Heidegger e o manuscrito
Sócrates acreditava que escrever tornava as pessoas ociosas. Ao que nos consta, os únicos escritos de Sócrates em vida foram poemas feitos em sua cela, já próximo à morte. Ele valorizava, acima de tudo, a tradição oral. Não à toa, a maioria do que foi-nos transmitido a seu respeito deu-se pelos registros de Xenofonte e Platão, principalmente Platão, com seus diálogos. O diálogo por Sócrates praticado só era concebível, ao seu olhar, através da oralidade, assim como o método dialético, que era em detrimento do primeiro. Sócrates, pois, alinhava a mente com o corpo. Não somente seu cérebro pensava, mas também, sua boca, seus braços, etc... Ele possuía uma boca pensante, que tinha conexão direta com o pensamento cerebral. Todos seus pensamentos, falas e ações possuíam ligação direta, entravam em perfeita harmonia, eram um só, sem nenhuma separação, e era precisamente esse o ideal dos filósofos na antiga Grécia. Hoje, com a separação dicotômica entre sujeito-objeto que vigora, e que naquele momento inexistia, é difícil para nós conceber tal possibilidade. Separamos o fisiológico do psicológico, como se corpo e mente fossem duas instâncias separadas, tudo isso perante o horizonte da razão, da ratio, aquela desgraça criada pelos romanos e piorada pelos escolásticos e iluministas.
Dentre os celtas, gálicos e outros povos antigos que conviveram com os gregos, romanos e árabes, não foi mantido nenhum registro escrito. Havia um enorme desprezo destes pela cultura da escrita, motivo, dentre outros, pelo qual Júlio César mantinha uma certa curiosidade, simultaneamente admirada e desgostante pelos celtas e gálicos. No De Bello Gallico, escreve: “Neque fas esse existimant ea litteris mandare, cum in reliquis fere rebus, publicis priuatisque rationibus, graecis litteris utantur. Id mihi duabus de causis instituisse uidentur, quod neque in uulgum disciplinam efferri uelint, neque eos qui discunt litteris confisos minus memoriae studere”. Desconsiderando a ideia de que entre esses povos haveria uma distinção entre a esfera pública e privada, que fica expressa ali, é uma passagem interessantíssima para parar e analisar. Os gálicos passaram a escrever em grego com o tempo, porém, muito pouco, e, num geral, acreditavam na escrita como algo supérfluo, recusando-se ao registro até mesmo das mais simples e cotidianas coisas. Júlio César acreditou em dois motivos para tal: o primeiro, para evitar que seu saber passasse aos de fora; o segundo, para manter a prática da memorização. A ausência da escrita, aos celtas e aos gálicos, mesmo com a possibilidade desta, era um meio de preservação de tradição — que, como muito bem sabemos, foi completamente destruído pelos romanos. Dentre eles, o pensamento/intuição, a oralidade e os atos eram perfeitamente alinhados, ao seu próprio modo, segundo a sua própria cultura. A separação entre estes inexistia em seu meio.
Na segunda metade do século passado, com a explosão das lutas decoloniais — e com especial destaque ao decolonialismo heideggeriano surgido no Irã —, aparecem em cena tentativas de retomar tradições orais da antiguidade. Uma de suas principais figuras foi Ahmad Fardid, que ficou conhecido como o Sócrates iraniano, por ser um filósofo singularmente oral e que jamais deixou um único escrito. Essa retomada decolonial de tradições orais antigas demonstrou a possibilidade de alinharmos e realinharmos nossos meios de ação como um todo, de harmonizarmo-nos enquanto indivíduos.
Com o tempo, a harmonia corporal cada vez foi degenerando-se mais e mais, até separarmos suas atividades como completamente distintas e isoladas umas das outras. Se Sócrates, já na antiguidade, acreditava na escrita como um meio de tornar as pessoas ociosas, imaginem seu espanto se pudesse ver as máquinas de escrever e, depois, os teclados dos computadores, até que se chegasse ao teclado digital das telas dos celulares. As pessoas já nem sequer escrevem, apenas deslizam os dedos por uma tela. Mesmo na escola e com os professores é assim: não escrevem mais o conteúdo no quadro, apenas passam slides para suas turmas. Não só no âmbito da escrita encontramos tamanha degeneração, mas em todos os demais. Em quesito de oralidade, os jovens de hoje são simplesmente incapazes de formular algo, sua comunicação é péssima e não conseguem manter uma conversa que o seja sem trocar de assunto a cada sentença ou se expressar através de inúmeras referências à “cultura pop”. Ora, se as pessoas hoje não pensam nem mesmo com a cabeça, imagine, então, com a boca, com as mãos ou com qualquer outra parte do corpo.
