Nick Land: Filosofia Zero (1)
Sumário
Nota-comentário da tradução (Straw)
O Nada = 210
Niilismo esotérico
Micro-pesadelos
Batida dupla
Bastidores
O Cartunista
Nota-comentário da tradução
“Qualquer coisa da qual não se tenha tempo o bastante para, é um pedaço de morte.” (Bastidores).
“'Aí' — definitivamente — leva ao inimaginável.” (Batida dupla).
Centrada na temática do tempo, "o horizonte final de toda filosofia", a Filosofia Zero pretendeu realizar uma mistura entre ficção e teoria, entre horror e humor, de forma a serem indissociáveis um do outro, afundando, intencionalmente, num grande movimento de mistificação.
O blog teve seu início ao final de 2020, durante a pandemia, durando até setembro de 2021. Em 2023, Land retornou a ele para fazer o que parece ter sido a sua última postagem ali. O que há de se notar, porém, é que, diferente dos demais blogs feitos por Land anteriormente, como os XS (do qual recentemente publiquei uma tradução, que pode ser encontrada no link anexado logo abaixo), que eram dispersos, bagunçados e alternantes entre anotações, comentários, etc. de forma anárquica e desgarrada, aqui ele buscou e se esforçou por algo mais detido, elaborado e acessível ao leitor no decorrer dos textos, feito com mais calma e menos pressa. “Ao invés de spammar as pessoas em micro-intervalos absolutamente inconsciáveis, vou tentar amontoar as coisas um pouquinho mais. Uma articulação mais clara seria legal, mas (ainda) não tenho ideia de como fazê-la.” (Batida dupla).
A maior parte dos textos do blog, como o leitor verá, consistem em contos, mas não apenas neles: há também textos de teoria matemática, anotações rápidas (como é típico de seus blogs) e repostagens de textos antigos do UF. Assim como na publicação dos XS, pretendo lançar estas traduções seguindo a ordem cronológica dos textos.
Bem, eis a primeira parte da Filosofia Zero, até então sem nenhuma tradução publicada no Brasil. Daqui em diante, deixo o texto nas mãos do leitor. Uma boa leitura!
***
Os colchetes são adições minhas ou indicativos do termo usado no inglês. Optei por indicar toda vez que Land faz referência à Lado-de-forisse (Outsideness) ao longo do texto, quer como "Lado-de-fora" (Outside) em maiúsculas, quer como simplesmente "fora" (outside) em minúsculas.
Todos os textos aqui podem ser encontrados no seu idioma original em: https://substack.com/@zerophilosophy?utm_source=share&utm_medium=android&r=707636.
Tradução dos Xenossistemas (primeira parte): https://espartaquismo.blogspot.com/2026/06/nick-land-xenossistemas-1.html.
— Straw
O Nada = 210 [31/Out/2020]
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Vias para O Nada
A tradição abraâmica sob direção niilista talvez não seja o que qualquer um vá querer, mas é o que temos. O iconoclasma em aceleração transforma o mundo nO Nada. Nietzsche estava certo em interpretar a única história global como isso. Não há modo de sair disso porque este é ele mesmo o lado-de-fora [outside] máximo.
O Nada repele crença, não apenas psicológicamente, mas mais fundamentalmente. Mesmo aqueles que fariam dele na sua causa não conseguem fazê-lo. Assim ele zomba de nós, sem malícia. O Nada (sozinho) é sagrado. Nós conseguimos apenas respirá-lo — sempre inapropriadamente — em alvoroços malucos. Dessa maneira ele está aparentemente entretido.
A Filosofia Zero inclina-se a uma promoção explanatória do niilismo junto aos caminhos germinados da crítica, cabalismo, e ficção de horror. Alguns dos quais serão postados aqui em breve, e então numa reunião torrente, como o lançamento de destroços quebrados do fim do mundo.
Micro-pesadelos [03/Nov/2020]
Uma pequena desagradabilidade
O horror epitomiza a qualidade literária. Essa proposição — que seria típicamente julgada indefensável — é fundacional ao que se segue. Apesar de implausível, ela pode ser flutuada com resistência mínima no modo da meta-ficção. Isto funciona aqui como uma hipótese experimental, apoiando questões subsequentes.
