Homilia do 15º Domingo do Tempo Comum — 13/07/2025


Meus irmãos, minhas irmãs, chegamos ao 15º domingo do tempo comum e a Palavra de Deus sempre nos provoca. Tem gente que acha que a Palavra de Deus é para acalmar — não, a Palavra de Deus é para nos agitar, para nos incomodar. Eu sempre digo, Camilo, que a Palavra de Deus não é como uma almofadinha que a gente põe nas acostas. A Palavra de Deus nos desinstala e nos faz refletir, discernir, nos faz estar comprometidos com a transformação do mundo, da história, da nossa vida e da vida daqueles que convivem conosco.

Hoje nós ouvimos dizer que o que Deus nos pede não está tão longe de nós que seja impossível. Nós não podemos dizer — e eu ouço às vezes algumas pessoas dizendo: ah, mas isso aí é pedir demais, ah, mas isso é difícil. Nós somos chamados a testemunhar a compaixão de Deus. E nós vamos entender hoje no texto do Evangelho o que significa compaixão e misericórdia. O que significa ter gravado no coração a Palavra de Deus e vivê-la como compromisso transformador.

Muitas vezes nós queremos uma fórmula mágica para transformar a realidade. A realidade não se transforma de repente. E nós não podemos ser tão pessimistas. Algumas coisas são imprevistas. E a ação de Deus na história é uma ação, muitas vezes, difícil de perceber. É imperceptível. Eu sempre digo para os estudantes de teologia que eles estudam muita história da teologia. E estudam pouca teologia da história. Nós precisamos aprofundar e refletir a teologia da história: como é que a ação de Deus está presente na nossa vida e na vida do nosso povo, e como é que a ação de Deus vai acontecendo, às vezes em diálogos e conversas, como essa que Lucas relata para nós, de uma maneira tocante, magistral e questionadora.

Diz aqui Lucas: o mestre da Lei se levantou. O mestre da Lei era aquele que falava em nome de Deus, cuja palavra tinha tanta força quanto os mandamentos. É aquele que tinha a interpretação da Palavra de Deus. Por isso ele era o mestre da Lei — o que ele dizia era a lei, aquilo que deveria ser feito. Mas Lucas, que é muito perspicaz, diz que o mestre da Lei se levantou querendo pôr Jesus em dificuldade. O verbo grego usado por Lucas é: “querendo tentar Jesus”. Lucas nos diz coisas que a gente precisa perceber bem nas entrelinhas.

Aquele homem tão religioso... tem a mesma ação que o demônio: quer tentar Jesus. É o mesmo verbo que Lucas usa para o demônio que quer tentar Jesus — usa para o homem extremamente religioso que quer também pôr Jesus em dificuldade. E aqui tem uma dica: ele chega e fala para Jesus: “Mestre...” Toda vez que alguém no Evangelho chega para Jesus e fala “Mestre”, cuidado — porque vem coisa. Nunca é com sinceridade. Chega para Jesus: “Mestre...” — cuidado.

E ele pergunta: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Jesus não está discutindo essas coisas. E ele vai lá tentar Jesus, como um demônio, perguntando: “O que eu devo fazer?” E Jesus, já que ele é o doutor da Lei, já que ele é o mestre da Lei, diz: “O que está escrito na Lei? Como lês?” Querendo saber: o que você entende disso? O que você lê?

E ele diz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força, com toda a tua inteligência.” Então ama a Deus de maneira absoluta. “E ao próximo como a ti mesmo.” Ao próximo é relativo — “como a ti mesmo”.

E Jesus devolve mais uma vez. Jesus usa um diálogo pedagógico muito interessante e diz: “Tu respondeste corretamente. Então faz isso e viverás.” Faça isso e viverás. E não fala “viverás a vida eterna” — viverás. Faça isso e viverás.

Ele, porém, querendo justificar-se... Por que ele queria justificar-se? Porque havia duas escolas dos rabinos: uns diziam: “O próximo são só aqueles que pensam como eu, que são da minha turma, que são da minha patota, que são da minha galera — esses são os meus próximos, da minha tribo, do meu grupo. O próximo é aquele que eu reconheço, que eu sei: ‘esse aqui é meu próximo’. É aqueles que, por algum motivo, estão perto de mim.” E a outra vertente do judaísmo dizia: “Não, o próximo são todos.”

Tinha dois rabinos: um mais restritivo e um mais aberto. Esse com certeza era daqueles que eram restritos. “Quem é o meu próximo?” Que diz: “Amarás teu próximo” — isso é muito vago, não é? Então, quem é o meu próximo? Quem é que eu devo amar como a mim mesmo?

E Jesus não responde. Não era uma pergunta com três alternativas. Não era uma pergunta para fazer X. Jesus conta uma história e diz: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó.” Jerusalém está a 818 metros acima do nível do mar. E Jericó a 200 metros abaixo do nível do mar. E essa descida era muito perigosa, havia muito assalto, muitos problemas. E o homem estava descendo — e não deu outra: caiu na mão de assaltantes. Arrancaram tudo, espancaram, foram embora e ainda o deixaram quase morto.

Mas tem uma esperança. Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Oh, que sorte! Ainda bem. Ele estava lá caído, sem nada, ferido, machucado, quase morto. Ah, mas ele ficou abandonado. Está vindo um sacerdote, que está descendo de Jerusalém — que bom, não é? Só que não. Quando viu o homem, seguiu adiante por outro lado. Não por maldade — porque ele estava purificado. E segundo as normas religiosas, ele não deveria tocar numa pessoa ferida, ensanguentada — ele se tornaria impuro. Então ele foi embora pelo outro lado.