Cabe questionar, porém e antes de tudo, o que quer dizer pensar. Não podemos falar de harmonia e alinhamento entre o pensar cerebral com o resto do corpo, tampouco de articulação de pensamento fora do âmbito cerebral — ou sequer neste —, sem antes delinear, mesmo que superficialmente, a questão acerca do pensamento.
Na maioria das vezes, tomamos o pensamento como razão. Ao traduzir (erroneamente) a sentença de Aristóteles ζῷον λόγον ἔχον e ressignificar seu sentido, como o famoso animale rationale, o humano passa a ser tomado como o animal racional, o animal dotado da razão. A razão seria, pois, um dote exclusivamente humano. A base de tal compreensão remonta a Cícero, que propôs que o λόγος fosse traduzido como ratio. O logos, porém, possuía um significado completamente distinto daquilo que os romanos passaram a entender com sua ratio, mais distante ainda do racionalismo medievo e iluminista. Logos exprimia uma instância unificante do todo, aquilo que unia determinada totalidade em sua expressão, algo próximo daquilo que hoje chamamos por "linguagem". Não só o logos não possuía equivalência com a ratio, como não exprimia nem mesmo algo próximo da palavra "pensar", que foi tomada como sinônimo de racionalidade.
A razão, que já em seu primado era uma pseudéia (ψηυδέα), isto é, uma desfigurada representação tomada acerca da alma de algo, com o tempo foi reforçando seu traço fundamental: desfigurou-se mais e mais. Tomando os usos gerais que hoje temos da razão, ela não pode ser entendida, de modo algum, como um dote exclusivamente humano, menos ainda enquanto pensar. A capacidade do chamado raciocinar pertence à maioria dos animais. Se repetidas vezes finjo jogar uma bola para um cachorro, eventualmente ele perceberá que não estou jogando bola nenhuma em fato, e irá parar de correr atrás dela. Ele, enfim, raciocinou. O que seria exclusivamente humano é a capacidade de racionalizar, que também deriva daquilo que entendemos como razão. Mas também racionalizar não condiz com pensar. Racionalizar é tomar razão ou percepção de algo tendo horizonte a verdade, a Veritas. Tal, porém, só é possibilidade em vista do estabelecimento duma relação sujeito-objeto, afinal, a verdade que temos como horizonte somente pode ser concebida enquanto um objeto em igualdade com seu juízo, um objeto em concordância com seu próprio conceito. Se tomarmos essa racionalização enquanto pensar, portanto, poderíamos dizer que inexiste pensamento fora dos moldes desta dicotomia, e que os gregos, celtas e gálicos nunca articularam pensamento.
A razão é algo distinto daquilo que estamos visando como pensamento. Heidegger, apontando-o, afirmou (polêmicamente) que inexiste qualquer forma de pensamento científico. Podemos falar de pensamento filosófico, de pensamento artístico, etc., mas, em hipótese alguma, de pensamento científico. A ciência não pensa, raciocina e racionaliza. A ciência opera pela razão, e não pelo pensar.
Dar-a-pensar, aviar, guardar informações, etc., também não constituem pensamento. Receber uma informação, rodeá-la mentalmente por um momento e depois como que armazená-la, isso não é pensamento. A alienante ambiguidade da decadência também não constitui pensamento. Um jogo entre curiosidade e falação, abertura constante seguida de fechamento constante, isso está longe de ser pensamento — do contrário, vídeos, postagens e threads das redes sociais seriam a maior manifestação de pensamento do presente, e acredito sinceramente que os "tiktokers" estejam bem longe de sequer operar um neurônio que seja.
Delimitamos o que não é pensar: razão, raciocínio, racionalização, dar-a-pensar, aviar, guardar informação, ambiguidade, etc... Poderíamos adicionar mais algumas coisas: um elefante na África certamente não é a definição de pensamento ou um mostrar-se do que queremos entender como este, tampouco um processo de combustão em Marte, uma muda de hortelã, um livro do Olavo de Carvalho ou um show duma banda de death metal. Apesar do presente apontar do que não pode ser tomado como pensamento ser algo necessário para fugir às más mistificações, não faz com que cheguemos nem mesmo perto duma resposta.
