158 anos d'O Capital e o aspecto negligenciado da crítica do trabalho


Em 14 de setembro de 1867, era publicado o primeiro tomo d'O Capital, a famosa crítica da economia política. Muitas páginas foram foleadas desde então. No entanto, existem aspectos e questões fundamentais no livro, e também na obra de Marx como um todo, que foram ignorados ou simplesmente descartados. Um deles, cujo pretende-se trazer à tona aqui, é o da crítica do trabalho. Não a crítica da expropriação sobre o trabalho, cujo é bem falada por todos, mas a crítica do trabalho per se.

A leitura vigente da obra já é datada e passou da validade há muito. A relação abusiva entre o capitalista burguês vampiresco que suga o mais-valor do pobre proletário que é forçado a sujeitar-se a tais condições mal existe na atualidade. Primeiro, pois a figura do capitalista, do "sargento do capital", não é necessária à produção, e nem nunca foi. Já na primeira edição do livro, Marx exprimia que a figura do burguês naturalmente havia de tornar-se supérflua dentro do modo de produção do capital. Nas Teorias do mais-valor, também conhecidas como o quarto tomo d'O Capital (graças a Kautsky), é dito: “Tornou-se perfeitamente inútil que este labour of direction seja exercido pelos capitalistas. Ele existe na realidade separado do capital.” O processo de produção e a organização deste frente ao capitalismo independe do capitalista ou da atividade duma classe burguesa. Fora a independência do processo de produção do capital em relação ao capitalista, cujo desde aquele momento já era evidente, há um segundo aspecto fundamental para a leitura vigorante estar expirada: o proletariado tornou-se dinossáurico. A destruição e autodestruição do proletariado eram já previstas por Marx como condições próprias do desenvolvimento do sistema. Hoje, o proletariado está em extinção, e poucos trabalhadores podem realmente enquadrar-se em tal categoria. O tão famoso lema final do manifesto — proletários de todo o mundo, uni-vos! —, portanto, envelheceu como leite. A tal da luta de classes aparentemente imanente ao sistema já acabou, restam poucos resquícios da mesma no momento.

O Capital, no entanto, vai além da vulgar e comum leitura do marxismo. Do contrário, não seria necessário falar do mesmo, e não passaria duma peça de museu. A questão, porém, é que a dicotomia burguês-proletário nunca nem sequer tocou no essencial do sistema, não sendo nada além duma manifestação do mesmo. É necessário, por conseguinte, ir além de manifestações, e buscar o mostrar-se ordenante. Não devemos questionar a organização que o trabalho toma frente a determinado momento do sistema sem antes questionar o que é o trabalho propriamente dito.

É inegável que o próprio Marx, em certa medida, siga por tal leitura vulgar durante sua análise. “No entanto,” — diz Kurz — “não é por acaso que Marx nunca se deixou levar pela glorificação do trabalho, das mãos calejadas, da ética protestante do trabalho e da "criação de valor" através do trabalho, como foi comumente o caso depois nos sindicatos, nos partidos operários social-democratas e comunistas, com toda a respectiva iconografia e simbólica. Pois em muitos textos de Marx o trabalho evolui discretamente para algo negativo em si mesmo. A crítica do trabalho capitalista é formulada de tal modo que parece incrível que logo de seguida se venha aplicar esse mesmo conceito de trabalho como condição humana positiva supra-histórica contra o capitalismo.”

Dentro do pensamento de Marx, encontram-se contradições essenciais. Há, por assim dizer, um duplo Marx. Assim como Marx demonstrou as contradições essenciais em Proudhon, alegando haver um duplo deste, fazemos o mesmo aqui. Do movimento ou da natureza de algo, encontram-se dois momentos que o constituem enquanto tal, formando assim uma contradição inerente ao mesmo — como já diria o velho Mao, as contradições são absolutas. Chamam-se, no presente contexto, os dois momentos da seguinte maneira: o Marx exotérico e o Marx esotérico. O Marx exotérico é aquele bem conhecido, tornado na imagem do movimento operário do século XX, o Marx do imanentismo positivo. Já o Marx esotérico é obscuro, conhecido apenas pelos iniciados numa seita secreta de práticas ocultistas e malignas, é o Marx da crítica categórica do capital. "Esotérico", porém, no sentido originário do termo, que vem de retomar algo de suas raízes. Ao ouvir tais malditas palavras, das quais somente um terrível cínico teria a capacidade de profanar, o marxista certamente há de espantar-se. No entanto, a leitura de Marx segundo uma contradição inerente a seu pensamento não é senão a leitura que ele mesmo fazia dos demais autores, portanto, não é nada mais do que entender Marx a partir dele mesmo. Justamente por ter tão agudas contradições, entre uma crítica categórica do sistema (velada, oculta e mesmo encoberta ao passar do tempo) e um imanentismo positivo que pretende explicar o mesmo, é que Marx qualifica-se como tão potente pensador — "uma teoria sem contradições não é digna deste nome".

