não condizem com a seriedade. O "amor" só se torna sério a partir do momento em que se tranca numa relação de propriedade entre indivíduos.
Segundo, encontramos o uso da palavra em "caso sério". O que é um caso sério? Sinônimo de "coisa séria", "questão séria", etc. Em suma, algo que é exclusivamente sério e merece destaque. Mas, se esse algo é exclusivamente sério, então as demais coisas envolvidas não o são. Numa situação onde se aponta uma coisa como caso sério, é para deixar as demais de lado e voltar-se somente para aquilo. Assim sendo, um caso sério é um caso de protagonismo, somente aquela coisa, em meio a todo aquele cenário, merece destaque, importância, enquanto o resto deve ser ignorado. Nos últimos tempos, temos visto, dia após dia, as mídias falando sobre como os ataques do Hamas em Israel eram um caso sério, sobre como o Hamas era um caso sério — evidentemente, aqui o "sério" produz sentido negativo, o caso sério em questão é o vilão da história. O genocídio palestino é acobertado, nem se toca a propósito dele, logo, ele não é sério para as grandes mídias. A única coisa relacionada à Palestina à qual se é dado holofotes é o Hamas, ou seja, a única questão séria concernendo os palestinos é o Hamas, e o resto, não é sério e não merece ser levado em consideração. Claramente, como as grandes mídias nos dizem, a guerra é entre Hamas e Israel, afinal, somente o Hamas e o Estado de Israel podem ser considerados sérios, pois assim foi determinado. O Hamas representa todo o resto do povo palestino. A FPLP não é julgada séria o bastante para aparecer nos jornais, tampouco as crianças palestinas morrendo de fome ou tendo que catar os órgãos de suas mães do chão. Nada que não concerna as relações Israel-Hamas é sério para os jornais. Outro exemplo que poderíamos tomar, mas que, tão logo se junta a esse, é o do conflito entre OTAN e Rússia que passou a se disfarçar de "Guerra na Ucrânia". A Ucrânia, por meses, tornou-se num caso sério, em que todos tinham que falar ou se posicionar a propósito. "É uma questão séria, vocês não podem ignorar!". Imediatamente, não se ouvia falar de mais nada além do tal conflito. Meses se passaram e, então, não se ouvia ninguém mais afirmando que era um caso sério e que deveríamos nos voltar para ele, que não deveríamos ignorar o que estava ocorrendo, etc. Só é sério enquanto está nos holofotes. Tempos depois, o tal do conflito Israel-Hamas roubou os holofotes dos mesmos e passou a ser considerado muito mais sério. Aquilo que é considerado sério é aquilo que todos devem se voltar para, enquanto o que não é, passa a ser ignorado e excluído do cenário — as pessoas não pretendem se preocupar com mais duma guerra em andamento ao mesmo tempo. Nove guerras estavam acontecendo no mundo, mas somente uma poderia ser considerada caso sério o bastante, enquanto as outras eram algo descartável. O genocídio palestino ocorria há décadas, e até hoje não é considerado como algo sério. Sério só é o Hamas a partir do momento em que ocorreu o 7 de Outubro. Caso sério, portanto, é uma relação de holofotes relativa e excludente frente a determinada situação.
Terceiro, encontramos o uso do termo em "trabalhar sério", "realizar tarefas seriamente", etc. O que quer dizer isso? Submeter-se ao trabalho sem desvios, sem lazer e com o máximo de foco e desempenho possível. A escola é um ambiente de trabalho, não só para os professores, mas também para os alunos. Na escola, são os alunos obrigados a "estudarem sério" ou serem "sérios", o que, na verdade, dá no mesmo que trabalhar sério. O que é o trabalho? A abstração da atividade ontológica humana, i.e., a atividade material e espiritual humana. O que quer dizer sua abstração? Quer dizer que é voltada para a produção de valor. Aquele que trabalha sério é aquele que tem o máximo de desempenho, que produz o máximo de valor ou contribui ao máximo para sua produção. O mais sério dos funcionários é aquele sem expressão, sem amigos no ambiente de trabalho, que executa suas tarefas tal qual lhe é dado. Na escola, é o mesmo, afinal, a escola é um ambiente formativo para o mercado de trabalho. Desde o taylorismo, as salas de aula são organizadas como unidades fabris, com várias carteiras enfileiradas uma atrás da outra com seus materiais frente a uma grande máquina — em Nós, Ievguêni Zamíatin transforma os professores em máquinas de vidro, transparentes, sem emoção e sem nenhum atributo especial; talvez a distopia de Zamíatin seja um dos melhores meios para entender os efeitos do taylorismo na atualidade. Não só isso, como a própria grade horária é organizada como numa fábrica do modelo taylorista. Há uma constante alternância entre as disciplinas, visando o máximo desempenho do aluno num conteúdo alternado e disperso, de forma que consiga manter sua devida seriedade e capacidade. Agora, cinquenta minutos de português, depois, quarenta e cinco de matemática; agora, vinte minutos produzindo parafusos, depois, meia hora averiguando a produção de molas. O aluno sério é aquele que, por 5 a 10 aulas alternadas ao longo do dia, mantém-se em pleno foco e desempenho, sem atrapalhar a aula, sem sair de sua carteira, sem mexer as pernas, sem ter manias, sem ser barulhento, etc. O funcionário sério é aquele que, de 8 a 12 horas por dia trabalha incansavelmente, com o máximo de desempenho e foco no trabalho, sem desvios, sem amizades, sem interações, sem lazer, produzindo o máximo de valor. Hoje, como aponta Byung-Chul Han, estamos numa sociedade do desempenho. Trabalhar sério, em suma, é ter o máximo de desempenho frente à linha produtiva.
