Textos sobre Rojava


O que está acontecendo? — Straw

Frente aos acontecimentos dos últimos dias, vi-me na obrigação de interromper meus demais escritos e traduções para organizar o presente agrupamento de textos relativos à experiência do Rojava, até então sem tradução, bem como esta contextualização do que está acontecendo no momento.

Não creio ser necessário elaborar muito do que é (ou foi) o Rojava, afinal, os textos a seguir servem precisamente para isto. De modo geral, surgido há 15 anos no nordeste da Síria e na fronteira com a Turquia, o Rojava foi uma experiência confederalista democrática, autônoma e anarquista, com quatro milhões de habitantes, sendo sua maioria curdos. Desde seu surgimento, esteve em conflito constante com a Turquia e com a ISIS, o Estado Islâmico Sírio-Iraquiano. A partir de determinado ponto, por volta de 2014, os Estados Unidos passaram a aliar-se com o Rojava no intuito de combater a ISIS — como Chomsky e Graeber irão explicitar nos textos à frente, não por apoiar a revolução em decorrência no Rojava, mas sim por interesses puramente hegemônicos. Em 2019, porém, Trump começa a desfazer a aliança, dando um "sinal verde" para os ataques turcos. Desde então, a Turquia cada vez mais passa a avançar com toda a força.

Entre 2024 e 2025, com a queda do regime de Bashar al-Assad ocorre uma intensificação dos conflitos na Síria e em seus arredores, e então as Forças Democráticas Sírias (SDF — a sigla brasileira seria na verdade "FDS", mas, por razões óbvias, mantenho-a em inglês, bem como as demais) passaram a avançar contra o Rojava, agora com apoio dos Estados Unidos. A partir daí, o Rojava encontrava-se em conflito com a SDF, o governo sírio, a Turquia, os EUA, a ISIS e jihads.

No ano passado, o PKK, buscando um cessar-fogo com o governo sírio, declarou que largaria suas armas. Agora em janeiro, o cessar-fogo foi atingido, porém não durou.

No dia 17 deste ano, sábado, preparou-se solo para que uma grande tragédia viesse a acontecer. Erdogan, ditador da Turquia, discursou em defesa da eliminação dos "elementos terroristas curdos", referindo-se ao povo do Rojava. No mesmo dia, sob o comando dos Estados Unidos, a SDF integrou oficialmente as forças armadas sírias.

Ao dia 18, domingo, as forças armadas sírias, agora com a integração da SDF, avançaram sobre o Eufrates, tomaram as principais cidades e zonas do Rojava (como Raqqa e Deir ez-Zor), prenderam e mataram rebeldes e revolucionários, apossaram-se das estações petrolíferas, pararam os poços hídricos e deixaram muitas pessoas sem água. Com êxito, declararam o fim de Rojava. O jornal italiano TG LA7 escreveu:

“Um acordo que coloca fim à decenal experiência semi-autonomista curda do Rojava, rasgando sem quase nenhum combate as forças curdo-sírias ao controle do território ao leste do Eufrates, rico de petróleo, água e grãos e central para o equilíbrio regional.”

No mesmo dia, a Rede do Curdistão em Roma convocou uma assembléia, realizada no dia 21. Jornais apressaram-se em declarar: "Rojava chegou ao fim!". Algumas pessoas, receosas, esperaram por mais notícias. No dia seguinte, com a publicação dum diálogo aqui na Espartaco, na referência ao Rojava, acreditei ser necessário fazer nota a respeito, onde lamentava sua derrubada. No entanto, mal poderia se esperar que as notícias que viriam a seguir seriam piores do que o simples fim da experiência do Rojava.

Ocorre que nem todas as áreas do Rojava haviam sido tomadas. Kobane foi logo mais invadida e tomada também. Restaram algumas vilas e zonas menores. A Rádio Rojava FM anunciou que guerrilheiros e milícias revolucionárias iriam seguir em frente na defesa da confederação, o que levou a uma certa esperança. Não muito depois, gangues jihadistas de Jolani aproveitaram-se do contexto para avançar contra o território, matar civis e liberar pelo menos 2.500 integrantes da ISIS que estavam aprisionados em Raqqa, usando drones, bombas e armas pesadas. A partir daí, a ISIS passou a retornar com toda a força. Um massacre e uma matança generalizada contra curdos inocentes por parte da ISIS teve seu início.

O genocídio contra o povo curdo atingiu, então, um nível que não se via há pelo menos mais de uma década. O regime de Erdogan, sob ideais nacionalistas e racistas, já perseguia e massacrava curdos dentro e fora da Turquia. Agora, a ISIS, os jihads e outros grupos juntam-se para genocidar o povo curdo também, fazendo, ao menos, milhares de vítimas.

O que impressiona, porém, é o silêncio. Há dois genocídios acontecendo no oriente médio: o palestino e o curdo. Por um bom tempo falou-se do genocídio contra o povo palestino por parte de Israel, mas agora a poeira abaixou. O assunto já não está mais em alta, não rende. Mas e quanto ao genocídio curdo no Rojava? Ele está acontecendo há muito tempo, mas não se fala uma única palavra a respeito. O silêncio impera. 

Enquanto para alguns esquerdistas conspiracionistas a explicação poderia ser encontrada num suposto acobertamento das mídias burguesas ou conspiração da elite contra a revolução, a explicação real é mil vezes mais simples: é que ninguém dá a mínima. As pessoas só pararam para se importar e solidarizar com a Palestina como reação a toda a cobertura que as mídias deram ao escândalo de Israel pelo 7 de Outubro. O genocídio acontecia já décadas, o povo palestino era perseguido há mais de um século, mas o que fez as pessoas darem um pingo de importância foi uma explosão midiática, pronta para ser explorada e monetizada. Agora, o assunto saturou, e pouco se fala a respeito, mesmo com a situação tendo piorado. Com o Rojava, então, nunca houve o mínimo de repercussão. No Brasil, os únicos que falavam a seu respeito eram o MST e grupos anarquistas. Nunca se falou do genocídio curdo, nunca se falou da experiência revolucionária do Rojava, nunca se falou dos conflitos que ocorriam ali. Não é de se esperar que com a queda do Rojava as coisas vão ser diferentes. Se alguém se importasse minimamente com a situação, já haveria tido uma mobilização pela divulgação do que está acontecendo. Mas não houve.