O aspecto no qual a contradição essencial e fundamental do pensamento de Marx mais se agudiza é relativo ao trabalho. Portanto, é para ele que devemos nos voltar. Se O Capital for, realmente, o "coração" da teoria de Marx, como diz Sison, portanto, é nele que encontraremos pulsante e ardente a mesma. Procedemos, então, desvelando um aspecto negligenciado de sua obra, o aspecto da crítica do trabalho.

Antes do mais, porém, precisamos ter em vista o delineamento precedente da definição do trabalho em Marx. Nos Manuscritos de 1844, define-o como uma abstração da atividade ontológica humana. N'A Ideologia Alemã (1845-1847), reafirma tal definição, porém sob novos termos, perante a noção da divisão do trabalho que passava a melhor se formar ali: como abstração da atividade "espiritual e material". Enfim, tal noção de trabalho parece ser aquela que se mantém ao longo de sua obra, apesar de sazonais variações. No que consiste, portanto, a abstração da atividade ontológica humana? No que consiste seu caráter de abstração? Ora, é evidente, principalmente na exposição que é dada ao longo de sua crítica da economia política: é a abstração enquanto abstração do valor. Mas, se o trabalho só é possibilidade em vista da abstração do valor, portanto, enquanto categoria, ele não pode existir fora do sistema produtor de mercadorias. Por conseguinte, o trabalho acaba sendo entendido algo próprio deste. (Tal noção evolui ulteriormente com a Wertkritik, que aponta o trabalho como uma categoria própria da modernidade). Marx afirma, a partir daí, a necessidade duma abolição do trabalho.

Ao mesmo tempo, porém, que Marx defendia a abolição do trabalho, defendia também o trabalho enquanto meio de libertação do sistema. Ao mesmo tempo em que defendia o seu fim, defendia também uma libertação do mesmo, como se fosse uma espécie de categoria livre. Em grande parte, podemos tomar tal aparente contradição enquanto uma adaptação de seu discurso para seus leitores. No entanto, por outro lado, essa adaptação só torna-se necessária tendo em vista uma suposta imanência de luta de classes, segundo a qual o proletariado teria a capacidade de derrubar o sistema, sendo uma espécie de "classe revolucionária". Portanto, para servir de combustível ao mesmo, tornaria-se fundamental haver, em ao menos certa medida, um engrandecimento daquilo que os empregava: o trabalho. Mal sabia Marx que esse seria o aspecto de sua obra a ser tomado como totalidade, e que hoje todo seu pensamento seria reduzido apenas a um culto metódico do trabalho frente à luta de classes. Sejamos mais desilusionais e pessimistas, já que o "Marx exotérico" foi incapaz.

Notando tal contradição discursiva, Engels, ao editar póstumamente os volumes d'O Capital, decide explicitar em prefácio a aparente resolução do problema. Trataria-se, pois, duma diferença terminológica apenas, que poderia ser de mais fácil entendimento no inglês, onde há a distinção entre labour e work. O trabalho que Marx defenderia a abolição, portanto, seria o labour, próprio do sistema de mercadorias, e não o work. O work seria aquele metabolismo entre o humano e a natureza. Tal distinção entre as duas formas de trabalho, porém, supostamente não existiria no alemão. Aparentemente, a contradição era falsa e estava resolvida. No entanto, vemos que as coisas são outras. Pois work não é aquilo que Marx refere-se ao abordar o trabalho, em momento algum. A distinção entre work e labour existia no alemão, e a alternância entre os dois termos na tradução de arbeiten nas edições inglesas foi tão arbitrária quanto aquela entre civilização e cultura na tradução do termo kultur nas obras de Freud. No alemão, há a distinção entre werke e arbeiten. Também no brasileiro e demais idiomas latinos conseguimos encontrar tal distinção. A tradução de labour é trabalho, e de work, obra. Não estamos aqui falando de obra, mas de trabalho. A contradição permanece na exposição acerca do trabalho, sem nenhuma resolução. Marx vale-se tanto de werke quanto de arbeiten durante o livro, porém em sentidos completamente distintos. O trabalho, o arbeiten, o labour, é o que interessa-nos aqui. E é precisamente neste trabalho que encontram-se as contradições apontadas. O mesmo que toma-se na relação de metabolismo é aquele que defende-se a abolição.

