Heróis?
Ao ler as primeiras páginas do 18 de Brumário de Karl Marx, o jovem estudante da teoria socialista deve ficar um tanto indagado ao ler a famosa frase "Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita..."¹. Como assim eu não escolhi estar nessa circunstância de estar trabalhando em um supermercado atacadista em escala 6x1 ganhando um salário mínimo? Óbvio que eu escolhi de livre e expontanêa vontade estar aqui!
Se acalme, jovem goblin. Sim, isso que você é, um goblin. Pois é uma criatura fraca, facilmente manipulável por seus algozes, sagaz, malandra e com um potencial destrutivo altamente grande. E o "grande" hobgoblin que chefia a sua vila, juntamente de toda a cadeia produtiva ao seu redor, criaram estas miseráveis circunstâncias sob as quais você se encontra. A questão é: como fugir disso e explodir o Sol que queima os seus olhos?
Uma organização revolucionária é a opção mais prática para isso (infelizmente), mas como seria a maneira ideal dela e de sua pessoa se portarem em relação a situação? O primeiro passo, ao meu ver, é ambos serem verdadeiros artistas.
"A Igreja queimou, em outras épocas, supostos bruxos para reprimir as tendências lúdicas primitivas conservadas nas festas populares. Na sociedade dominante de hoje, que produz em massa desconsolados pseudo-jogos de não-participação, uma atividade artística verdadeira é forçosamente classificada no campo da criminalidade. É semiclandestina. Aparece sob a forma de escândalo.
O que é isso, na verdade, a não ser a situação? Trata-se da realização de um jogo superior, mais exatamente, da provocação para jogar esse jogo que constitui a presença humana."²
Guy Debord - Manifesto Internacional Situacionista (1960)
Prepare suas ecobags, violões em rolês e bonés do MST meu amigo, porque o ato mais revolucionário enquanto ação expontanêa individual é o de romper com a forma-mercadoria e se tornar um artista, para assim, transformar a situação em sua volta em arte revolucionária. Capturar o mais próximo da qualidade oculta_ da matéria concreta, do Capital que nos escraviza para chegar o mais próximo de sua real essência e origem, é a maior ferramenta que Marx nos deu: a crítica da economia-politica. E ninguém faz isso melhor do que um artista, armado com um fuzil FN FNC, de preferência.
Dito isso, uma organização revolucionária de porta como uma congregação de artistas (armados ou não) dispostos a acabar com o Estado Moderno, a acumulação de capital e toda a lógica do modo de produção capitalista, alcançando a fase superior do comunismo sem classes sociais e sem Estado.
Mas se definições funcionassem e se concretizassem de maneiras simples assim, todos os nossos podres sonhos já teriam sido realizados. A primeira coisa que temos que ter mente é: não somos heróis.
Os partidos comunistas e demais organizações filiadas a eles tem o péssimo costume de acharem que são verdadeiros do proletariado, com discursos heróicos do tipo "a ideologia invencível do proletariado vencerá o Velho Estado e os revisionistas", "a gloriosa revolução comunista levará o povo a vitória!". Eles se port como figuras heróicas, esquecendo que o maior defeito de um herói é uma qualidade que só existe nas histórias de ficção: o otimismo ingênuo.
Steve Rogers seria humilhado por seus superiores do Exército Estadunidense e provavelmente sofreria de estresse pós-traumatico caso sobrevissse a guerra se não tivesse recebido o super soro, Izuku Midoriya veria seu ex colega de classe que fez de sua adolescência um inferno se tornar o herói n°1 caso não tivesse recebido o One For All, o altruísmo deles seria inútil. E de todos os multiversos possíveis, nossas existências estão bem naquele onde super poderes não existem. E o erro de toda uma época foi acreditar que seus partidos eram um super humano, no qual sua Ideologia "científica e revolucionária" era capaz de acabar com as mazelas do Capital.
Ao contrário do que um herói faz - que é proteger o mundo - um comunista faz o exato negativo. Ele quer destruir toda a lógica da modernidade, da propriedade privada e da exploração do homem pelo homem, acabando com todas as estruturas que mantém todo esse sistema funcionando. Poderíamos chama-lo então de anti herói? Talvez. Ao contrário dos anti heróis, comunistas não tem os super poderes de um ouriço negro ou de um mercenário tagarela estupidamente irritante.
Com isto, a organização revolucionária conhecendo seu inimigo, deve criar toda uma tecnologia anti-capital negando este mundo, e que exemplo temos do que as primeiras organizações revolucionárias da história do Brasil? Os quilombolos conheciam o conceito de Estado, de exploração, de uma produção de recursos e riqueza que favorece apenas uma classe minoritária de pessoas, uma existência vazia que vive em prol apenas do dinheiro, e mesmo assim, negaram ela. Comunidades quilombolas inteiras se rebelaram contra a coroa do portuguesa não apenas no ato de combate armado, mas também em seu modo de viver, o mais belo comunismo primitivo que com certeza deixaria Engels de queixos caídos. A luta revolucionária dos quilombolos foi artística de tal forma, que dentro deles foi criada um estilo de luta corpo a corpo que muitas vezes foi confundida com uma dança ou um ritual: a capoeira. E o seu mantra que diz Ubuntu - "eu sou porque nós somos - expressa o caráter de uma verdadeira sociedade comunal.
Agora deixando as poesias de lado, vamos partir para a questão econômica.
Dinheiro é de suma importância, principalmente se a organização for armada, mas como não viver em prol dele, caindo no mero Espetáculo da mercadoria? Bom, iremos novamente utilizar a negação. Como a vida é um fator secundário da sociedade produtora de mercadorias, sendo submissa ao Estado e ao Capital (que se opõe a essa vida), a organização revolucionária irá inverter a equação e utilizar o dinheiro apenas como fator secundário para a construção da nova sociedade e para os atos revolucionários. Pensar o mais próximo da essência de uma submetralhadora, como os minérios utilizados em sua confecção foram extraídos através de relações sociais de servidão e desigualdade, que o Capital sugou como um sangue o trabalho dos mineradores matando-os e utilizando de seus trabalhos mortos através de uma necropolítica para que só então você possa efetuar disparos com ela já é um salto enorme para escapar desse ciclo de morte e exploração.
Mas o que isto realmente significa? Significa que Mao Zedong realmente estava certo quando disse que o poder vem da ponta do fuzil, mas que não é nada comparado a mente humana, que quando é libertada do pesadelo das tradições pesadas, ganha o super poder de ditar o rumo de sua própria história, e mergulhando no abismo de descobertas da existência.
Referências:
1- MARX, 1890 [1867], p. 181 (PDF).
2- https://guy-debord.blogspot.com/2009/06/manifesto-internacional-situacionista.html?m=1
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