Quarto, num uso hoje mais incomum, mas que ainda encontramos, "arte séria". Seu uso é incomum pois ninguém liga pra arte hoje em dia. Se existe arte séria, é porque a arte em geral não é séria. O que é arte séria? É aquela que serve a alguma utilidade facilmente identificável, a algum propósito. A arte deve ser bela, deve ser utilitária, deve ter algum uso claro e evidente; somente assim a arte pode ser considerada séria. O dadaísmo não foi sério, o dadaísmo voltou-se com todo o ódio contra a seriedade. Os políticos sérios não tardaram a também reconhecerem-no. O dadaísmo não era belo, não era útil a eles, não parecia ter nenhum propósito, nenhum nexo, não era sério como a arte deveria ser, logo, era algo a ser destruído, algo horrendo e enojável. Tão logo os nazistas e os fascistas passaram a destruir as obras dadaístas sob o pretexto de "arte degenerada". As pessoas valorizarem somente uma beleza superficial e uma serventia útil e clara na arte facilitou com que, hoje, tanto se entusiasmassem com as Inteligências Artificiais, alegando que estas são capazes de produzir arte, pois aquilo que produzem têm utilidade, e, para muitos, é visualmente agradável. Arte séria é o rococó, o renascentismo, o modernismo, as estátuas do Império Romano. Arte degenerada, isto é, não séria, é o dadaísmo, o surrealismo, o pós-modernismo. Arte só é séria quando é útil e racional, servil e submissa a interesses supérfluos. Um pano cheio de sangue não é uma arte séria, apesar de representar todo um conflito entre cartéis e toda a história de vida duma faxineira; uma dama brincando num balanço em seu jardim é certamente a mais séria das artes, pois é bela, e serve de decoração para o cômodo. Um ferro cheio de espinhos é uma degeneração, já uma estátua dum antigo Imperador romano com pinto pequeno é algo glorioso a ser admirado.
Em todos os quatro usos, conseguimos identificar algo em comum: a seriedade é algo hegemônico, imposto, servil e submisso. Um relacionamento só é sério quando alguém se torna em propriedade, submete-se ao outro. Um caso só é sério quando serve aos holofotes, manipula corretamente a situação e submete um falso julgamento. Trabalhar e estudar só são sérios quando são submissos e possuem o máximo de desempenho. Uma arte só é séria quando tem serventia, é claramente útil e superficialmente bela. Em suma, a seriedade é uma desgraça. O que não é sério? O que é considerado o oposto da seriedade, o que é enojado pelas pessoas sérias? A degeneração, o absurdo, o ridículo, o estúpido, o cinismo, a mentira, o engano, a baboseira, etc...
O teatro é possivelmente a arte mais desvalorizada hoje, o teatro não é levado a sério. Já o cinema, é evidente, é muito sério. O cinema é a única arte realmente valorizada hoje, se é que pode se chamar de arte. O cinema é a arte séria, cômoda, idealizada pelas pessoas sérias. O cinema é mecânico, genérico, uma porcaria. Os EUA fazem cerca de oitocentas produções de cinema por ano e, se cinco delas são boas, certamente é muito. Por qual razão irei querer ver teatro, algo tão absurdo, ridículo, estúpido, nada sério, se posso ficar no conforto de minha casa ou no agito do cinema lotado, vendo um filme mecânico, necrófilo e genérico, tão cômodo e que satisfaz tão rapidamente meu tédio e minha vontade imposta por propagandas e anúncios? O teatro possui um culto pelo absurdo, pelo ridículo, não pede o mínimo de seriedade. Já o cinema é sério, tem um maior comprometimento. No teatro, os atores movem-se naturalmente, sem retomadas, e constantemente recorrem ao improviso e à sua própria criatividade. Já no cinema, os atores repetem a mesma cena incontáveis vezes até ficar perfeita para o público. Por qual razão ver algo encenado de forma tão natural, se posso ver algo que foi encenado repetidas vezes até se encaixar num engenho mecânico de noventa minutos na minha tela em perfeita harmonia? O teatro, além de tudo, é cínico, mentiroso, vil! O teatro é certamente um lugar de mentiras.
