Carta ao Júlio
Carta de Adel
Olá, Julio. Já faz mais de um ano desde a sua morte. Sinto muito a sua falta, mas sei que tanto você quanto minha avó rogam por mim no céu, na companhia dos anjos e arcanjos.
Quando você morreu, L. venceu a votação para ser o novo secretário-geral; logo, Ruan, Meraki, Kelly e eu saímos. Eu saí porque queria continuar com o nosso plano de colocar anarquistas dentro do coletivo, mas L. não gostou da ideia que tinha sido proposta por você e disse que faríamos uma votação sobre isso, e que, se eu perdesse, seria expulso não só do Comitê Central, mas também do coletivo. Achei um absurdo e, já sabendo que perderia, eu mesmo saí do coletivo. Levei comigo o site (Cruz Popular).
Com o tempo, eu e Ruan — que ainda continuamos amigos — vimos o coletivo que construímos mudar de maneira absurda. L. mudou seu nome para “Movimento Camilo Torres” e transformou o movimento em uma cadela da Unidade Popular (algo que até você, membro da UP/PCR, não queria fazer). O coletivo foi ampliado para não cristãos, aberto a todos aqueles que se dizem “seguidores de Cristo”, e qualquer visão tradicional de “ser cristão” é vista como um tipo de “dogmatismo” ou “fundamentalismo religioso”.
Além de tudo, o ex-camarada L. mente, dizendo-se cofundador contigo, o que tu sabes que é mentira. Eu te conheci naquele lixo que era o SoberanaTV e, juntos, no ano de 2024, fundamos aquele coletivo. Eu montei a primeira logo, eu chamei L. e os meninos para nos ajudarem, eu convoquei as primeiras reuniões.
O ex-camarada mudou as constituições do coletivo inúmeras vezes. Antes, eram permitidos os maoistas (afinal, eu era maoista na época e era do Comitê Central), e hoje, na terceira edição das normas do coletivo, eu nem sou citado como cofundador ou primeiro membro do coletivo, e os não marxistas-leninistas não são bem-vindos.
Ouvi de ex-membros as coisas mais nojentas possíveis, desde recusa de membros ótimos até desvalorização dos próprios militantes. Em uma reunião do CC, um dos membros disse que um camarada que sabia mexer com artes digitais “nem merecia estar no coletivo”. No que esse grupo se tornou? Isso não seria uma atitude promovida por sua pessoa, meu irmão.
Ao menos, nem tudo que vem de lá é um membro da sinagoga de Satanás, como Victoria, uma ótima católica da TL. Se tu foi meu irmão em Cristo, ela é, sem dúvida, uma das minhas irmãs em Cristo. Ela pensa em um dia reavivar o que tu querias antes de tua morte.
É isso, meu irmão. Tal mensagem não é formal nem tão linear; apenas precisava tirar isso do meu peito.
Com amor,
Adel
Carta de Ruan Almeida
Ao camarada Júlio César,
que agora descansa eternamente e que morreu sustentado pela esperança e pelas convicções fiéis às ideias do coletivo e ao Evangelho, escrevo com saudade e reverência. Recordo princípios e valores que não se negociam nem se relativizam, pois nasceram do compromisso com a justiça e com a dignidade humana.
Hoje sigo outro caminho prático, distante do coletivo do qual um dia fizemos parte. Saí por motivos pessoais, por exigências da vida e da consciência, não por ruptura de princípios. Quero que fique claro, diante de ti, diante de Deus e dos irmãos que ainda permanecem neste coletivo, que as convicções que nos uniram naquele tempo são as mesmas que carrego hoje. Mudam-se os espaços, mudam-se as formas, mas não se trai aquilo em que se acredita de verdade.
Escrevo como quem reconhece que esses valores são inegociáveis, porque não pertencem a um grupo ou a um tempo específico, mas ao próprio coração do Evangelho. São convicções que não se dobram diante da injustiça, que não se calam diante do sofrimento e que não se afastam dos pequenos.
Que teu descanso seja na paz prometida aos que permaneceram fiéis. Tua memória segue viva como testemunho e chamado à coerência. Seguimos adiante, sustentados pela esperança e pela certeza de que a verdade vivida não se perde.
Assim despeço-me, com um até breve.
Ruan Almeida
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