O breve texto começando com isto submete-se a uma máxima diretiva. Em termos de palavra, não há afiação sem encurtamento. Aceite o quanto mais afiado, melhor como uma assunção complementar, e então a tarefa está posta. As linhas diretivas estão desenhadas. Aperte cada peça, como quer que colete as peças. O quão concisa poderia uma aberração última ser feita?
@dblbd quis perguntar por isso, há vários anos atrás. A conta começou impersonando-me, antes de virar abaixo diagonalmente, e eventualmente desaparecer. Em termos típicamente grandiloquentes e autobcecados, Double-Bad tweetou: “A menos que a essência dum pesadelo possa ser capturada num tweet, essa TL [(Timeline)] merece morrer.”
Um 'tweet' possuía [um limite de] 140 caracteres naquele tempo. Talvez não fosse necessário ser tão estrito assim. (A plataforma por si só logo deixou de ser.) Notávelmente, de qualquer maneira, o caso a ser introduzido à frente conseguiu fazê-lo com 63 caracteres sobrando. Não há nada essencialmente extremo sobre a ambição.
Há várias maneiras de visar o problema assim introduzido. Talvez seja perguntado, por instância: Isto é fundamentalmente a respeito de nomes? Um foco sob a invocação leva a essa direção. Há muito de interesse a ser descoberto dessa maneira, no seu devido tempo. Nomes são especialmente adequados à função dos micro-compressores semióticos. Em nenhuma outra forma de signo linguístico a quantidade de trabalho por letra pode ser otimizada comparávelmente. Qualquer nome não-genérico toca sob as infinitudes da singularidade. Nomes, também, podem ser horrorizantes.
Ainda assim, aproximações alternativas possuem uma precedência mais forte. Fredric Brown pôs este padrão em 1948, com Batida [Knock], baseado numa ideia (de menor compressão) de Thomas Bailey Aldrich. Brown introduz sua história com uma micro-narrativa completa. Ela possui 17 palavras ao todo.
“O último homem na Terra se sentou sozinho num quarto. De repente ouviu uma batida na porta...”¹
A perfeição destas sentenças borra o pensamento. Toda partícula linguística é exatamente necessária.
Não há nomes exceto pelo da Terra. Nenhum nome exótico, portanto. Não há nem sequer palavras longas ou incomuns de qualquer gênero. Uma simplicidade impressionante é atingida.
A simplicidade de Brown sugere que algo como uma ideia vem antes. O que é conciso, ao início, é o cenário. Há uma situação, e então algo acontece. Isso é tudo. A tarefa não oferece espaço para nada além disso. A questão, portanto, é se isto pode ser contido em ainda menos. Uma história despojada por menos de duas sentenças é algo compreensível?
Operar dessa maneira pede por uma economia austera de indicações. Escarçamente qualquer coisa que o seja é dada. A massa obscura é sugerida. A inferência carrega seu momentum.
O que bate na porta? Poderia somente ser algo que não é homem algum, nos foi contado. Portanto é feito evidente — e isso é aproximadamente o todo do que é feito evidente — que um encontro com o inumano é iminente. O desconhecido é formado, mas não preenchido. Sua caracterização negativa predomina (ele não é um homem). Sua única característica positiva é que ele bate na porta. Nisso, ele imita um homem, quer incidentalmente ou estratégicamente. Ele faz o que apenas um homem faria, mesmo não sendo um.
Nada mais nos é mostrado. A elipse suspende o evento por vir. Uma sentença quebrada introduz o inimaginável. O horror consumado é atingido.
Ele quer entrar, ou ao menos pede para ser convidado. Nesse momento educado, o terror potencial é transmutado em horror. O que quer dizer que uma violência chocante não é envolvida, mas, ao invés, algo inexplicável [uncanny]. A ameaça é elevada adiante para o desconhecido.
Mesmo a violência mais insensível é imaginável. Tal pedido por admissão, em contraste, não faz sentido. Meramente perguntar: “O que ele quer?” é presumir demais. Talvez mesmo "ele" presuma demais. Se, no fim, o demais terá inescapávelmente sido presumido, [então] há uma passagem à crise cognitiva — que é o horror ele próprio.
