A Brasileirização do Mundo
Introdução
"A involução do Ocidente encontra seu reflexo no país original do futuro, a nação fadada a permanecer para sempre o país do futuro, aquela que nunca alcança seu destino: o Brasil."
— Alex Hochuli
Brasil, o país do futuro, como alegava o escritor austríaco Stefan Zweig em sua obra de mesmo nome publicada em 1941. Slogan que assombra os brasileiros há quase um século. É evidente para qualquer pessoa que tenha acompanhado o desenvolvimento do Brasil ao longo dessas últimas décadas que suas profecias não se realizaram. O Brasil hoje é visto como exemplo de um país estagnado, atrasado e subdesenvolvido. “A solução para o Brasil está no aeroporto!”, dizem os brasileiros. Anos atrás, chegou a surgir o meme “You’re Going to Brazil”, no qual o país servia de referência para um destino ainda pior do que o próprio inferno.
Seria um exagero? Talvez. “Pelo menos o Brasil não é pior que a Índia, um dos países mais precários e desiguais do planeta”, alguém poderia dizer. Em 2025, a Gazeta do Povo noticiou que a Índia já havia ultrapassado o Brasil em saneamento básico, de modo que, segundo alguns indicadores, o Brasil é, de fato, pior que a Índia. Essa notícia pegou muitos brasileiros de surpresa; é difícil acreditar que seu país possua déficits de infraestrutura superiores aos de outro, ainda mais quando este frequentemente é citado como um dos mais insalubres do mundo. Essa é, em síntese, a realidade institucional brasileira: a ineficiência.
Alex Hochuli, em seu artigo, utiliza o termo “brasileiração” para descrever o fenômeno da ineficiência e da decadência institucionais, econômicas, políticas e sociais do Ocidente moderno. Quando o nome de um país passa a ser usado como neologismo para designar decadência, sabe-se que as coisas estão ruins. Sua análise não é superficial; não se trata de uma formulação meramente preconceituosa ou generalizante, mas, antes de tudo, sistêmica. O artigo levanta debates acadêmicos sobre problemas e patologias culturais e históricas associados ao Brasil desde sua independência, os quais contribuem para que o Brasil seja uma nação paralisada, incapaz de se desenvolver apesar de sua modernização.
O Brasil sempre foi um país relativamente moderno desde sua gênese, o que considero ser uma das principais razões da sua precariedade cultural. Nossas instituições e fundamentos teóricos foram, desde o início, importados das civilizações europeias já consolidadas, especialmente da tradição lusitana e francesa. Não houve tempo suficiente para o desenvolvimento de uma verdadeira (alta) cultura propriamente autóctone. Com isso, nossas elites sempre estiveram distanciadas da realidade das classes populares, e passaram a idealizar projetos civilizacionais a partir das novas ideias e tendências da intelectualidade liberal latina de uma realidade transatlântica. Dom Pedro II é a mais clara personificação desse problema, ao tentar governar um império agrário, escravocrata e analfabeto com a mentalidade de um monarca constitucional iluminista da Europa Ocidental. Essa trajetória só poderia culminar de forma trágica: exilado de seu país e desapropriado de seus bens, vítima de um golpe militar republicano. Assumia o papel de “civilizador” enquanto negligenciava a “barbaridade” do próprio povo.
Dom Pedro II foi também um grande patrono do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), que à época tinha a missão de fundar, ou “descobrir”, uma identidade propriamente brasileira, dando origem ao movimento literário indianista, no qual José de Alencar foi um dos principais expoentes. Suas obras, O Guarani e Iracema, possuíam um propósito, antes de tudo, político. Nessa visão, o Brasil não era uma nação europeia, mas algo distinto: uma formação miscigenada entre lusitanos e indígenas (os negros ainda eram deixados de fora da formação nacional brasileira durante esse período). O indianismo, nesse sentido, foi um fracasso completo, pois tentava inventar um passado histórico e uma mitologia nacional moldados pelos padrões franceses de historiografia e pelas ideias, para dizer o mínimo, ingênuas e rousseaunianas sobre o “bom selvagem”. Esse imaginário não dialogava com a realidade popular brasileira e jamais se consolidou, por se tratar de uma interpretação distorcida do cotidiano da época. A historiadora Lilia Moritz Schwarcz argumenta que o Império construiu uma sofisticada política de imagens, rituais e símbolos europeizados para encobrir as contradições de um país cindido entre a modernidade que desejava e o atraso estrutural que cultivava.
No livro Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira, elaborado a partir de palestras ministradas por Oliveira Lima na França sobre a história do Brasil, são apresentadas críticas pontuais ao movimento indianista e à sua tendência de idealizar o indígena e a própria identidade nacional, em detrimento da realidade histórica do país. Esse esgotamento cultural teria contribuído para o surgimento do realismo, no qual Machado de Assis se destaca não apenas como principal referência, mas como talvez o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Em seu ensaio Literatura Brasileira: Instinto de Nacionalidade, Machado formula uma crítica decisiva ao projeto indianista, frequentemente interpretada como um ponto de inflexão no processo de transição do romantismo para uma nova configuração estética. O realismo, nesse sentido, emerge como reação crítica ao romantismo, buscando representar de modo mais direto e objetivo a realidade “nua e crua” do cotidiano brasileiro, sem mascarar ou ignorar seus problemas e deficiências. Obras como Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas são fundamentais para a compreensão da psicologia brasileira. O problema do realismo é que ele apenas aponta o problema, apresentando um diagnóstico cirúrgico, mas é incapaz de propor soluções ou qualquer superação da precariedade que evidencia.
Se as obras de Machado de Assis falam da psicologia do brasileiro, Aluísio Azevedo pinta o retrato antropológico da população brasileira. Não é possível ler O Cortiço sem traçar qualquer paralelo com o que se convencionou chamar de “cultura da favela”, hoje tão romantizada pela esquerda liberal. Não podemos deixar de notar uma aproximação entre a mentalidade e os vícios dos escritores indianistas com a de muitos sociólogos marxistas de nossos centros acadêmicos. A relativização cultural e a negação da possibilidade de uma alta cultura, como parte de uma ideia racista, fazem com que o funk, a criminalidade e a malandragem sejam romantizados e promovidos não apenas como aceitáveis, mas também como belos e desejáveis, por se tratarem de manifestações “orgânicas” e “populares” da expressão cultural de um povo marginalizado. Essa tendência só poderia existir em uma nação que carece de qualquer sentimento cultural genuíno e frutífero. Se a expressão cultural de um país são músicas que enaltecem o tráfico de drogas, a prostituição e a sexualidade, vícios da pior espécie, não estamos tratando somente de cultura, nem mesmo de liberdade artística, mas sim de patologias culturais.
A mentalidade marxista, incorporada aqui por ideólogos como Paulo Freire, por meio de sua Pedagogia do Oprimido, ensina-nos que a criminalidade é uma consequência da marginalização econômica, social e política, direta e indiretamente imposta pelas classes favorecidas e elites privilegiadas. A malícia e a maldade dos criminosos só poderiam existir em razão do fracasso do sistema capitalista em integrá-los à sociedade. Assim, as instituições políticas e educacionais devem conscientizar-se dessa necessidade. As expressões culturais dessas minorias periféricas devem ser protegidas e, em muitos casos, incentivadas como forma de comunicação e de integração e diversidade. Elas devem ser ouvidas e respeitadas, independentemente da mensagem antissocial que possam carregar consigo. Muitas dessas facções não buscam integração, mas soberania e resistência, quase como revolucionários. Essa estratégia organizacional surgiu a partir do momento em que militantes comunistas foram presos pelo regime militar brasileiro, o que os levou a buscar cooptar criminosos para aderirem à causa revolucionária. Eles não se tornaram marxistas per se, mas foram altamente influenciados pela mesma mentalidade revolucionária. Assim, as favelas e periferias se tornaram pontos de resistência contra a sociedade capitalista, racista, elitista, preconceituosa e opressiva. Os traficantes passaram a ser vistos como guerrilheiros e defensores dos mais pobres e desfavorecidos, contra os quais o sistema teria sido injusto. Uma imagem distorcida do arquétipo de Robin Hood.
Com o tempo, passou-se a defender somente as expressões culturais dessas castas. O funk brasileiro, sendo uma das maiores forças culturais do país, ao lado do sertanejo e da MPB, normalizou e expandiu a favelização cultural para a classe média e até mesmo para as elites. Meninas de 16 a 22 anos dançam músicas explicitamente promíscuas, que promovem a objetificação de seus corpos e a sexualização precoce, reproduzidas em praticamente todas as casas de festas do país. A única diferença para os bailes funk das favelas é a localização e a infraestrutura, mas ambos os ambientes cultivam o mesmo comportamento decadente e intoxicante. O impacto negativo que isso exerce sobre os jovens é negligenciado pela maioria dos especialistas, que são censurados pelo politicamente correto e ideológico.
Compreender as patologias culturais do Brasil são essenciais para entender o porquê do país não ter ido para frente todos esses anos, mas, voltando aos problemas socioeconômicos, existem dois episódios de nossa história que conseguem retratar o atraso brasileiro em relação ao desenvolvimento e à modernização: a Guerra Luso-Holandesa, ou Guerra dos Guararapes, que culminou na expulsão dos holandeses e dispersão das comunidades judaicas de Pernambuco, e a falência do Barão de Mauá. Eles formam as duas pontas de uma mesma tragédia histórica: momentos em que o Brasil rejeitou o desenvolvimento nascente, primeiro no século XVII e, posteriormente, no século XIX. Acredito que podemos afirmar, sem ressalvas, que ambos os casos assombram o Brasil até os dias atuais.