O trabalho, porém, não surge enquanto abstração do absoluto nada que é o valor. Pelo contrário, ele é exercido enquanto efetivação duma potência — ou melhor, duma força. A noção de força em Marx é derivada de Hegel. A força, em Hegel, possui um caráter autoexteriorizante, é aquela que exterioriza e abstrai a si mesma — note-se, porém, que, obviamente, o termo "abstração" não possui em Hegel o sentido de valorização que encontra em Marx. Em Feuerbach, por exemplo, a fé é uma força, ela exterioriza, de forma inconsciente, a imagem humana na imagem de Deus, transformando a antropologia numa teologia, abstraindo o humano dele mesmo. Da mesma maneira, o trabalho, com todas suas sutilezas teológicas do mercado. “Por força de trabalho ou capacidade de trabalho entendemos o complexo das capacidades físicas e mentais que existem na corporeidade, na personalidade viva de um homem e que ele põe em movimento sempre que produz valores de uso de qualquer tipo.” Ou seja, a força de trabalho é aquela abstração inicial da atividade "espiritual e material" que há de exteriorizar-se enquanto processos do trabalho, como logo veremos. “Porém, a força de trabalho só se atualiza [verwirklicht] por meio de sua exteriorização, só se aciona por meio do trabalho.” — eis aqui a brincadeira toda. A força de trabalho é uma abstração do valor. No entanto, ela só pode efetivar-se abstraindo-se a si mesma, convertendo-se, por sua vez, na própria abstração que ela se potencializa. Assim sendo, ela nada mais é do que uma abstração da abstração. A força de trabalho assume a forma de mercadoria, e só assim pode existir; também o trabalho, que é aquilo que ela potencializa, ou seja, aquilo para o qual ela aponta a forma.

Geralmente, encontra-se a suposta "definição" do trabalho em Marx como o metabolismo entre o humano e a natureza. No entanto, quando Marx traz à tona a relação de metabolismo, não é referindo-se à mesma enquanto definição do trabalho, mas enquanto meio tomado pelos processos do trabalho. É ali dito: “O processo de trabalho, como expusemos em seus momentos simples e abstratos, é atividade orientada a um fim – a produção de valores de uso –, apropriação do elemento natural para a satisfação de necessidades humanas, condição universal do metabolismo entre homem e natureza, perpétua condição natural da vida humana e, por conseguinte, independente de qualquer forma particular dessa vida, ou melhor, comum a todas as suas formas sociais.” Ou seja, os processos do trabalho são aqueles que apropriam-se do metabolismo com a natureza para a produção de valores de uso — e, por conseguinte, de valores de troca. Ali, não é dito que o trabalho seja a "perpétua condição natural da vida humana", mas sim, que os seus processos apropriam-se desta enquanto meiosvoltando-se para a dinâmica de valorização. A partir desta apropriação, a atividade que caracteriza o processo do trabalho torna-se independente das próprias formas particulares da vida humana. A produção de valores de uso só é possibilidade dentro do âmbito da mercadoria — assim sendo, também o trabalho.

De forma breve, talvez seja necessário explicitar que valor de uso não trata-se de mera utilidade, como a vulgar e superficial leitura acredita. A dinâmica do valor em Marx é estruturada a partir da metafísica hegeliana. O que compõe a mercadoria enquanto tal, o que a constitui, ou seja, o corpo de mercadoria, seu movimento, sua "natureza", dá-se através de dois momentos essenciais: o valor de uso e o valor de troca. Tão monstruoso é o sistema do capital, porém, que a forma-valor estende-se por toda a vida. Assim sendo, torna-se possível inferir valor de uso (e por conseguinte, valor de troca, cujas bases são dadas pelo primeiro) mesmo no ar ou na terra virgem, como é exemplificado logo ao início do livro. O trabalho serve de base a toda essa dinâmica de valorização e abstração, o trabalho é o que molda o mundo moderno. Ao início da obra, é dito: ”A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não flutua no ar. Condicionada pelas propriedades do corpo da mercadoria [Warenkörper], ela não existe sem esse corpo.” — o valor de uso, pois, inexiste fora do corpo de mercadoria. Se os processos do trabalho tomam o metabolismo humano-natureza orientando-se para a dinâmica de valorização, portanto, também o trabalho pode apenas ser uma categoria existente dentro do corpo de mercadoria — “um valor de uso ou bem só possui valor porque nele está objetivado ou materializado trabalho humano abstrato". É a mesma conceituação que é dada nos Manuscritos e n'A Ideologia Alemã, apenas em novos termos. Metabolismo tomado em atividade voltada para a produção de valor. Abstração, valorização do metabolismo humano-natureza, i.é., abstração da atividade ontológica humana.