Estamos talvez esquecendo dum traço essencial do presente movimento de delinear o pensar, que é simplesmente: ao pensar o pensar, entra-se numa relação de correspondência, que caracteriza aprendizagem. Pensar o pensar é, pois, aprender a pensar. Podemos então dizer, por exemplo, que na escola aprendemos muitas coisas, mas que pensar certamente está longe de ser uma delas. Devemos admitir: não sabemos pensar. Podemos até articular pensamento, mas isso não quer dizer que saibamos pensar. É uma investigação abismal e que engole a si mesma. E, além do mais, o que nos garante de que estamos realmente pensando o pensamento? O que nos garante que entramos nesta relação de correspondência, senão um vagão de trem inconsciente duma noção que já carregamos conosco, sem a capacidade de expressá-la ou sequer tê-la em vista com o mínimo de claridade?
Talvez devamos tomar como ponto de partida o que os gregos entendiam como pensar. Falamos aqui que Sócrates alinhava o pensamento em mente, boca e corpo, e que tal harmonia do pensamento era o ideal dos gregos. O que os gregos entendiam por pensamento, afinal?
Para os gregos, a palavra para pensar era νοειν — ou, ao menos a palavra da qual as demais expressões de pensar derivavam (νους, por exemplo). Noein exprime uma relação de apreensão, na qual, em seu movimento, se capta a algo, e, captando-o, destaca-o, e, destacando-o, dá-lhe vigência num mostrar-se. A ratio é como esse movimento, porém, ao invés de mostrar-se, dá-se enquanto manifestar-se, e necessariamente no âmbito mental. Não só isso, como a ratio, diferentemente da noein, carrega consigo um horizonte: a saber, o horizonte da veritas. Portanto, a razão ainda assim não poderia encontrar equivalente com o pensamento, mesmo entre as suas aparentes raízes. Em dado momento, Heidegger sugere como tradução desse movimento de relação de apreensão que os gregos exprimiam com a noein, com o pensar, a palavra intuição. O que os gregos entendiam como pensar é o que hoje poderíamos chamar de intuir. Sócrates, pois, alinhava a intuição de sua mente com a intuição de seu falar oral, de seu comportamento, de seu corpo como um todo. O ideal dos filósofos gregos, enfim, era o desenvolvimento duma harmonia da intuição.
A intuição que se esboçava no cérebro de Sócrates acompanhava a sua boca e os movimentos do resto de seu corpo. Frente a um desafio argumentativo, agarrou os cabelos de Fédon e passou a falar do corte de suas madeixas. O momento de agarro dos cabelos esteve perfeitamente alinhado ao cenário, pois não foi desligado da ocasião, e sim um modo de equilíbrio e harmonização, um momento de fazer a ligação entre a intuição e a alma frente à situação. Um momento de equilíbrio não apenas limitado ao cérebro, e que, de certo modo, não conteve-se apenas em seu corpo repousando em si, mas irradiou por todos os presentes, se fez mostrar ali, causando uma admiração nunca antes vista. Ao beber a cicuta não muito depois, a dor em suas pernas condisse perfeitamente com o desligamento cerebral de modo quase que imediato, pois suas forças estavam todas ligadas em intuição, tinham-na articulada em si, todas atingiam uma harmonia desta.
Para os filósofos gregos, não bastava treinar a cabeça com uma única coisa, era necessário harmonia no intuir. Aos pitagóricos, a filosofia necessariamente vinha acompanhada da música, da geometria e da astronomia. Não pela filosofia ser insuficiente, mas por requerir uma extensão no lidar intuitivo, isto é, pensante. Não bastava ler determinado autor ou ouvir a determinado sábio; era necessário dialogar para articular a intuição rumo à oralidade e desenvolver as vias de pensamento entre a boca e o cérebro; era necessário fazer esforço físico e atlético, pois de nada adiantaria uma mente forte e isolada com um corpo fraco e oco de intuição; era necessário dominar diversas artes para que houvesse um fluir e uma harmonia própria a serem desenvolvidos perante a intuição e em relação com a mesma. Em suma, o pensamento, ou intuição, não se limitava a uma atividade isolada do cérebro, mas algo que deveria se estender por todo o corpo.
