Macunaíma e a (não)identidade Brasileira
Macunaíma é um longa-metragem que conta a história de um herói brasileiro preguiçoso e malandro, rompendo com uma visão de um suposto indígena “doméstico” ao mesmo tempo que rompe com a ideia de um indígena carrasco. Produzido pelo cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade em 1969 que também era responsável por obra como “O homem do pau Brasil” ou “Cinema Novo”, a obra é uma releitura do livro de mesmo nome publicado em 1928 por Mário de Andrade, Joaquim adapta de maneira contextualizada para os processos políticos e culturais que ocorriam na época (Ditadura militar brasileira, tropicalismo decadente e a busca por uma identidade nacional) sua produção era marcada por um grande uso de expressões corporais e críticas veladas sobre diversos temas, principalmente na construção de uma identidade nacional brasileira.
Começamos o filme vendo de perto o nascimento do nosso herói indígena e negro (cabe ressaltar a cor de sua pele pois posteriormente será de grande importância), durante seu crescimento, Macunaíma demonstrava seu caráter trapaceiro, preguiçoso e mulherengo quando se recusa a ajudar seus familiares, quando trai o seu irmão e quando esconde comida em uma temporada de fome.
Cabe ressaltar que a figura feminina durante todo o filme se faz em dois principais papeis, a primeira é a de mãe ranzinza cujo único papel é ressaltar a esperteza de Macunaíma e de impulsionar sua transição identitária quando vem a falecer, e as outras mulheres aparecem apenas como objetos sexuais que rodam em torno dos 3 irmãos que acompanhamos.
Na transição para a cidade nos deparamos com uma água que jorra de uma pedra, ao se banhar, nosso herói perde os principais traços negros e sua cor durante todo o filme. Se interpretarmos essa cena de maneira metafórica, em outras palavras, na transição do protagonista que sai de sua oca para a capital do progresso, onde “os homens é que eram máquina e as máquinas é que eram os homens da cidade”, conseguimos inferir uma perda de identidade que o acompanha durante o restante do filme, ou melhor, uma mistura de identidade, pois Macunaíma começa a agir e se comportar de maneira diferente, mesmo que continuando com a mesma essência. Essa perda de identidade é bastante chocante tendo em vista o movimento que buscava aquilo que Joaquim destruía.
Ao decorrer do filme, conseguimos ver melhor essa construção de personagem, ou melhor, de um segundo personagem que faz o papel agora do nosso herói, percebemos essa outra persona, como por exemplo na cena em que durante todo o filme ele se depara pela primeira vez com um piano e o toca belamente como se quem já tivesse nascido tocando. Branco, machista, violento, gigolô e predador sexual, agora Macunaíma se faz Paulistano e se mistura a capital do progresso, usando de toda sua artimanha para conseguir o que quer à custa dos outros. Joaquim faz questão de transformar toda essa trajetória de maneira sarcástica, utilizando palavras, expressões e cenários característicos que misturam o dialeto e a paisagem natural e industrial.
Ao final, voltaram para onde vieram, levando consigo sua nova identidade colorida, tropicalista e com resquício da sua velha vida na capital. Sua história “heroica” acaba no mesmo mal pela qual começou, sozinho por sua preguiça e trapaça, em um lugar cujo verde de sua roupa urbana se misturava ao verde das árvores, com psicose e saudades de um passado imaginário glorioso (muito proposto pela ditadura e por governos anteriores). O filme acaba com nosso protagonista sendo devorado por Iara em sua sede sexual, uma das várias representações da mata e do Brasil, dessa forma, o Brasil pariu e absorveu Macunaíma.
Em suma, Macunaíma cumpre bem o seu papel retratando uma identidade brasileira, identidade essa que é construída na fragmentação, numa assimilação artificial e robótica, em uma simbiose violenta para com seus habitantes. Tal conclusão é transmitida durante o filme inteiro se prestarmos nossa atenção para as entrelinhas, sua linguagem clara não deixa dificuldades para interpretação assim como em diversas outras obras de Joaquim que se demonstram atemporais, pois mesmo após anos de história, o território brasileiro ainda é novo demais e recente na construção de uma identidade nacional em um país com dimensões continentais.
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