A Máquina Suicida
E o porquê disso? Essa reforma aconteceu junto da primeira Revolução Industrial na Inglaterra e o triunfo do capitalismo como modo de produção vigente. As técnicas de disciplina influenciaram diretamente a produção de riqueza, isto é, todo o nosso comportamento e visão de mundo enquanto sujeitos.
Talvez o ápice dessa reforma do saber e da cultura seja o modelo prisional criado pelo filósofo e jurista Jeremy Bentham: o panóptico. A arquitetura e conceitos por trás do modelo panóptico influenciaram a aristocracia e burguesia européia de tal forma, que a sua ideia foi replicada em todas as instituições e construções a partir dali; hospitais, escolas, universidades, fábricas e etc. Contudo, essa expansão panóptica não foi histórico-natural²; não foi uma expansão consciente dotada de razão; os indivíduos em suas múltiplas relações sociais começaram a reproduzir o panoptismo nos minuciosos detalhes, replicando e criando relações de poder e mercadoria em uma enorme Máquina Suicida que tinha como finalidade sua própria antropologia e destruição em si mesma.
Na base desta máquina - suas engrenagens e mecanismos mais cruciais - se encontra a figura do delinquente. A ciência iluminista fabricou o delinquente como a justificativa de sua insanidade consciente que clama por um desenvolvimento infinito em um mundo finito. O delinquente é a fusão espetacular do monstro psicopata sádico, do subversivo que clama pela desordem e do defeituoso amaldiçoado com a anomalia da revolta; a máquina panóptica-suicida o criou sabendo de seu potencial destrutivo e revolucionário, sempre soube. Porque, afinal de contas, ele é tudo que ela mais desejava para perpetuar seu acúmulo de capital e consumismo; o mais perfeito bode expiatório que tem como mantra seu próprio suicídio consciente.
O DELINQUENTE LATINO-AMERICANO
No mundo moderno e globalizado, há um peculiar território iluminado pelo Sol habitado apenas por delinquentes, terra de verdadeiras culturas guerreiras de resistência que lutam por sua sobrevivência melancólica-suicida dia após dia.
A América Latina junto de seus irmãos do Sul Global não se tornaram um "território de delinquentes" por vontade própria ou por conta de uma "natureza inevitável". Como se tornar naturalmente um indivíduo fruto de uma estrutura que essencialmente não é natural?
O indivíduo latino-americano é astuto, perspicaz, malandro. Seu naiãca³ se adaptou a essa sociedade hostil que o ameaça constantemente; sua história, tradições e conhecimentos ancestrais foram brutalmente apagados e combatidos pelo colonialismo e neo-colonialismo, e os que não foram, foram perfeitamente individualizados, padronizados e mercantilizados.
O latino-americano tem pele branca; mas não é germânico, eslavo, inuíte ou lapão. Possuí olhos puxados; mas não é mongol, vietnamita, ainu ou bouxcuengh. Porta cabelos lisos, cacheados, ondulados, crespos, morenos, negros, loiros... Mas de forma alguma é ariano, cazaque, escandinavo, bantu, apache, comanche ou maori.
Sua identidade é desconhecida. Não por impotência ou um desejo de curiosidade nulo, mas devido a todo um aparelho que os forçam apenas a seguir uma vida monótona e apática onde o dinheiro e o progresso são seus deuses supremos. E eles, seus mais belos devotos que fariam inveja em qualquer engenheiro e arquiteto ao construir a mais bela, perfeita e funcional Emptiness Machine⁴. O delinquente latino-americano é exótico aos olhos da geopolítica internacional, isso porque seus hábitos e costumes remetem a um antigo passado esquecido de seus ancestrais, enquanto seus ideais e doutrinas se baseiam em seus fabricantes europeus. O que é essa pobre alma? Qual é o real sentido de sua existência? Apenas trabalhar e consumir?