Em dada passagem, Marx afirma que a produção capitalista destrói as condições do metabolismo entre humano e natureza tal qual são espontaneamente dadas. Mas, se a base de toda a produção capitalista, se a base de todo o sistema é o trabalho, então, como possivelmente o trabalho poderia ser entendido enquanto esse metabolismo, tal qual a leitura vigente afirma? Mais além, podemos questionar, já em certa medida livres desta: se o trabalho surge enquanto abstração daquela relação, e ele é a base fundante do sistema, portanto, a destruição da forma primária do seu processo não conduziria a uma crise geral do sistema? Precisamente. “(...) ao mesmo tempo que destrói as condições desse metabolismo, engendradas de modo inteiramente natural-espontâneo, a produção capitalista obriga que ele seja sistematicamente restaurado em sua condição de lei reguladora da produção social e numa forma adequada ao pleno desenvolvimento humano.” Ou seja, o capital destrói a espontaneidade e a forma natural do metabolismo, pondo-o perante a autoridade totalitária do valor, e, ao mesmo tempo, exigindo o metabolismo, na forma do trabalho, como propulsor e base de seu funcionamento.

O trabalho, tirando do metabolismo seu caráter espontâneo e natural e convertendo-o numa atividade voltada para a produção de valor, necessita, portanto, impor uma forma de divisão. Assim, surge a divisão do trabalho (Teilung der Arbeit / Arbeitsteilung).

Na defesa duma libertação do trabalho, geralmente trata-se o mesmo como uma espécie de atividade livre, apenas aprisionada. O que, porém, a aprisiona? A divisão do trabalho. “Ora, o problema não é o trabalho, mas a divisão do trabalho; nossa tarefa deve se restringir, portanto, à abolição da divisão do trabalho!” Esse foi o discurso que vigorou durante todo o movimento marxista do século XX. Em Marx, porém, a questão é completamente diferente. A divisão do trabalho não é uma mera organização divisória de tarefas imposta de fora, mas uma condição, uma exigência da própria forma-trabalho. Não é o modo de produção que impõe a divisão do trabalho, através da figura dum delegado, dum capitalista ou dum diretor fabril. O sistema, ao contrário do que supõe a porcaria do materialismo histórico, não se resume em modos de produção específicos. Deve-se, antes de pensar os modos de produção, pensar aquilo que funda os mesmos. O trabalho é a instância totalizante do processo do capital. Aqui entramos num tópico interessante, e por várias vias podemos seguir. A começar pondo em cheque o famoso materialismo histórico-dialético, e, então, colocando em questão a contradição capital-trabalho.

Geralmente, a leitura das obras de Marx parte dum método cujo ele teria supostamente desenvolvido, o materialismo histórico-dialético, ou então, o materialismo histórico e o materialismo dialético, em separado. Mas, se procurarmos, não encontraremos nem uma única menção que seja em sua obra de tal método. O que Marx faz é nada além do que seguir por uma via crítica (e confusa) da metafísica hegeliana e do materialismo feuerbachiano. O "materialismo dialético" passa a ser proposto, pela primeira vez, com Engels, em seu anti-Dühring, já depois da morte de Marx. Já o "materialismo histórico" surge apenas com Plekhanov, e é tomado como um bastião de toda a teoria marxista pela II Internacional. Não é pretendido aqui entrar em detalhes, mas, quanto ao materialismo histórico, precisamos estar atentos, pois, uma vez acreditando que ele exista em Marx, uma leitura completamente conturbada há de surgir. N'O 18 de Brumário de Luís Napoleão, Marx rejeita qualquer forma que o seja de compreensão da história segundo algum método historiográfico. Também o faz n'A Ideologia Alemã, atacando e subvertendo as noções da história segundo um mero suceder de acontecimentos ou segundo leis gerais, se é que podemos pôr nestes termos. É certo que Marx propôs o entendimento da história a partir dum imanentismo da luta de classes, o que entra em contradição com suas críticas e proposições negativas, mas ainda sim, isso está muito longe de ser uma espécie de método historiográfico definido de lei geral da história ou qualquer coisa do gênero, segundo a qual a sociedade se fundaria nos modos de produção e etc. A interpretação vigente d'O Capital parte da pressuposição do materialismo histórico, e portanto, orienta-se não para a crítica categórica do sistema do capital, que é o núcleo de toda a obra, mas sim, para aspectos da organização dos modos de produção, acreditando assim compreender a totalidade sistêmica, sem questionar suas bases ou suas raízes.

