"Diálogo": O que é a vontade?


[O diálogo foi feito tendo a imagem acima como capa].

É possível o diálogo online?

A cultura do diálogo é cada vez mais desprezada. Em seu lugar, surgem debates e disputas discursivas que não levam a nada. Isso já estava posto há milênios, mas, certamente, a internet amplificou este desprezo em níveis absurdos. De certa forma, pode-se dizer que a internet impossibilita o diálogo.

É possível um diálogo online, isto é, via conversação por mensagens? Dificilmente. Um diálogo exige a expressão de logos, e o logos, enquanto instância unificante de dada totalidade, exige um mostrar-se amplo e articulado. Por mensagens, não acompanhamos a gesticulação, o rosto, a entonação, a velocidade e a articulação geral do indivíduo ao exprimir seu logos. No entanto, é certamente possível diálogo através de texto. Podemos estabelecer diálogo com textos que lemos e que escrevemos, ao acessar a teoria (isto é, o mostrar-se fisionômico) de dado logos, entrando em contato com este. E mensagens são, precisamente, texto. Por conseguinte, haveria de ser possível o estabelecimento dum diálogo via mensagens. Porém, há de se atentar a outras questões envolvidas (afinal, mensagens não são um texto qualquer): 1) o ambiente onde as mensagens se situam; 2) os envolvidos; 3) o teor e o desenrolar destas; e, sobretudo, 4) o jogo de articulação e expressão presente (se é que há algum). Se formos pensar estas questões, rapidamente chegaremos à conclusão de que a internet certamente é o lugar com menor possibilidade de cultivar diálogos existente.

Apesar disso, se feito corretamente, podemos estabelecer diálogos online, apesar de que com extrema dificuldade. O estabelecimento, porém, é certamente particular. A internet é incapaz duma cultura, isto é, um cuidado, um cultivo em relação ao diálogo — ela proporciona exatamente o oposto disso.

Por um lado, a conversação online traz um benefício: pode-se continuá-la interminávelmente, caso os presentes o queiram. Nos diálogos de Platão, por exemplo, os envolvidos sempre tinham afazeres e tarefas que faziam com que interrompessem a conversa, ou, então, ficava muito tarde e precisavam retornar para casa, etc. O ambiente virtual, pelo contrário, não o exige. Por outro lado, ao mesmo tempo que benéfico, também pode tornar a conversação extremamente maçante.

Fora isso, uma especificidade que se faz necessidade para o caso da transcrição duma conversação online (como a aqui presente) é a enumeração de acordo com a resposta, visto que, por chat, podem-se responder a múltiplas mensagens de variados momentos simultaneamente — o que torna a leitura e organização confusa e desfuncional.

A internet certamente destruiu as formas de comunicação humanas tal como as conhecíamos. A tentativa, mesmo que fracassada, do estabelecimento dum diálogo virtual, é um passo atrás a ser dado — o próximo é destruir todas as máquinas e fugir para um mosteiro russo. O que veremos a seguir é um pseudodiálogo, isto é, uma representação desfigurada da alma do que deveria ser um diálogo. Não foi natural, não foi espontâneo, não houve plena articulação e acesso mútuo de logos. Apesar disso, foi certamente uma brincadeira divertida de esfregação das ideias.

O espaço onde a presente conversação foi feita ainda está aberto, ela pode ter continuidade mais tarde, caso os envolvidos se interessem. Se tiver, a continuação pode vir a ser publicada aqui.

— Straw.

"Diálogo":

[Participantes: Straw, Epona, Hatuey, Julio.]

1. S: A pergunta "o que é a vontade?" é apenas inicial ao diálogo, mas ele pode evoluir para outras questões conforme seu decorrer.

2. S: Alguém se arrisca a começar?

3. E: Depende. Muitas vezes a vontade é colocada como a capacidade de realizar uma situação adversa.

4. (3) S: E o que você acha?

5. (4) E: Eu acho que a vontade é um tipo de desejo que lhe dá motivação pra fazer algo.

6. (5) S: E o que é um desejo?

7. (6) E: Algo que você almeja ter ou experienciar.

8. (7) S: O desejo é esse algo, esse objeto do qual você almeja? Ou o próprio almejo?

9. (8) E: Acho que os dois.

10. (9) S: Como?

11. (10) E: Acho que o almejo e o desejo são o que sua mente projeta pra dar um sentido à vida.

12. (11) S: Então o almejo e o desejo são projeções?

13. (12) E: Sim.

14. (13) S: Certo, e a necessidade dessas projeções é da nossa mente para dar um sentido à vida?

15. (14) E: Eu enxergo que o que nós vemos e sentimos pode se expressar de diversas formas diferentes, nada é estático, tudo muda a todo momento e a nossa mente acaba criando essas projeções para que a gente dê sentido a essas transformações.

16. (15) S: Então, se não houver tentativa de dar sentido a essas transformações, não há nem desejo e nem vontade?

17. (16) E: Sim, mas porém você só seria uma pessoa "foda-se" pra tudo e aceitaria "sem" problemas que toda mudança um dia chega e irá destruir tudo o que você almejou, principalmente se for a sua morte ou de alguém próximo, que são eventos que despertam muita nostalgia pelo passado e rejeição às mudanças.

