Overdose do Cotidiano


Tela por Alex Gross

A Incapacidade de se relacionar:

A overdose cotidiana se dá, de forma introdutória, não apenas pela superprodução da mercadoria como teorizado originalmente por Marx, como também dos símbolos, imagens e relações vividas (como exposto por Debord) de forma diária, essa overdose que nos exaure nos aspectos gerais e conhecidos do capitalismo espetacular ocorre diariamente ao passarmos por centenas de pessoas desconhecidas, e na nossa exaustão exclusivamente única se fechamos, endurecemos nossos corações, seja para não se magoar, não se atrasar para algum compromisso ou para evitar o possível tédio. Porém isso não é efeito da consciência individual ou da “natureza humana” como gostam de fazer acreditar aqueles que se contentam com o status atual das coisas, mas sim o sintoma de uma sociedade doente que alienou não apenas as relações de produção mas também as relações entre-humanas e o próprio Homo sapiens ao nos negar aquilo que é mais básico, a liberdade e a capacidade não apenas de sobreviver, mas de viver.


Alinhados ao horizonte da sobrevivência e da prosperidade (e nesse caso no sentido mais chulo do que significa ser próspero, o da acumulação e do consumo) abandonamos como foco a vontade de viver, de existir e de experimentar a vida, não apenas a vida particular de cada um, mas sim reconhecendo e explorando a vida de forma ampla, compreendendo a si como parte do todo, sendo ser indissociável da sociedade, da natureza, do “outro”... Outro no sentido de tudo aquilo que é externo de si, tudo aquilo que não é você mas que te modifica e te influencia fundamentalmente, seja de forma direta como são as pessoas com quem se relaciona ou eventos climáticos aonde você vive, ou de maneira indireta como por decisões político-econômicas estrangeiras, ou tendências culturais que se espalham e tomam todo o globo. Os sentimentos sob tal regime, que tem as próprias relações humanas comodificadas a imagem e semelhança da mercadoria são os de angústia incessante, ansiedade descontrolada, e um sensação iminente de desastre e perdição, não é atoa que o número de pessoas com desordens e transtornos mentais vem crescendo ano após ano, tanto no Brasil quanto no mundo¹, o próximo desafio da medicina não será em como prolongar ainda mais a saúde física das pessoas para chegar aos 150-200 anos, mas sim em como garantir que toda uma geração não perca o sentido e subsequentemente a vontade de viver, como mantê-los como engrenagens funcionais da sociedade. Treinados e calejados pelo cotidiano a sempre esperar o pior, a estar prontos para a próxima tragédia faz com que nem se demos conta, de que nossa insensibilidade fabricada nos tornou vulneráveis em um dos poucos espaços e momentos de alívio, na descontração da alegria, neste breve suspiro em meio ao caos cotidiano, momento esse que podemos verdadeiramente nos expressar, a demonstrar quem somos, nossos gostos e interesses livres da repressão imediata seja do patrão ou da sociedade.



 O Alívio pelo consumo:

Sob o espetáculo a alegria toma outra forma, ela se transmuta e se instrumentaliza na alegria televisionada, mercantilizada, ou a alegria negativa, essa que sem sombras de dúvidas é a sua forma mais difundida e consumida nos dias de hoje se diferencia pois se trata do alívio não pelo interesse, felicidade e criatividade humana, mas sim por sua negação, negação da vida e alegria alheia, pelo alívio de que não foi consigo o desastre, pela indiferença com a pessoa exposta em tal fofoca ou reportagem criminal, e até mesmo pelo sadismo cru, pela alegria do sofrimento alheio de uma figura desumanizada, primeiro imposta de maneira arbitrária ao humano para ‘ser humano’, e então descartada como parte de uma subhumanidade², de forma simples a alegria negativa se caracteriza pela tragédia. 


Ao tornar comum o sofrimento, de que “é assim que as coisas são”, “faz parte da vida” se planta uma semente que será cultivada da infância até a morte em cada um, e que vai se manifestar de diferentes formas e filosofias através do tempo, seja de que a vida é sofrimento em si, ou ao menos indissociável dele, de que tudo que se pode fazer é aproveitar ao máximo evitando momentos ruins ou que devemos dedicá-la ao além, espiritual, o abstrato, que vem após a vida, e portanto, após o sofrimento.  Não é difícil perceber como isso contribuiu para a ascensão da alegria negativa, seja ela na forma de canais de fofoca sobre celebridades, expondo intimamente o cotidiano de tais pessoas, seus bons e maus momentos, seja em páginas de relatos de crimes detalhando minuciosamente não apenas os acontecimentos, mas até se aventurando na psique destas figuras (programas do gênero true crime), seja nos noticiários sobre desastres ou do populismo penal midiático que prospera no sadismo daqueles taxados como inimigos do “bom trabalhador”, esta forma de alegria é presente em vários meios de comunicação e até no nosso cotidiano particular, pois é muito mais simples fabricar e vender a imagem do sofrimento (que já é parte da vida, se não a vida em si para tais concepções da palavra) do que a da alegria genuína e positiva, do interesse pela vida em si, por sua expressão máxima que só é alcançada através do ócio criativo, do viver e explorar todas as possibilidades que a palavra “vida” implica.


