Badiou: Ser feliz


Nota de tradução

O presente texto é uma breve tradução do inglês dum discurso realizado por Badiou, enquanto leitura palestral, na Nexus Conference de 2012, entitulada “Como mudar o mundo?”, o qual está disponível no YouTube, em: https://youtu.be/oEY14y4jThY?is=8lS8_Agd9pAnfhVo.

— Straw

Ser feliz

Então, retorno, pois, ao meu assunto original: “Como mudar o mundo?” — Minha resposta é: tornando-se parte subjetiva das consequências do evento local — tornando-se parte subjetiva das consequências do evento local duma maneira diferente. 

Apaixonar-se pode mudar o mundo, mas isto precisamente para tornar-se em parte subjetiva das consequências do evento local, através da criação duma equivalência entre liberdade e disciplina — não uma oposição, mas o ponto onde ser obstinado para fazer algo é o mesmo que a liberdade. Também através da invenção duma nova forma de felicidade, o que é uma vitória contra a potência da morte, que é a potência dos pacientes para permanecerem em seus respectivos lugares.

Num momento muito importante da Revolução Francesa — da Grande Revolução Francesa —, um dos grandes atores e pensadores desta sequência de balanços políticos, Saint-Just, disse: “A felicidade é uma ideia nova na Europa.” — a felicidade é uma ideia nova na Europa... Talvez nós devamos criar as condições para dizer a mesma coisa.

Nós sabemos que algo está mudando o mundo quando nós experienciamos que a felicidade não é o fim pré-determinado do movimento, mas a subjetivização inventiva do movimento ele mesmo. Esta foi, na verdade, uma ideia fundamental de Marx. Para Marx, após algumas revoluções e eventos em 1848 e afins, no meio do Século XIX, o nome duma nova possibilidade de justiça coletiva era, como vocês sabem, comunismo. Mas Marx escreveu, ainda novo, nos Manuscritos de 1844: “O comunismo não é o programa duma nova sociedade, ou uma ideia abstrata de justiça. 'Comunismo' é o nome do processo histórico de destruição da velha sociedade.” Então, vocês podem perceber, a mudança não é para alcançar algum resultado. O resultado habita na própria mudança, na forma dum novo sujeito.

Ou talvez, poderíamos dizer que a felicidade não é a possibilidade geral de satisfação. A felicidade não é uma ideia abstrata duma boa sociedade, onde todos são satisfeitos. "Felicidade" é a subjetividade duma tarefa difícil, de organizar as consequências de algum evento, e de descobrir, sob a existência triste do mundo, as possibilidades brilhantes duma realidade escondida deste mesmo mundo. Finalmente, podemos dizer, de gozar enfim da existência criativa poderosa, daquilo que do ponto de vista do mundo era impossível. A existência criativa poderosa do impossível é tal quando descobrimos a possibilidade deste impossível.

Então, como mudar o mundo? — a resposta é uma bem legal: sendo feliz. Não como um resultado da mudança, mas pela própria mudança. Mas nós precisamos pagar o preço dela, e o seu preço é estar, por vezes, insatisfeito. É na verdade uma escolha, entre a felicidade ou a satisfação. E essa é a escolha daquilo que vocês poderiam chamar da vida verdadeira

Talvez o mundo de hoje tenha vários problemas, mas a coisa mais importante é que o mundo de hoje propõe uma vida falsa, uma vida que é apenas a aparência duma vida. E portanto, fazer a escolha da felicidade contra a satisfação — em experiências locais, na criação artística, na invenção política, etc. — e estar numa nova liberdade, possui a sua disciplina, que se constitui em estar contra a satisfação em certa extensão. E então, estamos expostos à possibilidade de estarmos insatisfeitos em nome da felicidade — é um preço.

O poeta francês Arthur Rimbaud escreveu: “a vida verdadeira não está aqui. A vida verdadeira está ausente.” Apenas digo a vocês, que, apesar de tudo, vocês podem decidir pela vida verdadeira estar aqui, que vocês podem escolher pela vida verdadeira não estar ausente. Escolham a nova felicidade, e paguem o preço.

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