1. As Batalhas dos Guararapes e a Expulsão dos Judeus (1654)
A Batalha dos Guararapes foi um dos momentos históricos mais importantes e decisivos para a consolidação do Brasil enquanto nação soberana. Esse episódio transformou-se no mito fundador das Forças Armadas brasileiras. Nesse sentido, a historiografia tradicional e militarista frequentemente apresenta a Insurreição Pernambucana e seu desdobramento militar sob uma ótica romântica. Nesse mito, Guararapes aparece como a gênese da nacionalidade brasileira, marcada pela união dos povos brancos, negros e indígenas contra os invasores estrangeiros, identificados como hereges calvinistas e judeus. No entanto, quando observada sob uma perspectiva econômica e cultural mais ampla, essa narrativa se complexifica e revela tensões estruturais profundas, que sugerem menos uma fundação coesa e mais um processo histórico marcado por continuidades de dependência e regressão.
Recife, sob o governo do alemão Maurício de Nassau, contratado pela Companhia das Índias Ocidentais para administrar e reger a colônia holandesa no Nordeste brasileiro, concretizou o que podemos chamar de um experimento protocapitalista. Sob influência holandesa, o regime trouxe tolerância religiosa, urbanismo planejado, fomento científico e uma estrutura de crédito moderna, fortemente influenciada pela comunidade judaica da época. O economista alemão Werner Sombart, em Os Judeus e a Vida Econômica, escreve sobre a forte presença judaica na indústria e no comércio brasileiro. Segundo Sombart, “os judeus logo se tornaram a casta dominante: ‘parcela considerável dos mais prósperos comerciantes brasileiros consistia de cristãos-novos’”. E segue: “Essa supremacia do elemento judeu-holandês no ramo das atividades comerciais e das plantações perdurou ao episódio do domínio holandês sobre o Brasil e se expandiu até o século XVIII [...]”. Essa influência acabou por paralisar a produção e o comércio de outras regiões, como o Rio de Janeiro e a Bahia, fazendo com que os comerciantes brasileiros recorressem ao Santo Ofício da Inquisição para solucionar o problema. Grande parte da população judaica, então expulsa do Brasil, migraram para os Estados Unidos, transferindo para lá o mesmo modelo econômico que haviam implementado aqui, conseguindo se estruturar em uma pequena colônia chamada Nova Amsterdã. Lá, tornaram-se uma das comunidades étnicas mais prósperas e influentes, ajudando a fundar nada menos do que a cidade de Nova York e também contribuíram para estabelecer as bases econômicas do que viria a ser o sistema financeiro de Wall Street. Enquanto isso, o Nordeste brasileiro afundava na estagnação açucareira e no isolamento cultural, enquanto o capital e o dinamismo mercantil migravam para o hemisfério norte. O que poderia ter sido de Recife se eles tivessem permanecido aqui?
A expulsão luso-brasileira dos holandeses e judeus consagrou uma vitória não apenas para o Império Português, mas também para a mentalidade da Contrarreforma e para o modelo colonial retrógrado e escravagista. Os senhores de engenho deviam fortunas aos financistas judeus, assim, a Guerra dos Guararapes foi, em grande parte, um calote financeiro abençoado pela Coroa e pela Igreja. O Brasil preferiu o monopólio da fé e o calote agrário à sofisticação e à modernização da indústria e de seu desenvolvimento.
2. A Falência do Barão de Mauá (1875)
Passando por um salto de dois séculos, encontramos uma das figuras mais subestimadas do Brasil Imperial: Irineu Evangelista de Sousa, o Barão, posteriormente Visconde de Mauá. Enquanto o imperador Dom Pedro II idealizava a modernização do Império sob moldes estéticos da Europa industrial, Mauá encontrava-se na dianteira prática desse projeto, buscando uma transformação econômica efetiva. Em um país que ainda debatia a legitimidade da escravidão. Lembrando que o Brasil foi o último das Américas a aboli-la. Ele tentou impulsionar de forma quase isolada um processo de modernização capitalista de larga escala. Ao longo de sua atuação, esteve ligado à criação de estaleiros, à expansão do sistema bancário, à instalação das primeiras ferrovias, à introdução da iluminação a gás no Rio de Janeiro e à implantação de comunicações telegráficas conectando o Império à Europa. Nesse sentido, sua trajetória pode ser lida como a de um agente pioneiro de um capitalismo industrial à moda vitoriana, operando em um contexto estrutural ainda profundamente pré-moderno.
O sucesso de Mauá incomodava profundamente a elite imperial. Para os barões do café e para o gabinete conservador, a industrialização representava um perigo, pois criava uma classe operária urbana, assalariada e livre, o que ameaçava o controle social baseado no latifúndio e na escravidão. O governo imperial acabou por adotar políticas que afetaram diretamente os negócios de Mauá. A Tarifa Silva Ferraz, de 1860, ao reduzir as taxas de importação de máquinas estrangeiras, enfraqueceu a indústria metalúrgica nacional, na qual Mauá estava inserido, tornando-a incapaz de competir com a inglesa. Seus bancos foram sufocados pela política monetária do Império, e suas ferrovias foram preteridas. Em 1875, seu império financeiro ruiu.
Barão de Mauá foi uma das figuras mais importantes do Brasil Império. Suas empresas geravam um orçamento maior do que o próprio orçamento imperial. Era o único que poderia transformar o Brasil em uma potência industrial à altura dos Estados Unidos e da Europa, mas suas ideias foram rejeitadas por Dom Pedro II e por seus políticos. Mauá acabou sendo desprezado e faliu. Foi um dos episódios mais desastrosos da história econômica brasileira. Antes de morrer, disse certa vez: “Desgraçadamente, entre nós, entende-se que empresários devem perder para que o negócio seja bom para o Estado, quando é justamente o contrário.” Será eternamente conhecido como “o homem que levou a civilização às selvas amazônicas”.
A falência de Mauá foi a vitória do Brasil agrário sobre a possibilidade de um Brasil urbano, moderno e industrializado. Levaria décadas até que o Estado Novo, finalmente, conseguisse industrializar o país, modernizando suas estruturas e relações econômicas.
Esses dois episódios amarram perfeitamente a leitura de que o Brasil carece de uma cultura orgânica por ser refém de elites alienadas. Em Guararapes, a elite luso-brasileira destruiu o germe de uma modernidade institucional e mercantil burguesa que estava sendo plantada de fora, preferindo retroceder ao modelo ibérico tradicional. No caso de Mauá, quando o capitalismo moderno finalmente tenta brotar de forma endógena, de dentro para fora, a elite, encabeçada pela própria figura de Dom Pedro II, que via Mauá com desconfiança e desdém aristocrático, prefere sabotar o industrialismo para manter o status quo de uma economia baseada no latifúndio exportador e no trabalho escravo. Nos dois momentos, o Brasil escolheu o arcaísmo como mecanismo de defesa de suas elites. O resultado: uma nação cujas instituições operam para manter o povo à margem e cuja cultura, sem tempo para criar raízes populares e sólidas nas esferas de poder, torna-se um pastiche precário de importações teóricas.
É nesse contexto que o artigo de Alex Hochuli adquire seu pleno alcance. Diferentemente dos diagnósticos discutidos acima, sua abordagem é menos culturalista e mais estrutural. Ele não se detém nas patologias particulares do Brasil, mas investiga se o que sempre pareceu uma particularidade patológica do Brasil não seria, afinal, o retrato antecipado do destino comum do Ocidente. A questão deixa de ser "como o Brasil pode finalmente se modernizar?" e passa a ser "o que o Brasil já revela sobre a modernidade?". Não é o Brasil que precisa se tornar desenvolvido, mas é o mundo desenvolvido que está se tornando no Brasil. O neoliberalismo cumpriu sua função com precisão: esvaziou o Estado, precarizou o trabalho, concentrou a riqueza e abandonou a promessa de desenvolvimento que nunca teve intenção de cumprir. O que Mark Fisher chamou de "lento cancelamento do futuro" não é, portanto, um acidente ou desvio da história recente do Ocidente; é a condição permanente que o Brasil conhece desde sempre.
— Nick Clark, Porto Alegre, 2026.
A Brasileirização do Mundo por Alex Hochuli
“A periferia é o lugar onde o futuro se revela.”
— Frase erroneamente atribuída a J. G. Ballard por Mark Fisher
“Isso não poderia acontecer aqui.” Pandemias e outras ameaças à segurança sanitária deveriam ser problemas do Sul Global e oriundos dele. Contudo, as deficiências que os Estados ocidentais enfrentaram ao desenvolver e executar planos coerentes, coordenar órgãos estatais, comunicar-se com o público ou mesmo simplesmente produzir e armazenar equipamentos médicos e farmacêuticos em quantidade suficiente (para não mencionar a escandalosa distribuição de vacinas pela União Europeia) evidenciaram o fracasso estatal nos próprios centros do capitalismo global. Capacidades estatais esvaziadas, confusão política, compadrio, pensamento conspiratório e déficits de confiança expuseram a legitimidade em deterioração que hoje faz com que Estados ricos e poderosos pareçam repúblicas de banana.
Ao examinar os rankings de preparação para pandemias elaborados antes da chegada da Covid-19, como o Índice Global de Segurança Sanitária (Global Health Security Index) ou o Índice de Preparação para Epidemias (Epidemic Preparedness Index), verifica-se que os Estados Unidos e o Reino Unido eram supostamente os dois países mais bem preparados, com os países da União Europeia também aparecendo em posições de destaque. Tratava-se de Estados que acreditavam não ter nada a aprender com as experiências anteriores de países como Brasil, China, Libéria, Serra Leoa ou República Democrática do Congo. E, embora os países que conseguiram administrar a pandemia de maneira eficaz sejam poucos e raros, o fracasso estatal no coração do capitalismo ocidental põe fim a quaisquer noções complacentes acerca do Fim da História e da primazia de um modelo sobre os demais. Ao que parece, agora todos vivemos em “países menos desenvolvidos”.
A realidade é que o século XX, com suas confiantes máquinas estatais forjadas na guerra e dedicadas a determinar os resultados sociais, acabou. Também desapareceram algumas de suas outras características: o conflito político organizado entre esquerda e direita, ou entre social-democracia e democracia-cristã; a competição entre forças universalistas e seculares que impulsionavam a modernização cultural; a integração das massas trabalhadoras à nação por meio de empregos formais e adequadamente remunerados; e o crescimento rápido e amplamente compartilhado.