Mas e a esquerda revolucionária brasileira, que tanto discursa em nome da união de todos os povos do mundo na luta contra o capitalismo? Jones Manoel e sua fanbase estão acompanhando atentos o BBB, e Douglas Barros e a laia intelectual da esquerda radical estão ocupados demais brincando de Yao Wenyuan com sua polêmica contra Nego Bispo. E a esquerda moderada, com toda sua defesa da ecologia e do feminismo, não deveria estar olhando para uma experiência feminista e com tendências ecossocialistas como o Rojava? Muito pelo contrário, estão redigindo seus olhares para a captura de Maduro, compartilhando fotos do Lula usando sunguinha nas redes sociais e — o que não é novidade a ninguém — discutindo com a direita acerca do STF. E a direita libertária, que tanto ataca o Estado? Na verdade, possuem fortes viés nacionalistas, e olham aos lados quando tratam-se de atrocidades cometidas por Erdogan. E os aceleracionistas? Esses nem vale a pena comentar, pois, mesmo que soubessem o que está acontecendo, é provável que comemorassem a queda do Rojava e o genocídio curdo como avanços.

Por 15 anos, houve uma experiência anarquista enorme no oriente médio, e nem uma única palavra. Por décadas, a Turquia perseguiu, massacrou e matou curdos, e nem uma única palavra. A ISIS tem voltado com o máximo de força possível, e nem uma única palavra. Milhares de pessoas têm morrido num curto período de tempo, e nem sequer uma palavrinha que seja. Por quê? Porquê ninguém se importa. O povo curdo é um povo históricamente desprezado. Nem mesmo o Brasil, país tão diverso, deixou de desprezá-lo. Ao início dos anos 30, houve um projeto de imigração de aproximadamente cem mil curdos iraquianos para terras isoladas ao norte do Paraná. Em reação, deram-se várias manifestações gritando para que o Paraná não se tornasse num "Curdistão". Jornais curitibanos chamaram-os de "assírios", "alienígenas", "ferozes", "invasores" e "raça inferior". O que mudou foi que, agora, ao invés de enojados, são apenas ignorados.

O jornal italiano Volerelaluna escreve: “hoje, o silêncio sobre o Irã e o Rojava não pode ser arquivado como uma simples falta de atenção. Não se trata de cansaço, nem de incapacidade objetiva.”

Quando o último curdo ou o último palestino forem mortos, o mundo uma vez mais entrará em silêncio, com sangue em suas mãos. No futuro, será olhado para trás e questionado: "como isto foi acontecer? Por quê ninguém disse nada a respeito? Por quê ninguém fez nada a respeito?". Não podemos admitir isso. Devemos lutar contra essa massa de indiferença e preguiça.

* * *

A respeito dos textos que se seguem: todos foram traduzidos do inglês por mim, e as adições em colchetes são minhas.

Em 2015, Cody Bergerud escreveu quatro blogs informais a respeito do Rojava. O que interessa é a exposição e o relato duma experiência de alguém de fora naquele momento, junto de suas respectivas impressões. De modo geral, são textos breves, simples e diretos.

Logo após, temos um texto de 2017 da Comuna Internacionalista, a propósito de sua iniciativa.

Então, um email de Noam Chomsky de 2018, escrito em resposta a um estudante universitário que quis saber seu posicionamento sobre o genocídio curdo e a relação dos EUA com o Rojava.

Um ano depois, Chomsky realiza uma entrevista com o Instituto Curdo em Washington, após as declarações e recuos de Trump, permitindo o avanço turco sobre Rojava.

Por fim, uma entrevista dum podcast no qual David Graeber participa, dando um panorama geral da experiência do Rojava até 2019. Por mais que seja o último texto, por ser o último na ordem cronológica, creio que, para quem esteja entrando em contato com a situação pela primeira vez, seja o melhor a se começar.

Por quê eu vim ao Rojava? — Cody Bergerud (30/mai/2015)
[O presente texto, bem como os outros três do mesmo autor, estão todos no Medium, em: https://medium.com/@fangaforn]

Fiquei sabendo sobre o Rojava há quase um ano atrás após ler sobre o potencial para uma revolução real aqui num blog dum ativista de phd. Fiquei maravilhado pela falta de cobertura sobre as mudanças sociais ocorrendo nesta região e decidi vir para ajudar as pessoas aqui e descobrir porquê este era o caso. Tenho estado no Rojava há três meses agora. Nesse tempo tenho trabalhado como médico nas proximidades das linhas de frente em conflito com a ISIS [Estado Islâmico Sírio-Iraqueano]. Também tenho feito várias entrevistas com as pessoas dessa região a respeito de seus passados desafiadores e suas esperanças num futuro melhor. Agora estou direcionando meu foco na contribuição à sociedade pelo trabalho nos campos da economia e da educação. Espero escrever registros que ajudem as pessoas a entender melhor porquê essa região possui o potencial genuíno de criar algo que poderia dramaticamente afetar o modo pelo qual organizamos nossas sociedades ao redor do mundo.

Aqui está uma cartilha incompleta que dá uma ideia geral do que o Rojava é: http://en.wikipedia.org/wiki/Rojava

Na sequência de blogs que se segue eu espero cobrir 4 áreas-chave de discussão acerca de mudanças educacionais e econômicas para a sociedade aqui e a implicação que elas podem ter para a paz no oriente médio, bem como às sociedades em qualquer lugar no mundo. Primeiro escreverei sobre o que realmente aconteceu no cenário aqui em Rojava durante os últimos quatro anos de mudança revolucionaria. Há muitas promessas que o movimento social tev-dem faz sobre as potenciais mudanças na sociedade e até agora somente algumas destas foram postas em prática. Então irei escrever sobre as narrativas problemáticas acerca desta revolução, bem como alguns dos desafios éticos e burocráticos que vêm sido encontrados até agora. O terceiro blog irá mirar em questionar o que compreende a revolução em geral e irá mapear como isso se relaciona com o que precisa ser mudado no cenário para definir uma revolução econômica e social bem-sucedida. O último blog na sequência irá delinear potenciais estratégias e táticas para o sucesso conforme o que é atualmente possível nessa região.

O que tem sido efetivado na revolução de Rojava até agora... — Cody Bergerud (02/jun/2015)

Eu definiria as mudanças que têm acontecido na sociedade até o momento em algumas poucas categorias. Há mudanças que se relacionam primeiramente com a cultura curda com implicações a outros grupos sociais, mudanças dentro da estrutura econômica da sociedade, e mudanças que têm haver com as estruturas que mantém a liberdade na sociedade.