Perante uma suposta imanência da luta de classes, tomada pelo ulterior materialismo histórico como a lei geral — ou mesmo universal, no caso dos maoístas — da história humana, evidentemente, teria de haver uma forma específica da luta de classes propulsionando o sistema. As bases desta forma deveriam ser encontradas, pois, nas bases do sistema. Assim, a partir da análise do trabalho como instância fundante e formativa do capital, Marx aponta como contradição-base aquela entre capital e trabalho, e, em cima dela, coloca, inicialmente, a forma da luta de classes como uma entre capitalistas e trabalhadores, e, depois, como entre burgueses e proletários, que seriam a suposta consolidação da face dessa contradição naquele momento. Aos olhos da leitura do materialismo histórico, porém, Marx não encontraria esse núcleo pensando no trabalho e no capital, enquanto instâncias abstratas cujo uma condiciona à outra, mas sim, nos modos de produção onde os dois se manifestariam, não tomando, assim, estes como sua base. Assim sendo, encontrou-se a legitimação dum discurso barato segundo o qual a derrubada do capitalismo dependeria apenas duma substituição da propriedade privada burguesa dos modos de produção.

A contradição entre capital e trabalho, porém, não é senão uma condição de ambos. O trabalho só pode existir enquanto trabalho social, e o trabalho social é a própria existência do capital — coisa que Marx diz precisamente e com todas as letras nos esboços d'O Capital, as Grundisse. Todas as definições e conceituações de trabalho e de capital são complementares, de forma indissociável, qualquer que seja o modo com a qual apareçam na obra de Marx. Em seus Manuscritos, é dito que o trabalho não é nada além dum momento do capital, que o trabalho cria o capital e que o capital cria o trabalho. Nas Grundisse, o capital e a existência do trabalho social são uma e mesma coisa. Logo ao início d'O Capital, o capital é definido enquanto um "monte de trabalho acumulado". O capital não é nada além do acúmulo do trabalho. Abolição do capital implica em abolição do trabalho, e vice-versa. Assim sendo, eles não podem existir separadamente. A luta entre proletários e burgueses que manifestava-se naquele momento do capitalismo, e que hoje já não existe mais, não era nada além duma forma necessária do desenvolvimento do sistema. Era natural que os proletários iniciassem movimentos próprios, tomassem cidades, criassem seus partidos, etc., assim como era natural que a burguesia reagisse buscando manter sua posição. A luta do proletariado contra a burguesia não era um meio de libertação do sistema, mas uma forma de desenvolvê-lo, de manter-se nele. Não à toa, todos os "Estados proletários" do século passado gritaram pelo máximo desenvolvimento das forças produtivas. Lênin, Stalin, Trotsky, todos os representantes do proletariado afirmavam igualmente: para o desenvolvimento do socialismo, é "antes" necessário o desenvolvimento das forças produtivas capitalistas. O movimento proletário, portanto, nada mais fez do que desenvolver o capitalismo, e não poderia ter feito nada além disso.