Agora nos encontramos no Fim do Fim da História. Ao contrário das décadas de 1990 e 2000, hoje muitos estão profundamente cientes de que as coisas não vão bem. Somos sobrecarregados, como escreveu o falecido teórico cultural Mark Fisher, pelo “lento cancelamento do futuro”: de um futuro prometido, mas jamais entregue; de uma involução no lugar do progresso.
A involução do Ocidente encontra sua imagem especular no país originalmente concebido como a terra do futuro, a nação condenada a permanecer para sempre o país do futuro, que jamais chega ao seu destino: o Brasil. A brasileirização do mundo representa nosso encontro com um futuro negado, no qual essa frustração tornou-se constitutiva de nossa realidade social. Embora o fechamento dos horizontes históricos tenha sido frequentemente uma preocupação da esquerda e, de fato, do próprio marxismo, a sensação de que as coisas não estão funcionando como deveriam é hoje compartilhada por todo o espectro político.
Bem-vindo ao Brasil. Aqui, as únicas pessoas satisfeitas com sua condição são as elites financeiras e os políticos venais. Todos reclamam, mas todos dão de ombros. Essa lenta degradação da sociedade não se assemelha tanto a um trem desgovernado quanto a uma montanha-russa precária, que ocasionalmente sugere a possibilidade de ascensão, mas jamais consegue libertar-se de seus trilhos. Sempre retornamos ao ponto de partida, abalados e desorientados, assombrados por aquilo que poderia ter sido.
Na maior parte das vezes, “Brasil” tem servido como sinônimo de profunda desigualdade, com favelas empoleiradas em encostas elevando-se acima dos arranha-céus dos milionários. Em seu romance Generation X (1991), Douglas Coupland referiu-se à brasileirização como “o alargamento do fosso entre ricos e pobres e o consequente desaparecimento das classes médias”.1 Mais tarde, naquela mesma década, o sociólogo alemão Ulrich Beck empregou o termo para designar o movimento contínuo de entrada e saída do emprego formal e informal, à medida que o trabalho se tornava flexível, ocasional, precário e descentralizado.2 Em outros contextos, o processo de tornar-se brasileiro refere-se à geografia urbana, marcada pela expansão das favelas e assentamentos precários, bem como pela gentrificação dos centros urbanos e pelo deslocamento da pobreza para as periferias. Para outros ainda, o Brasil simboliza um novo impasse étnico entre uma classe trabalhadora racialmente miscigenada e uma elite branca.
Esse retrato multifacetado da brasileirização possui um apelo superficial, especialmente à medida que o aumento da desigualdade e da precariedade fragmenta cidades por toda a Europa e América do Norte. Mas por que o Brasil? O Brasil é um país de renda média: desenvolvido, moderno e industrializado. Contudo, é também um país sobrecarregado pela pobreza em massa, pelo atraso estrutural e por uma classe política que parece ter avançado muito pouco desde os tempos em que constituía uma elite agrária escravocrata. O Brasil funciona como um símbolo do passado, de uma etapa anterior do desenvolvimento pela qual o Norte Global passou e acreditou ter deixado para trás.
Norte e Sul, Ontem e Hoje
Após o eclipse do conflito Leste-Oeste da Guerra Fria, afirmou-se que a nova linha divisória global, na era da globalização, seria o eixo Norte-Sul. Nessa nova divisão do mundo ao fim da História, o Sul Global passou a ser compreendido como uma zona de pobreza e conflito. Consequentemente, as potências ocidentais assumiriam duas posturas alternadas em relação a ele: uma defensiva (protegendo-se contra seu terrorismo, degradação ambiental, novas doenças, crime organizado e tráfico de drogas) e outra paternalista (“ajudando-o a se desenvolver”). Enquanto a primeira postura sugeria pouca esperança de melhoria para o Sul Global, a segunda pressupunha um telos, uma finalidade histórica. O Sul gradualmente passaria a se assemelhar ao Norte, alcançando níveis crescentes de prosperidade impulsionados por massas de uma “nova classe média”, ansiosa por emular os padrões de consumo do Norte.
Tratava-se de uma versão reaquecida da teoria da modernização da Guerra Fria, adaptada à era da globalização. Para os países mais pobres, programas de “desenvolvimento” conduzidos por organismos internacionais e ONGs promoviam iniciativas de pequena escala, como a escavação de poços ou o microcrédito, revelando implicitamente uma falta de convicção de que essas sociedades algum dia conseguiriam realmente “alcançar” os países desenvolvidos. Esses esforços melioristas eram frequentemente patrocinados pelas mesmas instituições financeiras internacionais que haviam dilacerado essas sociedades por meio dos programas de ajuste estrutural da década de 1980.
Para as sociedades relativamente mais prósperas do Sul, agora denominadas “mercados emergentes”, o desenvolvimento neoliberal reproduzia as premissas tácitas da teoria da modernização ao presumir que esses países estavam apenas “atrasados”, mas que eventualmente chegariam lá; tornar-se-iam “como nós”. Bastava observar os shopping centers que surgiam em São Paulo, Bangcoc ou Cairo! Era preciso apenas esperar que essa riqueza se difundisse e, em breve, esses países ingressariam no clube das nações ricas. Nas páginas da revista The Economist, por exemplo, argumentava-se que países como o Brasil necessitavam apenas de algumas reformas liberais para que o crescimento voltasse a decolar. Afinal, o México, a Coreia do Sul e um punhado de países da Europa Oriental ingressaram na Organisation for Economic Co-operation and Development na década de 1990, seguidos pelo Chile em 2010. Era apenas uma questão de tempo.
O que essa narrativa ignora é que os instrumentos políticos empregados pela teoria da modernização, como a industrialização por substituição de importações, já não existiam. Tampouco existiam o cenário internacional e as relações tecnológicas que haviam tornado possível o desenvolvimento por convergência. As tecnologias e os setores industriais associados à Segunda Revolução Industrial já não ocupavam a vanguarda econômica. Uma economia baseada nas tecnologias do petróleo, da borracha e do aço, como a indústria automobilística, por exemplo, já não representava atividades de “alto valor agregado”. O que realmente importava, as ideias verdadeiramente valiosas, encontrava-se agora protegido por direitos de propriedade intelectual, inacessíveis a países como o Brasil. Assim, Sul Global e Norte Global deixaram de representar, respectivamente, passado e presente, com o primeiro gradualmente alcançando o segundo. Ambos parecem agora existir na mesma temporalidade histórica.
O Brasil encontra-se, consequentemente, paralisado, aprisionado na oscilação permanente entre esperança e frustração. E esse destino de ser moderno, mas não suficientemente moderno, parece hoje ser compartilhado por amplas regiões do mundo: WhatsApp e favelas, comércio eletrônico e esgotos a céu aberto. De fato, deixando de lado a excepcional ascensão da China, a história global dos últimos quarenta anos é, em grande medida, uma história de regressão, apesar de toda a retórica em torno da “nova classe média” ou, mais precisamente, de uma classe trabalhadora que ingressou de forma precária na sociedade de consumo, agora capaz de comprar uma geladeira e uma televisão, e talvez até frequentar a universidade pela primeira vez na história de sua família, mas que jamais alcançou uma verdadeira segurança material.
Na verdade, essa narrativa de regressão talvez seja hoje mais visível no próprio Norte Global, que vem demonstrando muitas das características que historicamente afligiram o Sul Global: não apenas a desigualdade e a informalização do trabalho, mas também elites cada vez mais venais, volatilidade política e desagregação social. Acaso o mundo rico não está também se tornando “moderno, mas não suficientemente moderno”, ainda que em sentido inverso?
Modernidade sem Desenvolvimento.
A única maneira de compreender o que a brasileirização realmente significa, e o que ela pode reservar para nós, é compreender a trajetória do desenvolvimento brasileiro e, por extensão, apreender o que ela revela sobre nosso presente e nosso futuro. De fato, a consciência que o Brasil possui de sua própria promessa, e a consequente frustração dela decorrente, levou ao desenvolvimento de uma perspectiva crítica sobre a modernização que o restante do mundo faria bem em estudar.
Essa perspectiva deslocada do Brasil, a de uma sociedade simultaneamente moderna e subdesenvolvida, foi talvez melhor captada pelo crítico literário Roberto Schwarz, um dos integrantes de um notável grupo de pensadores que compunham o Seminário Marx, formado no final da década de 1950 na Universidade de São Paulo. O seminário incluía também o economista Paul Singer, o filósofo José Arthur Giannotti e os sociólogos Michael Löwy e Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Eles se apoiavam nos trabalhos de estudiosos como o economista Celso Furtado, o sociólogo Florestan Fernandes e o crítico literário Antonio Candido, os quais, por sua vez, haviam se erguido sobre os ombros de uma geração atuante nos anos 1930: os historiadores Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Júnior. Todos esses autores, muitos dos quais reencontraremos adiante, estavam unidos pela preocupação em descrever e analisar a formação social brasileira, a dialética entre o novo e a persistência do antigo, bem como a mediação entre as particularidades locais e a realidade cosmopolita decorrente da integração do país ao capitalismo global.3
Em 1973, Schwarz escreveu o influente ensaio As Ideias Fora do Lugar.4 Embora a tradução inglesa publicada receba o título Misplaced Ideas (“Ideias Deslocadas”), o título português não sugere ideias perdidas ou extraviadas, mas antes ideias fora de contexto, inadequadamente situadas ou deslocadas. Foi precisamente essa inadequação que Schwarz procurou destacar. Na Europa do século XIX, as ideias liberais dos direitos do homem e da liberdade, igualdade e fraternidade tornavam-se hegemônicas, constituindo uma superestrutura ideológica e jurídica assentada sobre um regime de produção baseado no trabalho livre. O Brasil, entretanto, era diferente. Nos trópicos, o liberalismo só podia funcionar como um ornamento ideológico de uma sociedade na qual o trabalho não livre continuava predominando.