Há uma coisa que tem sido foco principal até agora e ela é a ressurreição da língua curda na região. Previamente banido durante o regime de Assad, o ensino da língua curda tem florescido pelas escolas nas cidades e em várias vilas no Rojava. Têm havido treinamentos massivos de jovens professores para ensinar à larga população jovem a língua curda. Nos últimos anos o entendimento do idioma têm crescido tremendamente. Têm havido também um esforço para aumentar o número de alfabetização geral, em vista de que um segmento da população não possuía acesso à educação nem mesmo para aprender como ler e escrever. A outra grande mudança cultural têm sido o início duma alteração na percepção da atuação da mulher na sociedade. Numa sociedade onde o patriarcado pode ser forte com a repressão das mulheres limitando-as aos espaços caseiros, vêm havido várias instituições para prover às mulheres o espaço para atuar e definir a si mesmas. O caso mais conhecido disso globalmente é a YPJ, a força de defesa de mulheres na sociedade que está ativamente lutando ao lado das forças primárias de proteção popular (YPG) contra a ISIS. As mulheres juntando-se à luta começaram a desafiar a noção de mulheres serem fracas e capazes de apenas alguns cargos na sociedade. Outra instituição chamada YKT-STAR existe para criar espaços seguros às mulheres para estarem na sociedade onde elas podem aprender e ser, separadas da violência masculina na sociedade. A YKT-STAR também mira na prevenção do abuso doméstico das mulheres e intervém em casos suspeitos de tentativas de assassinato honorárias.

As mudanças econômicas que vêm acontecido até o momento foram para estabelecer uma nova estrutura da qual os futuros avanços econômicos serão mais fáceis de dispôr. Atualmente sob o sistema de manuseio de cantão, não há impostos pessoais ou impostos de terra. Há impostos herdados do regime de Assad sob o qual cada negócio é taxado bem como utilidades comuns. Essa minimalização da estrutura de impostos permite comunidades e indivíduos a terem maior autonomia no uso de seus recursos. Há controles de preço pelo manuseio de cantão que mantém grampos econômicos em preços acessíveis. Há um movimento dentro da economia para manter as cooperativas em torno da riqueza de recursos dos cantões e para criar ambientes de trabalho justos para benefício ecológico e econômico. Não há ainda muitas estatísticas sobre as cooperativas em si mas esperançosamente isso mudará no futuro. Há um movimento de concelhos econômicos que atuam como grandes corpos para distribuir recursos.

O sistema político no Rojava está atualmente num estágio incompleto. Enquanto em teoria é um sistema de cima para baixo onde as assembléias locais tomam as decisões políticas e então as passam para um parlamento elegido para encontrar um modo de apenas executar estas decisões, a natureza da guerra e a anarquia política seguida dos evacuamentos da maior parte do regime de Assad levaram ao parlamento a ser criado primeiro e antes que a maioria das democracias comunais locais, sendo estas desenvolvidas ulteriormente. Isso temperadamente colocou o balanço do poder em favor do parlamento dentro desta estrutura política. As novas mudanças da sociedade estão canalizadas através das lentes das novas mídias, como a estação de tv Ronahi, que é baseada no Rojava e em transmissões do momento de mudança social dentro da sociedade.

Um dos desenvolvimentos mais interessantes do Rojava é o desenvolvimento dum sistema de justiça com foco numa justiça restaurativa. A filosofia do sistema foca em tentar prevenir problemas através do uso de mediadores para resolver conflitos antes de questões problemáticas irem às cortes. No caso de aprisionamento, uma educação corretiva e um ambiente seguro são as ferramentas para aprender, ao invés dum modelo punitivo de justiça que é a base de todos os outros Estados-nação modernos. Esse sistema levou à resolução de questões de disputa de terras, disputas familiares e econômicas, bem como até mesmo a conversão de forças inimigas nesta guerra.

Há muitos desenvolvimentos fascinantes relativos à justiça social no Rojava. A fundação tem sido deitada abaixo por grandes coisas a chegar e ainda sim há várias tensões entre as metas dessa nova sociedade e suas práticas que poderiam levar a ocorrências contrarrevolucionárias. Isso será discutido no próximo artigo.

Narrativas problemáticas e desafios no Rojava — Cody Bergerud (03/jun/2015)

Enquanto há por aí várias coisas positivas a se considerar quando se trata da revolução que vêm acontecendo até o momento, há umas boas coisas problemáticas que vêm restringindo sua habilidade de expandir-se mais rápido e poderiam desafiar a boa possibilidade de mudança sistêmica. Cada desafio afeta o Rojava numa maneira única.

Quando o regime de Assad deixou a maioria da região, o que foi deixado atrás eram pessoas sem nenhuma habilidade relativa à prática política devido à opressão precedente. Então quando os partidos políticos locais tomaram controle das instituições comuns de influência do Rojava naquele momento, eles simplesmente copiaram a estrutura de concelhos do regime de Assad exceto referente a certos elementos de taxação e burocracia. Isso conduziu a um monte de estruturas arbitrárias que não estão alinhadas com os objetivos da revolução sendo colocados em prática e compete pelos recursos das pessoas e energia dentro do sistema. Há um certo êxito em compartilhar estatísticas públicas e em vários dos casos há uma falta de medidas estatísticas sendo trazidas em primeiro lugar. Isso têm sido um fator limitante na habilidade dos agentes revolucionários no Rojava para coordenar uns aos outros e para entender as saídas de seus próprios projetos.

A burocratização da situação da segurança no Rojava têm sido um problema. Enquanto há uma necessidade genuína para monitorar a situação de segurança interna, dado que a frente de guerra não é tão distante da maioria dos locais no Rojava, pode haver um excesso de pontos de controle da asayish (hipoteca de segurança pública, não a ypg/j) em rodovias não próximas da linha de frente. Um sistema de permissão para o movimento/acesso de imprensa também limita a habilidade criativa do povo de documentar o que está acontecendo aqui no Rojava (o que é dito ser por razões de segurança talvez tenha mais haver com razões de propaganda). Duma dimensão ética, o novo exército interno no Rojava criou um programa de conscrição entre a juventude masculina na sociedade para 6 meses de serviço. Enquanto a mira no momento desta instituição é apenas para educar as pessoas ideológicamente e dar a elas treinamento de auto-defesa para desafios de segurança que o Rojava talvez se depare à frente, forçar pessoas a juntar-se à organização viola o direito pessoal e é contrarrevolucionário ao objetivo de respeitar o consentimento pessoal na sociedade.

