Necessidade de quebrar
Paremos por um momento e voltemos nossa mente para um cenário fictício. Imaginemos que estamos numa cidade alternativa, com valores distorcidos da realidade — não de maneira ruim, oras, mas de maneira agravante —, um culto exacerbado pela moralidade, pelos princípios morais que regem uma sociedade e que movimentam todo o povo, mesmo que com múltiplos ideais, pelos sonhos, o combustível que faz o homem caminhar alienadamente por uma vida melhor, um futuro melhor e um país melhor; pela liberdade, pelo sentimento de ser livre, de não ter ninguém ousando atrapalhar sua trajetória, ou que, mesmo atrapalhando, não lhe dê um atestado de óbito. Todos os três são fatores essenciais para movimentar o homem nessa sociedade, afinal, um homem que não sonha é um morto; um homem que não almeja a liberdade, independente da forma de sua manifestação, é um homem preso, mas sem saber; e um homem que não tem princípios morais é um selvagem.
Essa metrópole que a gente criou é incrivelmente liberal. Ela preza pela liberdade em seu estado original, ela te deixa livre para ir e vir, portanto, que você não ferre com quem lhe concede essa liberdade ou com os outros. Você pode ir para a escola, trabalho, faculdade ou até mesmo sair do país, que ninguém liga, mas, se ficar, meu amigo, sua liberdade não é um conto de fadas, ela é real, ela é material, é uma liberdade orientada que tem um plano de condução, que despeja os limites e que retira os obstáculos.
Você terá emprego 24 horas por dia, não há desempregados; você terá ensino com extremo investimento, não há pequenas vadias; você terá segurança 24 horas, não há espaço para o crime; você ganhará o suficiente para garantir não só o mínimo, mas além dele. Toda essa série de fatores te torna livre, mas orientado, pois quem te dá essa liberdade e te protege dos infratores é papel de alguém maior, que preza pela nação, não seu.
Nessa sociedade, a moral também foi fortemente incorporada. Os princípios morais foram exaltados e uma distinção do bem e do mal foi aplicada com rigidez. Criminosos, assaltantes e traficantes foram tratados com mão de ferro. Era muita balela apresentada para cuidar deles ou reeducar — muito papo humanista pra quem só merece bala. Os invasores também: eles eram muitos e roubavam nossos empregos, tirando dinheiro da nossa população e levando para fora, causando uma queda no bem-estar dentro do nosso território. Claro, sua função econômica era muita, mas os problemas que traziam também.
Foi dado ao povo o que eles pediam. Não havia malfeitores caminhando durante o dia. Foi criado um ambiente seguro para a família prosperar — família que aqui é o sonho de um homem. Você podia passear com sua mulher e filhos pela cidade, com policiais prontos para lhe proteger e pessoas gentis com um senso de coletividade nacional. Era um verdadeiro seriado americano da década de 60.
Tudo era seguro demais e colorido demais. Te davam um propósito e uma recompensa, era só não sair dos trilhos que tudo era garantido a você. Deus? Você tem. O que é melhor do que o Deus a quem você clama também ser o Deus de quem te representa? Família? Você tem, você pode, você quer. Sonhos? Isso é um sonho, esse é o seu sonho: uma vida tranquila, segura, com alguém pra te chamar de papai e te beijar no final do dia.
Até sua mulher te trair. Aí é beng no meio da cabeça dela. Afinal, enquanto você tava promovendo essa vida perfeita, torturando invasores e protestantes, ela estava em casa tendo sentimento por outro. É injusto. Nessa sociedade, não se preza a injustiça, se abomina — e você aplica a sua justiça.
Os valores morais são elevados de uma forma tão grande que quebrar é fatídico. Não há espaço para imorais: eles são animais, eles são selvagens. É como imaginar um homem com costumes de macaco, teletransportado de repente para Nova York — seus costumes os assustam. Não é fascinante, é um louco que talvez dê um lucro em algum zoológico, mas que não deve ficar em sociedade.