As elites falavam em termos liberais, mas a realidade era que a escravidão só foi oficialmente abolida em 1888, enquanto outras formas de trabalho coercitivo, e de ausência de liberdade no trabalho, persistiram na prática por muito mais tempo. Se na Europa o liberalismo podia servir para ocultar a realidade integral das sombrias fábricas da Revolução Industrial, ao menos refletia uma realidade material específica: aquela em que os indivíduos eram formalmente livres. No Brasil, ao contrário, o liberalismo só podia soar absurdo e, por isso, o teste da realidade ou da coerência jamais se aplicava plenamente.
Exatamente o mesmo descompasso entre ideias e realidade pode ser observado nos tempos atuais. Os “conservadores” incentivam forças que destroem aquilo que afirmam conservar, como a família; o liberalismo passa a significar a defesa do iliberalismo dos aparatos de vigilância; o hiperindividualismo termina por reificar concepções essencialistas de raça, de modo que a pertença ao grupo é tratada como logicamente anterior ao indivíduo; e a esquerda torna-se cada vez mais o partido dos altamente escolarizados e economicamente privilegiados. Em toda parte nos deparamos com aquilo que o filósofo Adrian Johnston, apropriando-se de um conceito da teoria memética, denomina deaptação: o processo pelo qual uma estratégia memética inicialmente adaptativa torna-se posteriormente inútil ou até contraproducente.5 Se o liberalismo foi um conjunto de ideias adequado à ascensão e posterior consolidação da burguesia, tudo isso em nome da liberdade, hoje ele se encontra em um estado de deaptação, sendo mobilizado em defesa da hierarquia e da dominação.
Os intelectuais brasileiros vêm lidando com esse fenômeno da deaptação há décadas e, por isso, oferecem uma perspectiva importante para compreender nosso momento histórico e o desalinhamento entre as ideias e a realidade contemporânea. Além disso, como observam os estudiosos Luiz Philipe de Caux e Felipe Catalani, “em situações históricas nas quais ideias transplantadas são forçadas a reajustar-se a condições materiais que não as sustentam da mesma maneira que suas condições de origem, esse desajuste não precisa ser descoberto por meio da reflexão, pois ele já se apresenta como uma sensação cotidiana do homem comum”.6 O brasileiro médio sempre percebeu a hipocrisia das ideias fora do lugar. A globalização, ou americanização por meio da internet, significa que as ideias se desvinculam de suas condições de origem e das realidades materiais específicas às quais originalmente correspondiam. As ideias estão fora do lugar em toda parte. Isso se torna evidente, por exemplo, quando jovens europeus, em meio a uma pandemia e a uma devastação econômica iminente, saíram às ruas para protestar contra o “privilégio branco” em países de esmagadora maioria branca, imaginando-se, assim, norte-americanos.
Quanto ao Brasil, acreditava-se outrora que seu futuro prometido se concretizaria quando o país eliminasse sua própria divisão entre centro e periferia, resolvendo o problema das ilhas de riqueza cercadas por oceanos de pobreza. Em vez disso, parece ser o Norte Global que está alcançando o Sul Global na reprodução desse mesmo padrão. O Brasil encontra-se, mais uma vez, na vanguarda global.
O filósofo brasileiro Paulo Arantes desenvolveu a tese da brasileirização em um notável ensaio de 2004, A Fratura Brasileira do Mundo.7 Arantes inicia examinando diversos pensadores do Norte Global que já haviam manifestado inquietação quanto ao rumo do desenvolvimento do capitalismo global. Já em 1995, o estrategista conservador Edward Luttwak escrevia sobre a “terceiromundização da América”. No mesmo ano, Michael Lind referiu-se diretamente ao Brasil em seu prognóstico de uma sociedade norte-americana dividida por um rígido, embora informal, sistema de castas. Elites brancas governariam uma sociedade racialmente miscigenada, enquanto as massas, internamente fragmentadas, permitiriam o fortalecimento da oligarquia.
Um ano depois, Christopher Lasch atestaria, em The Revolt of the Elites (A Revolta das Elites), o fechamento da classe dirigente sobre si mesma e seu progressivo afastamento do restante da sociedade. Enquanto isso, o ex-thatcherista John Gray escreveria sobre o surgimento de um “regime rentista à maneira latino-americana”, no qual as elites prosperavam extraordinariamente no novo mundo globalizado, enquanto a classe média perdia seu status e os trabalhadores eram novamente proletarizados, pondo fim às grandes expectativas geradas pelo crescimento do pós-guerra.
O sociólogo catalão Manuel Castells percebeu que muitos seriam excluídos até mesmo dessa sociedade já dividida. Emergiria uma nova realidade na qual apenas a burguesia permaneceria como classe social propriamente dita, embora agora sob a forma de uma burguesia transnacional e cosmopolita.
O Nascimento da Belíndia
O Brasil nasceu moderno. Surgiu como colônia, um espaço destinado à extração de recursos, já integrado a um mercado mundial em formação. O Brasil pode ter sido o último país do Hemisfério Ocidental a abolir a escravidão, mas sua escravidão de tipo mercantil (chattel slavery) era um produto da modernidade inicial. O Brasil jamais foi pré-moderno ou feudal. Da mesma forma, a brasileirização não significa um simples retorno a relações semifeudais.
O que explica, então, a persistência do trabalho não livre, do sistema de latifúndios e de seus efeitos culturais e políticos até bem avançado o século XX, em suma, todos os elementos “atrasados” do Brasil? Precisamente o fato de que, no Brasil, o moderno alimentava-se do antigo e, por sua vez, o reforçava e recriava. Nas áreas rurais, uma oferta elástica de trabalho e de terras reproduzia a “acumulação primitiva” na agricultura, retardando melhorias nas técnicas agrícolas. Com a industrialização iniciada a partir da década de 1930, essa massa de pobres rurais passou a funcionar como um exército industrial de reserva de mão de obra urbana barata.
O que tornou singular o processo brasileiro foi o fato de que sua industrialização e modernização durante o período populista, aproximadamente entre meados da década de 1930 e meados da década de 1960, não exigiram uma ruptura do sistema, como ocorrera com as revoluções burguesas europeias um século antes.8 Em vez disso, as classes proprietárias rurais permaneceram no poder e continuaram a beneficiar-se da expansão capitalista. Como observou o sociólogo Francisco de Oliveira em sua Crítica à Razão Dualista (1972), a “expansão do capitalismo no Brasil acontece pela introdução de relações novas no arcaico e pela reprodução de relações arcaicas no novo”. Esse processo foi reforçado politicamente pela legislação trabalhista corporativista do presidente Getúlio Vargas, inspirada no modelo de Benito Mussolini, como forma de formalizar e disciplinar o proletariado urbano. Fundamentalmente, ela excluía as relações de trabalho no campo, preservando a pobreza rural e a ausência de liberdade dos trabalhadores.
Para Oliveira, o novo mundo preservava, assim, relações de classe anteriores. Considere-se, por exemplo, que os novos pobres urbanos construíam suas próprias moradias, reduzindo o custo de reprodução dessa classe. Os empregadores não precisavam pagar salários suficientemente elevados para cobrir despesas com aluguel. As favelas, portanto, não constituem um índice de atraso; são algo produzido pelo próprio processo de modernização.
Ou considere-se como os serviços pessoais prestados na esfera doméstica reforçam esse modelo de acumulação. Famílias brasileiras de classe média alta empregam domésticas ou motoristas que lhes prestam serviços, uma relação econômica que só poderia ser substituída mediante investimentos dispendiosos em serviços públicos e infraestrutura, como empresas de limpeza industrial ou sistemas eficientes de transporte coletivo. Como consequência, a classe média brasileira desfruta, nesse aspecto, de um padrão de vida superior ao de suas equivalentes nos Estados Unidos ou na Europa. A exploração de mão de obra barata na esfera doméstica também enfraquece qualquer impulso político voltado à melhoria dos serviços públicos.
Não estaríamos diante precisamente dessa mesma brasileirização do mundo atualmente, com a proliferação de “serviços de concierge”, pelos quais profissionais e elites contratam professores particulares de ioga, chefs privados e segurança privada? Um domicílio de classe média alta em San Francisco passa a reproduzir uma mansão aristocrática, cercada por toda uma economia de serviços prestados na esfera doméstica, mas agora tudo é terceirizado: plataformas digitais intermedeiam a relação entre “prestadores independentes” (antes empregados) e a nova elite. A estrutura social brasileira antecipou nosso futuro.
Refletindo novamente sobre a formação social brasileira em 2003, Francisco de Oliveira classificou o Brasil como um ornitorrinco: um monstro disforme, que já não era propriamente subdesenvolvido (uma vez que a “acumulação primitiva” no campo fora deslocada por um poderoso setor do agronegócio), mas que tampouco possuía as condições necessárias para completar sua modernização, isto é, para incorporar efetivamente as massas à nação.9 Fundamentalmente, esse resultado não era inevitável. O crescimento do poder dos trabalhadores no período que antecedeu o golpe de 1964 poderia ter conduzido a um novo pacto social e ao fim das elevadas taxas de exploração. Da mesma forma, uma reforma agrária poderia ter eliminado a fonte do “exército industrial de reserva” que inundou as cidades durante a década de 1970, além de destruir definitivamente o poder patrimonial no campo.
Entretanto, tal projeto de modernização exigiria a participação da burguesia nacional em aliança com os trabalhadores. A burguesia preferiu apoiar o golpe de direita. Em uma grande ironia histórica, observada por Roberto Schwarz em sua introdução ao ensaio do ornitorrinco de Oliveira, foi justamente Fernando Henrique Cardoso, presidente neoliberal na década de 1990, quem havia argumentado, ainda nos anos 1960, como sociólogo de esquerda, que a burguesia nacional não desejava o desenvolvimento. Cardoso sustentava, contrariando a opinião predominante na esquerda da época, que a burguesia preferiria ocupar a posição de sócia menor do capitalismo ocidental a correr o risco de ver sua hegemonia doméstica sobre as classes subalternas contestada no futuro.10 A elite brasileira escolheu não se desenvolver.
