MATER POPULIS FIDELIS: Roma quer esconder Maria


ㅤㅤRecentemente, foi publicado pela Santa Sé, por meio do Dicastério para a Doutrina da Fé (antiga Congregação para a Doutrina da Fé; antigo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição Romana), o documento Mater Populi Fidelis, isto é, em nossa língua, “A Mãe do Povo Fiel”. Esse documento, no atual momento, está sendo debatido tanto pelos teólogos dentro da Igreja Invisível, quanto pelos que estão fora da Igreja de Nosso Senhor. Afinal, este traz consigo falas polêmicas, como: “é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria”; também contém um pedido polémico: “especial prudência na aplicação do título ‘Medianeira’ a Maria”. Segundo a Igreja, tais títulos podem causar confusões entre os fiéis romanos e os irmãos de outras denominações históricas. Isso, meus caros irmãos e camaradas, é uma contradição do Magistério, pelo menos desde Pio IX (que governou a Igreja de Roma de 1846 até 1878) e grande parte dos santos e canonistas da Igreja.

ㅤㅤNão procurarei aqui atacar a figura – como fazem meus irmãos tradicionalistas – de S. Em. Rev. o Sr. Cardeal Víctor Manuel Fernández (principal escritor do documento em questão); nem de S. S. o Papa Francisco; nem de S. S. o Papa Bento XVI; muito menos de S. S. o Papa Leão XIV. E ainda não me é de intenção negar a posição de meu amigo e colaborador da fé, o teólogo continuísta da Diocese de São José do Rio Preto, o Sr. Luan; estarei apenas expressando minha discordância do documento como um anglo-católico de tradição romana.

ㅤㅤIndo direto ao ponto: Nosso Senhor Jesus Cristo é o Redentor da humanidade. O Pe. Antônio Royo Marín explica a Redenção da seguinte forma: “Aplicada à redenção do mundo, significa, própria e formalmente, a recuperação do homem ao estado de justiça e de salvação, resgatando-o do estado de injustiça e de condenação no qual havia se submergido pelo pecado, mediante o pagamento do preço do resgate: o sangue de Cristo Redentor, oferecido por Ele ao Pai”. Isso é uma verdade de fé, afirmada desde a Era Apostólica. Agora, o que é “Corredenção”? O Pe. Royo continua dizendo: “Com esta palavra [corredenção] é designada em mariologia a participação correspondente a Maria na obra da redenção do gênero humano realizada por Cristo Redentor. A corredenção mariana é um aspecto particular da mediação entendida em seu sentido mais amplo, ou seja, o da cooperação de Maria na reconciliação do homem com Deus mediante o sacrifício redentor de Cristo. A corredenção se relaciona com a redenção objetiva, enquanto que a distribuição de todas as graças por Maria é um aspecto secundário da redenção subjetiva”. Ou seja, todos os homens foram salvos por Cristo (e unicamente por Cristo) em sua Paixão; porém, quem liga esse mérito à salvação é Maria. Somos salvos pelo sacrifício de Cristo, pois somos filhos de Maria. Se somos filhos de Maria, isto é, irmãos de Jesus e membros de seu Corpo, somos feitos dignos da Redenção. Afinal, a Salvação é uma Graça, e Maria é a Medianeira de Todas as Graças.

ㅤㅤAinda assim, o Pe. Royo diz: “A imensa maioria dos teólogos católicos – apoiando-se no mesmo Magistério da Igreja – proclamam sem vacilar a corredenção imediata ou direta, ou seja, não somente por haver-nos trazido com seu livre consentimento o Verbo encarnado, senão também por haver contribuído direta e positivamente, com seus méritos e dores inefáveis aos pés da cruz, para a redenção do gênero humano realizada por Cristo". Ou seja, mesmo aqueles que dizem que ela é corredentora indiretamente (isto é, só pelo fato de ter trazido Jesus ao mundo) ainda dizem que ela é Corredentora.

ㅤㅤÓ Roma, “cidade dos cristãos”, não negue o que você mesma disse. Leão XIII, na Encíclica Supremi Apostolatus Officio, assim disse: “De fato, a Virgem Imaculada, escolhida para ser Mãe de Deus, e por isso mesmo feita Co-Redentora do gênero humano, goza junto a seu Filho de um poder e de uma graça tão grande, que nenhuma criatura, nem humana nem angélica, jamais pôde nem jamais poderá atingir uma maior”. O mesmo Pontífice, na Encíclica Iucunda Semper, complementa: “De pé, junto à cruz de Jesus, estava Maria, sua Mãe, compenetrada por nós de um amor imenso, que a fazia ser Mãe de todos nós, oferecendo Ela mesma a seu próprio Filho à justiça de Deus e agonizando com sua morte em sua alma, atravessada por uma espada de dor". Bento XV diz, na Epístola Inter Sodalicia: “Os doutores da Igreja ensinam de maneira comum que a Santíssima Virgem Maria, que parecia ausente da vida pública de Jesus Cristo, esteve presente, no entanto, a seu lado quando, à hora da morte, estava sendo cravado na cruz, e esteve ali por divina disposição". E ele continua: “Com efeito, em comunhão com seu Filho sofredor e agonizante, suportou a dor e quase a morte; abdicou dos direitos de mãe sob seu Filho para conseguir a salvação dos homens; e, para aplacar a justiça divina, enquanto dependesse d’Ele, imolou a seu Filho, de sorte que se pode afirmar, com razão, que redimiu o gênero humano com Cristo. E, por esta razão, toda sorte de graças que recebemos do tesouro da redenção nos vêm, por assim dizer, das mãos da Virgem dolorosa". São Pio X, na Encíclica Ad Diem Illum, falava: “A consequência desta comunhão de sentimentos e sofrimentos entre Maria e Jesus é que Maria merece ser reparadora digníssima do orbe perdido e, portanto, a dispensadora de todos os tesouros de Jesus nos conquistou com sua morte e com seu sangue". Um século antes, Pio IX, na Bula Ineffabilis Deus, proclamou dogma: “Por isto, assim como Cristo, mediador entre Deus e os homens, assumiu a natureza humana, apagando da escritura o decreto que nos era contrário, cravou-o triunfante na cruz (Cl 2,14), assim a Santíssima Virgem, unida a Ele com estreitíssimo e indissolúvel vínculo contra a venenosa serpente e triunfando sob a mesma plenissimamente, esmagou sua cabeça com seu pé imaculado". E, nesse ponto, uns podem dizer que Pio IX não usa o termo “Corredentora”, porém, como adverte o Pe. Royo: “Triunfar com Cristo – adverte com razão Roschini – quebrando a cabeça da serpente, não é outra coisa que ser Corredentora com Cristo. A menos que se queira desvirtuar o sentido óbvio das palavras".

ㅤㅤEnfim, Maria é Corredentora da Humanidade; negar isso é ser anátema! O documento Mater Populi Fidelis é um documento perigoso, que quase nega uma verdade de fé. O documento não nega a Corredenção de Maria, mas a esconde dos olhos das pessoas por medo de “ferir” um ecumenismo de altar (mas não de cálice e pão) e de uma catequese malfeita.

Dado de forma incompleto na Diocese Anglicana de São Paulo, aos nove dias do mês de novembro, do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e vinte e cinco • 09/11/2025

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