Homilia do 16º Domingo do Tempo Comum — 20/07/2025
Homilia do Pe. Júlio Lancellotti no 16º Domingo do Tempo Comum – 20/07/2025
A liturgia de hoje quer dizer para nós que temos que ter perseverança na luta e buscarmos o discernimento que nos leva à liberdade, à liberdade que nos ensina o amor. É a liberdade que nos ensina o amor. Ninguém ama por imposição.
O amor não é uma imposição, o amor é filho da liberdade — da liberdade de acolher, de servir, da liberdade de estar aberto à novidade de Deus na história. Nós ouvimos, no livro do Gênesis, como Abraão recebe e acolhe a visita que lhe promete o impossível.
E aqui o texto para num determinado momento, mas a Sara, quando viu que, dali a um ano, teria um filho, pensou: “Já sou tão idosa, meu marido é idoso também, como é que a gente recebe essa promessa?” E ela riu e zombou dessa promessa.
Por isso, os machistas e os misóginos disseram que Deus nunca mais falou com as mulheres, porque a última vez foi com a Sara — e a Sara riu. Você sabia dessa, Marcos? Pois é, o Leonardo devia saber disso. E aí dizem: “Por isso que Deus nunca mais falou com as mulheres.” É bom guardar isso para perceber o que vai acontecer, porque isso é uma visão patriarcal, é uma visão misógina.
Deus nunca mais falou com as mulheres? Mas a gente vai ver por que é importante ter isso presente. Deus muitas vezes nos promete o impossível e nós, pela fé, acreditamos naquilo que parece impossível para enfrentar as forças da morte.
Os textos vão nos ajudar, de certa forma, a entender isso, e nós precisamos refletir. E depois o Evangelho de Lucas vai nos dizer: “Jesus entrou num povoado.” Isso é uma dica: toda vez que, no Evangelho, diz que Jesus entrou num povoado, é porque vai ter oposição.
O povoado, a aldeia, é o lugar da tradição, daquele que diz: “Aqui sempre foi assim, não vai ter novidade nenhuma, não muda mais.” Então, toda vez que diz: “Jesus entrou no povoado” — vai dar ruim, vai ter oposição. E é interessante que o texto antes diz que Jesus estava caminhando com os discípulos, mas só Ele entrou no povoado,
porque os discípulos também não entendiam e faziam oposição a Jesus. E diz aqui o texto uma informação bombástica — e a gente tem que entender esse texto no contexto: Jesus entrou no povoado e foi à casa de uma mulher chamada Marta.
Isso já é uma informação bombástica. Como é que Jesus vai à casa de uma mulher? Onde está o homem dessa casa? Um homem judeu não entra na casa de uma mulher. E o pior: não é uma, são duas — e aqui não se fala de nenhum homem.
Nós, depois, em outros momentos dos textos bíblicos, vamos saber que a Marta e a Maria têm um irmão chamado Lázaro. Mas Lucas aqui coloca que a casa é da Marta. Já é uma informação estranha, porque no judaísmo a casa nunca é da mulher, é do homem. E aqui a casa é da Marta — e não tem homem nenhum lá: a Marta e a Maria.
E Jesus entra nessa casa. Vão guardando tudo isso que é importante. E Maria sentou-se aos pés do Senhor e escutava sua palavra. A Maria — também aqui é outra informação bombástica — ela sentou-se aos pés do Senhor.
Quem se sentava aos pés dos mestres eram os homens, como Paulo diz que foi instruído aos pés de Gamaliel. Não se tem notícia de mulher que tenha sentado aos pés de um mestre para escutá-lo. Então: a casa é da Marta, Jesus entra na casa das mulheres, a Maria senta-se aos seus pés e o ouve. E a Marta...
Esse texto é muito questionador, não é? A Marta, porém, ocupada com muitos afazeres. Por isso ela se aproxima do Senhor e diz: “Não te importas que minha irmã esteja aí sentada e eu sozinha fazendo todo o serviço?” Porque a Marta está reproduzindo o papel da mulher. A mulher tem que ficar fazendo serviços.