Segundo Francisco de Oliveira, o futuro prometido e incessantemente frustrado do Brasil manifesta-se no fato de que o país é “uma das sociedades mais desiguais do mundo (...) apesar de ter apresentado uma das mais fortes taxas de crescimento durante um longo período. (...) As determinações mais evidentes dessa condição residem na combinação entre a baixa valorização da força de trabalho e a dependência externa”.11 O Brasil poderia, assim, ser uma espécie de utopia, dadas suas riquezas naturais, seu rápido crescimento econômico e sua cultura admirável. A realidade, nas palavras de Luiz Philipe de Caux e Felipe Catalani, é a de um país “cuja essência consiste em não conseguir realizar sua essência”. Não é o atraso que impede o Brasil de cumprir seu destino; seu destino é a frustração interminável.
Além disso, a exclusão social que parece tão essencial à formação social brasileira não é um acidente, mas uma dualidade produzida historicamente. No Brasil, essa condição ficou conhecida como Belíndia, termo cunhado em 1974 pelo economista Edmar Lisboa Bacha: o Brasil seria uma Bélgica rica e urbana assentada sobre uma Índia pobre e rural, tudo dentro do mesmo país.
Os habitantes da “Bélgica” brasileira vivem em um país aparentemente moderno e funcional, mas supostamente limitado por aqueles que permanecem do lado de fora, na Índia atrasada e semifeudal. Contudo, como demonstrou Francisco de Oliveira, o “interior” depende da exploração do “exterior” para sustentar seu progresso. Mais do que isso, o próprio dualismo molda a Bélgica por dentro: ele produz uma elite corrupta, patrimonialista e egoísta, excessivamente disposta a lavar as mãos diante das condições existentes em sua própria “Índia”.
Infelizmente, em vez de a metáfora da Belíndia tornar-se menos relevante nas últimas décadas, ela apenas se tornou mais pertinente. Considere-se o que cada um dos países que compõem essa metáfora representa hoje: a Bélgica continua rica, mas é burocratizada, fragmentada e imóvel; a Índia continua pobre, mas agora também é tecnológica e governada por um populismo reacionário. Esse quadro poderia descrever com igual facilidade a Itália, os Estados Unidos ou o Reino Unido, com suas profundas desigualdades regionais, sua política esclerosada e seus espetáculos populistas.
Lidando com a Modernidade
Se retornarmos à tese da brasileirização de Paulo Arantes, veremos que as características culturais do desenvolvimento brasileiro também estão sendo reproduzidas em nosso novo mundo pós-crescimento. Certos padrões de comportamento que surgiram à medida que os brasileiros lidavam com sua modernidade instantânea, relações sociais estruturadas em torno da flexibilidade, e não de contratos vinculantes; a necessidade de encontrar soluções semilícitas por meio da esperteza e da improvisação; uma burguesia que nunca foi verdadeiramente burguesa, agora marcam o mundo ao nosso redor.
O Brasil, antiga colônia “nascida moderna”, não é uma sociedade que emergiu de relações feudais, nem uma sociedade que anunciou seu nascimento por meio de uma ruptura revolucionária com o passado. Ao contrário, foi, antes de tudo, um espaço de produção e distribuição.
Escrevendo no início da década de 1940, o grande historiador brasileiro Caio Prado Júnior analisou a forma colonial do Brasil contemporâneo, observando a eficiência da ordem colonial enquanto organização da produção combinada com uma esterilidade no que diz respeito às relações sociais de nível superior: toda economia, nenhuma cultura. O que definia uma periferia moderna moldada pelo colonialismo era, portanto, uma “falta de nexo moral”, isto é, a ausência daquele complexo de instituições humanas que mantém os indivíduos ligados e unidos em uma sociedade, soldando-os em um todo coeso e compacto. Se já ouvimos aqui ecos da contemporânea desagregação neoliberal da sociedade, isso não é por acaso.
Historicamente, a “quase-sociedade da vanguarda mercantil” brasileira foi condicionada pela posição dos homens livres em uma sociedade composta por elites proprietárias de terras e escravos. Assim, no Brasil dos séculos XVIII e XIX, encontramos a prática generalizada do favor, ou da “mediação quase universal”, tal como identificada por Roberto Schwarz nos romances de Machado de Assis. Em um mundo de senhores e escravos, os homens livres pobres dependiam dos favores da classe proprietária para sobreviver. Em vez de cidadãos dotados de direitos, precisavam empenhar-se para obter o patrocínio dos proprietários. Já podemos ver aí as sementes do clientelismo e do patronato brasileiros.
Enquanto o mundo das ideias e das instituições permanecia ligado às concepções liberais modernas, o que prevalecia na realidade não era uma sociedade racionalmente ordenada, mas uma sociedade governada pelas decisões arbitrárias dos ricos, uma situação da qual naturalmente se beneficiavam as elites, mas também os homens livres, confirmados em sua condição de beneficiários de favores, isto é, de não escravos. Esse nexo do favor, sobreposto à ideologia liberal, reunia todas as condições para uma hipocrisia sistemática: ideias liberais grandiloquentes justificando arbitrariedade e venalidade. Ou, aplicando essa relação aos Estados Unidos brasileirizados de hoje, e utilizando a linguagem de nossa época: “a informação quer ser livre”, mas não se ela violar os “padrões da comunidade” ou contrariar os interesses da oligarquia.
Em sentido semelhante, Schwarz discute outro elemento central da subjetividade brasileira: a “dialética da malandragem”, conceito desenvolvido por Antonio Candido em sua leitura dos romances do século XIX. Na interpretação de Schwarz, a dialética da malandragem implica a suspensão dos conflitos históricos concretos por meio da astúcia ou do saber prático, funcionando, em essência, como uma forma de evasão. Isso estaria ligado a uma “atitude muito brasileira, de tolerância corrosiva, que se origina na Colônia, atravessa o século XX e se torna um dos fios condutores de nossa cultura”.
Aqui encontramos a frequentemente celebrada disposição brasileira para a acomodação, em vez do conflito absoluto. Essa atitude pode parecer inferior aos valores mais puritanos das sociedades capitalistas do Atlântico Norte, marcadas por afirmações e negações categóricas, por condenações decisivas e inequívocas. Schwarz menciona, a esse respeito, os julgamentos das bruxas de Salem witch trials e o universo moral de The Scarlet Letter. Contudo, para Schwarz, talvez seja precisamente essa atitude que possa facilitar a inserção do Brasil em um mundo mais “aberto”. O que emerge é a imagem de um “mundo sem culpa”.12
Esse amortecimento dos conflitos constitui um padrão recorrente na história brasileira, na qual raramente as questões são resolvidas de maneira definitiva. Não houve grande revolução burguesa nem rupturas radicais com o passado; o novo acaba por vencer o velho ao preço de incorporá-lo a si mesmo. A redemocratização brasileira dos anos 1980, por exemplo, produziu uma nova Constituição repleta de direitos sociais que prometia às classes excluídas um grau de integração superior ao oferecido por documentos equivalentes em outros países. Ao mesmo tempo, porém, garantiu às antigas elites patrimonialistas seu lugar na nova ordem e fracassou em neutralizar o alto comando militar. As consequências são visíveis ainda hoje. A indeterminação e a irresolução prevalecem. Ou, no idioma brasileiro: tudo acaba em pizza.13
Esse “mundo sem culpa”, um mundo sem dramas morais, sem convicções profundas e sem remorso, é o nosso mundo pós-moderno elevado à escala global. A nova elite global está inteiramente desburguesada (désembourgeoisée); não existem regras rígidas ou definitivas, tudo é passível de negociação. A moralidade é, no máximo, uma questão individual e subjetiva, quando não uma fonte de constrangimento. As elites preferem as declarações vazias da ética corporativa às afirmações morais propriamente ditas. A moralidade já não constitui a pedra angular da autoridade social paternal. A elite pós-moderna não sente responsabilidade. Ela não internalizou a lei e, portanto, não sente culpa.
No mundo do trabalho, adaptação e acomodação são qualidades fundamentais da nova economia. Como prestador de serviços independente, e não como empregado, é preciso buscar constantemente agradar ao cliente. Para Paulo Arantes, o “profissionalismo” exigido atualmente nada mais é do que uma estilização cínica das qualidades necessárias para sobreviver em um mundo precário. Quanto ao malandro brasileiro, não existe hoje mandamento superior ao de “respeitar a correria” (respect the hustle). Aquilo que em outras circunstâncias poderia ser visto como oportunismo generalizado, ou, no Brasil do século XIX, como homens livres pobres em busca de um favor, é reinterpretado como o novo modo de ser do mundo.
Significativamente, o antropólogo Loïc Wacquant identifica uma atitude semelhante nos guetos da América do Norte. Ali, o hustler constitui um tipo social genérico, alguém que “se insere discretamente em situações sociais ou tece ao seu redor uma rede de relações enganosas apenas para extrair delas algum benefício, maior ou menor, obtido de forma mais ou menos extorsiva”. O oposto do hustler é o trabalho assalariado formal, entendido como “legal, reconhecido, regular e regulamentado”.14 Essa atitude já não está confinada aos guetos. Ela se tornou a subjetividade ideal do “empreendedor de si mesmo” neoliberal.