Mas a esperança não morre. Aconteceu que vinha vindo um levita também. Ah, que sorte, não é? Estava vindo um levita, que é o auxiliar do sacerdote. Puxa, ainda bem, não é? Estava vindo um levita — aí o quase morto ia ser socorrido. Só que não. O levita também estava vindo do templo — muito religioso, piedoso, devia ser da Associação Católicos de Verdade. Não tinha ainda essa associação, mas... Não tocou. Seguiu por outro lado.

Mas veio um samaritano que estava viajando. Um samaritano — hoje, para nós, é difícil entender o que é um samaritano. Mas o samaritano era um desclassificado. Um herege. O judeu não devia conversar com o samaritano. Era uma pessoa odienta, rejeitada. Talvez a gente deveria dizer assim para vocês verem o que a primeira audiência de Lucas sentiu: “Mas um cracudo, um cracudo lá da Cracolândia, chegou perto...” Aí com certeza vai pegar o que sobrou, vai arrancar o olho do moribundo, vai dar uma cacetada nele. Justo quem chegou perto — um cara que “não presta”...

Aproximou-se, fez curativos, derramou óleo e vinho nas feridas, ainda recolheu a pessoa, cuidou, e ainda pediu para cuidar — e ia pagar, se tivesse algum gasto. Que exagero, não é? O Lucas também gosta de exagerar, não é? Justamente o detestável, o herege, o que não prestava para nada, o rejeitado, o discriminado, o nojento — foi ele que parou. Gostou, doutora Márcia?

Aquele que não seria nem em nenhum momento recomendável. E aí Jesus conta essa história escabrosa. Até porque é uma história escabrosa, não é? Imagine o doutor da Lei — eu imagino o cabelo dele em pé e o solinho virando, pensando: “O que eu fui me meter nessa confusão?” E aí Jesus pergunta: “Na opinião... qual dos três foi o próximo do homem que caiu na mão dos assaltantes?”

É muito interessante o texto. Porque o mestre da Lei, o piedoso, o religioso, aquele que fala em nome de Deus, respondeu: “Aquele...” — ele não é capaz de dizer “o samaritano”. A boca dele não dá pra dizer “o samaritano”. Ele não consegue dizer que é o samaritano. Ele não consegue dizer “o cracudo”. Ele fala: “Aquele que usou de misericórdia.” Ele não aceita que tenha sido por compaixão.

Vejam que no texto Lucas é extremamente provocante. Ele diz: chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. Compaixão é um sentimento de Deus. Por isso esse texto quer propor para nós: ame como Deus ama. Sentiu compaixão. E o doutor da Lei não consegue falar o nome. Dizer “o samaritano”. E diz: “Usou de misericórdia.” Porque a misericórdia é uma dimensão humana. Compaixão é divina. Então ele não consegue dizer nem o nome, nem que usou de compaixão. Fala de misericórdia para com ele. Esse religioso aqui era bem ortodoxo mesmo. Bem fidelíssimo. Fidelidade que não admite que se ama com amor de Deus, semelhante ao amor de Deus.

Então Jesus diz: “Vai, e faz a mesma coisa.” Ame com compaixão, como Deus ama. Não discrimine ninguém. Não tenha preconceito com ninguém. Não trate ninguém com crueldade. Seja capaz de entender a dor do teu irmão. Sinta a dor do teu irmão. Se deixe compadecer. Ter compaixão. Não torture. Não aceite a tortura. Não concorde com torturadores. Seja compassivo. Seja compassivo.

Essa cidade precisa ser compassiva com os pobres, com os abandonados, com os rejeitados, com os discriminados. Nós não podemos aceitar a violência, a tortura, o ódio que mata. Nós somos chamados a ver, chegar perto e sentir compaixão. É assim que é o critério do amor de Deus. Amar — tem até o canto, não é? “Amar como Jesus amou.” Amar como Jesus amou é: chegar perto, ver, sentir compaixão. Sem rejeitar ninguém. Sem julgar. Sem maltratar. Sem vingar.

Nós até aceitamos ser compassivos, mas queremos tirar dessa categoria “não vingar”. Nós vivemos um tempo terrivelmente desafiador com o genocídio do povo palestino, com a violência contra os povos indígenas, o povo negro, com a discriminação e o preconceito, com xenofobia, com todo tipo de homofobia, de transfobia. Nós reforçamos todos esses comportamentos desumanizadores, que tiram de nós a capacidade de amar, de acolher, de chegar perto, de curar as feridas, de perceber a dor.

Todas essas noites, para mim, é um exercício de espiritualidade visitar os irmãos de rua aqui na tenda das baixas temperaturas. É um exercício de espiritualidade. Conviver com aqueles que ninguém quer. Conviver com os rejeitados. Conviver com pessoas que estavam presas. Com pessoas pouco recomendáveis, segundo os valores morais de uma sociedade hipócrita.

Ninguém se comove se eles são torturados, se eles desaparecem, se eles são tratados com crueldade pela Guarda Civil Metropolitana e pelos agentes de zeladoria urbana. Ninguém se importa se as coisas que dão para eles — jornalistas devem estar bem atentos no superfaturamento do dinheiro público, travestido de garantia de direitos — tiram dessas pessoas a alegria de viver.

Nós somos chamados. E o Evangelho de hoje não é uma história, uma parábola para ficar na nossa cabeça, mas uma atitude que tem que entrar no nosso ser: cheguem perto, vejam, tenham compaixão, curem as feridas, sejam de todos irmãos. Amém.

Essa homilia/sermão é de autoria do Pe. Júlio Lancellotti, da Paróquia de São Miguel Arcanjo em SP.

Sua transcrição é de autoria de Adel.

Comentários

Adel disse…
Eu estou orgulhoso de mim mesmo!

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