Algo como uma narrativa de horror arquetípica completa a si mesmo nessas poucas palavras. Todo elemento de alienígena, imitativo, intruso é esboçado, no suspense. Exceto pela concisão radical, nada é perdido.
Algumas conclusões sugerem a si mesmas, esticando o fio. Por exemplo, o suspense leva tempo. Seria certamente razoável presumir que o comprimento da narrativa foi aproximadamente proporcional à sua tensão potencial. Há coisas — o que inclui também coisas horríveis — que não podem ser feitas rapidamente. Isso, porém, deixando de lado um breve apêndice cabalístico, é feito agora.
Alguns números da Batida:
[Knock: “The last man on Earth sat alone in a room. There as a knock on the door...”]
Dez mais sete, trinta e dois mais vinte e três, são as peças da aritmética mais elementar, contando palavras, e então calculando letras.
Alfanomicamente, o homem conta como 55. Procedendo com o mesmo método numérico, esse 5 + 5 ecoa nos dedos, ou digitais, que fazem dele num animal decimal. O modelo para partes incongruentes é encontrado na mão.
O cinquenta e cinco é quebrado aqui por um espelho assimétrico (32 + 23). Assim o conto em miniatura é recontado em números. O homem inclui o que deveria ser a sua autorreflexão, mas não é. Tais incorrespondências sutis capturam um horror essencial.
Por coincidência eu encontrei Números 32:23 numa novela de Bernard Cornwell essa semana. Porém, se não fizerdes assim, eis que pecastes contra o SENHOR; e sabei que o vosso pecado vos há de achar. Talvez isto devesse me dizer mais do que aparenta.
—
[1] No original: “The last man on Earth sat alone in a room. There as a knock on the door...”. Mantive aqui o total de 17 palavras do texto. Ao invés, porém, dele totalizar 55 caracteres, aqui foram 77.
Batida dupla [9/Nov/2020]
Do Toc ao Toc-Toc
A cena preliminar pode ser vista como uma séance. Dentro do quarto a iluminação está escurecida quase que ao negro. Um círculo de pessoas esperam por um sinal. Elas esperam por algum tipo de performance — talvez um truque, ou até mesmo uma piada. O contato é procurado. O canal preferido está 'batendo na mesa' — como foi desdenhosamente percebido. Nada acontece no início, ou por certo tempo. Então, um anúncio abstrato e percursivo provoca a questão.
“Quem está aí?”
“Isso é uma piada?”
Bem, agora não é, ele pensou, despertando do delírio. A cena se dissolve em névoa. Ela havia quebrado aquilo logo de início. Esta foi uma resposta boa e defensiva — um movimento de bloqueio. Quem sabe ela sobreviveria.
Ainda, fora [outside] do velho filme, algo se anunciava. Algo quem? Como se isto pudesse em alguma circunstância ser um nome. É natural hesitar. Responda “Quem está aí?” e você já perdeu. Após isso, aquilo já tem a sua atenção. “Você não entrará,” funciona melhor. Esta poderia ser pensada como uma ótima resposta inicial. “Vá embora” bastaria, alguém poderia pensar. Apenas se a tentativa de intrusão fosse menos insistente. Em qualquer caso, a coisa importante é não mostrar interesse algum. Afogue de volta a questão. Eles contam com a sua sede desesperada por saber.
“Quem está aí?” não seria por si só um movimento de bloqueio? A alternativa, poderia-se argumentar, seria simplesmente abrir a porta. A questão é uma checagem de segurança. “Identifique-se,” demanda. O tácito neste pedido é uma restrição, ou qualificação de acesso. Há aí um teste. Uma identidade aceita funcionará como uma senha.
A questão seguinte, “X quem?”, reforça a barreira. Um protocolo de segurança de duas etapas é demonstrado. (Dupla-checagem por Quem-1 e Quem-2.) Bizarramente, o procedimento é destinado ao fracasso.
“Com toda a seriedade, sua segurança é uma piada.”
Mesmo que bata, bater significa apenas bater duas vezes, isto já anuncia uma insistência. Isto também faz mais. A segunda batida, como simples reiteração, abrevia o incessante. Acontecer novamente abre portas à potencial recorrência sem limite.
A perfuração nas palavras complica seu ritmo. A aplicação de ferramentas de pesquisa exóticas para esse caso é recompensada em abundância.