Sempre Já Pós-Moderno
É nesse ponto que o passado brasileiro encontra a contemporaneidade global. Para Ulrich Beck, a brasileirização representa um futuro sombrio, não apenas de exclusão social e capitalismo selvagem, mas também do fim do monopólio estatal da violência, da emergência de poderosos atores não estatais, de organizações criminosas e fenômenos semelhantes. Beck, contudo, também identifica algo positivo nas atitudes brasileiras: flexibilidade, tolerância, adaptabilidade a novas situações e aceitação tranquila dos paradoxos da vida. “Por que aceitamos a pluralização da família, mas não a pluralização do trabalho?”, escreveu Beck. Talvez os brasileiros, muitos dos quais jamais chegaram a experimentar plenamente a “primeira modernidade” do emprego pleno, das carreiras vitalícias e de instituições semelhantes, isto é, o fordismo, já tenham nascido compatíveis com a “segunda modernidade” da flexibilidade (pós-fordismo, pós-modernidade).
Se a modernidade clássica e a alta modernidade eram marcadas pela segurança, pela certeza e por delimitações nítidas entre o sim e o não, a pós-modernidade é governada pelo regime do risco, no qual o saber prático e a capacidade de adaptação ocupam posição central. O malandro brasileiro já era especialista nesse mundo muito antes de sua chegada. Talvez isso explique a surpreendente popularidade, no Brasil, dos livros do teórico polonês Zygmunt Bauman sobre a “modernidade líquida”, o “amor líquido” e temas semelhantes, obras encontradas até mesmo nas bancas de jornal das esquinas de São Paulo.
Assim, um país que jamais possuiu uma verdadeira fundação burguesa revolucionária e que, por isso mesmo, historicamente careceu de respeito à lei, de cidadania plena e até mesmo de culpa, encontra-se frente a frente com o capitalismo pós-burguês do século XXI. Sob essa perspectiva, até mesmo países como os Estados Unidos ou a França, que efetivamente passaram por grandes revoluções burguesas, parecem hoje acometidos por uma irresolução e uma improvisação tipicamente brasileiras. Basta pensar na resposta insensata à crise financeira global nos Estados Unidos, quando os bancos foram resgatados enquanto as condições estruturais que produziram a crise permaneceram intactas. Com ainda mais razão, pode-se lembrar da contínua tendência da zona do euro de adiar indefinidamente seus problemas, processo que Wolfgang Streeck denominou “comprar tempo”.
O estilo brasileiro também passa a servir como uma forma útil de legitimação para o novo capitalismo, no qual a hipocrisia e a corrupção são parte integrante da paisagem. Acaso a alternância promíscua entre o lícito e o ilícito, encontrada tanto entre os pobres brasileiros, como retratado por Paulo Lins em Cidade de Deus, quanto entre os ricos, que mantêm um pé no capitalismo global “limpo” e outro no patrimonialismo local “sujo”, não constitui uma metáfora da legalidade ambígua característica da financeirização?
Considere-se, por exemplo, as vastas somas oriundas do tráfico de drogas que são recicladas pelos maiores bancos do mundo. Os Panama Papers foram recebidos, evidentemente, com um encolher coletivo de ombros; nada mudou. Mas o que se poderia fazer? Não seria essa precisamente uma forma muito brasileira de “tolerância corrosiva”?
Cinismo e a Morte da Sátira
Como seria de esperar, a tolerância à corrupção e à indeterminação produz cinismo. Na Europa moderna clássica, a ironia servia para demonstrar como interesses econômicos se ocultavam por trás dos ideais liberais. No Brasil, em contraste, onde as infrações constituíam a regra, a ironia não podia recorrer às normas liberais, precisamente porque o liberalismo convivia com aquilo que supostamente lhe era oposto: a escravidão. Como argumentam Luiz Philipe de Caux e Felipe Catalani, o que se desenvolveu no Brasil foi uma espécie de ironia negativa, mais mórbida do que satírica.
Não seria essa também a nossa situação atual? A morte da sátira tem sido amplamente observada. Já não conseguimos mostrar como a realidade fracassa em corresponder aos ideais, porque desconfiamos dos próprios ideais, considerando-os sempre ideológicos, isto é, mecanismos destinados a ocultar interesses particulares. Uma figura como Donald Trump condensava essa nova atitude pós-satírica: um homem ocupando o cargo político mais poderoso do mundo incorporava, em sua própria bufonaria, uma representação satírica de si mesmo. Nesse aspecto, ele apenas seguiu o caminho aberto mais de duas décadas antes por Silvio Berlusconi. Trump basicamente afirmava ser corrupto, mas acrescentava que todos os demais também o eram e que, justamente por não respeitar as conveniências do establishment, seria ele quem “drenaria o pântano”.15 O cinismo tornou-se onipresente, sendo interrompido apenas, talvez com frequência crescente, por denúncias moralistas. Estas, por sua vez, sustentam-se porque a oposição ao cinismo pode ser inscrita na lógica das guerras culturais: as condenações cada vez mais histéricas de cada lado servem para obscurecer seu próprio cinismo.
Aqui o Brasil fornece mais um exemplo. A onda de protestos de massa de junho de 2013 constituiu uma revolta do jovem precariado, exigindo direitos sociais, melhores escolas e hospitais e o fim da corrupção. Pode-se interpretar esse movimento como um protesto contra a indeterminação e contra a tolerância corrosiva: “não aceitaremos mais isso”. O Brasil havia experimentado uma década de crescimento econômico, mas a esfera pública não acompanhara os avanços do poder de consumo privado. A estratégia lulista de “inclusão pelo consumo”, ela própria uma resposta a um período anterior de indeterminação decorrente da ofensiva neoliberal sob Fernando Henrique Cardoso, encontrou seus limites, conduzindo a uma explosão pública de grandes proporções.
Em 2015, entretanto, os protestos mudaram de caráter, tornando-se explicitamente antipolíticos e denunciando indistintamente políticos, partidos e instituições. O combate à corrupção tornou-se seu foco central, impulsionado pelo caráter espetacular da Operação Lava Jato, cujas investigações levaram políticos e empresários algemados pela primeira vez na história brasileira. Foi nessa onda que Jair Bolsonaro acabou sendo eleito em 2018. Entretanto, a antipolítica, ao recusar-se a conquistar o poder em nome de uma ideia positiva e limitar-se a denunciar todos os atores existentes, constitui, em essência, uma forma de cinismo politizado. Ela acredita que o establishment não está apto a governar, mas admite implicitamente que ninguém mais estaria apto tampouco. Com o tempo, verificou-se que a própria Lava Jato era corrupta, incluindo a colaboração entre juiz e acusação, o que permitiu que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fosse condenado com base em provas consideradas insuficientes pelos críticos da operação. Agora, a antiga estrutura política, da qual Bolsonaro também faz parte, teria conspirado para encerrar aquelas investigações.
Assim, a revolta de junho de 2013, inicialmente concebida como uma “revolta contra o cinismo”, acabou contribuindo para o desfecho mais cínico de todos. Tudo acabou em pizza. São esses os “elementos de truncamento que alimentaram a autoironia brasileira, por vezes cáustica, mas sempre baseada em fatos”, como já havia observado Francisco de Oliveira.16 Os avanços norte-americanos na utilização do lawfare, não apenas no apoio à cruzada judicial brasileira, mas também em sua aplicação doméstica, desde o slogan “lock her up” até os dois processos de impeachment de Trump, constituem outra faceta da brasileirização. No lugar da competição ideológica, a política reduz-se cada vez mais ao jogo cínico de buscar a vitória por meio dos tribunais. O escrúpulo jurídico oculta a ausência de escrúpulos. O resultado é a judicialização da política e a politização do Judiciário. A política torna-se cada vez mais distante do povo.
Uma Elite Não Nacional
A brasileirização do mundo conduz à generalização da indeterminação e da irresolução. O capitalismo neoliberal, em sua decadência, não consegue encontrar uma saída para sua crise, enquanto seus opositores estão excessivamente divididos, excessivamente cínicos e excessivamente descrentes de que as coisas possam realmente mudar. Trata-se daquilo que Mark Fisher denominou realismo capitalista: não apenas a afirmação de que “não há alternativa”, mas a incapacidade até mesmo de conceber uma alternativa. O problema não é apenas que a realidade não corresponde, e não pode corresponder, aos nossos ideais; é que deixamos de acreditar nos próprios ideais. E isso ocorre precisamente porque as ideias políticas parecem cúmplices de nossa realidade corrupta. As ideias estão fora do lugar em toda parte. Como o Brasil, o mundo ocidental como um todo não apenas convive com a frustração de não possuir o futuro que lhe foi prometido; a própria frustração tornou-se constitutiva de sua formação social.
No Brasil, a mesma classe dirigente que lucrou com o colonialismo, a escravidão e o sistema latifundiário foi também aquela que apoiou o golpe de 1964 para impedir que os trabalhadores conquistassem maior espaço na sociedade, bloqueando simultaneamente a possibilidade de autonomia nacional do país. As elites preferiram a dependência e a submissão ao capital internacional e aos Estados Unidos. Como resultado, perderam também aquilo que talvez tenha sido a última oportunidade de alcançar um desenvolvimento convergente.
Posteriormente, quando confrontadas com uma tentativa tardia, ainda que limitada, de incorporação das massas durante as décadas de 2000 e 2010 sob os governos do Partido dos Trabalhadores, tentativa que poderia ter criado um mercado interno mais amplo e próspero e, crucialmente para as elites, comprado a paz social, optaram por retirar o partido do poder por meio de um golpe institucional. Essa ruptura constitucional integrou uma sequência de acontecimentos que culminou com a prisão, acusação e condenação de Luiz Inácio Lula da Silva, então líder nas pesquisas para a eleição de 2018, em um julgamento considerado apressado e parcial pelo autor.
A mesma elite que celebrou o lawfare encontrou-se depois diante de uma “escolha difícil” no segundo turno de 2018: entre um candidato tecnocrático de centro-esquerda, Fernando Haddad, e um ex-capitão do Exército descrito pelo autor como sociopata, Jair Bolsonaro. Diante das riquezas naturais do país, de sua cultura admirada e amplamente compartilhada, apesar de tudo, e de algumas das maiores taxas de crescimento econômico do mundo ao longo de décadas, ao contemplarmos a sociedade dualizada do Brasil contemporâneo, esse ornitorrinco monstruoso, somos levados, segundo o autor, à conclusão de que o Brasil possui a pior elite do mundo.
