O Possível Cisma do Anglicanismo mundial


ㅤㅤAnglicana vem da palavra latina “Anglicanus”, que significa “inglês”. Ou seja, inicialmente a Anglicana Ecclesia era a Church of England, e apenas isso — nada além da Inglaterra.

ㅤㅤMas, como sabemos, os ingleses não se contentaram em ficar em suas terras e promoveram a colonização da Ásia, da África e das Américas. Junto com essa colonização econômica veio também a Church of England.

ㅤㅤCom isso, hoje o anglicanismo, de maneira oficial, é uma união de 42 igrejas, como a própria Church of England, mas também a Church of Nigeria, a Anglican Church of Kenya, a Church of the Province of Uganda, a Anglican Church of Australia, a The Episcopal Church of America, a Church of South India, entre inúmeras outras.

ㅤㅤTodas essas igrejas, em teoria, são denominações próprias — cada uma tem um primaz próprio, que não é subordinado a nenhum outro bispo ou arcebispo. Porém, algo as une e, em teoria, as torna parte da mesma denominação: o corpo histórico da Comunhão Anglicana.

ㅤㅤQualquer denominação que faça parte da Comunhão Anglicana está em comunhão oficial e reconhecida com as outras 41 denominações da Comunhão. Porém, nem todos os que reivindicam o nome de “anglicano” pertencem a essa comunhão.

ㅤㅤCom a autorização da ordenação feminina na Conferência de Lambeth em 1978, algumas províncias cismaram da Comunhão e criaram seus próprios corpos eclesiásticos, ou passaram a agir de forma independente. Cito como exemplos: a The Anglican Church in America, a The Anglican Catholic Church, a Diocese of the Holy Cross, a The Episcopal Missionary Church e a Anglican Province of America.

ㅤㅤEssas igrejas se consideram os verdadeiros anglicanos, ou os continuadores do verdadeiro anglicanismo — por isso, são chamadas de Continuantes.

ㅤㅤMais recentemente, membros cismáticos da The Episcopal Church e da The Anglican Church of Canada uniram-se e fundaram a Anglican Church in North America.

ㅤㅤA maior parte desses cismas ocorreu em razão da autorização, por algumas províncias, da ordenação de mulheres e de homens publicamente gays, bem como da celebração de casamentos entre pessoas do mesmo sexo.

ㅤㅤVoltando à Church of England, o chefe supremo da Igreja é o monarca britânico, atualmente Sua Majestade o Rei Charles III. Porém, esse papel é apenas cerimonial e válido somente dentro da Church of England.

ㅤㅤQuando se trata de assuntos religiosos e também administrativos da Igreja, quem os resolve é o Archbishop of Canterbury (ou, em sua ausência, o Archbishop of York).

O Archbishop of Canterbury (ou o Archbishop of York, de maneira interina) é o líder da Comunhão Anglicana. Contudo, ele não é um tipo de líder absoluto e infalível, como Sua Santidade o Papa Leão XVI; ele é apenas o Primus inter pares — “o primeiro entre iguais”.

ㅤㅤOu seja, ele lidera a Comunhão, mas não as outras 41 denominações-membro dessa união. Ele não as controla nem possui poder legal sobre elas, não podendo, portanto, interferir em seus cânones ou em sua relação com a lei civil do país onde se encontram. Por conta desses fatos, os anglicanos ao redor do mundo são completamente distintos.

ㅤㅤPor exemplo, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, junto com a The Episcopal Church e a Anglican Church of Canada, adotou uma postura mais liberal e receptiva em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e à ordenação de mulheres.

ㅤㅤPor outro lado, em 2023, o Archbishop of Uganda, Stephen Kaziimba, elogiou o governo de seu país pela criação de leis anti-LGBT, que criminalizam a homossexualidade e preveem pena de morte para pessoas que infectarem outras com HIV/AIDS.

ㅤㅤA Church of England tenta manter uma postura neutra sobre o assunto. Mesmo com a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Inglaterra, ela ainda não autorizou oficialmente essas cerimônias, permitindo apenas bênçãos a casais homoafetivos — de forma semelhante ao que o Vaticano fez.

ㅤㅤDiferente de sua vizinha, a Scottish Episcopal Church, que, após a legalização do casamento igualitário, aprovou a celebração desses casamentos dentro da Igreja. Isso, contudo, pode mudar, já que uma pesquisa de 2023 do The Times revelou que 53,4% do clero da Church of England apoia o casamento igualitário.