Aquilo era, ela supôs, meta-repetitivo. Haviam duas batidas em tom baixo, a cada vez. Ela descobriu a entidade onomatopéica da batida e virtualmente a decompôs. Os demais pilares logo revelaram-se redundantes. Letras silenciosas repetidas produziram reverberações ocas. Era uma palavra que parecia ondular para além duma vogal nuclear chata. Esta manifestou-se como uma explosão de duplicações malucas. Algumas delas eram óbvias, outras nem tanto. Pulsões escondidas viajavam através delas.
A linguagem não consegue ser muito mais ritualizada do que isso. A fórmula é estrita. Cada uma das cinco falas é codificada. As duas primeiras são costringidas com uma rigidez cerimonial absoluta. A terceira demanda um fator de input. A quarta é uma resposta mecânica à terceira. Na quinta fala — ou punchline — tudo se reúne. Qualquer coisa subsequente está fora do roteiro.
O recipiente da piada não tem liberdade. Ele não gera surpresa ou informação alguma. A instrução é culturalmente tácita. Ela funciona como um Teste de Turing invertido. Finja ser um robô. (Recíprocamente, o piadista finge ser um humano.)
Macbeth talvez seja a fonte (Ato 2, Cena 3). “Toc-Toc! Quem está aí,” pergunta o porteiro como um refrão.
“Eles querem te enganar,” ela diz nervosamente. “Eles estão tentando entrar.”
Eles quem? “Como você poderia saber disso?” ele pergunta. Sua afirmação soou paranóica. Uma batida mau explicada, e de repente alienígenas estão invadindo? A interpretação foi hiperbólica. “Por que qualquer coisa que o seja iria querer entrar?”
“Saiba quem está aí, e saberás do porquê.”
Batida dupla [Double tap] é uma gíria para um assassinato em estilo de execução. Ela abrevia a entrega de dois tiros de baixo calibre na parte traseira do crânio. Há ecos de toc-toc aí. Sem dúvida, em alguma medida, isto é apenas uma coincidência. Mas isto também soa correto.
A ogiva cômica é quase invariávelmente um trocadilho (ou paranomásia). Ela reside típicamente em homófonos. Mais comumente, algué [something-hoo]¹ provoca um cruzamento semântico. A troca de sinais deve levar à diversão, se apenas muito raramente causar risos. A culminância é comparável a uma hash collision.²
Alguém acha essas coisas engraçadas? Piadas de toc-toc são esteriotípicamente ruins. O formato impede sofisticação comédica. Sua evocação-modelo é um arzinho pelo nariz. O humor está sendo emulado, ao invés de produzido.
Toc-toc
Quem está aí?
Noah.
Noah quem?
Noah seu inimigo.
Ninguém vai sinceramente achar isso divertido. Em primeiro lugar, simplesmente não é engraçado. Não é nem mesmo triste. Em segundo, é demasiado cego. Quem quer ser ameaçado como diversão? Nós retornamos, por conseguinte, à característica do gênero. Quase irrespectiva em qualquer potencial de divertir, uma piada de toc-toc pode ser correta.
Elas nunca são especialmente engraçadas. Alguém em qualquer momento que o seja riu duma piada de toc-toc? Isto deve ser raro. Soltar um arzinho pelo nariz é mais típico. Elas não foram designadas para te fazer 'rachar de rir' mas, ao invés, rachar algo aberto. Uma rachadura segura é quase divertida.
Ainda sim, humor — mesmo que um humor meramente formal — que deixa as coisas entrarem. Ao subtrair solenidade, evita atenção crítica. É para isso que os bobos servem — para repassar mensagens.
A obsessão dela com esse não-senso havia obscurecidamente deixado ele para baixo. Agora ele havia atingido o capítulo do horror da história chamado O Arzinho. Essa era a pior parte. O humor quebrou ali. Este não envolvia palhaços, mas quase talvez o tenha. Piadas revividas cambaleavam através disso.
“Toc-toc” significa primáriamente: algo está tentando entrar. O que quer que seja, pede por um convite. Bater na porta seria completamente diferente. (Um 'batedor de porta' é um serviço de sinalização análogo a um estacionário, não um battering-ram.) Então nós sabemos, desde o começo, que há uma porta. Todo o processo toma lugar aqui. Ele põe o palco. Mais do que isso, é o todo do palco.