No entanto, não permanecemos na Grécia antiga. As exigências agora são outras. Não podemos conceber o pensamento da mesma maneira que os gregos, aquilo que chamamos de pensamento é algo outro, e, por conseguinte, suas relações também devem ser re-pensadas. Tendo-os em vista, porém, podemos firmar uma certa base diante do caminho que temos de trilhar.
Nessa relação de alinhamento do pensamento, encontramos como ótimo exemplo recente Heidegger, que trouxe consigo uma possibilidade até então desconhecida e obscura desta. Heidegger encontrou no manuscrito uma possibilidade de harmonização do pensamento. Não uma escrita ociosa ou veladora, feita para que as coisas não sejam esquecidas e para que permaneçam, como se fossem uma espécie de monumento que captura determinado momento inteligível. Mas sim, uma escrita pensante. Byung-Chul Han dedicou uma boa análise ao fenômeno da mão pensante de Heidegger.
“'A mão age', assim Heidegger caracteriza a essência da mão. Mas ele não compreende o agir a partir da vida activa. A 'mão propriamente agente' é, antes, 'a mão que escreve'. Assim, a sua essência não se manifesta como ação [Handlung], mas sim como manuscrito [Handschrift]. A mão é, para Heidegger, o medium para o 'Ser', que designa a fonte fundamental do sentido e da verdade. A mão que escreve se comunica com o 'Ser'. A máquina de escrever, na qual apenas as pontas dos dedos são usadas, nos afasta do Ser: 'A máquina de escrever vela a essência do escrever e da escrita. Ela afasta o ser humano do âmbito essencial da mão, sem que o ser humano experiencie e conheça devidamente essa referência, de modo que já aqui uma mudança da referência do ser à essência do ser humano aconteceu'. A máquina de escrever leva a uma atrofia da mão, ao declínio da mão que escreve, sim, ao esquecimento do Ser. Sem dúvida, Heidegger teria dito que o aparato digital agrava ainda mais essa atrofia da mão. (...) A mão de Heidegger pensa, em vez de agir”. (No Enxame; Vozes de Petrópolis; tradutor Lucas Machado).
A mão, em Heidegger, remete sempre à mão coletora do camponês. O corpo possui uma ligação com a natureza da qual ele integra, ou deveria integrar, e a técnica afasta-o da mesma, destruindo sua ligação. O manuscrito pensante, portanto, seria um meio de reconexão com nosso próprio corpo e com o mundo. A atrofia do deslize no teclado digital condiz com a atrofia do pensamento, criando uma geração de pessoas incapazes de qualquer articulação referente que o seja.
Não é segredo que a maior parte dos textos de Heidegger sejam manuscritos, menos ainda que estes toquem no mais essencial concernente ao seu pensamento e à sua filosofia. Heidegger articulou pensamento manual, e desenvolveu uma conexão harmônica entre as mãos pensantes que escrevem e o cérebro que opera a reflexão. Tendo isso em vista, inclusive, poder-se-ia dizer que o melhor jeito de ler Heidegger e acompanhar seu pensamento é através do manuscrito. Manuscrever enquanto lê, e usar do manuscrito não como modo de memorização ou armazenamento de informações, mas sim, como meio de articular pensamento manual.
Talvez isso tudo pareça muito místico. De fato, é — mas não dum mau modo. Vejamos o inconsciente: certamente o pensamento pode articular-se de forma inconsciente. O inconsciente, ao contrário do que se pensa, não é uma parte obscura localizada no cérebro das pessoas, escondido por detrás da consciência. Muito pelo contrário: ele se estende pelo corpo inteiro. O inconsciente não está apenas no órgão do interior da cabeça, mas também na pele, nos músculos, no coração, nos pulmões, nos braços, no nariz, em cada um dos dedos. Se o inconsciente carrega consigo a totalidade do corpo, e serve ele como via de articulação de pensamento, portanto, todo o corpo faz-se capaz de articular pensamento. Pensar não é uma atividade restrita. Pensar é uma atividade que cada parte do corpo e cada âmbito destas pode atingir.