18. (17) S: E você considera isso como algo bom ou ruim?

19. (18) E: Eu enxergo como algo. Nem como bom, nem como ruim. Só é algo.

20. (19) S: Retomando um pouco o fio: diante dessa necessidade, você acha que exista algum sentido da vida?

21. (20) E: Não. O sentido e o real são construções humanas.

22. (21) S: E por que temos essa necessidade de dar sentido?

23. (22) E: Porque muitas pessoas não conseguem pensar de forma não binária ou sem um propósito para continuar. A mente humana é extremamente complexa.

24. (22) H: Porque não conseguimos viver em paz com o peso da nossa própria consciência... sentir o vazio e se conformar com isso.

25. (23) E: O sentido é uma espécie de conformismo pra não pensar que você não é nada em relação a tudo que existe.

26. (24) E: Sim.

27. (23) S: Desvendemos ela então.

28. H: De acordo com o Camus...

29. (24) S: E por que não conseguimos?

30. (28) H: ...quando você fica desesperado procurando um sentido da vida em relação ao nosso mundo, ou a gente se revolta, ou a gente se mata.

31. (30) S: As duas opções parecem muito boas.

32. (31) H: Concordo.

33. (27) E: Sim.

34. (29) H: Porque vivemos em uma sociedade que, pra se manter a engrenagem panóptica-capitalista girando, é necessário ser produtivo o tempo todo... Tudo ao nosso redor é construído para pensarmos que tudo vai se resolver quando atingirmos o ápice da produtividade.

35. (30) E: Eu enxergo que quem realmente quer mudar as coisas não liga se morre ou não no processo, só quer acabar com o ciclo.

36. (34) S: Então isso é algo próprio da sociedade em que vivemos?

37. (36) H: Não tenho certeza, mas creio que sim.

38. (37) S: A vontade e o desejo só existem no capitalismo então? A busca pelo sentido da vida só existe nele?

39. (38) H: Aí tu me pegou (risada).

40. (38) E: Não. Porque nem só o capitalismo visa o ápice da produção.

41. (40) S: Quem ou o que mais visa ele?

42. (41) E: O feudalismo visa o ápice da produção e do trabalho de forma descentralizada e mais local, ao contrário do capitalismo que é internacional. As cidades-estado gregas colocavam o trabalho como o ápice da masculinidade e do homem. O capitalismo só fez isso se espalhar pro mundo todo.

43. (42) S: Muita informação pra coisas que nunca existiram, mas vamos começar perguntando pelo mais geral do que você disse: o que é que você está chamando por trabalho?

44. (43) E: Uma forma de punir várias pessoas para que elas vivam na miséria, para que poucas vivam de forma extremamente confortável.

45. (44) S: E como se dá essa forma de punição?

46. (45) E: Fazer com que essas pessoas acreditem que, vivendo uma vida inteira de trabalho nesse sistema desigual, elas possam ser recompensadas; se não aqui, no pós-vida, pois a fé das elites faz com que a fé popular seja esmagada e suprimida para que a visão das elites prevaleça.

47. (46) S: Então, sem crença no pós-vida, não existe trabalho? Um ateu, por exemplo, não trabalha?

48. (47) E: Não, pois ateísmo é uma crença. Pós-vida não precisa ser um paraíso ou só punição. Ao conceber que ao morrer não existe mais você, está concebendo uma ideia de pós-vida.

49. (48) S: Mas esse pós-vida onde você não existe mais não possui recompensa alguma pelo trabalho feito em vida.

50. (49) E: Sim, mas faz com que você trabalhe em vida porque não existe outra vida.

51. (50) S: Então por qual razão o trabalho? Se não haverá recompensa.

52. (51) E: Para viver o agora. A lógica do trabalho é fazer você pensar que vai ser recompensado.

53. (52) S: Então, essa busca pela recompensa, esse trabalho, é o que possibilita a busca pelo sentido da vida? Sem trabalho, não há desejo, não há vontade?

54. (53) E: Sim. Porque para ser produtivo a sociedade lhe empurra desejos e vontades.

55. (54) S: Certo, voltemos um pouco o fio. Você disse que a vontade é um tipo de desejo. Que tipo de desejo é esse?

56. (55) E: Um desejo para preencher o vazio existencial.

57. (56) S: Mas você não disse que o próprio desejo era um modo de projeção pra preencher o vazio existencial e encontrar sentido na vida? Dizer que a vontade é isso não seria então dizer que o desejo e a vontade são a mesma coisa, e não que ela é um tipo de desejo?

58. (57) E: A vontade pra mim é um tipo de desejo.

59. (58) S: E que tipo é esse?

60. (59) E: O de encontrar um propósito.

61. (60) S: E o desejo já não faz isso?

62. (61) E: Sim.

63. (62) S: Então o que distingue vontade de desejo e faz ela ser um tipo de desejo?

64. (63) E: Não sei.

65. (64) S: Então como você sabe que a vontade é um tipo de desejo?

66. (65) E: Não sei.

67. (66) S: Chegamos à aporia.

68. (2) J: Acho que vontade é a vontade da vontade de você vontade (não sei filosofar).

69. (68) E: Relaxa, só o Dasein do Corinthians [Straw] faz faculdade de filosofia entre nós, o resto é tudo gente que só gosta mesmo (risada).

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