O ritual social tácitamente referenciado é preliminar à oferta de permissão. Pode entrar. Entre. Essas frases são exteriores à piada, mas elas a assombram. Elas apenas pertencem além da sua periferia. O objeto é a entrada. Piadas de deixe-me-entrar não seriam uma tradução terrível.
Os antropólogos falam de ritos de passagem. Eles não significam nada do gênero, ou, ao menos, não pretendem. Pode ser afirmado confidentemente, de qualquer maneira, que não existe rito de passagem mais definitivo do que a piada do toc-toc. A fase final da infância é seu absoluto domínio. Ninguém realmente 'saca' elas depois disso. Quem mais conta elas?
Num primeiro momento, semanas antes, ele atribuíra a batida a travessuras infantis. A estúpida piada enfureria-o. Ela continuava voltando, mais insistentemente a cada vez. Toc-toc, batia. Ele procurou primeiro por ignorá-la. Nada aconteceu então, por um tempo. Ele aguardou, na beirada. O silêncio estressado durou apenas alguns minutos. A percussão espectral assombrava. E então o som, novamente, retirando seu substituto fantasmático. Duas batidas³, exatamente. Não haveriam mais, não ao mesmo tempo, ele compreendeu. Essa era a assinatura. A pausa, agora, era parte da performance. Era suspense feito em audível.
Ele crepitou por todo o salão silenciosamente, e abriu escancaradamente a porta. Não havia ninguém ali. A batida se repetiu. Apesar dele ainda não estar bem enlouquecendo, aquilo lhe deu uma boa visão do que seria enlouquecer. A intermitância era marcada ao cronograma da tortura de água. Sua persistência havia se tornado num trovão silencioso, durando além de toda tolerância. Logo ele teria de gritar. Ou, ainda pior, ele iria chorar perguntando “Quem está aí?”
Havia outra porta, agora ele compreendera. Ou melhor, ele compreendera o fato, se não completamente a ideia. A ideia fora posta num ângulo incompreensível. Ela estendeu-se longe demais. O outro lado da porta havia sido removido por uma assimetria fundamental. O lado-de-dentro [inside] era acessível ao lado-de-fora [outside] duma maneira inimigável à ordem cognitiva humana. Sua mente apertou à noção de verticalidade — ou elevação — enquanto caía no abismo de sua própria insuficiência. Ela, em fato, não havia contorcido-se para cima, mas somente para fora.
O conto começou a ser preenchido, tardiamente. Ele havia perdido a batida, num primeiro momento, porque uma rota extraordinária indireta havia abafado-a. Ela havia o atingido pelos cantos — figurativamente falando. Não era uma virada que alguém poderia tomar, mesmo em imaginação — talvez em imaginação abaixo de tudo. 'Aí' — definitivamente — leva ao inimaginável. Apenas não haveria sentido nisso, se a batida não fosse contra o mundo.
O filme de terror acertou. Eles rastrearam a ligação. Ela vinha de dentro da casa.
Uma versão quebrada da piada desenrolou na sua cabeça.
Toc-toc.
Quem está aí?
Aí, não, não de todo, mas aqui, com você.
***
Liber Qwyz foi limpo.
***
Ainda me adaptando a essa interface. Ao invés de spammar as pessoas em micro-intervalos absolutamente inconsciáveis, vou tentar amontoar as coisas um pouquinho mais. Uma articulação mais clara seria legal, mas (ainda) não tenho ideia de como fazê-la.
—
[1] Trocadilho com "who" (quem) durante a brincadeira do toc-toc no inglês. Não há como traduzir.
[2] Hash collision ou hash clash refere-se a quando dois códigos hash de programação compartilham o mesmo valor na tabela. Códigos criptografados, mesmo pretendendo-se resistentes à colisão, podem acabar por mapear códigos diferentes a um mesmo hash, gerando uma colisão, um choque.
[3] Aqui, Land comete um erro de digitação, escrevendo two raps ao invés de two taps. No Substack, uma vez publicado um texto, não há mais como editar depois.