É muito importante apontar que enquanto as instituições das assembléias democráticas locais e cooperativas existem e isto é um passo importante, elas ainda são profundamente subdesenvolvidas e então é injusto dizer assim que estas são as bases para a sociedade como ela existe agora. A economia de mercado com negócios familiares ainda domina a estrutura econômica da sociedade e obrar majoritariamente apenas com dinheiro é ainda o dominante (os ideais do movimento tev-dem de promover a troca apenas de recursos e alguma sorte de economia de presentes foram assim pouco postos em prática visível). Há também um largo problema nesta sociedade referente ao valor cultural da educação. Devido a uma falta de infraestrutura educacional na região à par duma atitude de colocar a educação cultural acima duma educação geral levou a dificuldades em fazer o povo valorizar a educação por sua qualidade de ampliação da mente humana e prover maiores oportunidades.

Quando chegamos ao tema das mudanças das funções de gênero na sociedade, aqui há algumas ótimas instituições para ajudar a seguir em frente com as mudanças na sociedade. De qualquer forma, há um problema com a lógica de como estas instituições pretendem resolver a desigualdade de gênero na sociedade. Sim, é importante educar as mulheres a propósito da história da opressão das mulheres e prover a elas espaços seguros para desenvolverem a si mesmas, mas isto está sendo exclusivamente organizado ao custo de tentar também praticar uma normalização das relações entre homens e mulheres na sociedade. Isto significa que até o momento, têm havido por exemplo o ensino de história e teoria para entender o problema, mas pouco ou nenhum esforço prático ou táticas para ter homens e mulheres num mesmo espaço público sem haverem práticas discriminatórias em como eles expressam eles mesmos em frente ao sexo oposto. Há um medo aqui de que um programa positivo para a prática de relacionamentos humanos saudáveis poderia se deparar com uma severa reação cultural conservadora da população local, mas poderia também induzir pressão aos regimes vizinhos que valem-se da cultura religiosa/conservadora como meio de controlar a sociedade. Então isto traz outro ponto sobre quando é necessário tomar riscos para avançar a revolução, e aqui eu acredito que este é um dos grandes debates internos que estão acontecendo sobre quando lançar educações controversas ou métodos organizacionais dentro da sociedade.

É também importante apontar que enquanto talvez seja óbvio devido a alguns desafortunados eventos históricos que às vezes os árabes e assírios não estão na mesma página da prática revolucionária que os curdos, há divisões entre os curdos em favor do modelo capitalista de desenvolvimento no Curdistão Iraquiano. Algumas pessoas aqui preferem lutar ao lado dos peshmerga ao invés da ypg/j pois há um esforço acontecendo no momento pelo governo do Curdistão Iraquiano para ganhar influência e controlar o que acontece no Rojava. Da mesma maneira ainda há muitas pessoas aqui que suportam o regime de Assad, e enquanto durante o momento deste escrito o regime de Assad têm visto um enfraquecimento significativo, estas pessoas têm recusado a investir pesado em si mesmas em benefício de todos desta região fora da lealdade ao Assad.

Então essa revolução atualmente possui um monte de tensões contrarrevolucionárias em relação a respeitar o consentimento do povo que precisam ser encaminhadas num meio termo. Filosóficamente isto pode ferver abaixo em como educar uma sociedade duma maneira ética em respeito ao consentimento do povo, pois a atuação e autonomia vêm de ter o consentimento de outrem respeitado. É também importante continuar a desenvolver e praticar novas táticas para minimizar a influência de jogadores políticos que querem apenas manter poder impondo e forçando velhos modos de se organizar dentro da sociedade. No artigo que se segue irei mapear o que a revolução pode ser em relação com como têm se tentado ou percebido através da recente história e como isso poderia ser percebido agora tendo em vista as mudanças na geopolítica, cultura jovem e tecnologia.

Rojava precisa de nossa ajuda, nós precisamos investir nosso tempo em criar liberdade — Cody Bergerud (08/set/2015)

Agora que estou em casa, venho refletindo sobre algumas experiências importantes que tive no Rojava que não foram muito refletidas na mídia ou cobertura de blog do Rojava. Enquanto a "revolução" está em seus estágios iniciais e apenas cerca de 10% em termos de mudanças na sociedade, a coisa que mais me perturba é o desafio de ser organizado. Não apenas dizendo que alguém é organizado, mas demonstrando uma estrutura de organização efetiva que coloque um plano que possa ser seguido.

Há maiores impedimentos para a situação no Rojava progredir. A guerra e os e os embargos circundantes podem ser usados como desculpas convenientes para explicar porquê há tido uma mudança devagar ao longo dos últimos anos. Mas mesmo que você não tenha os recursos, ser educado e organizado para o momento em que você tiver menos guerra ou tiver os recursos que você precisa para obrar com, é algo que alguém pode sempre dedicar seu tempo fazendo independentemente das circunstâncias. Eu gostaria de dar um exemplo sobre desafios na organização e usar isso como base para descrever o que as pessoas deveriam fazer para ajudar o povo aí [do Rojava] a suceder.

Novas faculdades em breve começarão a se espalhar ao redor do Rojava ao longo do ano que vêm e um semi-modelado após aquele em Qamisho. Há muitos reportes por aí que reivindicam que a educação é conduzida num seminário como moda a todos os cursos de humanas que eles oferecem. Em certa medida isso é verdade e não é verdade. Eu sentei em algumas aulas e fiz as seguintes sobreseravações. Há sessões de criticismo construtivo ao final das aulas e às vezes os estudantes são aqueles a liderar as leituras, mas por enquanto a maioria das aulas são organizadas tradicionalmente. Um problema-chave é que enquanto eles têm excelentes cursos em humanas, eles não têm quase nada a oferecer quando se trata de ciências, engenharia e gerenciamento econômico. Coisas que o Rojava realmente precisa para melhorar a qualidade de vida e para enfrentar a inflação na economia bem como outros problemas econômicos.