Ao separarmos crimes, tragédias ou outros acontecimentos  dos atores e vítimas envolvidos, construímos uma distância perfeita para a alimentação da apatia criada pelo cotidiano, chegamos ao ponto de não apenas consumir a alegria negativa, mas também a replicá-la em nossas vidas particulares, ao mesmo tempo que tais coisas reforçam a brevidade da vida aos nossos olhos, também nos dessensibiliza um pouco mais, afinal “ao menos não foi comigo ou com alguém conhecido”, e logo após um breve momento de culpa, volta-se a rotina do cotidiano, imersos pelas tarefas e imagens, de volta a overdose nos esquecemos de toda tragédia, assim está feito o cíclo da alegria negativa, e nesse processo acabamos por separar a nós mesmos daquela situação, pois ela em si não é realidade, é apenas imagem, espetáculo, é uma simulação feita para reter nossa atenção e preocupação por aquele 1 minuto monetizável, ou durante a duração do jornal até o próximo horário comercial. Em The Gulf War did not take place Jean Baudrillard diz: 

“We prefer the exile of the virtual, of which television

is the universal mirror, to the catastrophe of the real.”³ 



Em uma tradução direta seria, “Nós preferimos o exílio do virtual, na qual a televisão é o espelho universal, do que a catástrofe do real.” tal frase não poderia ser mais real nos dias de hoje, impelidos pelo cotidiano à se atualizar, estar a par das notícias mundiais, e graças a interconexão capitalista isto não poderia ser mais fácil e cômodo, além dos meios tradicionais de comunicação que possuímos, diversos outros surgiram, tornando ainda mais fácil o consumo de mídia, porém diferentemente de o que os otimistas tecnológicos esperavam, tal fácil acesso não resulta necessariamente em mais conhecimento, em uma humanidade mais consciente do mundo em sua volta, muito pelo contrário, tamanha enxurrada de informação muitas vezes nos revolve a uma overdose informativa, o cérebro é incapaz ou se recusa a internalizar tantas informações, as vezes por pura dúvida, afinal nunca se falou tanto de notícias falsas feitas para manipular os consumidores, do que nesta década, mas especialmente as notícias mais desgastantes, as tragédias, as guerras e tantas outras coisas que parecemos ter zero interferência sobre (e que não nos interfere diretamente) é que ignoramos e esquecemos e por aí surge tamanha dissociação por grande parte da população, pessoas que aparentam e se sentem completamente alienadas, alheias do seu próprio mundo e de si mesmas.

 

A Alienação de toda uma espécie (Dupla-Alienação?):

Aqui reside o que talvez seja o maior empecilho para aqueles contra a ordem social estabelecida, primeiramente é preciso entender que essa indiferença com as atrocidades, acontecimentos globais e com a própria desgraça, promovida por demagogos de todo o tipo, seja político, religioso, etc, é fabricada e serve perfeitamente como uma luva para a sociedade do consumo, da mesma forma que a mercadoria agora tem sua obsolescência programada, de tal jeito que sempre somos provocados a consumir mais, obter o novo, o melhor, o tecnológico, agora até mesmo a informação, a imagem sofre dessa mesma inovação tecnológica do capital, segue a mesma lógica para atrair o consumidor, seu prazo de validade é equivalente ao da comoção gerado por determinado evento, um atentado em uma escola tem a relevância de uma semana ou duas, uma guerra contínua vai ser apresentada por um mês com afinco e se não houver nenhuma atualização importante dela, vai ser esquecida, só restará na imaginação da maioria o sentimento longínquo daquilo, quando por acaso se lembrar da existência do conflito, e logo será substituída por uma nova notícia, a nova tragédia do momento, mais terrível, mais impressionante, mais espetacular. 