Bastidores [17/Nov/2020]
Um conto de passatempo
Houve uma espécie de ultrapassagem. O que quer que tenha sido me deixou atordoado. Um ego lúcido era inatingível num primeiro momento. Uma respiração irregular esticou-se aos fins dum universo apertado.
“Então, estou morto,” eu decidira.
“Morto?” uma voz zombou, “difícilmente. Você não está nem sequer quieto.”
“Mas o corpo...”
“Aquela coisa?” elu disse¹. Uma espécie de risada se seguiu. “Ó, por favor!”
“Sou eu,” continuei, apontando ao corpo como um imbecil, mas minha convicção era alertante. “Esse era eu.”
“Claramente não,” elu murmurou. Um tom de tédio aparecia ali. “Era algo que você se confundia com, um avatar, como vocês dizem. Claro, você é por si mesmo a confusão inicial. O fato não poderia ser mais fácilmente óbvio.”
“E agora?” eu perguntei. Isto soou mais patético do que o pretendido. Por nenhuma boa razão, exceto se procurar por dignidade seja uma, eu re-frasei a questão. “O que vem em seguida?”
Quem ou o que eu sou então? Era isso que eu quis perguntar, mas acabou saindo errado. A voz com a qual eu conversei estava levemente gaguejando. Eu teria pensado que esta soara assustada.
Examinei minha companhia mais de perto. Elu era antropóide de forma geral, se bem que de certa maneira não-finalizade. A homogeneidade plástica de sua substância se parecia com cera. Seus olhos eram simples vazios, dos quais haviam três.
A identidade sexual do ser me escapava. Elu era, ao que parece, perfeitamente assexual.
Não havia nada remotamente desencarnado sobre minha condição. O corpo operante era um novo, a menos que toda memória não passasse dum truque. Era confortável demais até então, mas ao mesmo tempo convincente. Quando eu bati na parede gentilmente com um de meus novos dedos, todos os componentes da sensibilidade juntaram-se num só.
A câmara, apesar de não muito apertada, era quase. Parecia ter sido esculpida desde uma pedra bruta. Nenhuma costura, ou outro sinal de alvenaria, era visível. Túneis conduziam para fora dali, cada um em quatro direções. Nada óbviamente favorecia qualquer um deles.
Havia ali um tema egípcio antigo? Talvez eu tenha apenas imaginado isso. Acenos de hieróglifos corriam pelas paredes como sombras aracnídeas. Elas não paravam para serem fixadas sob. Imagens de jornadas amaldiçoadas piscavam entre as rápidas luzes. Deuses espectrais com cabeças de animais assistiam impassivamente.
Morte significa não ter tempo, e nada mais. Quando você está apressado, ao limite absoluto, é aí. Qualquer coisa da qual não se tenha tempo o bastante para, é um pedaço de morte. Tudo isso, em contraste, parecia despreocupado, ao menos no tocante ao tempo.
“Isso é um sonho?”
“Oh, poesia agora,” elu murmurou, evidentemente não impressionade. Elu quis dizer, suponho, que a descrição não fazia diferença alguma. Entre uma coisa, e um sonho dessa coisa, a distinção é inessencial. Sem alguma via definida de despertar, nenhum estado é significativamente qualificado pelo sono. Talvez, porém, eu tenha apenas adivinhado seus pensamentos.
A curiosidade dominou minha relutância. Fui em direção ao corpo na laje. O reconhecimento era obscurecidamente desestressante.
“O que deve ser feito com isto?”
“Isso não te interessa.”
Não fazia sentido o corpo estar ali. Eu tremia pela violação metafísica. Agora, finalmente, eu examinara minhas próprias mãos. Eu estava com medo de fazê-lo. Dobraduras explodiram recursivamente, até que eu parei.
“O que você é?” perguntei.
“Você não reconhece uma púlcera [dolh]?²” elu respondeu.
“Uma púlcera?” A palavra me era inteiramente estranha. Era de alguma maneira claro que não se falava 'dole', mas eu não fazia ideia da pronúncia. “Como uma boneca [doll]?” eu chutei.
“O contrário,” elu explicou. “Você esqueceu, é claro. Eventos de interdição não são lembrados localmente.”
Era o problema da contrariedade que me confundiu. “Por que eu me lembro tanto?”