Agora, nessa sociedade, imaginemos um homem — por mais que ele se encaixe nos padrões já estabelecidos pela nação, que não apresente nenhum problema ou ameaça e que tenha passe livre para ter a vida que qualquer outro cidadão —, mas este homem é diferente. Ele é clássico, ele é culto, e ele enxerga um problema nisso tudo.
Este homem é erudito. O clássico lhe encanta, tomado de concepções portuguesas e tradicionais, ele se leva pelo romantismo, pelo classicismo e pela cavalharia. Ele tem suas próprias convicções do bem e do mal. Ele é moralista até o fundo de sua alma, mas a sua moral é ser imoral.
Nosso homem é alguém com costumes nobres que imitam um inglês. Não que ele realmente fosse de linhagem, mas sua admiração era grande o suficiente para se sentir nobre, e ele vivia sobre o regime e com o regime. Desde pequeno foi bem criado, educado com Deus e para Deus, mesmo que não fosse tão fã assim da ideia. Seus pais eram tradicionais, nunca foram pressionados pelo regime, eles tinham os mesmos ideais, nunca brigavam e sempre estavam sendo uma família.
Mas nosso homem sabia que havia um problema nisso. Em meio àquele molde de família perfeita, algo estava faltando, algo estava tornando tudo superficial e inquietante — algo como o caos.
É necessário quebrar a moral
Todo ser humano é composto por um senso de moralidade coletiva e individual. Seus conceitos de positivo e negativo sofrem influência direta das nuances de sua vida pessoal, das contradições enfrentadas durante sua trajetória e, principalmente, da educação social que lhe é atribuída. Crescemos ouvindo os dois espectros extremos da moral — de atitudes de indivíduos com os outros até sua maneira de pegar em um garfo.
Somos preenchidos daquilo que socialmente é aceito. Nos é passado um livro de regras condizente com as normas, valores e princípios que regulam o comportamento humano. Nenhum indivíduo é completamente imoral, por mais que rejeite o máximo de conceitos apresentados.
E é por isso que a moral é castradora: um padrão de regras que condiciona as pessoas de maneira passiva, reprimindo suas vontades e dizeres para convivência em uma sociedade previamente estabelecida, serve apenas para a manutenção de um status quo.
Quando se propõe a quebra da moralidade, tendo em vista a formação do ser, compreende-se a inviabilidade da proposta; porém, não nos importamos.
A moral é só mais um instrumento de dominação que se prende até mesmo aos antissistemáticos. Ela é cruel porque não nos permite ver, e passa despercebida por aqueles que buscam o material, quase como um tesão nos átomos.
Ela é castradora, mas não somente uma castração qualquer — ela é, de fato, uma castração química que deve ser quebrada. O bem e o mal devem ser soltos para que a ordem se desfaça. As pessoas deverão sofrer o efeito mola e, dessa forma, suas convicções serão colocadas numa prova árdua para testar se sobrevivem ou morrem. Sua cultura tradicional deve ser esvaziada, de maneira que encontrem a desordem e a encarem com horror. Depois da desordem, das cinzas, se formará uma nova moral primitiva — aquela de princípios mutáveis e cuja mistura, advinda da desordem, agora dará aos humanos livres e desorientados uma nova missão: distinguir o bem do mal.
E é por estar nessa forma primitiva que a moral pode, de fato, encontrar sua face autoritária na tentativa de restabelecer o que um dia foram; mas também é nessa forma que ela pode encontrar sua face coletiva e generosa, cujo povo se volta contra o conceito e agora o trata de maneira limitada. A moral será restrita para coerção de atos que infrinjam dano ao corpo e à mente.
Os antissistemáticos que conseguem ver apenas a versão rasa da moral social são igualmente imbecis, pois buscam destroná-la na rebelião — rebelião essa que não ameaça nem os conceitos mais básicos da moral social. Não apresentam perigo algum para ela, pois eles mesmos, na formulação de sua forma de rebelião, o fazem com base em moralismo. Seus princípios rebeldes, mal aprofundados, não existem à toa; eles existem porque não são em nada diferentes da sociedade industrial. Um exemplo é a igualdade racial.