ㅤㅤEm relação à ordenação de mulheres, apenas três províncias anglicanas ainda não permitem mulheres no diaconato: a Church of the Province of Melanesia, a Anglican Church of Papua New Guinea e a Church of the Province of South East Asia.

ㅤㅤAlém delas, a Episcopal Church in Jerusalem and the Middle East, a Church of Nigeria (Anglican Communion) e a Church of Pakistan (United) não permitem que mulheres sejam sacerdotes.

ㅤㅤE, juntamente com essas, a Église Anglicane du Burundi, a Church of the Province of Central Africa, a Iglesia Anglicana de Chile, a Province de l’Église Anglicane du Congo, a Hong Kong Sheng Kung Hui, a Church of the Province of the Indian Ocean, a Anglican Church of Korea, a Church of the Province of Myanmar (Burma), a Province de l’Église Anglicane au Rwanda, a Iglesia Anglicana de la Región de Sudamérica, a Province of the Episcopal Church of South Sudan e a Church of the Province of West Africa não permitem a ordenação episcopal de mulheres (isto é, que sejam bispas).

ㅤㅤA Church of England é a fonte do anglicanismo no mundo. Seu líder, o Archbishop of Canterbury, governa a comunhão internacional de 42 igrejas, não por meio de poder legal, mas sim por consentimento mútuo entre essas igrejas.

ㅤㅤEntre elas, algumas aprovam o casamento entre pessoas do mesmo sexo há uma década e a ordenação de mulheres há meio século, enquanto outras ainda rejeitam essas práticas. Há também províncias que não veem problema na ordenação de mulheres, mas consideram o casamento entre pessoas do mesmo sexo um tema delicado que deve ser amplamente debatido.

ㅤㅤPor serem a Inglaterra e o Archbishop of Canterbury os centros históricos do anglicanismo, todas as suas decisões e posicionamentos são constantemente observados pelas demais igrejas — e tudo o que fazem é analisado e julgado com atenção.

ㅤㅤO Archbishop of Canterbury atua como um grande conciliador, passando seu mandato inteiro tentando equilibrar-se entre ser visto como uma figura responsável e sensata tanto pelos anglicanos liberais do Ocidente quanto pelos conservadores do Sul Global.

ㅤㅤO último conciliador foi o Rev. Justin Welby, seu mandato durou de 2013 até janeiro de 2025. Por mais de uma década conseguiu evitar um cisma na comunhão. Ele renunciou no seu aniversário de 69 anos, por conta de um escândalo de abuso sexual infantil no qual se considerou incapaz de lidar de forma adequada. Mesmo com a renúncia, ele seria obrigado a se aposentar aos 70 anos. Mas se ele conseguiu evitar o cisma, porque isso é visto como tão provável agora?

ㅤㅤCom o tempo, desenvolveu-se uma comunhão alternativa dentro da Comunhão Anglicana, chamada GAFCON (The Global Fellowship of Confessing Anglicans). Em 2008, esse grupo se reuniu pela primeira vez, em Jerusalém.

ㅤㅤEles são liderados por um concílio de primazes, cada um representando uma província da Comunhão Anglicana ou províncias que se dizem anglicanas, mas que não estão em comunhão com a Church of England. Ou seja, a GAFCON é um corpo de igrejas que estão em comunhão entre si e reconhecem essa comunhão, inclusive com outras igrejas não reconhecidas pela Church of England.

ㅤㅤPor conta disso, voltamos à questão inicial sobre o que significa “ser anglicano”. Se definirmos anglicanismo como “ser parte do corpo histórico da Comunhão Anglicana”, então é possível que o anglicanismo diminua em influência, pois o concílio de primazes da GAFCON pode, a qualquer momento, se separar da Comunhão e levar consigo a Anglican Province of Alexandria, a Iglesia Anglicana de Chile, a Province de l’Église Anglicane du Congo, a Anglican Church of Kenya, a Church of the Province of Myanmar (Burma), a Church of Nigeria (Anglican Communion), a Province de l’Église Anglicane au Rwanda, a Iglesia Anglicana de la Región de Sudamérica, a Province of the Episcopal Church of South Sudan e a Church of Uganda.

ㅤㅤE isso não é um medo novo: é um assunto comentado é possível desde 2008.