Portanto é preciso que aqueles que se propõe a serem revolucionários, para além da estética, se envolvam na discussão de como quebrar essa indiferença, primeiro dentro de nós mesmos, e depois nas demais pessoas próximas, como superar a overdose cotidiana imposta a nós pelo capital, os meios tradicionais até agora se mostraram insuficientes, não basta reprimir a classe burguesa, é preciso repensar a atuação não apenas como indivíduo ou movimento alinhado e unificado em torno de certos dogmas, é preciso como um todo analisar quais as condições modernas da alienação, como o século XXI impregna a vida cotidiana e como atuar em cima dessas novas formas de domínio, o antigo slogan de “organize-se”, já não basta, é preciso pensar, refletir.


Diferentemente da época de ascensão do capital, onde ainda haviam mercados para se expandir e terra virgem para se explorar, hoje em dia estas coisas estão mais escassas, o que torna muito mais caro e inviável para se fazer de maneira tão fervorosa quanto antigamente, só resta para o capital tentar reproduzir a suas condições originárias, similar a quem por nostalgia tenta reviver um antigo momento tocando uma música ou lendo uma conversa, o capital promulga a guerra como meio de criar novos mercados, o que na verdade é apenas a face mais extravagante do ciclo da mercadoria, enquanto originalmente ela era produzida com o único intuito do consumo, o atual estado de superprodução e abundância compele aos Estados a adotarem políticas ora protecionistas, como para replicar a ascensão de antigas potências econômicas, e ora liberais como forma de recompensar a abençoada iniciativa privada, em um momento é preciso acabar com toda a infraestrutura de um país, seja pelo sucateamento ou pelo bombardeio, para então abrir os mercados para os capitais se expandirem. 


Considerando a frase de Marx "A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa.", tal é a história sendo exposta pelo capital, tendo sua trágica origem que deu as condições para o surgimento do antigo movimento operário, agora o ciclo do capital tem a sua repetição enquanto farsa, como manipulação do real, ou espetáculo, isso pois estamos vendo como o capital tenta recriar sua origem próspera, de aparente fartura para a maioria, junto de uma oposição teórica, presa no século passado, e mesmo que esta imagem da realidade nunca tenha existido e possa existir ainda menos nos dias de hoje, tentam nos empurrar garganta abaixo a mentira de que tudo vai como planejado, que o mercado se estabiliza, acha as soluções, mas não conseguem esconder a miséria crescente mesmo nas populações mais abastadas do planeta, a alienação atinge a todos e de forma indiscriminada, a seguir vamos fazer uma análise com o primeiro manuscrito econômico-filosófico de 1844 onde Marx fala o seguinte:

“...a distinção entre capitalista e proprietário de terras, e entre trabalhador agrícola e operário, tem de desaparecer, dividindo-se o conjunto da sociedade em duas classes de possuidores de propriedades e trabalhadores sem propriedades.”


Esse foi o primeiro movimento causado pelas contradições da sociedade do trabalho-capital, o empobrecimento da maioria, a transformação destes em assalariados, na medida que a propriedade se concentrava em uma classe abastada, capaz de usufruir da vida e suas benécies, claro isso tudo levou a novas contradições e conflitos de interesse burguês-proletário, o que originou a resistência operária e suas várias formas, como o socialismo e o anarquismo. Mas agora analisemos uma outra citação do mesmo manuscrito:

“Chegamos a conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal.”


Nos dias atuais pode se dizer que nem mesmo isso sentimos, não somos nem se sentimos livres nas funções mais básicas, nos momentos privados, a brutalidade da alienação do capital chegou ao nível romper com a própria distinção que cria, a separação da vida durante o trabalho e fora dele, o capital não tendo onde se expandir, a não ser na extração de ainda mais valor do salário do trabalhador, agora acaba com a contradição inicial criada por si mesmo, pois assim pode lucrar mesmo no momento privado e de lazer do trabalhador. Deixamos de ser livres nas horas vagas para se tornarmos consumidores, essa é a dualidade imposta, à de dupla-alienação, primeiro enquanto trabalhador-produtor e depois como consumidor, e quanto mais árduo o consumidor, melhor, nossas “funções humanas”, isto é, aquilo que discutivelmente nos separa das demais espécies animais, como a reflexão profunda e filosófica, a criação e absorção da arte agora são todas condicionadas ao ciclo da mercadoria, integradas ao espetáculo, a reflexão deixa de ser apenas por interesse e alegria da arte ou pensamento em questão, para se tornar obrigação, se você não consome durante seu tempo livre, está não apenas desperdiçando o próprio tempo, como também estagnando a economia, a socialização sob o capital é apenas esta, a negativa, dos efeitos ruins que sua ação causa, enquanto a socialização positiva é rejeitada em prol da individualidade, os ganhos sejam materiais ou imateriais só são mérito do indivíduo responsável por eles e quando muito sua família nuclear.