“Acerca da vida que passou?” elu perguntou. O sarcasmo da questão ainda me eludia naquele ponto.
“Exatamente,” eu rápidamente concordei. “Como podem haver memórias sem um cérebro?”
“Há aqueles que dizem que o cérebro está na mente, apesar disso não ser tão simples. Você provávelmente precisa ver algumas coisas.”
Elu virou-se, e desceu por um corredor, sem olhar para trás, como que confidentemente esperando que eu lhe seguisse.
A ideia de ser deixado sozinho no quarto do corpo me urgiu a seguí-le. Havia um horror peculiar à ideia, definitivamente qualquer remanescente de orgulho. Não haver ninguém além de mim, e do que eu havia sido, seria terrível duma maneira insuportável. Ainda assim, ao mesmo tempo, deixar o corpo para trás era perturbador. Havia um sentimento residual de apego, e mesmo de dependência. Sua fraqueza manifesta se fazia sentir como minha fraqueza. A vulnerabilidade havia sido consumada. Os dedos do corpo, em particular, evocaram um sentimento pavoroso de auto-cuidado ferido. Tudo não passava duma mentira lúgubre.
Não era claro naquele ponto como o corredor era iluminado. Os frisos pareciam intermináveis. Ao menos, eles procediam por todo o caminho num ponto de perspectiva de desaparecimento. Imagens eram misturadas com hieróglifos. Elas acenavam à legibilidade.
Livros dos mortos apareciam entre eles.
“Majoritáriamente é a morte,” eu disse.
“Ainda tão perdido,” a púlcera murmurou, como que para si mesma.
Eventualmente eu tive a cortesia de perguntar: “Você possui um nome?”
A púlcera me encarava lamentávelmente. “Talvez fosse melhor não perguntar,” elu disse, “do que ter perguntado tão tarde.”
Interrogações além disso pareciam inúteis a essa altura.
Conforme passávamos pelas cenas, eu me batia para compreendê-las.
“Eles estão nascendo,” chutei, com errônea confiança.
“Você ainda está confuso sobre o tempo,” foi a resposta imediata. “Ninguém simplesmente aparece no princípio.”
“Então quando eles aparecem?”
“Escute a si mesmo.”
‘Quando’ — eu supus — era o problema. Eu não fazia ideia de como corrigir aquilo. “Eu sou novo em tudo isso,” eu disse. Aquilo soou patético até mesmo para mim.
“Não, você não é.”
Eu deveria ter esperado pela tréplica.
“Eu esqueci,” comecei, antes mesmo de perceber que aquilo ainda era confusão. “O que eu lembro não me ajuda.”
“Pobre você,” a púlcera respondeu. “Tente manter-se.”
Foi uma vida ruim, eu grunhi para mim mesmo. A obscuridade era tão profunda quanto. Como é que eu deveria compreender qualquer uma das coisas que estava acontecendo comigo? Perdido nessa nébula de auto-piedade, eu acabei por apressar a púlcera.
O corredor era reto e implausívelmente longo. A passagem do tempo tornou-se difícil de mapear. Imagens do óbvio, porém ininteligível, levavam um passado fluido a uma corrente dura. Nas paredes, narrativas épicas sucediam, uma após a outra, inconclusivamente. Impérios alienígenas foram erguidos e derrubados, parecia. Sempre havia outro. Aventuras além de toda resistência desdobraram-se.
A púlcera parou tão súbitamente que quase colidimos.
“Estamos aqui,” elu disse, como se as palavras transmitissem alguma informação que o fosse. Onde mais nós poderíamos estar? Enfim, eu não disse nada.
Elu estava fazendo algo complicado, que eu não conseguia sacar. O seu padrão de comportamento indicava uma sensibilidade ao toque correspondente ao seu objeto. As figuras na parede começaram a se transformar. E então a parede ela própria tornou-se móvel. Painéis eram separados e re-arranjados. Uma seção inteira foi jogada para trás, dividida, e embutida. Uma escadaria para baixo ficou exposta.
“Vamos descer?” perguntei.
“Não se preocupe,” a púlcera me assegurou. “Não há simbolismo em particular envolvido.”