Ao se falar em igualdade racial, os radicais não propõem nada além do que é benéfico ao capital: a integração do homem negro nesse sistema de mercadorias, nesse fluxo. Eles pedem incessantemente para que deixem com que os indígenas possam também servir ao capital e que também ganhem o mesmo salário. Consegue perceber que isso não ameaça em nada o sistema? No máximo, alguns donos de fábricas racistas, mas que em nada fazem falta, considerando a grande mão de obra que agora vai entrar em jogo.
Amplie essa visão agora para os discursos dos mesmos com as mulheres, para a pobreza, família etc.
A questão não é deixar o oprimido escanteado e excluído, mas sim sobre não levar o rato, que já é caçado, para se entregar à ratoeira.
Como visto, sua rebeldia não causa nenhum tipo de transtorno. Você nem sequer se apresenta como uma ameaça. No final, você é um cachorro que late, mas não morde, fazendo bem menos que um cantor ou cantora que está diretamente ligado, como brinquedinho do capital, sendo mais eficiente no ataque aos valores morais com uma música do que você, que se julga antissistemático.
Quando nosso homem sente falta do caos, não quer dizer que ele quer uma agressão familiar, mas sim que ele consegue notar uma farsa teatral. O problema não é ser tudo perfeito — o problema é que tá tudo perfeito. Aquilo não parece real. Onde estão os fetiches? Onde estão os erros? Onde estão as pessoas?
Sua família se tornou algo performático: eles são assim porque Deus os quer assim, e também porque seus princípios eram bem servidos. O certo e o errado eram o prato predileto do menu — prato esse que sempre era concedido. O orgulho da nação, o orgulho da biologia, o orgulho do vitorioso modelo familiar, o orgulho da hierarquia familiar, o orgulho de prevalecer o bem e o mal.
Estava claro para ele: sua família era perfeita pois sua mãe não tinha carisma. Ela já estava há tanto tempo naquela situação que se tornou algo normal aos seus olhos, enquanto seu pai servia ao papel de bom homem nacional, pronto para ir a uma guerra ou pronto para torturar os invasores que ameaçavam a moral.
A perfeição da sua família vinha da dura mão de ferro que juntava a madeira e o machado.
Nosso homem percebe que sua família só é perfeita, pois é moralmente presa, e ele se sente intensamente incomodado por esse figurino. Então ele toma para si — um homem mergulhado nos seus valores pessoais — a convicção de que é necessário quebrar a moral. Hipócrita, né?
É necessário quebrar os sonhos
Todo processo, quando se trata de quebra de valores, preceitos, saberes, fundamentos e colunas — ou melhor, a quebra de algumas partes essenciais do indivíduo —, pode ser de certa forma desesperador, desnorteante e tratado com devida cautela.
Os sonhos são o que movem o indivíduo. É necessário tê-los para que a esperança surja; ela é o caminho que nos move para chegar até os sonhos, e ambos não podem existir separados. Porém, por terem tanto poder, eles podem facilmente comandar a ação do indivíduo a partir de uma prática — ou podem ser alienados.
Um imaginário é facilmente criado por aqueles que se pretendem ou que possuem artifícios para tal: a propaganda ou a indução que se parte de um laço — tanto faz. O que importa de verdade é que suas necessidades secundárias (aquelas que ultrapassam os fatores biológicos, como fome ou sede) são relativas pela época. Acontece que um homem pré-histórico não teria os mesmos sonhos que o atual, muito menos um homem soviético teria os de um homem americano, embora seus sistemas não fossem tão diferentes.
A questão é simples: é necessário quebrar o sonho das pessoas que almejam uma doutrina tão suicida. A doutrina do sistema deve se esvaziar para dar espaço a um novo processo — o processo de desorientação. Sem moral, elas não se seguram; sem sonhos, elas se desorientam; sem símbolo, sem outdoor, sem necessidades não necessárias.