ㅤㅤNa Conferência de Lambeth de 2022, uma espécie de concílio ecumênico anglicano, os primazes das províncias mais conservadoras ou ligadas à GAFCON não compareceram ou se recusaram a comungar. Isso ocorreu porque os primazes das igrejas liberais, como a The Episcopal Church, foram convidados a participar — igrejas essas que aprovaram o casamento igualitário. (Vale lembrar que, em 2008, o Rev. Gene Robinson não foi convidado para a conferência por ser um homem abertamente gay desde 2003.)

ㅤㅤSegundo esses primazes, eles não compareceram (ou, se compareceram, não comungaram) porque consideram que a Comunhão Anglicana não está mais seguindo a Resolução 10 da Conferência de 1998, a qual afirma:

ㅤㅤ“Embora rejeite a prática homossexual como incompatível com as Escrituras, conclama todo o nosso povo a ministrar pastoral e sensivelmente a todos, independentemente da orientação sexual. […] Não pode aconselhar a legitimação ou a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo, nem a ordenação daqueles envolvidos em tais uniões.”

ㅤㅤNa época, a GAFCON emitiu uma nota dizendo:

ㅤㅤ“Nós não estamos deixando a Comunhão Anglicana; nós somos a maioria da Comunhão Anglicana, buscando permanecer fiéis à nossa herança anglicana.”

ㅤㅤEm outras palavras, mesmo que haja um cisma com a Comunhão Anglicana, para a GAFCON, eles continuariam sendo verdadeiramente anglicanos — do mesmo modo que a FSSPX (Fraternidade Sacerdotal São Pio X) se considera católica romana, mesmo sem estar em plena comunhão com Roma desde o Concílio Vaticano II.

ㅤㅤE ainda, existe outra comunhão alternativa, na qual se incluem muitos membros da GAFCON. Trata-se da Global South Fellowship of Anglican Churches (GSFA). Eles compartilham os mesmos objetivos que a GAFCON, com a única diferença de que são sedevacantes (isto é, afirmam que a Sé Augustana está vaga).

ㅤㅤEm 2023, a GSFA publicou o seguinte comunicado:

ㅤㅤ“A Igreja da Inglaterra afastou-se da fé histórica transmitida pelos apóstolos por meio dessa inovação nas liturgias da Igreja e em sua prática pastoral. Ela se desqualificou de liderar a Comunhão como a histórica ‘Igreja Mãe’... De fato, a Igreja da Inglaterra escolheu romper a comunhão com aquelas províncias que permanecem fiéis à fé bíblica histórica.”

ㅤㅤEm 14 de setembro de 2025, o presidente da GAFCON, Laurent Mbanda, convocou todos os primazes e bispos da GAFCON para se reunirem na Nigéria em março de 2026. Nessa convocação, ele disse:

ㅤㅤ“Os próximos seis meses serão cruciais para a nossa Igreja Anglicana global. É por isso que os primazes da GAFCON convocaram os bispos anglicanos ortodoxos do mundo todo para se reunirem em Abuja, Nigéria, de 3 a 6 de março de 2026. Esta pode ser a assembleia mais importante de anglicanos autênticos desde que a GAFCON redefiniu a Comunhão em Jerusalém, em 2008. Os revisionistas dividem deliberadamente a Comunhão com ações cismáticas que celebram o pecado, ao nomearem falsos pastores para conduzir o rebanho de Deus para longe de Sua boa palavra. Mas Jesus está edificando Sua Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão!”

ㅤㅤUma das coisas que é vista como motivo para as atuais mobilizações conservadoras é que, pela primeira vez na história do anglicanismo, uma arcebispa de uma província ligada à Comunhão Anglicana está em uma união civil com alguém do mesmo sexo. Em julho de 2025, Cherry Vann foi eleita primaz da Church in Wales — a primeira mulher e a primeira lésbica a se tornar primaz. Vale lembrar que a Church in Wales não permite a celebração de casamentos LGBT, apenas a bênção de casais, definida em 2021. A Igreja da Nigéria cortou relações com a Church in Wales desde a eleição de Cherry.

ㅤㅤComo se isso já não fosse motivo suficiente para as articulações conservadoras, recentemente a Bispa de Londres, Sarah Mullally, foi eleita a nova Archbishop of Canterbury. Ela será a primeira mulher a ocupar o cargo em 1.400 anos de história da Igreja, sem contar que, segundo a própria, é “pró-escolha” na questão do aborto, o que agrava ainda mais o problema para a GAFCON e a GSFA.