Aqui é onde existe uma grande brecha na estrutura educacional no Rojava. Enquanto eles talvez ensinem habilidades, não há organizações estabelecidas para tomar essas pessoas e tê-las trabalhando na sociedade com suas novas habilidades. Eles estariam ensinando matemática a jovens adultos e então apenas enviando-os de volta a casa para suas vidas familiares sem investir suas habilidades em melhorias na revolução e na sociedade, o que é irônico tendo em vista que a educação aqui é tida como um ato revolucionário. Em fato, alguns estudantes com os quais eu falei sobre aceitavam porém lamentavam o fato de que esta educação por si só não iria transformar suas vidas como eles e outros haviam acreditado que iria. É extremamente desafortunado que as coisas estejam ocorrendo deste modo e algo precisa ser feito para corrigir isto.

Quando eu estava ali eu era apenas uma de várias pessoas obrando na sociedade civil. Precisamos de pessoas para irem ajudar e estabelecer estes novos modelos educacionais bem como construir cooperativas e programas que irão se valer de suas habilidades, sem tal organização há um risco do povo de baixo perder de vista esses problemas de conectar a educação à ação.

Quando as pessoas pensam sobre desabrigados e refugiados tendem a pensar sobre a violência e a guerra que estão levando as pessoas a abandonarem seus lares. Rojava é de alguma maneira um espaço seguro para outros refugiados Sírios fugirem. De qualquer forma, o problema é que agora a inflação de itens básicos está levando as pessoas a abandonarem o Rojava, mesmo aqueles que suportam a revolução por ela mesma estão abandonando ou sériamente considerando isto. Isto poderia ser aliviado com o desenvolvimento de cooperativas para produzir estes itens básicos e diminuir os preços. Há planos para criar tais cooperativas mas, novamente, estão evoluindo devagar na medida em que o povo continua a fugir dos desafios da vida daí. Este é o desafio definitivo. Estabilizar a situação no Rojava para permitir a revolução um futuro progresso.

As coisas mais importantes para se comunicar sobre o Rojava agora são como nós podemos ajudar a investir em seu sucesso e como isto é um dos pontos de luta mais importantes em nossos tempos. Eu estou em casa agora, e atingindo pessoas para se envolverem nesse projeto. Estarei dando falas públicas em universidades e em outros locais sobre esses temas. É necessário haver um influxo de pessoas indo trabalhar na sociedade civil para melhorar os sistemas educacional e econômico pessoalmente. Esse é o ideal. Se você possui interesse em vir ao Rojava para ajudar as pessoas aí então você pode encontrar maiores informações em thelionsofrojava.com . Se você quer ajudar o Rojava do seu próprio continente então procure pelo grupo de solidariedade mais próximo e envolva-se na organização de suporte material para o Rojava.

Tentarei e adicionarei algumas atualizações a mais nas semanas seguintes sobre novos projetos no Rojava bem como atualizações sobre meios para ajudar a crise de refugiados Síria. Se você possui qualquer questão pode me contatar via e-mail por codybergerud@gmail.com.

Sobre a Comuna Internacionalista — Comuna Internacionalista (2017)
[O presente texto pode ser encontrado em theanarchistlibrary.org ou internationalistcommune.com]

Sobre nós:

Nós, como Internacionalistas do Oriente Médio, Ásia, África, Europa, América e Oceania, temos obrado em diferentes estruturas da revolução no Rojava e no Nordeste Sírio por vários anos. Mesmo que venhamos de diferentes cenários, o movimento Curdo nos uniu e nos inspirou com uma nova perspectiva revolucionária que vai além do Oriente Médio.

Ao início de 2017 nós começamos a organizar a Comuna Internacionalista do Rojava como um coletivo autogerido, obrando na coordenação com o Movimento da Juventude do Rojava (YCR).

Até então, os Internacionalistas obrando no Rojava eram pessoas diferentes, de países diferentes, fazendo coisas diferentes. Mas desde aquele tempo nós temos continuado nossas obras dum modo mais organizado. Nós queríamos reconstruir a face internacionalista desta revolução e facilitar a participação de outros internacionalistas.

Nós completamos a construção da Faculdade Internacionalista Senid Helen Qerecox, e recentemente criamos nossa primeira educação a um grupo de novos Internacionalistas de todo o globo. Aqui está um relatório sobre a educação e nosso primeiro ano de obras na Comuna.

Ao começo deste ano, iniciamos a campanha "Fazer do Rojava Verde Novamente" junto das entidades responsáveis dentro da auto-administração para a obraria ecológica. Vários projetos ecológicos iniciais, principalmente o da criação duma enfermaria para árvores, estão em progresso e iremos publicar um livro sobre estas obras nos próximos meses.

Membros da comuna estão obrando em diferentes estruturas da sociedade, aprendendo o que esta revolução significa às pessoas e à sociedade.

Se você está interessado em juntar-se a nós na Comuna, você pode encontrar mais informações aqui: internationalistcommune.com . Você pode também ler abaixo para aprender sobre nossos três princípios-guia: Aprender, Ajudar, Organizar.

Aprender:

“Educação e obraria são as alavancas para elevar um povo”. — W. E. B. Du Bois.

Desde a defesa história contra Daesh em Kobane, a revolução em Rojava tem inspirado revolucionários de todo o mundo. Muitos querem tomar parte nela e aprender a partir de experiências daqui. No intuito de fornecer contribuições valiosas, é importante entender as dinâmicas do Rojava. Sem conhecer a história, cultura e mentalidade da região, nossa visão sobre o Rojava irá sempre permanecer uma perspectiva de fora. Educação é a chave para o entendimento e a prática.

Nossa educação foca na história, cultura e ética. Outro aspecto principal é a aprendizagem de idiomas das sociedades nas quais vivemos. Sem se conhecer sequer um dos idiomas locais é difícil de sentir e entender os processos sociais e contradições nessa revolução. Falar um idioma local é mais do que uma habilidade técnica para comunicação — se você quer verdadeiramente tornar-se parte das estruturas coletivas aqui, ao invés de permanecer um mero turista observador de fora, você terá de aprender Curdo, Árabe ou Sírio.

Ajudar:

“Solidariedade é o que queremos. Queremos solidificar nossas forças. Nossos mestres juntaram-se todos e nós devemos fazer o mesmo”. — Marry Harris Jones.

Deixando de lado as conquistas militares contra a Isis, bem como a estabilização e expansão da revolução no nordeste da Síria, a auto-administração democrática permanece sob pressão. A investida assassina da Turquia em Afrin é um alerta em andamento dos esforços colossais que nossos inimigos internacionais estão dedicando para destruir a revolução.