A exploração ocorre não apenas pelas empresas que violam leis do trabalho, mas também por toda mídia, imagem e mercadoria vendida para nós que, ao mesmo tempo nos transforma em objeto, em mercadoria, isto nos impõe a comodificação da vida, ou seja a perda dela, da mesma forma que o trabalhador rural perde suas terras para se tornar operário, agora perdemos a vida e a possibilidade de viver para se tornar mera mercadoria, inconscientes em todos os momentos, dissociados do mundo, hora enquanto trabalhador em prol de uma corporação e hora como mercadoria para ser anunciada aos investidores e anunciantes, para sermos consumidores ávidos e consumidos pela empresa ou estatística da vez, não resta tempo para respirar nem viver, apenas consumir e produzir, e o mais depressa possível. É claro, tal análise não é em nada distante de Marx, tendo o próprio descrito no segundo manuscrito a transformação do humano em mercadoria. 

“Como capital, o valor do trabalhador varia conforme a oferta e a procura, e sua existência física, sua vida, foi e é considerada um estoque de mercadoria, similar a qualquer outra.”


  Se como afirmam Marx e Engels no manifesto, a burguesia rasgou o véu sentimental da família transformando tais relações puramente comerciais, de dinheiro, agora ela rasga o próprio mito da “humanidade” construída pelos positivistas,  em um sistema que só se importa e que só busca o valor de algo, mais especificamente o valor quantitativo desta coisa, e que ao mesmo tempo necessita do constante crescimento, do aumento quantitativo do lucro, da acumulação de riqueza material, e de trocas aparentemente equivalentes, tal sistema irá por fim precisar acabar com tudo aquilo que for um impedimento desta procura irremediável pelo acúmulo, e isso, como estamos vendo agora inclui mais do que nunca acabar com a vida, esvaziá-lá de todo o seu valor qualitativo, acabar com todo lazer que não seja o consumo da mercadoria, sobretudo o consumo desenfreado, acabar com talvez a mais genuína (in)ação humana, que é o ócio, mas para fazer isso, primeiro é preciso destruir os conceitos que implicam a preservação da vida, do humano, e assim começa um processo sistêmico que em primeiro lugar levou a desumanização brutal de comunidades e pessoas que não se encaixam em tal cartilha, só é humano aquele que produz e consome, o bom membro da sociedade, o cidadão de bem, para o mendigo, a prostituta, o índigena, o criminoso, o analfabeto e tantos outros excluídos, tantos outros subhumanos, muitos dos quais nunca quiseram tomar parte do processo de humanização, mas ao contrário, lhes foram impostos, obrigados a aderir a normas e costumes que os excluem em nome da civilização, a estes só resta serem moídos seja em trabalhos extremamente precarizados, seja nas prisões, e agora não sendo suficiente tal processo para o acumulo, é preciso desumanizar os aspectos não produtivos de toda a sociedade e de todo humano.


Alienação inter-relacional contemporânea:

“A alienação humana, e acima de tudo a relação do homem consigo próprio, é pela primeira vez concretizada e manifestada na relação entre cada homem e os demais homens. Assim, na relação do trabalho alienado cada homem encara os demais de acordo com os padrões e relações em que ele se encontra situado como trabalhador.”


Assumindo que as relações dos homens com os demais e consigo mesmo sejam condicionadas conforme as relações de trabalho e a alienação que tal forma organizacional impõe, e que isso se estenda também as relações de consumo, então é crucial buscarmos quais foram as mudanças que ocorreram em quase duzentos anos de história que este texto foi escrito, como as novas tecnologias modificam o lugar de trabalho e as relações postas nesse, mas principalmente como neste século a atomização do trabalho e principalmente sua forma mais extrema que é o home office surge aos olhos das pessoas como um escape, como a forma mais desejável em oposição ao trabalho aglomerado, em fábricas, escritórios ou em outras instâncias de trabalho atomizado como nos deliveries, então de onde surge tal ilusão de avanço na qualidade de vida para o trabalhador, ou será que tal organização produtiva representa de fato uma melhora real para a vida num geral? Primeiramente levemos em conta que tal forma representa, ao menos abstratamente, uma diminuição na jornada de trabalho do ponto de vista do empregado, mas isto não significa necessariamente uma melhora na vida, isso pois ela representa uma extensão no tempo de ócio, e logo, uma extensão na possibilidade para poder viver, já que se antes a maioria teria de gastar uma hora ou mais preso no trânsito à caminho para o trabalho, agora ele pode aproveitar a vontade este tempo, sem precisar sofrer pela cacofonia e aglutinação nas vias públicas. É claro do ponto de vista do empregador isto em nada interfere a jornada de trabalho real, e portanto não modifica a primeira vista a produtividade. No entanto percebe-se que esta redução aparente não passa de efeito colateral, afinal, o mesmo poderia ser alcançado com as pessoas morando mais próximas do local de trabalho, ou com estradas menos engarrafadas. O objetivo de tal tecnologia foi primeiramente o de ser uma solução ao isolamento durante a pandemia do covid-19, e embora ela tenha tido seu uso diminuído com o fim do isolamento ela segue sendo vista com ótimos olhos, tanto por parte de alguns patrões quanto por muitos funcionários, afinal para o primeiro isso significa uma diminuição nos gastos com vale-transporte e com a manutenção de um local de trabalho, e também representa uma mudança na tendência do consumo, podendo agora o trabalhador a dedicar uma parcela de seu salário para outra atividade que não o transporte.