A mão de Heidegger pensa. Há uma harmonia entre o pensar cerebral e o pensar manual de Heidegger. Há uma harmonia entre a ação imagética, oral e escrita. Ao discursar, ao dialogar, ao ler, ao escrever, ao colher do campo, ao plantar, em todos esses âmbitos, há uma harmonia pensante, que serve como meio de Heidegger reconectar e voltar a integrar, mesmo que não por inteiro, a natureza: seu pensamento encontra-se na simplicidade do camponês. Ao isolar-se por doze anos numa cabana na floresta negra, praticando a simplicidade da vida campestre, o pensamento deste certamente atingiu um nível que jamais poderia ter atingido em meio à degeneração técnica e patologia moderna do totalitarismo alemão.
Também a mão de Van Gogh pensa. A arte serviu como meio de conexão e reconexão com a natureza. Cada traço, cada pincelada, cada olhar frente ao mundo, tudo isso representa e carrega consigo algo de integrante, apesar de confuso. O pensamento artístico de Van Gogh carrega consigo um meio de harmonia com o mundo. Cada árvore, cada flor, cada carroça, cada céu entra em harmonia através da execução do pensamento artístico.
O pensamento, como atividade que traz consigo meio de integração à natureza da qual estamos alienados, é uma atividade livre. O pensamento exige liberdade. Qual, porém, a liberdade que ele exige? A liberdade de fundamentação. Essa liberdade de fundamentação não é senão a mais pura forma da liberdade de mundo. O que é mundo? Mundo é acesso da totalidade conjuntural do fenômeno. Mundo é conjunto de todos os fenômenos possíveis. Acessar o mundo, compreender o mundo, criar o mundo, destruir o mundo, transformar o mundo, singularizar o mundo, tornar-se no mundo — isso apenas o pensamento permite, isso apenas a liberdade de fundamentação por ele exigida permite. Mundo só pode ser apreendido enquanto singularidade, e singularidade é um fenômeno cuja intensidade de existência se faz máxima. Somente podemos apreender algo em seu fazer-se máximo existencial através do pensamento.
Numa pintura, a intensidade de existência da cena que se captura ou se imagina é feita máxima, isto é: é experienciada enquanto mundo, é tornada em mundo, é articulada enquanto mundo, é pensada enquanto mundo. O mesmo com a composição duma música: cada nota, cada espaço, cada aspiração, carrega consigo uma composição de mundo, fundamenta este, exige a liberdade para fundamentar. A composição musical, enquanto arte — e nisso excluímos aquelas barulheiras que os jovens hoje chamam de "música" — é meio de pensamento, pensamento artístico. Num poema, cada posicionamento de palavra e linha, cada disposição da articulação, cada confusão escrita, é um meio de conversão de emoções em mundo, um meio de transformar a expressão em mundo, de fundamentar mundo a partir delas, de experienciá-las enquanto tal — a poesia é também meio de articulação de pensamento. Manuscrever pode também ser articulação de pensamento, pois carrega consigo uma fundamentação de mundo em conexão com o corpo e com a leitura do mesmo. Etc...
Creio que aqui possamos já tomar aquilo que carregamos, até então de forma vaga e inconsciente, como "pensar". Pensamento é, pois, um jogo de articulação. Um jogo, quase que uma brincadeira, poderia-se dizer. Falou-se aqui, a todo momento, de articular pensamento. Qualquer que seja o modo de tratamento do mesmo, carrega consigo uma noção de articulação em seu dar-se e em seu ser. Articular o jogo de articulações é, afinal, pensar o pensamento — logo, fizemo-lo até aqui. "Eles não sabem, mas o fazem". Se o pensamento, porém, é um jogo de articulação, o que é que ele articula? A resposta é evidente: mundo. Esse jogo de articulação de mundo, em seu próprio modo de ser, carrega consigo a exigencia pela liberdade enquanto liberdade de fundamentação. Pensar é uma atividade livre, pensamento exige liberdade. Eis aqui o que pensamento significa para nós.
