Homilia do 17º Domingo do Tempo Comum — 27/07/2025

Meus irmãos, minhas irmãs, já no 17º domingo do tempo comum, a palavra de Deus sempre vem para nos animar, para nos encorajar e para nos ajudar a refletir, a discernir e achar o caminho na realidade que nós vivemos. Por isso, nós temos que estar sempre bem ligados na realidade que nós vivemos. Muitas vezes, nós não entendemos a realidade que vivemos. Por que o mundo é assim? Por que as coisas funcionam assim? Por que nós pensamos assim? E fica parecendo — e se usa essa palavra — que é normal, e nós acabamos banalizando o sofrimento, a exploração, porque não somos capazes de perceber, de analisar, de discernir a realidade que vivemos para enfrentá-la.

A celebração de hoje quer dizer para nós: a oração, a disponibilidade, a nova relação com Deus pode nos ajudar a refletir e a discernir o caminho que temos que fazer. Nós vimos no livro do Gênesis como é que o Abraão vai, na sua oração insistente, diminuindo o número dos justos para que a cidade não seja destruída. Vai diminuindo, diminuindo, diminuindo — aqui na leitura chega até dez, mas depois vai chegar até menos ainda. Então, a questão não é o número de justos, mas a compaixão e a misericórdia de Deus. A nossa relação com Deus não é uma troca, não é dizer: "nós temos esses méritos", "nós temos dez justos", ou "cinquenta". O enfoque é a misericórdia de Deus, que é paciente, que é misericordioso. A misericórdia tem essa dimensão da paciência.

Muitos podem dizer: "ah, essa misericórdia é muito... passando pano quente". Não. A misericórdia é paciente. Muitas vezes, nós temos que ter a paciência histórica de aguentar o sofrimento e a dor, a incompreensão, a agressão, as ameaças, as dificuldades. Resistindo. Resistir não é passividade, mas é uma força e uma coragem de enfrentar, assim como a rocha, as ondas do mar, que batem contra a rocha — e a rocha se mantém, mesmo com o embate.

Muitas pessoas perguntam: "como aguentar?", ou perguntam: "como que você aguenta?" E aí a gente tem que rezar sempre o Salmo 137, como nós cantamos hoje, que diz: "naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor." E vendo cada um dos versos deste salmo, como são impressionantes: "porque ouviste as palavras dos meus lábios; naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma. Quando meus perseguidores me atacarem e com ira investirem contra mim, estendereis o vosso braço em meu auxílio e vós havereis de me salvar. Senhor, vossa bondade é para sempre. Eu vos peço, não deixeis inacabada..."

A oração é de confiança, na misericórdia de Deus. E nós resistimos porque confiamos nessa misericórdia. O evangelho de Lucas vai nos dizer hoje — e é o evangelista que mais relata Jesus em oração — e vai nos dar aqui a oração que Jesus nos ensinou. Nós temos três versões dessa oração: uma em Lucas, uma em Mateus e outra na Didaquê, que é o primeiro catecismo da Igreja. Aliás, aqueles que gostam de mostrar o catecismo e falar: "está no catecismo", eu gostaria de perguntar para eles se já leram a Didaquê. Porque o pessoal fala, fala, mas não leu a Didaquê ainda. Precisariam ler. É disponível, está até na internet a Didaquê. E lá também tem uma versão do Pai Nosso.

Qual é a grande revolução que Jesus faz na oração? Qual é a grande transformação? É chamar Deus de Pai. Não chama Deus de onipotente, altíssimo Senhor, onipresente, onisciente — mas chama Deus de Pai. E aí sempre há: "ah, mas por que chama Deus de Pai? Isso é muito masculino." Já falamos: não é por uma questão de gênero. Pai ou mãe — não é essa a questão de gênero, é de proximidade, é de confiança.

E a primeira petição — "santificado seja o vosso nome" — é: seja reconhecido que Deus é Pai, não patrão, nem fiscal, nem alguém que fique escrevendo para cobrar. Deus não é cobrador, nem é impositor, nem opressor, nem ditador. É Pai. Pai quer dizer: com amorosidade, com compaixão.

Santificar o nome do Pai é assumir essa dimensão e essa amorosidade, essa dimensão compassiva e misericordiosa, pedindo que se alargue o reinado de Deus. Alargar o reinado de Deus significa, hoje, cessar toda forma de opressão e de violência. Alargar o reinado de Deus é aumentar a mesa para que todos possam comer.

Hoje em dia não tem mais, como tinha na minha infância... Eu tenho ainda uma mesa que era da minha mãe, e uma mesa que abre e põe uma tábua no meio. Depois pode abrir mais e pôr outra tábua aí, e a mesa fica enorme. Ainda tenho essa mesa. Hoje, nos estúdios que são construídos em São Paulo, essa mesa não entra. E no modelo socioeconômico e político que nós desenvolvemos, não tem lugar para essa mesa. Essa mesa tem quem ainda tem de tempos passados. Acho que nem é fabricada mais essa mesa. Você já viu, Regina, se tem essa mesa para vender por aí? Só em brechó.

Mas então, são antigas. Mas sabe por que ninguém compra nem no brechó? Porque não tem onde pôr. Aonde vai pôr essa mesa? Vocês já viram? Abre, põe uma tábua no meio, pode abrir mais, pôr outra... Isso é vir o reinado de Deus: alargar, alargar a mesa para que palestinos e judeus, ortodoxos e ateus, evangélicos e católicos, cristãos e não cristãos, todos possam comer juntos. Haja uma mesa bem grande, bem larga. Eu gosto dessa mesa que abre e que fica tão comprida.