O SAMANGO
A velha Europa, além de ter fabricado o delinquente latino-americano, também fabricou seu algoz pseudo-natural; sua marionete que cumpre excepcionalmente o papel de cão de guarda: os samangos⁵. Inicialmente os samangos eram apenas os polícias, guardas, seguranças e soldados que trabalhavam em nome de sua vossa excelência - a autoridade e o poder. Seu objetivo era claro: controlar, disciplinar, padronizar, vigiar e punir o delinquente latino-americano. Mas frente ao inimigo formidável, o samango teve de se atualizar. Agora, o samango não é apenas o agente de segurança; também é o professor, o diretor, o político, o latifundiário, o líder de facção, o juiz, o psiquiatra (...) e qualquer outro indivíduo com capacidades intelectuais e técnicas para reprimir aqueles que vão contra a ordem social vigente. Seja através do desmatamento da fauna local, do acúmulo de capital e renda, do autoritarismo militar ou da pedagogia econômica. O que, ironicamente, causa sua própria autodestruição.
O samango não tem classe social ou origem específica, isso se deve ao fato de que qualquer indivíduo - seja delinquente ou não - pode ser fabricado e disciplinado para se tornar um. Como o samango possui uma importantíssima função social a cumprir dentro da máquina suicida junto do delinquente, sendo vendido e propagado como alguém dotado de moral e boa fé, o delinquente começa a o imitar inconscientemente na esperança de que sua trágica existência tenha um fim.
Defender "a moral e os bons costumes"; lutar pela honra; ser um cidadão de bem; defender "a família tradicional; eis os ideias da mais pobre alma cansada e revoltada com a sua realidade e amaldiçoada pelo terror absoluto de sua falsa consciência.
ESQUERDA "RADICAL"?
Na realidade brasileira, para se adaptar ao cenário brasileiro com a finalidade da criação de uma economia de submissão, a colonização suicida utilizou de recursos como a miscigenação, o darwinismo social e uma dependência econômica baseada nas grandes propriedades de terra, crucial para a formação do povo brasileiro.
E para colocar os últimos pregos na tampa do caixão do vazio existencial brasileiro, a Era Vargas fabricou uma poderosa combinação: o minério iluminista e europeu do qual é constituído as engrenagens da máquina panóptica-suicida foi substituído por um suposto minério 100% brasileiro e nacional.
As políticas de caráter nacionalista e desenvolvimentista de Vargas inauguraram uma nova época. A fusão da cultura e arte tradicional brasileira com o modo de produção capitalista europeu criou uma nova economia de submissão romantizada. Ser uma cadelinha dos Estados Unidos e das potências européias? Claro! Mas sou uma cadelinha independente que tem o próprio espaço para fazer xixi e coco. Agora o sonho de um Brasil industrializado sendo uma superpotência mundial e desenvolvida não era um simples desejo imposto a força pelo colonialismo, era o sonho de toda uma nação ansiosa pelo fim de sua miserável existência. Um sonho que não foi criado por ela, um sonho que ela nunca desejou, um sonho que ela nem sabe o motivo de existir, um sonho que foi meticulosamente fabricado e aplicado para sua própria auto-sabotagem fatal.
Os delinquentes fabricados no surgimento da máquina panóptica tinham agora vários nomes do qual os samangos brasileiros os denominaram - já que sua existência é essencialmente indefinida e vazia: comunista, anarquista, bicha, viadinho, nóia, retardado, macaco, mulato, vadia, índio, vagabundo (...) e foi com a Ditadura Empresarial-Militar que o auge ao combate de sua existência foi posto em prática. Cada engrenagem, cada movimento, cada produção de saber e de riqueza era minimamente calculado para expurgar esses subversivos que a própria máquina suicida criava com todo o cuidado. Aquele que tentava resistir e lutar contra - mesmo que não fosse de maneira armada - era um verdadeiro kingslayer⁶ aos olhos do Estado Brasileiro, a instituição suprema e absoluta dos samangos. Historicamente esses delinquentes foram padronizados e individualizados no espectro política da esquerda pelas ciências sociais, mas observamos que nos últimos anos essa ideologização se mostra falha e impotente; já que os partidos denominados socialistas se comportam como verdadeiras empresas multinacionais sedentas por vender sua luxuosa mercadoria marxista, mesmo que seja necessário vender algumas rifas ilegais. O poder displinar da Era Vargas afetou a esquerda brasileira de tal forma, que mesmo os que se dizem de "esquerda radical" só conseguem ganhar alguma fama com discursos completamente nacionalistas e desenvolvimentas, tirando do peito um patriotismo que nunca existiu. Como pode haver nacionalismo e patriotismo em uma nação que já nasceu morta?