A elite brasileira, contudo, famosa por viver em condomínios fechados protegidos por seguranças privados, não passa de uma versão mais grotesca das elites das “democracias ocidentais avançadas”. A recusa em assumir responsabilidade pela sociedade encontra sua expressão mais extravagante nos projetos de cidades flutuantes (seasteading) defendidos por Peter Thiel. Contudo, esse processo encontra-se distribuído de forma muito mais ampla e impessoal por todo o Ocidente.
Quando a classe dirigente brasileira opta por uma soberania reduzida para preservar sua posição dominante em meio a profundas desigualdades, deveríamos enxergar sua imagem especular na União Europeia. O bloco é interpretado pelo autor como uma “constituição econômica” concebida para impedir que a política interfira na regulação dos mercados, cristalizando determinadas escolhas políticas. Quando as elites nacionais optam pela integração ao bloco, apesar daquilo que o autor caracteriza como uma espiral neoliberal de declínio, trocam a autonomia nacional e, com ela, a responsabilidade política pelos resultados sociais.
Basta observar, segundo essa interpretação, o desespero das elites italianas em permanecer na zona do euro, apesar das dificuldades econômicas que isso imporia ao país e da destruição de qualquer perspectiva futura. Assim como as elites brasileiras desejariam transferir-se permanentemente para Miami, durante muito tempo considerada a capital da reação latino-americana, também as elites globalizadas da Europa e da América do Norte desejariam escapar das massas que supostamente as “atrasam”. As elites italianas gostariam de ser alemãs; os britânicos favoráveis à permanência na União Europeia fariam o mesmo; e as elites liberais norte-americanas gostariam de ser europeias, ou ao menos desejariam que a chamada flyover country dos Estados Unidos simplesmente desaparecesse.
Em nenhum lugar, exceto talvez na China, encontramos classes dirigentes empenhadas em perseguir algum tipo de “projeto nacional”, algo que implique e procure integrar as massas à comunidade política. Na medida em que as elites neoliberais possuem algum projeto para além da administração de crises de curto prazo e do governo mediado pela mídia, esse projeto é sempre antinacional.
O presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, que vendeu empresas estatais estratégicas a investidores por valores considerados baixos durante a década de 1990, estava, segundo o autor, correto desde o início: não se pode confiar na burguesia nacional.
Da Desindustrialização à Morte do Estado
O desaparecimento crescente de um “nexo moral” na sociedade contemporânea está intimamente ligado ao que deveríamos chamar de fim da modernização. Vivemos, segundo o falecido marxista alemão Robert Kurz, em sociedades pós-catastróficas. Em The Collapse of Modernization, escrito nos momentos finais da Guerra Fria, Kurz critica duramente os regimes do bloco oriental. Para ele, a manutenção da produção de mercadorias e do trabalho assalariado significava que aquelas não eram sociedades comunistas, mas sim regimes de capitalismo de Estado, semelhantes aos que haviam sido essenciais para impulsionar a acumulação capitalista durante a transição do feudalismo para o capitalismo, bem como para promover a industrialização tardia, como os projetos conduzidos por Otto von Bismarck no século XIX, pela Restauração Meiji ou pela Coreia no século XX.
Em meados do século XX, contudo, o aparato estatal do chamado “socialismo realmente existente” já havia cumprido sua função de coletivizar a agricultura, criar um proletariado urbano, impulsionar a industrialização e tarefas semelhantes. Por isso, acabou ficando para trás em relação às sociedades capitalistas ocidentais, organizadas sobre a base mais produtiva da concorrência, e não do comando burocrático.
A crise que atingiu seu ápice no fim dos anos 1980 no Leste Europeu foi, portanto, apenas o segundo episódio de uma crise mais geral, uma crise que havia atingido primeiro o Sul, o antigo Terceiro Mundo. As crises da dívida marcaram o fim do processo de modernização por meio do qual os países pobres podiam esperar alcançar os desenvolvidos.
No final da década de 1960, a experiência fordista brasileira já começava a se esgotar, e, com ela, a possibilidade de integrar as massas por meio do trabalho. A desindustrialização “prematura” passou a caracterizar o Brasil nas décadas seguintes: a participação da indústria no PIB caiu pela metade desde seu pico em 1985, enquanto sua participação no emprego recuou de mais de 15% para cerca de 10% atualmente. O Brasil é hoje, sobretudo, uma economia de serviços, na qual os pobres das periferias urbanas dispõem de poucas perspectivas de ascensão por meio dos mecanismos anteriormente disponíveis às classes trabalhadoras da Europa Ocidental e da América do Norte: emprego estável e o poder de barganha que dele poderia derivar frente aos empregadores.
Esse processo, contudo, não ocorre automaticamente; ele exige ação política. As regulamentações trabalhistas corporativistas brasileiras sobreviveram ao neoliberalismo até que o Partido dos Trabalhadores foi removido do poder por meio do que o autor descreve como um golpe institucional em 2016. O governo interino resultante, cuja aprovação teria atingido apenas 1%, rapidamente desmontou essas proteções, permitindo terceirização irrestrita, inclusive das atividades-fim das empresas, ampliando significativamente a precarização do trabalho que já estava em curso.
Não é necessário olhar muito longe para encontrar movimentos semelhantes em outros lugares. A aprovação da Proposição 22 na Califórnia, considerada a iniciativa eleitoral mais cara da história, permitiu que empresas como a Uber continuassem classificando seus trabalhadores como contratantes independentes, eximindo-se da obrigação de fornecer benefícios trabalhistas. A empresa, como muitas outras de seu tipo, seria um exemplo daquilo que o economista John Kenneth Galbraith chamou de bezzle, uma forma de fraude legalizada. Mais uma vez, o lícito e o ilícito aparecem como duas faces da mesma moeda; é nesses espaços cinzentos que o oportunista prospera.
O ataque aos direitos trabalhistas caminha lado a lado com uma crise da valorização do capital. À medida que o capitalismo contemporâneo encontra dificuldades crescentes para gerar lucros a partir da atividade produtiva, ele se volta para a financeirização. Cada vez menos trabalhadores no Ocidente participam de atividades econômicas que produzam novo valor. Essa crise da sociedade do trabalho, ou da modernização baseada no trabalho formalizado, começou no Terceiro Mundo, atingiu depois o Segundo Mundo e agora alcançou também o Primeiro Mundo. Com ela, definham igualmente os sonhos de prosperidade de massa, autonomia nacional e integração social.
Se o Brasil colonial, uma sociedade estruturada em torno da extração econômica direta, esteve na vanguarda do capitalismo, o Brasil contemporâneo encontra-se agora na vanguarda da crise da modernidade. A brasileirização não significa tornar-se atrasado. Tampouco significa importar algo estrangeiro. O Brasil simplesmente expressou mais cedo formas e tendências de desenvolvimento social que são imanentes ao próprio mundo social dos países ricos.
O futuro verdadeiramente sombrio que o Brasil teria a oferecer ao restante do mundo é o colapso da autoridade estatal. Embora sejam amplamente conhecidas as facções do narcotráfico que controlam territórios nas favelas e periferias, menos conhecida é a expansão das milícias, grupos paramilitares formados por policiais fora de serviço que operam esquemas de extorsão e esquadrões da morte.
A ascensão de atores não estatais tornou-se uma preocupação central desde a era da alta globalização e da chamada “Guerra ao Terror”. Entretanto, a diminuição da soberania não constitui apenas um problema “lá longe”, nos Estados fracassados do Sul Global. Menos violenta e mais legalizada, a negociação entre governos municipais dos Estados Unidos e grandes empresas de tecnologia, tratadas como se fossem entidades soberanas, conta uma história semelhante.
A Brasileirização do Mundo
A modernização, em toda parte, significou a destruição dos antigos vestígios feudais no campo, a urbanização e a incorporação das massas por meio do trabalho formal em uma sociedade em processo de industrialização. Esse processo deveria generalizar a riqueza e a cidadania ou, ao menos, formar um proletariado urbano que lutaria por esses direitos, conquistando concessões e, desse modo, disciplinando as elites. Ele deveria erradicar relações patrimonialistas e clientelistas. A política tornar-se-ia mais regularizada, organizada segundo linhas ideológicas, produzindo efeitos benéficos sobre o Estado e sua burocracia, pelo menos nos países mais avançados.
O desmonte da modernização por meio de seu principal mecanismo, a desintegração do emprego formal e a ascensão da precarização, está na raiz de todo o fenômeno da “brasileirização”: crescimento da desigualdade, fortalecimento da oligarquia, privatização da riqueza e do espaço social e declínio da classe média. Sua dimensão espacial e urbana é sua manifestação mais visível, expressa no desenvolvimento de centros urbanos gentrificados e no deslocamento dos excluídos para as periferias.
Em termos políticos, a brasileirização significa patrimonialismo, clientelismo e corrupção. Em vez de enxergarmos esses fenômenos como aberrações, deveríamos compreendê-los como o estado normal da política quando o progresso econômico amplamente compartilhado deixa de estar disponível e a esquerda socialista já não consegue atuar como força de contrapeso. Foi o proletariado industrial e a política socialista que mantiveram o liberalismo relativamente coerente consigo mesmo e impediram que as elites instrumentalizassem o Estado exclusivamente em benefício de seus próprios interesses.
A “revolta das elites”, sua fuga da sociedade, fisicamente para espaços privados fortemente protegidos, economicamente para a esfera das finanças globais e politicamente para arranjos antidemocráticos que terceirizam responsabilidades e reduzem a prestação de contas, produziu Estados neoliberais esvaziados. São sistemas políticos fechados às pressões populares, mas abertos àqueles que dispõem dos recursos e das redes necessárias para influenciar diretamente a política. A consequência prática não é apenas a corrupção, mas também a formação de Estados incapazes de executar políticas de desenvolvimento de longo prazo, inclusive medidas elementares que poderiam estimular o crescimento econômico, como a redução das desigualdades regionais. O fracasso estatal durante a pandemia constitui apenas o exemplo recente mais evidente.