A ciência, com toda sua autoridade real e rigor técnico, não pode ser considerada pensamento. A ciência exige seriedade, que é o exato oposto duma brincadeira. Podemos brincar de ser sérios, mas não podemos ser sérios brincando (logo, a brincadeira é superior à seriedade). A exploração organizada que a ciência moderna toma como caráter próprio, operando através de dedução ou indução, segue por processos metódicos, técnicos e autoinstitucionalizantes já predefinidos e de forma que ela mesma, limitada, não consiga questionar. O pensamento pode questionar a si mesmo, pode pensar a si mesmo. A ciência, dentro de seus limites, é incapaz de pensar a si mesma. A ciência tenta seguir por via de não-contradição. O pensamento exige contradição. O pensamento exige liberdade. A ciência é autoritária por natureza, segue pela autoridade do real: a ciência é, precisamente, a teoria do real, ela nasce e se limita aos moldes da realidade. A autoridade e a realidade se opõem à liberdade. A liberdade de fundamentação, em sua pura expressão, quer destruir a realidade, já para o científico isto é impensável — não só por não ter a capacidade de pensar, mas também, por estar preso à autoridade do real. A ciência, pois, só existe perante a razão, só opera perante a razão, pois somente a razão é real, é o chão de toda a conhecida categoria que chamamos de "realidade" — isto é, ordem de vigência. A ciência é limitada a uma ordem de vigência. O pensamento é livre desta, e volta-se contra a mesma. Pensamento e ciência são incompatíveis, no final das contas. Não existe compatibilidade entre arte e ciência, entre filosofia e ciência, entre psicanálise (ao menos no sentido lacaniano e pós-lacaniano) e ciência, etc...
A ciência não acessa o real: já está ali. A realidade é factual, não singular. Se apreendida enquanto mundo, já extrapola seus próprios limites e se dissolve em pura nulidade. O pensamento articula mundo, envolve-se neste, integra-o e experiencia-o. Não se está acima do mundo, não se está sobre o mundo. Do contrário, não o é. Não se pensa sobre as coisas, mas em contato com as coisas, atravessando-as. Tomado assim, mundano como é, pensar deve ser sempre pensar apaixonadamente — para empregar a expressão de Arendt. A natureza só pode ser integrada e apreendida enquanto mundo, tomada em sua singularidade, isto é, pensada.
Pode-se falar de consciência social e inconsciência social. Por conseguinte, pode-se também falar de pensamento social. O pensamento não se limita apenas a nós, individualmente. Somos, antes de tudo, seres sociais, seres-no-mundo. Pensando, compreendemo-nos assim sendo. Do contrário, alienamo-nos do próprio mundo onde nos situamos. Somente através do exercício do livre pensamento (por mais pleonasmal que seja dizê-lo), da exigência pela liberdade e pela destruição da realidade, é que conseguiremos nos reconectar e harmonizar com nós mesmos, com os outros e, sobretudo, com a natureza à qual pertencemos. Que o livre espírito de Hécate nos liberte da autoridade apolínea. Isto é: que a livre vontade nos conduza à libertação da autoridade da ordem da vontade; que o livre pensar nos conduza à libertação da ordem da vigência; que o pensamento nos conduza à libertação da realidade que nos prende.
Devemos, agora, pensar em meios para tal, coisa que nunca foi uma tarefa fácil. Pensar como? Filosóficamente? Artísticamente? Poéticamente? Vá lá saber. Não é limitados a uma leitura que atingiremos a resposta. Ação, oralidade, mentalidade, visão, tudo isso deve harmonizar, tudo isso deve-se tornar linear num só movimento: o do pensamento. Pensamento individual, mas simultaneamente, social, e em contato direto com o mundo. Não inerte, mas integrativo. Não plástico e necrófilo, mas natural e biófilo. Se queremos liberdade, então comecemos por aí: entrando num jogo de articulação, e articulando-o nós mesmos.
Tudo isso é espantoso. Mas é precisamente do espanto, como exprime Platão, que deve nascer o pensamento. Heidegger, a partir daí, diz: é preciso espantar-se com o simples e assumir esse espanto como morada.
A presente concepção de pensamento não encontra-se apenas em relação intuitiva, com a noein, mas também, em relação lógica, com o logos. O pensamento exprime-se enquanto instância unificante duma dada totalidade, é mundano. Pensamento é, pois, lógico.
Não há um mundo sensível e um inteligível, uma materialidade desligada duma idealidade. Encontro-me aqui, neste mundo, no meu mundo, sendo nele. Sou, logo penso. Penso, logo reconheço-me como parte do mundo em que sou. Contra a degeneração técnico-real, somente o pensamento pode me fazer reconhecer e integrar a natureza, ao invés de pretender estar acima da mesma.
Autor: Straw.
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