Assim é o reinado de Deus. E "venha o Reino" não é uma coisa que vai vir — já está aqui. Nós temos que alargar. E tudo que é feito é para estreitar, para diminuir, não dá para todos. Tem o suficiente, mas para poucos. Tem aquilo que necessitamos. É o modelo que nós escolhemos. E é um modelo que vai ferir, com a crise climática e com as mudanças climáticas, não só os que fabricam a opressão — eles acham que vai atingir só os oprimidos — mas vai atingir a todos: os que produzem a miséria e os que sofrem a miséria.

Por isso, a oração do Pai Nosso é uma oração impactante. Nós, hoje, rezamos o Pai Nosso parecendo mais um papagaio repetindo uma fórmula. O Pai Nosso não é uma fórmula. É um compromisso. É um compromisso de viver numa outra dimensão. E numa dimensão — outro dia um neurocientista me falou — anti-intuitiva. Pensar o contrário.

Eu gosto de fazer o exercício de pensar dentro da caixinha e fora da caixinha. Que nós pensamos muito dentro de um modelo — o modelo da vingança, da meritocracia, dos padrões estéticos, da competição — e não pensamos fora da caixinha: a solidariedade, a fraternidade, a equidade, a partilha, a humanização da vida. Por isso, a oração do Pai Nosso é uma oração tensa. E uma oração densa.

Chamar a Deus de Pai, pedir que Ele seja assim reconhecido, tenha o seu nome santificado e o seu reino alargado, e que tenhamos um pão que nos alimenta — não só fisicamente, mas que alimenta a nossa energia de amar, aumenta a nossa energia de resistir, aumenta a nossa energia de partilhar, de enfrentar — mesmo sabendo que, muitas vezes, vamos perder. Mesmo sabendo que a nossa luta é uma luta difícil. Difícil de manter. E nós dizemos: ah, mas onde estão as pessoas?

E esse grande pedido que nós fazemos de sermos capazes de perdoar — perdoar não só quem nós amamos, mas perdoar até os nossos inimigos, perdoar aqueles que nos odeiam, perdoar os que fabricam iniquidade. E perdoar, como diz a Fratelli Tutti do Papa Francisco, não é dizer que está tudo bem — mas é lutar para transformar. Perdoar o tirano é tirar da mão dele a tirania, não para tiranizá-lo, mas para que ele seja irmão.

Por isso que é difícil. Por isso que essa oração é tensa, é densa. Nós queremos tirar o autoritário e ficar no lugar dele — autoritários também. O difícil é mudar essa situação para que todos sejamos irmãos, com insistência. E uma insistência que não nos leva ao pessimismo, mas nos leva a esperançar — a já começar a viver aquilo que nós esperamos, aquilo que nós queremos.

E por isso, Jesus vai dizer dessa insistência em pedir — que é a resistência — e vai dizer: "se vós sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o amor, a amorosidade do Pai nos dará o Espírito Santo." O que é o Espírito Santo? É termos a força de amar como Ele. O Espírito Santo que nos faz discernir.

Qual é o caminho de Jesus nessa cidade? Qual é o caminho de Jesus no Piauí, na Paraíba? Como enfrentar e resistir a toda forma de opressão? E nós resistimos sendo frágeis, nós resistimos sendo vulneráveis. Nós podemos ser atingidos de muitas maneiras a qualquer momento. E muitas vezes somos atingidos de maneira que não temos como nos defender.

Nós muitas vezes temos a pretensão — e achamos que... Eu ouço muita gente dizer para mim: "toma cuidado." Eu fico pensando: como é que se toma cuidado? Às vezes, o "tomar cuidado" e "ter prudência" é ser omisso, é ficar calado, é não se expor, é não dizer o que precisa ser dito, é não enfrentar com força e coragem a vida. É um grande desafio.

Eu sempre lembro — já contei aqui algumas vezes — num domingo, quando eu terminei a missa aqui e fui comprar almoço para levar para casa, e quando eu saí do supermercado, uma senhora que estava lá conversando falou: "você que é o padre?" Falei: "sou." Ela disse: "ah, o padre lá de baixo, que gosta de proteger e defender os maloqueiros, os vagabundos. Nós vamos te matar." Falei para ela: "a senhora vai ter êxito. Vai ter êxito. Pode dizer a esses que disseram que vão me matar que terão êxito."

Eu não uso colete à prova de bala, não tenho seguranças e, principalmente lá na capela São Judas, onde eu celebro às 10, eu sou um alvo perfeito. É só chegar e mirar. Não vai errar. E a gente tem que enfrentar, aguentar. E eu disse para ela: já vai ter êxito.

O que é ter êxito nesse mundo que nós vivemos? O que significa a meritocracia quando nós chamamos Deus de Pai, que tem amorosidade por nós, que nos dá a capacidade de discernir?

E essa oração nos compromete a amar como Jesus amou. Por isso que nós pedimos: "e não nos deixeis cair em tentação". A tentação é, na hora do sofrimento, na hora de tomar decisão, para que lado que nós vamos. Ninguém quer ir para o lado que vai perder. Ninguém quer ir para o lado dos mais fracos. Ninguém quer ir para o lado dos que não têm nenhuma força.

A nossa luta é extremamente desigual. Nós lutamos desarmados, porque nós confiamos no amor do Pai. Amém.

Essa homilia/sermão é de autoria do Pe. Júlio Lancellotti, da Paróquia de São Miguel Arcanjo em SP.

Sua transcrição é de autoria de Adel.

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