Sitiado por ambições hegemônicas e ameaças violentas, o Rojava tem de dispender a maior parte de seus recursos em sua defesa. O embargo contra o povo do Rojava criou uma falta de várias coisas, mas em especial pessoas com habilidades específicas — médicos pessoais, engenheiros, professores de idiomas e tradutores. De outro lado, precisamos mais do que apenas experts — estamos procurando por pessoas comprometidas com ideais.

Não somos nem uma ONG e nem turistas. Não estamos tentando "ensinar" as pessoas do Rojava como avançar a revolução, e nem planejamos importar a subcultura esquerdista Européia para o Rojava. Nossa obra não trata-se de criar projetos caros para nosso desenvolvimento pessoal. Nós estamos obrando de mãos dadas e passo a passo com as estruturas locais para desenvolver uma via direta e melhor para ajudar a revolução.

A campanha "Fazer do Rojava Verde Novamente" é apenas um exemplo concreto — temos gastado vários meses na aprendizagem conjunta com as comunidades ambientais locais, e membros da obra comunal numa enfermaria para árvores todos os dias, para assim prepararmos nosso reflorestamento juntos.

Organizar:

“A revolução não é uma maçã que cai quando amadurece. Você precisa fazer com que ela caia.” — Che Guevara.

A luta pela libertação das mulheres, bem como por uma sociedade ecológica e democrática, não será limitada ao Nordeste Sírio. Internacionalismo é ajuda mútua na luta contra a modernidade capitalista, a força hegemônica que une o Estado-nação, capitalismo e industrialismo. Trazer a luta do povo do Rojava para nossas sociedades em qualquer lugar ao redor do globo é uma das contribuições mais significantes para a revolução.

Ajudar a revolução não significa vir para visita ou enviar uma única doação. Significa organizar a revolução de onde você está, e estar conectado com as suas lutas locais. A revolução não acontece sozinha, nem no Rojava, nem em qualquer outro lugar. A revolução precisa ser organizada. Isto requer vontade, discussão, experiências e um toque de loucura — se não no Rojava, onde a mudança prática deveria começar?

E-mail de Chomsky (21/dec/2018)
[Retirado de: https://medium.com/@MSFantauzzo/noam-chomsky-on-rojava-a-correspondence-12-21-2018-4b53cdf5fdc0]

Não entendo o que não está claro. As poucas tropas dos EUA na área são um dissuador à tomada Turca que poderia ser assassina e destrutiva. Em vista de que não sinto prazer em ver os Curdos sendo massacrados uma vez mais, da maneira pela qual eles vêm sendo massacrados agora no sudeste Turco, penso que faz sentido manter estas pequenas forças como um dissuador. Não há outro potencial dissuador. O objetivo deveria ser segurar a ação até que, com sorte, alguma procedência diplomática possa levar à saída menos pior. Não acredito que haja um fim de jogo ideal. Qualquer saída do tipo que eu consiga pensar é feia.

Sim, falácias lógicas deveriam ser arrancadas fora, e os anti-imperialistas não deixam de ser seres humanos, alguém reconhece que estes princípios geralmente válidos não podem ser aplicados sem se considerar as circunstâncias.

Noam Chomsky

Entrevista com o Professor Noam Chomsky (13/out/2019)
[Disponível em: https://dckurd.org/2019/10/13/interview-with-professor-noam-chomsky/]

No despertar da decorrente incursão Turca ao Nordeste Sírio (Rojava), Narin Briar, a analista contribuinte do Instituto Curdo em Washington fez a seguinte entrevista com o Professor Noam Chomsky. O bem-conhecido linguista, filósofo, cientista cognitivo, historiador, crítico social e ativista político americano, correspondeu com Narin via email. Como advogado de longa data dos povos marginalizados e oprimidos globalmente, o Professor Noam Chomsky severamente critica a retirada dos Estados Unidos do Rojava, clamando pela manutenção "dum pequeno contingente no Rojava com a missão de dissuadir futuras agressões Turcas e no mais prover suporte aéreo para a luta de liderança Curda contra o Estado Islâmico". A seguir está o texto completo da entrevista.

Narin Briar: O que você faz a respeito da decisão do Presidente Trump de dar à Turquia um sinal verde para invadir o Nordeste Sírio? O que Erdogan está procurando com esta invasão em áreas majoritariamente habitadas por curdos no Nordeste Sírio?

Professor Chomsky: A decisão repentina de Trump é outra traição chocante dos Estados Unidos aos Curdos, uma contribuição à longa e terrível lista que é particularmente desgraçada após as forças Curdas lideradas pela retirada campanha estadunidense contra a ISIS, sofrendo milhares de casualidades.

Erdogan procura expandir sua repressão azeda dos Curdos na Turquia para as áreas da Síria que ele já conquistou, agora ao tanto do Rojava que a Turquia conseguir conquistar, enquanto tenta distanciar a autonomia Curda o mais longe possível das bordas da Turquia — o que talvez se expanda para a Síria, na prática. Qualquer forma de autonomia Curda é tratada como uma grave ameaça pelos nacionalistas Turcos por ser provável de encorajar a luta dos Curdos na Turquia para atingir direitos básicos e elementares. Rojava é uma ameaça particular devido aos seus notáveis avanços no desenvolvimento duma sociedade livre e igualitária, sob as horrificantes condições da Síria. Deixando estes fatores de lado, Erdogan está também reunindo seus apoiadores Turcos no que ele retrata como uma defesa patriótica da Turquia contra o terrorismo — isto vindo dum homem que mesmo antes da invasão ilegal Turca esteve expeditando cursos de jihads e armas para eles dentro da Síria. Similarmente Trump, como um político astuto, está apelando à sua base eleitoral, que está iludida o bastante por anos de propaganda para acreditar que é hora dos Americanos pararem de gastar seu sangue e tesouro para proteger estrangeiros inúteis e ingratos — que nem sequer vieram para nos socorrer na chegada na Normandia em 1944. E ambas estas figuras desgraçadas [Erdogan e Trump] parecem estar sucedendo em seus cálculos políticos domésticos.

Narin Briar: O que poderia ser dito aos vários esquerdistas internacionalmente que escolheram o lado do genocídio como prática "anti-imperialista"?

Professor Chomsky: Não deveríamos ser iludidos por fórmulas abstratas divorciadas das condições reais do mundo. Nenhuma questão de "anti-imperialismo" é levantada se os Estados Unidos deixa um pequeno contingente no Rojava com a missão de dissuadir futuras agressões Turcas e prover no mais suporte aéreo à luta de liderança Curda contra o Estado Islâmico. É uma séria falha da esquerda anti-imperialista em não juntar-se nos escassos esforços para alertar contra a provável traição de Trump e não organizar-se para prevenir isso.