Dessa forma, em estado de confusão e sem coordenação, elas deverão passar por um longo calvário. Mas, na ausência de nada, deve-se colocar um prato na mesa — um prato opcional, mas que se apresente como uma alternativa favorável, em meio a diversos outros pratos. O nosso discurso também deve se demonstrar razoável e viável.
Mas qual deles deverão escolher? Qual? A anarquia? A república? A soviética? Ou a alemã? Deve caber somente aos homens em comunhão decidir — não forçada, mas também não completamente assintomática.
O sonho virá da esperança no homem.
Nesse contexto, nosso homem fictício cresce. Ele entende o quanto a quebra dos sonhos é necessária. Ele vê a necessidade de rasgar a nação, a família de slogan e o Deus de ventríloquo. Para quebrar um teatro de marionetes, é necessário cortar as cordas — mas não só isso, é necessário cortar o senhor que as mexe.
Então, pouco a pouco, ele vai quebrando os símbolos: primeiro a confiança no comitê central, depois ridicularizando seus líderes e, por último, ridicularizando os sonhos daqueles que abraçam o imaginário utópico. A ideia é cortar a pessoa que lhe dá as ordens para que comecem a pensar por si mesmos.
Nosso homem constata que ordens, orientação e plano prévio se tornaram quase como algo biológico, passados desde criança por persuasão. As pessoas sentem medo do espontâneo porque foram feitas para sentir. O espontâneo é como uma força cósmica — é amedrontadora até mesmo para alguns “rebeldes”, pode desencadear o fim ou o início; não se controla, mas se orienta.
Ele acredita fortemente não no recomeço, não na reforma, mas no início. Deve-se quebrar o elo antigo e o domínio dos símbolos para que o dele saia dos bueiros como ratos, para que brotem e, aos poucos, consumam. Mas, claro, deve primeiro sair de nós.
A quebra dos símbolos e do imaginário é a quebra dos sonhos.
Bem-vindo ao 5 de novembro.
Sem rumo, surge a liberdade
A busca do homem pela liberdade, assim como em todo conceito, pode se dar em diferentes faces — da Declaração do Homem e do Cidadão até a Constituição Soviética; da ditadura militar brasileira até a liberdade dos aristocratas franceses. De toda forma, a liberdade de um pode significar a restrição de outros — não porque foram mal formuladas, mas porque foram guiadas, orientadas, coordenadas e ordenadas; foram mandadas desde o início e proclamadas por uma casta, com influência de um passado muitas vezes remoto.
Tendo em vista a única liberdade que reconheço sendo a do homem e a do cidadão, mesmo ela se perdeu nos fantasmas do passado que voltaram para assombrá-las.
Aqui está o ponto final e o ponto de partida: é necessário incendiar as pessoas para que se livrem dos ideais passados. Na completa desorientação, a liberdade terá sua voz — assustadora, mas liberta.
Do ponto zero, as pessoas terão que escolher entre voltar às suas algemas ou largar tudo e tentar um novo caminho. Das cinzas, a fênix terá que escolher como renascer.
A face da liberdade, de fato, pode ser encontrada até mesmo no que chamamos de ditadura — com seus lixos podendo caminhar livremente sem se preocupar. Mas é uma liberdade genérica e impura, contaminada e fragmentada. Da revolução bolchevique também poderá ser encontrada — o pássaro vermelho que logo seria acorrentado pelas próprias penas com sua escória aristocrática — ou a liberdade fraternal francesa, que se afundaria no mesmo alvo que jurou ter matado: o império parisiense.
Todas mortas pelo que sobrou do passado, da reciclagem do imaginário, da continuidade da moralidade, do fetiche em comandar.
Nosso homem pretendia desmembrar todo o órgão que garantia a produção de todo aquele teatro, cortando cada olho, mão, boca e ouvido, para que assim as pessoas possam de fato decidir por si mesmas — sem mandante, sem repressão ou proteção, apenas os próprios interesses. Dessa forma, jogados na escuridão e na insegurança, eles teriam a pior escolha: qual caminho trilhar? Voltar para a peça? Inventar outra? Reproduzir a mesma? Ou sair? Múltiplas escolhas para uma mente vazia e perdida.

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