E a Maria tem um ato de rebeldia e de liberdade e se senta aos pés do Senhor. Vocês já tinham pensado nisso? Complicado, não é? Pois é. A Maria teve um ato de rebeldia. Rompeu
com a tradição, rompeu com o papel tradicional da mulher e teve liberdade. Lugar de mulher é onde ela quiser. Essa história de dizer que lugar de mulher é na cozinha — já era. Lugar de mulher
é na luta de transformação e de se tornar discípula. Isso que a Maria fez: ela não aceitou o papel tradicional da mulher no judaísmo. Sentou-se aos pés de Jesus — não para adorá-lo, nem para manifestar submissão — mas para ser discípula,
pelo discernimento, ouvindo a palavra do Senhor. Por isso que Jesus repreende a Marta, dizendo: “Marta, Marta, você está preocupada com muitas coisas e anda agitada por muitos serviços. Maria escolheu a boa parte.” Qual é a boa parte? Ser discípula de Jesus.
E um mestre no judaísmo não podia ter discípulas. Então, esse texto é toda uma reversão da ordem: um mestre que tem discípulas, uma mulher que se torna discípula — e dá a impressão de que Maria não está fazendo nada.
Eu tenho relido, Leonardo, um livro que eu pedi agora à Companhia das Letras que republicasse — e eles querem republicar, mas querem que eu faça uma apresentação e uma reflexão. Esse livro se chama A Utilidade do Inútil. A Utilidade do Inútil.
É um manifesto. Nós vivemos num mundo extremamente meritocrático, utilitário, pragmático. Nós não entendemos a utilidade do que é considerado inútil. Vivemos numa forma de pensar, numa epistemologia que sempre nos pergunta: “Para que serve isso? Você vai ganhar com isso?”
O que você vai ganhar seguindo Jesus? O Paulo vai dizer, de uma maneira também um tanto controversa: “Alegro-me de tudo que já sofri.” Ora, alguém pode se alegrar de ter sofrido? “Alegro-me de tudo que já sofri por vós e procuro contemplar, em minha própria carne, o que falta às tribulações de Cristo.”
Muitas vezes, o seguimento de Jesus é considerado inútil dentro deste mundo pragmático, utilitário, do lucro, da vantagem. Seguir Jesus traz contestação, marcas, rebeldia. É considerado desajustado, inútil.
Qual a utilidade de seguir Jesus no mundo de hoje? É útil? Vai trazer sofrimentos? Vai trazer questionamentos? Vai trazer contestações? Então é melhor aquilo que seja útil. O que é útil? Estar bem, estar tranquilo, ter sucesso, ter vantagem.
Por isso, a gente tem que entender de uma forma anti-intuitiva de pensar. Por isso que a neurociência é importante na questão comportamental. A gente tem que ser capaz de pensar fora do sistema. Porque nós pensamos muito dentro do sistema. Maria está pensando fora do sistema.
Fora da caixinha. Considerada inútil, considerada como quem não está fazendo nada, deixando sozinha a irmã que tem tantos afazeres. Quais são os
afazeres deste mundo? Escolhermos a utilidade, aquilo que é pragmático, aquilo que vai dar lucro, aquilo que vai trazer vantagens.
Amar os pobres é inútil. Amar os pobres, os desajustados, os insolentes — pode parecer inútil, mas nos faz pensar de uma maneira diferente, nos faz pensar que a força de Deus está nos fracos.
Que a força de Deus está naqueles desarmados, que a força de Deus está naqueles que ouvem a sua palavra para seguir o que nos ensina Jesus. O seu mandamento é o mandamento do amor.
É uma maneira diferente de pensar. Nós, muitas vezes, temos medo do diferente, temos medo da diferença, temos medo de não ter vantagem, temos medo de não lucrar, temos medo de não fazer sucesso e ter resultados.
Muitas vezes, o resultado — diante da ótica deste mundo — é nada. Quantas vezes dizem isso: “Para que você está fazendo isso? Para que você fica se preocupando com essas questões? Isso não vai dar em nada.”
A inutilidade, aos olhos deste mundo, é resistência. É resistir. É, como Maria, ter a liberdade e a criatividade que só o amor nos ensina. Por isso eu pediria a todos vocês: coragem. Pensem fora da caixinha, pensem fora do modelo — e ajam movidos pelo amor. Amém.
Essa homilia/sermão é de autoria do Pe. Júlio Lancellotti, da Paróquia de São Miguel Arcanjo em SP.
Sua transcrição é de autoria de Adel.
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