Narin Briar: Dado que a ISIS surgiu após a invasão Iraquiana, o socorro econômico à SDF contaria como "intervenção Americana" se a responsabilidade da SDF fosse a de derrotar a ISIS?

Professor Chomsky: Novamente, não deveríamos ser vítimas de fórmulas abstratas divorciadas do mundo real. Como mencionado, a Turquia interviu massivamente mesmo antes de sua invasão direta. As ditaduras do Golfo fizeram o mesmo, bem como em apoio aos seus favorecidos elementos jihadistas. O califado Islâmico foi outra intervenção, uma ameaça severa ao povo da região, deixados sozinhos e para trás. Este é apenas o mero começo. Rojava era aquela área da Síria que havia sido largamente poupada das devastações dos conflitos Sírios assassinos. Sob as [presentes] circunstâncias, a dissuasão de futuras atrocidades Turcas e o apoio à luta de liderança Curda contra a ISIS poderia dificilmente ser considerada uma intervenção ilegítima.

Narin Briar: Penso que é crítico enfatizar que há alternativas, e outras maneiras estratégicas de retirar os Estados Unidos. O que você acha?

Professor Chomsky: Os Estados Unidos e outras forças exteriores não deveriam estar na região, mas — uma vez mais —, é preciso pensar com cuidado a respeito do modo de retirada, não apenas aplicar fórmulas abstratas. Temos uma ampla experiência histórica a este propósito. A função Britânica na Índia foi horrorosa — 250 anos atrás, bem antes da matança ter atingido sua força total, Adam Smith condenou a "selvageria" dos conquistadores Britânicos. Mas o modo de retirada foi ainda sim outro terrível crime, com amargas consequências ao presente. A invasão Russa ao Afeganistão foi brutal e destrutiva, mas também teve algumas realizações no referente a direitos das mulheres e outros. O modo de retirada destruiu tudo o que havia sido alcançado, expondo os Afegãos à tendenciosa misericórdia do Mujahideen posto pelos Estados Unidos, cujas investidas assassinas em Kabul e além foram tão severas que a maioria da população recebeu o Talibã como seus salvadores. Questões desta natureza não podem ser vistas superficialmente.

Nian Briar: Vários apagões de Bi-Partisans seguiram-se à decisão de Trump — você acha que as sanções propostas por vários membros do congresso, em adição a Lindsay Graham, poderiam ser efetivas?

Professor Chomsky: Sanções são uma ferramenta duvidosa. Um Estados Unidos forte estendendo-se em oposição a este futuro ato de agressão deveria bastar — assim como um pequeno contingente dos Estados Unidos dissuadiu Erdogan. Sua preocupação não é o bem-estar ou os Curdos. É, como eles deixaram bem claro, a regeneração da ISIS e o aumento da influência Iraniana e Rússia numa região de grande importância geoestratégica e econômica, que por muito foi uma reserva dos Estados Unidos e da Britânia antes disso.

Nian Briar: Você acha que um apagão público faria alguma diferença? O que você recomendaria os amantes da paz a fazer?

Professor Chomsky: A tarefa mais urgente é desenvolver uma forte mobilização internacional para opor-se à investida da Turquia. Em longo termo, os esforços devem dirigir-se a proteger as conquistas do Rojava e facilitar a tarefa dolorosa de buscar a redução da violência e algum tipo de estabelecimento negociado, e buscar meios de reconstruir a Síria de seus destroços, um elemento de difícil luta por uma medida de paz e justiça na região e além. Há boas medidas concretas que podem ser procuradas. A ameaça dum maior ataque dos Estados Unidos ao Irã não é remota, e precisamos não demorar sobre as consequências. A ameaça poderia ser agudamente reduzida por passos para ultrapassar a alegada preocupação sobre os programas nucleares do Irã. A JCPOA, agora desmantelada pelo Trump, era um passo em frente a este objetivo, e é fácil pensar em vias que vão muito além. Qualquer preocupação do gênero, real ou inventada, deveria ser superada pelo estabelecimento duma zona livre de armas nucleares na região, como têm sido feito com parcial sucesso em outros lugares. Isto pode ser reforçado por inspeções cuidadosas, as quais, como temos visto nos últimos anos, podem ser extremamente efetivas. Não haveriam objeções dos Estados Árabes, os quais iniciaram as propostas décadas atrás e têm fortemente agitado isto. Nem do Irã, o qual tem vigorosamente apoiado isto, com a cobertura do G-77 e das 134 "nações em desenvolvimento". Nem da Europa. Há um único problema: os Estados Unidos, que veta o plano regularmente nas sessões de revisão do Tratado de Não-proliferação, mais recentemente com Obama em 2015. Todos sabem o porquê: isto requeriria os Estados Unidos admitirem a existência do enorme arsenal nuclear de Israel, sob a Emenda de Symington. Isto não é encravado numa pedra, e poderia ser algo perseguido pelo movimento da paz. Várias outras iniciativas vêm à mente também. Não há poucas oportunidades.

Por quê Rojava importa? — David Graeber (17/out/2019)
[Transcrito e traduzido de: https://youtu.be/ovfw6BJ3OLM?si=nA97Mle7_zpxniBD]

Sobre a introdução da luta no Rojava, especialmente em sua perspectiva, de alguém que tem acompanhado isso por um tempo já, alguns anos já, eu imagino se você poderia dizer para a audiência o que você vê de tão interessante que está acontecendo ali, e um pouco do cenário também, eu penso... Por quê a esquerda não está acompanhando o que está acontecendo ali?

Bem, eu acredito que este seja um dos mais interessantes experimentos políticos, realmente, desde os anarquistas na Espanha nos anos 30, que é um dos poucos casos onde o povo realmente teve acesso à extensão dum território estrutural, no desejo de ver se as ideias socialistas libertárias podem ser postas em prática e realmente funcionar em seu contexto, com um bom sucesso inicial para ser sincero. Eu fiquei sabendo sobre a revolução em Rojava pela primeira vez quando pessoas de lá contataram-me, e eu creio que à primeira vista todos tenham reagido com um certo nível de incredulidade, digo, isto é realmente verdade? Isto poderia realmente estar acontecendo? Poderia isto tudo estar acontecendo por todos estes anos e eu nem mesmo ouvi falar sobre isto? Mas, você vê, quanto mais eu aprendi, mais eu me choquei com o quão profundo o experimento histórico era. 

