Homem Neutro
A lógica do homem neutro ou imparcial deve ser considerada uma piada, tanto quanto o “progresso” civilizatório, que só é feito a partir de um campo teológico de homem natural, advindo de características biológicas.
O homem — que não é homem enquanto não sofre a influência do mundo, o qual constantemente o influencia — não pode se projetar imparcial justamente, e ironicamente, pela sua essência enquanto formação do sujeito, que implica na junção daquilo que o torna não somente um molde geométrico.
Digamos que exista uma xícara de chá; mas, além do seu significado, que a materializa — ou melhor, que é seu corpo nu — há de ter também um significante expresso no contato do sujeito com ela. Pois o que poderia determinar que tal objeto é uma xícara, ou um pequeno vaso para planta com alça, se não fosse o contato do homem, inventor e descobridor de uma utilidade à qual dá sentido ao rótulo atribuído?
Tal princípio contém uma segunda aplicação: deixado apenas na relação sujeito-objeto, não consegue expressar-se além da sua característica humanista, colocando-o como uma dependência unilateral do mundo para com o homem.
A relação sujeito-objeto é co-dependente mediante seu resultado — o fenômeno revelado no contato, sua própria interação.
Do mesmo modo que na relação descrita, em que o objeto se faz dependente para haver um sentido social na sua existência e honrar o substantivo ao qual lhe foi atrelado, o sujeito também necessita do objeto para perceber e achar um sentido lógico que o fixe como existente.
Sem a composição que rodeia o ser, não poderá haver o homem; ou seja, para o sujeito assumir a identidade de sujeito, terá de interagir igualmente com o objeto.
De forma semelhante, mesmo sobre a educação que violenta o homem — educando e educador —, a influência de seu objeto de estudo e de sua vivência deve impactar o exercício de sua atividade. Pois o ato de ensinar, ainda que borrado pela raposa monetária, resume-se na comunhão entre homens, no compartilhamento do mundo ao qual cada um está inserido — por vezes hierárquico, mas, ainda assim, humano.
A concepção bancária da educação é uma violação que mantém inalterado o status quo do ser menor — algo que, por si só, já demonstra a superfície da agressão sofrida pelo ser —, pois se baseia numa educação morta e alienada, sem espaço para diálogo ou crítica que não seja sua própria contradição.
Então, o que mais poderia ser a neutralidade senão o agravamento dessa alienação e a morte do homem pensante, além da limitação de divulgar sua interação, das migalhas vexatórias de sua liberdade expressiva, de sua total e brutal domesticação?
Como se pode notar, não há outro objetivo senão o total estado de dominação, que, na imparcialidade, demonstra seu caráter “dialético” parcial.
De fato, uma faca de dois gumes, pois é dessa mesma liberdade humana fragmentada que se podem recapturar outros pedaços — ou, claro, afastá-los ainda mais do homem —, agindo como a cobra de Aquiles que pica o próprio calcanhar.
Quando se veem encurralados pelo veneno, revoltam-se contra ele e tentam restabelecer o fragmento uma vez conquistado — e conseguem, por serem minimamente importantes nesse vai e vem de mercadorias, incluindo, claro, a educação, onde são o corpo materializado desta.
Mas o homem sempre tenta exterminar os problemas que impactam a figura divina do capital — e um dia suprirá essa importância. Dessa forma, o fragmento de humanidade, que se assemelha a um remo sem ponta, irá se perder mediante o mastro.
A verdade é que não se pode culpá-los por esse suicídio contínuo. Afinal, a continuidade da mercadoria como Pai-Nosso faz com que se sabotem — e, ao mesmo tempo, tentem eliminar essa sabotagem. Algo pré-estabelecido, mas que só se mostra dessa forma mediante o território inimigo.
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