A história pouco gloriosa do Brasil, marcada pela irresolução e pela indeterminação, combinada com uma sociedade dualizada na qual a sobrevivência depende frequentemente da capacidade de improvisar e se adaptar, deu origem ao cinismo brasileiro. Cada vez mais, o Ocidente parece reproduzir esse mesmo padrão. Não apenas parece inexistir uma saída para a estagnação capitalista, como a política é caracterizada por um vácuo crescente entre povo e política, cidadãos e Estado. A relação da classe dirigente com as massas é marcada pela condescendência. As elites classificam qualquer pessoa que se revolte contra a ordem contemporânea como racista, sexista ou mediante algum outro rótulo deslegitimador. Também recorrem a teorias conspiratórias extravagantes para explicar por que os eleitores deixaram de votar em seus candidatos preferidos, fenômeno particularmente visível no caso do “Russiagate” nos Estados Unidos e em outros países. Esse fenômeno, denominado pelo autor de Síndrome de Colapso da Ordem Neoliberal (Neoliberal Order Breakdown Syndrome), apenas alimenta ainda mais o cinismo das populações ocidentais, que passam a aderir cada vez mais às suas próprias teorias conspiratórias.
Essa é outra especialidade brasileira: em um país marcado por baixos níveis de confiança institucional e por numerosos exemplos históricos de conspirações reais, as teorias conspiratórias florescem com facilidade.
As revoltas contra o establishment, quando não são impulsionadas por delírios semelhantes aos associados ao QAnon, recorrem à arma da antipolítica, por meio da qual não apenas a política formal, mas também a própria representação política e a autoridade institucional são rejeitadas. A antipolítica tende a produzir dois resultados possíveis. O primeiro é a deslegitimação da própria democracia, conduzindo a formas de governo autoritárias. O segundo ocorre quando tecnocratas procuram aprender com os populistas, retornando à cena política prometendo o fim da corrupção e mudanças reais. O resultado, porém, costuma ser o mesmo: uma política distante, desconectada da população e incapaz de responder às causas que originalmente produziram as revoltas antipolíticas. A história brasileira entre 2013 e 2019 constitui, segundo o autor, a expressão mais pura e cristalizada dessa dinâmica. Contudo, o mesmo padrão também pode ser observado no Movimento Cinco Estrelas na Itália, nos protestos anticorrupção que antecederam a ascensão de Viktor Orbán na Hungria, na trajetória política de Donald Trump e na tentativa tecnopopulista de Boris Johnson de administrar o Brexit.
Sociedade do Vazio
Como poderia ser uma resposta à brasileirização? Talvez estejamos assistindo a um movimento em direção a um Estado mais protetivo, mais zeloso na defesa de sua soberania e mais disposto a oferecer aos cidadãos uma relação de caráter paternal. Claramente, a pandemia parece ter impulsionado tendências nessa direção, com programas de apoio estatal e transferências diretas de renda aos cidadãos marcando os primeiros meses do governo de Joe Biden. Mas o Estado também está se transformando de outras maneiras. As condições cada vez mais restritivas para a lucratividade parecem estar conduzindo a uma interligação crescente entre poder político e poder econômico, aprofundando um processo que tem sido denominado “acumulação por espoliação” (accumulation by dispossession). Até mesmo Robert Brenner, um dos principais estudiosos da transição do feudalismo para o capitalismo, sugeriu que talvez estejamos atravessando uma transição do capitalismo para algo inteiramente diferente.
O auge da globalização, tanto em suas relações econômicas quanto em sua dimensão ideológica, já ficou para trás. Entretanto, a dualização da sociedade e a “flexibilização” do trabalho continuam avançando rapidamente. Sem dúvida, as “elites em revolta” podem concluir que as coisas apenas piorarão daqui em diante e procurar isolar-se ainda mais das consequências sociais de suas decisões.
Mais do que isso, a crescente dualização das sociedades ocidentais cria uma verdadeira sociedade do vazio: o vazio entre os vencedores da nova economia e o restante da população, e o vazio entre o Estado e os cidadãos. Os temores em relação ao populismo, as reclamações sobre a incompetência burocrática, a falta de liderança e a volatilidade e incoerência generalizadas da política, preocupações frequentes das elites econômicas, são sintomas desse vazio. Seria prudente que elas se lembrassem disso.
É nesse contexto que surge o debate sobre o neofeudalismo, caracterizado por quatro traços interligados que apresentam semelhanças com a brasileirização: soberania fragmentada, novos senhores e novos servos, hinterlandização e catastrofismo. O argumento desenvolvido pelo autor, porém, é que o que estamos testemunhando não constitui um retorno do antigo. Trata-se, ao contrário, da manifestação de tendências imanentes à própria modernidade capitalista. Interpretar a globalização de condições sociais degradadas e a crescente dependência do capitalismo em relação ao Estado, fenômenos que há muito tempo constituem realidade nas periferias globais, como um retorno ao “feudalismo” seria não apenas equivocado, mas também eurocêntrico. Ainda assim, se estamos realmente vivendo o fim da sociedade do trabalho e do processo de modernização que a acompanhava, com todas as consequências inevitáveis para a integração social e política, então o capitalismo dependerá mais do que nunca do Estado. Não apenas para regulamentação e provisão de infraestrutura física e jurídica, mas também para participar diretamente da extração de valor ou da garantia de lucros, seja mediante a transferência de riqueza para os estratos superiores da sociedade, seja por meio da criação de escassez artificial.
Mas seria esse um arranjo estável? A turbulência ininterrupta do Brasil desde 2013 começou quando os brasileiros se cansaram da mera “inclusão pelo consumo”. É evidente que a deriva contemporânea não pode prosseguir indefinidamente. As transferências de renda podem comprar tempo para as elites, assim como o consumo financiado por endividamento privado comprou tempo durante as últimas décadas, enquanto os salários permaneciam estagnados.
O mundo pós-pandemia, contudo, não encontrará estabilidade facilmente. Os fracassos estatais brasileirizados nas nações mais ricas e poderosas do planeta tornaram-se visíveis para todos. No fim do Fim da História, protestos, revoltas e levantes transformaram-se em um fenômeno global, talvez anunciando uma insurreição mais ampla. A mera denúncia das elites não será suficiente. Será necessário assumir coletivamente o controle de nosso destino e a responsabilidade por nosso futuro, para que mais uma onda de agitação popular não termine, mais uma vez, em pizza.
Este artigo foi publicado originalmente na revista American Affairs, vol. V, n.º 2 (verão de 2021), pp. 93–115.
Referências:
1 Douglas Coupland, Generation X: Tales for an Accelerated Culture (New York: St. Martin’s, 1991).
2 See, for instance, Ulrich Beck, The Brave New World of Work, trans. Patrick Camiller (Cambridge: Polity, 2010).
3 Leonardo Belinelli, “O marxismo e as interpretações do Brasil: o caso do Seminário d’O Capital,” III Semana de Ciência Política UFSCar—Democracia, Conflito e Desenvolvimento na América Latina.
4 Roberto Schwarz, Misplaced Ideas: Essays on Brazilian Culture (London: Verso, 1992).
5 Adrian Johnston, Žižek’s Ontology: A Transcendental Materialist Theory of Subjectivity (Evanston, Ill.: Northwestern University Press, 2008).
6 Luiz Philipe de Caux and Felipe Catalani, “A passagem do dois ao zero: dualidade e desintegração no pensamento dialético brasileiro (Paulo Arantes, leitor de Roberto Schwarz),” Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 74 (2019): 119–46. Author’s own translation, emphasis added.
7 Paulo Arantes, “A fratura brasileira do mundo,” in Zero à esquerda (São Paulo: Conrad, 2004).
8 Francisco de Oliveira, Crítica à razão dualista/O ornitorrinco (São Paulo: Boitempo, 2003).
9 Francisco de Oliveira, “The Duckbilled Playtpus,” New Left Review no. 24 (Nov./Dec. 2003).
10 Roberto Schwarz, “Prefácio com perguntas,” in Francisco de Oliveria, ed., Crítica à razão dualista/O ornitorrinco (Boitempo, 2003).
11 Francisco de Oliveira, “The Duckbilled Playtpus.”
12 Roberto Schwarz, “Pressupostos, salvo engano, de ‘dialética da malandragem,’” in Que horas são? (São Paulo: Companhia das Letras, 1987).
13 The origin of the idiom merits a story on its own. The bosses of Palmeiras football club in São Paulo, a historically Italian-descendant club, had an almighty row, requiring a fourteen-hour meeting to resolve. At some point, eighteen large pizzas were ordered, along with beer and wine. After feasting, tensions were resolved and they managed to come to a big messy compromise. It all ends in pizza.
14 Loïc Wacquant, “America as Social Dystopia” and “Inside the Zone,” in Pierre Bourdieu, et al., The Weight of the World: Social Suffering in Contemporary Society (Stanford: Stanford University Press, 1999).
15 There’s a similarity here with a former dictatorship-era São Paulo governor and mayor, Paulo Maluf, who ran on the slogan rouba mas faz (he steals but he gets things done). Contemporary populists wishing to call out the hypocrisy of liberal technocrats, while justifying their own corruption, should take note!
16 Francisco de Oliveira, “O adeus do futuro ao país do futuro: uma biografia breve do Brasil,” in Brasil, uma biografia não autorizada (São Paulo: Boitempo, 2018).
Alex Hochuli é escritor freelancer e consultor de pesquisa radicado em São Paulo. É coapresentador do podcast de política global Aufhebunga Bunga e coautor do livro The End of the End of History (Zero Books, 2021).
Link do artigo original: https://americanaffairsjournal.org/2021/05/the-brazilianization-of-the-world/
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