ㅤㅤQuando Sarah foi anunciada como nova Archbishop of Canterbury, a GAFCON declarou em seu site oficial:

ㅤㅤ“A notícia finalmente chegou após meses de oração e longa espera. Mas é com pesar que a GAFCON recebe hoje o anúncio da nomeação de Dame Sarah Mullally como a próxima Archbishop of Canterbury. Esta nomeação abandona os anglicanos globais, pois a Church of England escolheu uma líder que aprofundará ainda mais a divisão de uma Comunhão já fragmentada... Devido à falha de sucessivos Archbishops of Canterbury em guardar a fé, o ofício não pode mais funcionar como uma liderança crível dos anglicanos, muito menos como foco de unidade. Como deixamos claro em nosso Kigali Commitment de 2023, não podemos mais reconhecer o Archbishop of Canterbury como um ‘Instrumento de Comunhão’ nem como o ‘primeiro entre iguais’ dos primazes globais... Embora alguns possam saudar a decisão de nomear a Bispa Mullally como a primeira mulher Archbishop of Canterbury, a maioria da Comunhão Anglicana ainda acredita que a Bíblia exige um episcopado exclusivamente masculino. Portanto, sua nomeação tornará impossível que o Archbishop of Canterbury sirva como foco de unidade dentro da Comunhão. Mais preocupante ainda é sua falha em manter seus votos de consagração. Quando foi consagrada em 2015, ela fez um juramento de ‘banir e afastar toda doutrina estranha e errônea contrária à Palavra de Deus’. No entanto, longe de banir tal doutrina, a Bispa Mullally tem promovido repetidamente ensinamentos não bíblicos e revisionistas sobre casamento e moralidade sexual. Em 2023, quando perguntada por um repórter se a intimidade sexual em um relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é pecaminosa, ela respondeu que alguns desses relacionamentos poderiam, de fato, ser abençoados. Ela também votou a favor da introdução de bênçãos para casamentos entre pessoas do mesmo sexo na Church of England. Os anglicanos acreditam que a Igreja recebeu autoridade de Deus para estabelecer ritos e cerimônias e resolver controvérsias doutrinárias, ‘e ainda assim não é lícito à Igreja ordenar coisa alguma contrária à Palavra de Deus’ (Artigo XX). A Igreja não pode abençoar nem afirmar o que Deus condenou (Números 23:8; 24:13). No entanto, é precisamente isso que a Bispa Mullally procurou permitir. Como a recém-nomeada Archbishop of Canterbury falhou em guardar a fé e é cúmplice na introdução de práticas e crenças que violam tanto o ‘sentido simples e canônico’ das Escrituras quanto a ‘interpretação histórica e consensual da Igreja’ (Jerusalem Statement), ela não pode fornecer liderança à Comunhão Anglicana. A liderança da Comunhão Anglicana passará àqueles que mantêm a verdade do Evangelho e a autoridade das Escrituras em todas as áreas da vida. A GAFCON se reuniu em Jerusalém, em 2008, para recolocar a Comunhão Anglicana sobre seus fundamentos bíblicos. A nomeação de hoje torna mais claro do que nunca que Cantuária renunciou à sua autoridade de liderança. O reinício de nossa amada Comunhão está agora unicamente nas mãos da GAFCON, e estamos prontos para assumir a dianteira. Para um tempo como este, a GAFCON convocou os bispos anglicanos ortodoxos do mundo todo para Abuja, Nigéria, de 3 a 6 de março de 2026, para a G26 Bishops Assembly. Esta pode ser a reunião mais significativa de anglicanos fiéis desde 2008.”

ㅤㅤÉ muito claro como essa reunião será, sem sombra de dúvidas, uma grande ameaça ao slogan da Comunhão Anglicana: “IN OVER 165 COUNTRIES”. E mesmo que isso não resulte em um cisma, Mullally tem atualmente 63 anos e terá apenas sete anos de mandato, por conta da aposentadoria obrigatória aos 70 anos — ignorando a possibilidade de querer permanecer mais um ano no cargo e se aposentar aos 71, algo a que tem direito segundo o direito canônico da Church of England.

ㅤㅤDe qualquer forma, que Deus tenha misericórdia de nós. Fique na paz de Cristo.


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