Pensando a contradição nuclear do sistema, cujo elementos não eram senão um condicionamento um do outro, a partir dos modos de produção, o movimento operário do século XX acreditou que, com a substituição da propriedade privada burguesa, haveria uma real derrubada do sistema. Portanto, sucederam-se experiências como a Albânia, substituindo-a pela propriedade privada estatal; a Iugoslávia, substituindo-a pela propriedade socializada e autogerida pelos operários; e a URSS, central em todo o processo, substituindo-a tanto pela propriedade privada estatal quanto pela propriedade socializada cooperativa ou associativa. No entanto, a mudança dos modos de produção não resultou em absolutamente nada, pois o olhar de todos dirigia-se para o aspecto errado da questão, enquanto negligenciavam suas bases. Na verdade, a socialização dos modos de produção é um movimento próprio do desenvolvimento do capitalismo, e o próprio Marx já havia o demonstrado. A associação e a cooperação dos trabalhadores surge, primeiro, como exigência do capital. Nas Grundisse, diz: “A associação dos trabalhadores – cooperação e divisão do trabalho como condições fundamentais da produtividade do trabalho – aparece, como todas as forças produtivas do trabalho, i.e., forças que determinam o grau de sua intensidade e, por isso, sua realização extensiva, como força produtiva do capital. (...) Por isso, a associação dos trabalhadores, tal qual aparece na fábrica, tampouco é posta por eles, mas pelo capital.” Também no primeiro tomo d'O Capital, Marx dedica uma longa exposição aos processos de socialização próprios do capital. Ali, demonstra que a socialização só pode nascer da divisão do trabalho e de forma alienante, de tal modo que os trabalhadores acreditem que a cooperação e associação sejam propriamente suas, movimento esse que inverte-se na expropriação do mais-valor, de modo com que eles não reconheçam-se naquilo que é por eles produzido. A cooperação do trabalho é reconhecida como produto deles, sem ser; os produtos que resultam desta não são, apesar de serem, ao menos em parte — esse tipo de coisa que nos faz pensar até que ponto a relação sujeito-objeto chegou. A URSS e demais experiências, enfim, desenvolveram sim o socialismo, mas somente à medida que também desenvolveram o capitalismo.

Desde a publicação d'O Capital, os únicos que parecem ter realmente tomado e levantado em questão esse caráter da socialização como é ali exposto, ao menos até a teoria crítica, foram Luxemburgo e Bordiga. De resto, foi um aspecto completamente negligenciado e apagado referente à obra. Naturalmente haveria de ser, afinal, entrava em contradição direta com todo o louvor e culto ao trabalho sob o qual o movimento operário havia se edificado, assim como entrava em aguda contradição com as metodologias marxistas.

O culto ao trabalho serviu como uma luva na mão das ideologias e potências modernizadoras; no liberalismo, no fascismo, no marxismo, no trabalhismo, no populismo, etc... Todos eles falavam, então, em nome dos trabalhadores. Os marxistas, tomando como base Marx e noivando ele ao movimento operário, foram os mais bem-sucedidos naquele momento — e justamente por isso os primeiros a cair.

No entanto, apesar de tudo, é interessante reparar que mesmo a exposição da luta de classes encontra-se numa posição tal que vai além da leitura exotérica. A dicotomia entre o capitalista e o proletário parte da dialética entre mestre e escravo em Hegel, o que é facilmente perceptível. Porém, se tomarmos dessa maneira, veremos um resultado muito engraçado, que mostra que Marx herdou um pouco do humor frio de Hegel. O escravo faz, e o mestre transforma esse fazer numa face articulada. Em Lacan, no discurso do mestre, o escravo é aquele que realiza o saber-fazer, enquanto o mestre é o que transforma esse savoir-faire numa face articulada do saber. No fim da história, porém, a relação muda, de forma que o mestre acabe saindo como um grande cornudo. Marx explicita essa relação: “Se para a economia clássica o proletário não era mais que uma máquina para a produção de mais-valor, também o capitalista, para ela, era apenas uma máquina para a transformação desse mais-valor em mais-capital.” Se o proletário produz o mais-valor, portanto, o capitalista, enquanto considerado como "necessário" ao modo de produção, há de arcar com a transformação desse mais-valor numa face articulada, na face do mais-capital. É uma brincadeira divertida, porém que não leva a muita coisa, tendo em vista que a posição do capitalista dentro do modo de produção rapidamente passou a desaparecer, e o proletariado rumou à degradação.

A crítica do trabalho é um aspecto central para o entendimento d'O Capital como um todo, negligenciar ele é transformar o livro numa obra desprovida de qualquer atualidade, que serve apenas para legitimar o discurso necromântico do marxismo. Está na hora de abrir mão da vulgar leitura imanentista positiva do Marx exotérico, e trazer à luz da lua nova o Marx esotérico da crítica categórica do sistema. O Capital é talvez uma das obras mais metafísicas de seu tempo, e a metafísica permite o acesso à totalidade da problemática pela inserção em seus problemas. Se entendemos o problema-base de toda estruturação metafísica do texto, portanto, conseguimos avançar para o entendimento de sua totalidade.

— Straw.

Bibliografia cujas passagens foram citadas:

MARX; O Capital, Vol. I; Boitempo; tradutor Rubens Enderle.

MARX; Grundisse; Boitempo; tradutores Nélio Schneider e Mário Duayer.

KURZ; Ler Marx!; tradutor Boaventura Antunes.

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