Ao mesmo tempo sabemos que tal reclusa da convivência social apenas tende a agonizar ainda mais a nossa miséria, tal forma de trabalho por si só, apresentando ou não uma melhora relativa ao modelo passado não pode acabar com a alienação, mas apenas mascará-la e escondê-la, afinal a miséria é o trabalho em si, e não seu subproduto, esta forma de organização só pode ser vista com bons olhos enquanto permanecer como forma secundária, as benécies aparentes do home office, assim como do trabalho intelectual, o trabalho burocrático, de escritório ou o trabalho não-manual em geral, depende deste para se valorizar como melhor alternativa aos olhos do sofrimento comum do trabalho “árduo”. Se por adventos tecnológicos ou metódicos esta forma de organização laboral se tornasse a principal dentro a sociedade, para além das questões quantitativas da vida (se o poder de compra, qualidade de vida, salário, etc… de tal categoria fosse diminuir ou não) isso simbolizaria o avanço do capital sobre as relações humanas e o próprio ser, significaria que finalmente o capital teria logrado sucesso em condicionar ainda mais a vida humana sobre seu próprio ciclo, seu padrão de consumo, produção e relação, ao invadir totalmente o espaço de lazer e descanso do trabalhador, e assim abolindo ainda mais a antiga distinção de Marx das atividades humanas e animais. Retornando a Baudrillard, esse avanço marcaria uma virtualização total da vida, ou o que restasse dela.

Como disse Baudrillard em uma entrevista de 1999

“We’re in the process of inventing a general equivalent more fantastic than the virtual. It is a general equivalent of everything, not just the economic.” ⁵


“Nós estamos no processo de inventar um equivalente geral mais fantástico que o virtual. É um equivalente geral de tudo, não apenas o econômico.”  Dentro da lógica econômica (que agora permeia quase senão todos os campos da sociedade) é preciso que o objeto de troca tenha um equivalente de algum tipo, e essa lógica não tendo um fim em si mesma, agora busca um equivalente de si mesma, e que portanto, deve estar fora de si, o que só pode ser a própria vida em sua totalidade. O home office na esfera do trabalho é a expressão mais elevada deste equivalente geral fantasmagórico, ele torna o espaço doméstico diretamente equivalente ao espaço de produção, o tempo de ócio equivalente ao tempo de trabalho potencial, e as relações humanas mediadas pela tela equivalentes a conexões produtivas. Na virtualização total do real, a alienação atinge seu estágio absoluto. Já não somos apenas trabalhadores e consumidores alienados; somos dados de presença, perfis de produtividade e capital humano integralmente convertidos em signos trocáveis no grande mercado espetacular. Como afirmou Guy Debord, “Num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.” O ócio, momento da vida em si, se torna apenas um momento da jornada de trabalho, sua única característica determinante é não ser tempo de trabalho. A overdose do cotidiano é, em última instância, a overdose deste equivalente geral que nos consome por dentro. A pergunta revolucionária que se coloca, portanto, não é mais como organizar o tempo de trabalho, mas como salvar o tempo de vida desta máquina de equivalência universal que nos devora pela tela.


Referências: 

OMS destaca necessidade urgente de transformar saúde mental e atenção - OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde¹

SubHumanidade, conceito de Ailton Krenak onde primeiro se cria e se impôe um conceito abstrato de ‘ser humano’ em todos os povos do mundo, e a partir disso se desumaniza os povos que não se encaixam nesta categoria, criando as subhumanidades²

The Gulf War did not take place p.28³

Manuscritos Econômico-Filosóficos,⁴

Baudrillard on Impossible Exchange 1999⁵


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