Talvez houve uma época em que a esquerda pôde ser realmente radical, mas essa época já se foi há algum tempo. A esquerda brasileira se perdeu. Se tornou a exata representação do piloto kamikaze que parte para a missão já sabendo de sua morte. Não por incompetência, desorganização ou o caráter de seus indivíduos; mas porque ela já nasceu predestinada para essa finalidade. Dotada de uma esperança para ver o Sol em uma escuridão eterna, a esquerda brasileira deseja se tornar a mais bela e eficiente engrenagem da máquina panóptica-capitalista, quando na verdade o seu fabricante a projetou para ser apenas o parafuso dessa engrenagem que é feito de um minério chamado materialismo-eufórico-desconexo. Dito isso, não é estranho que o governo progressista e de esquerda de Lula queira extrair petróleo da foz do Rio Amazonas, afetando a vida de milhares de delinquentes-ribeirinhos que ali vivem e destruindo a fauna local no processo. Na verdade, é a mais perfeita atitude de um delinquente, que na ausência de uma educação libertadora, sempre quis se tornar o samango.
CONCLUSÃO
Para enfrentar o panoptismo, o samango e a máquina suicida, o delinquente latino-americano desenvolveu as mais belas artimanhas de resistência: a capoeira, a poesia, a arte, a malandragem, o cangaço, a agricultura quilombola, a vagabundagem... Mas dentre elas, duas artimanhas criadas pelos delinquentes europeus se destacam: o socialismo e a revolução.
Uma revolução socialista não é a melhor opção para acabar com a cruel realidade latino-americana por ser a mais bela, a mais honrosa, a mais cativante ou a mais fácil. É a melhor opção por ser a mais eficiente. O socialismo juntamente com a construção da sociedade comunista tem a proposta de destruir toda a lógica e estrutura da sociedade moderna desde a criação da filosofia iluminista e a substituir por uma nova. Uma sociedade com uma nova estrutura, uma nova cultura, um novo saber, uma nova filosofia, antropologia e novas relações de poder; onde a autogestão, o interesse e a realidade do bem-comum ditam as regras do modo de produção, abandonando toda a desgraça modernista do passado. Isso é uma sociedade comunista.
A dificuldade do triunfo de uma revolução socialista está justamente em destruir o nosso cotidiano, cometer a blasfêmia de renegar o deus da economia, abandonando essa realidade atual para a criação de uma nova sociedade, e até quem sabe, uma nova civilização. Mas essa máquina suicida que nos mutila desde o nosso primeiro respiro é seduzente. O conforto da normalidade é mil vezes mais eficiente que a agonia da mudança. Quem gira as engrenagens dessa máquina? Eu, você, seu tio, o dono do bar que fica na esquina e qualquer indivíduo pensamente. Trabalhos todos os dias para nossa própria autodestruição: a síndrome de burnout, o genocídio palestino, a dor da autoconsciência, o colapso climático iminente e o medo de uma guerra nuclear não devem ser temidos pelas crianças da sepultura ⁷. Eles são o resultado básico de uma estrutura que tem como seus pilares a mecanização, mercantilização, autodestruição e a agonia da vida. Nessas condições, contemplar o absurdo da existência ⁸ é apenas ter uma overdose perpétua de Mirtazapina. É uma existência violenta, bruta, perigosa e extremamente eficiente. O inferno somos nós.
- Hatuey
NOTAS E BIBLIOGRAFIA
1 - FOUCALT, 1987 [1975], p. 280-283 (PDF).
2 - MARX, 1890 [1867], p. 181 (PDF).
3 - naiãca é um substantivo para se referir a palavra "sangue" no idioma dos indígenas do povo mubüta (também conhecidos como tikuna).
4 - LINKIN PARK, 2025.
5 - samango é um adjetivo pejorativo que os ex-escravizados cariocas deram aos policiais militares.
6 - BRING ME THE HORIZON, 2020.
7 - BLACK SABBATH, 1971.
8 - CAMUS, 2019 [1942], p. 101 (PDF
Comentários