Camus fala para não acreditarmos quando nos dizem que o teatro é um lugar de mentiras. Para ele, o teatro é um lugar de verdade. No entanto, uma coisa não anula a outra. O falso, o mentiroso, este pertence ao âmbito da verdade. A verdade não se opõe à mentira. Pegue qualquer um desses advogados ou políticos e jogue ele sob 40.000 watts de luz, imediatamente ele mostra sua verdadeira face, mas sem abandonar a mentira. Teatro se deriva do θέα, do antigo grego, que diz, precisamente: o perfil, a fisionomia de algo. A verdadeira face, o verdadeiro perfil, a verdadeira fisionomia, tudo isso é exposto sob o palco. A verdade do ator está em como incorpora seu personagem, e sua mentira, em seu personagem. A verdade do escritor está na própria história que este escreveu, e sua mentira, em sua projeção. A verdade dos músicos, dos produtores, está nas músicas, nas luzes, nos efeitos, e sua mentira, no exato mesmo lugar. O teatro traz à tona uma imensa biofilia, não só por não ficar fazendo retomadas e reencenações mecânicas frente a uma câmera para posterior reprodução, e não só por estar frente a um público de pessoas ao vivo, mas também, por seu culto ao ridículo e ao estúpido, que lhe é requerido por essência. Na arte do teatro, toda e qualquer seriedade morre.
A Crítica da razão tupiniquim de Roberto Gomes é um livro extremamente medíocre, mas tem um mérito a ser levado em consideração por nós: ele não é sério, ele rompe com a seriedade. “O artista — e o filósofo, quando fiel à sua vocação igualmente marginal — tem recebido ao longo da história o rótulo de louco. E sua "loucura" consiste nisto: não um homem sério.” O não-sério, além de estúpido e ridículo, é também louco. O intelectual brasileiro só considera legítimo o que é sério. Por isso acredita Roberto Gomes que não há filosofia brasileira — no que ele está enganado, pois acaba olhando para o lugar errado. Toda tentativa duma filosofia propriamente brasileira foi duramente repreendida e descartada. Só é legítima a filosofia exterior, ocidental, pois esta é séria. A academia se fundamentou em torno duma razão ornamental, pois o ocidental, o exterior, este sim possui seriedade e legitimidade. Numa relação quase edipiana com a mãe Europa, funda-se o ornamentalismo acadêmico brasileiro. Uma filosofia brasileira, devida e propriamente brasileira, há de ser uma loucura, algo nada sério.
Os homens sérios são racionais, creêm-se condizentes, e por isso são os maiores dos hipócritas. Somente uma pessoa louca, nada séria, poderia assumir ser hipócrita. O maior dos hipócritas é aquele que assim se recusa a admitir. O mais condizente de todos é aquele que reconhece ser o maior dos hipócritas. Uma coisa não anula a outra. Os homens sérios buscam a Veritas, já os não sérios, cínicos e mentirosos, riem de sua implacável busca. Mil vezes um mentiroso que diz a verdade em nome da mentira do que um cidadão honesto que diz a mentira em nome da verdade! O mentiroso é um artista, enquanto o honesto é a expressão da seriedade, um sem graça. Os sérios gritam: “a verdade e nada além da verdade!” frente ao tribunal, e os loucos gritam: “a mentira pela arte!” frente ao palco. Os sérios enojam a mentira, e acreditam combatê-la com a sua "verdade". Já os estúpidos sabem reproduzir cada palavrinha do monólogo da mentira de Razumikhin, pois sabem que a mentira é o único privilégio humano perante todos os organismos.
A seriedade é um câncer do qual devemos nos curar, ela é a entrave que inibe todo progresso e toda utopia. Se queremos nos livrar da dominação e da opressão, precisamos também da seriedade, que é seu pressuposto básico. Por isso, suplicamos: menos sério; mais estúpido, mais ridículo, por favor!
Por: Straw
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