Em quais modos? Digo, de que maneira?

Quero dizer, o que estamos falando é realmente algo que começou com o PKK, que é um grande movimento, um amplo movimento político dentro da Turquia que originalmente se formou com o movimento separatista marxista-leninista. Com o tempo este evoluiu, e isso é frequentemente atribuído quase exclusivamente a só pessoa pela liderança do PKK, que é Abdullah Öcallan, mesmo que, em fato, a maior parte do que aconteceu no PKK foi o resultado de lutas internas, principalmente a luta com a organização ela mesma. Öcallan precisa ser realmente creditado, pois ele foi aberto em relação a isso, enquanto a maior parte dos marxistas-leninistas patrióticos não seriam, e, gradualmente ao longo do tempo, o PKK transformou-se dum relativamente tradicional movimento de libertação nacional — que tendia para a defesa dum Estado curdo separado — para algo realmente diferente: um grupo cujos principais pontos são a ecologia social, inspirado por Murray Bookchin, e... também eles possuem sua própria versão do confederalismo democrático que eles desenvolveram, parcialmente baseados em sua própria experiência, parte em tradições curdas e parte na teoria anarquista; e, então, você têm ecologia social, democracia direta e libertação das mulheres como sendo os principais pontos da luta social, que não mais deseja um Estado separado afinal, e que, na verdade, se desenvolve no oposto da exata ideia dum Estado. Isto é algo que nós não vemos nada do tipo em muitos anos — há os zapatistas, o paralelo mais próximo que consigo pensar, mas mesmo os zapatistas não controlam seu contíguo território, enquanto estas pessoas sim. 

E têm tido, eu suponho, o que pode parecer como algo bizarro, estranho ou sem nenhum comparativo, entre este movimento do Rojava de libertação socialista e os Estados Unidos. Então, foi uma combinação destas duas forças que foi capaz de combater a ISIS desde 2014, com os Estados Unidos protegendo o Rojava de outros inimigos, como a Turquia.

Se você quer que eu monte o cenário, eu posso. Enquanto, originalmente, o PKK teve esta profunda transformação, o que aconteceu na Síria foi o PYD, um partido político com uma ideologia muito similar, que também segue ideias dos escritos de Öcallan, apesar de que eles não são diretamente conectados, mas, durante a Revolução Síria, essencialmente... os sírios tomaram aquela área, eles foram fortemente organizados com partisans curdos, e, bem, as negociações deles basicamente falaram sobre as forças sírias irem embora e deixarem as pessoas ali para cuidarem se seus próprios problemas, e, quero dizer, eles levaram tudo quando deixaram, e, você sabe, todos os ofícios do governo foram destrinchados e tudo o mais, onde você encontrava essencialmente um tipo de magnatas que privatizaram tudo quanto é coisa — e um tipo de corja capitalista também —, então eles encontraram-se numa situação extremamente vantajosa: todas as construções do governo não tinham nada dentro delas, elas estavam vazias; e repentinamente houve a situação, onde eles estiveram capazes de colocar para funcionar as coisas que eles estavam trabalhando e discutindo na teoria por vinte anos. Agora... Primeiramente, ninguém notou eles. Mas então, houveram vários ataques de variados jihadistas, que parecem ter sido diretamente conduzidos pela direção da Polícia Secreta Turca. Gradualmente, a região curda entrou em conflito com a ISIS — a ISIS, as origens históricas da ISIS permanecem ainda obscuras, mas é muito claro que a Inteligência Turca teve muito o que fazer para colocar as duas uma contra a outra —, e eles parecem ter conseguido coordenar muito bem, com autoridades turcas de vários tipos recuando à Turquia. Por exemplo, durante a alta da ISIS o Califado estava abertamente trocando óleo com a Turquia, enquanto a região curda estava sob embargo total. Eles...

Acredito que Saddam estava envolvido...

Sim, ele não...

Eu acredito que teve uma grande perda de energia ou algo do tipo, do qual eles abertamente...

É uma daquelas situações onde todo mundo na região sabe o que está acontecendo mas não é permitida a falar disso na TV afora, como, sabe, na Europa ou América. Quero dizer, eles constantemente encontram oficiais de alto escalão da ISIS que podem matar eles, com o Serviço de Informação da Inteligência Turca em seus bolsos, coisas realmente descaradas como isto. Mas, ainda sim, todo mundo fica tipo: "Como você poderia possivelmente sugerir que um aliado da OTAN está negociando com a ISIS?" — é... nós não deveríamos estar falando disso... Mas enfim, a ISIS estava essencialmente atuando como uma proxy da Turquia, estava tentando tomar a região curda do norte da Síria para consolidar seu poder ali e, especialmente, consolidar através da borda da Turquia, que é de onde eles estão recebendo seus recursos. Eles começaram por Kobane que é a área mais plana e fácil de atacar e então tornou-se nessa luta épica, na qual, essencialmente, os Estados Unidos foram forçados por várias razões a alinharem-se com pessoas que são basicamente muito próximas dum bando de anarquistas. É uma situação histórica muito estranha, mas eles foram capturados no meio e eventualmente uma aliança por conveniência se seguiu. Eu sempre enfatizo: isso foi uma aliança militar e não uma aliança política. Por exemplo, o governo americano nunca apoiou o Rojava como sendo parte do processo de paz na Síria; eles não possuem um espaço na mesa, enquanto aqueles partidecos políticos pequenos que basicamente não representam ninguém sim. A Rússia na verdade apoia o Rojava estar incluso no processo de paz, e a América não — a maioria das pessoas não sabem disso. Houve uma aliança militar simplesmente porque ambos possuem o mesmo inimigo, e como resultado, houverem certos apegos — particularmente apegos pessoais —, com vários americanos que estiveram lá em baixo acabando sentindo algo como: bem, esses caras são nossos amigos, são as únicas pessoas nas quais podemos realmente confiar e sentiram fortemente que estes não deveriam ser jogados aos lobos. Há também uma importância prática. Vários oficiais americanos dizem: bem, vejam, se nós permitimos alguém e então permitimos que este seja completamente varrido e destruído no momento, eles não serão mais convenientes a nós e aos nossos próprios aliados, então ninguém jamais confiará em nós novamente.

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