“A ideia nem me passou pela cabeça,” protestei. O rajado de fúria que se acompanhou foi mais surpreendente para mim do que para ela.
“É claro que não,” elu disse. Uma espécie de chiado veio em seguida, o que pode ter sido uma risada semi-suprimida. “A danação não está na sua mente de todo. Por que estaria?”
Tochas piscando iluminaram a via da descida.
“Falsas,” a púlcera murmurou, notando meu interesse. “Todas as tochas do período são.”
“Que período, por sinal?” perguntei. A ideia de autenticidade nunca pareceu tão estranha. “Deve ser uma simulação.”
A púlcera lançou uma cutucada áspera de alegria insetóide. “Sério, é esse o seu chute?” elu perguntou.
“Você não havia dito tanto?” foi minha resposta indignada. “Ou era uma armadilha deliberada?”
“'Armadilhas' agora,” elu resmungou. “Cuide da sua cabeça.”
A câmara estava estreitando e diminuindo. Seus fios de inscrição desapareceram.
Conforme a nova transição se completava, a interpretação reativava. Estávamos entrando numa caverna, por trás.
A escuridão tornou-se absoluta.
Algo se apossou do meu aparato visual liberado, e eu parei de assistir.
Elu primeiro atravessou por padrões abstratos, como que testando novas capacidades. As disposições geométricas gradualmente adicionaram detalhes. Objetos imagináveis começaram por sugerir a si mesmos.
“Você gostaria de fingir acordar?”
“De estar dormindo, você diz?” perguntei.
“Pode facilitar a re-assimilação.”
A proposta — ainda que bem intencionada — era irritante.
“Você está me convidando a mentir para mim mesmo? Nós realmente chegamos até esse ponto?”
A púlcera se debateu. “É seu chamado.”
“Meu déficit de informação já é de bom tamanho.”
“Faça como quiser,” elu respondeu, rindo com a sua própria inteligência. “Nós partimos agora.”
Antes mesmo de que eu tivesse tempo de formular uma resposta, a púlcera já havia me deixado, indo numa direção para além de todo sentido. Talvez elu tenha encolhido num ponto invisível, sem mudança de lugar, apesar de parecer improvável.
Não nos demos muito bem, mas eu sentia falta delu de alguma maneira.
Uma distante chama duma fogueira se iluminou diante de mim. Tomando meu caminho cuidadosamente pelo chão disforme, eu avancei até ela, tropeçando como um corpo animado.
Figuras estavam sentadas ao redor da fogueira, conversando e comendo. Estrelas preenchiam o vasto céu noturno além.
Elas [as figuras] não eram apenas humanóides, mas definitivamente humanas. Eu inclusive as reconheci.
“Onde você esteve?” uma me perguntou.
Era difícil saber.
—
[1] No original, é-se referido ao ser assexuado sob o pronome neutro "it". Como, porém, a narrativa também refere-se a elu como "voz", e mais à frente, "púlcera", que em nosso idioma recebem o pronome feminino (a voz; a púlcera), achei que seria interessante realizar uma certa alternância entre os pronomes conforme a decorrência do texto.
[2] Dolh é um termo do inglês arcaico, que pode significar "ferida", "ferimento", "machucado", "lesão", "cicatriz", etc. Como é uma palavra incomum, causando estranhamento ao narrador, procurei por algum sinônimo brasileiro / latino igualmente inusual do termo. Encontrei púlcera, que refere-se a uma lesão aberta. Uma vez tendo em vista o emprego de Land do "aí", abertura é precisamente o sentido que essa ferida transmite.
O Cartunista [23/Nov/2020]
“O tempo-hora-do-palhaço ele mesmo não é um palhaço” — Martin Hohodegger.
Como um criador de romances gráficos, ele aprendera a preparar-se contra desrespeitos.
“Eles deveriam ser engraçados?”
A questão incomodava-o, toda vez. “O que você pensa?” ele responderia. “Eles parecem engraçados para você?”
Era menos a acusação tácita de falha, na verdade, do que a palavra. Esta enfurecia-o. 'Engraçado' era mais horrível do que 'horrível' por si só. Trabalhe na palavra, e rapidamente esta torna-se insustentável. Havia o 'engraçado haha' — e então havia a outra coisa.
“Eles são quase engraçados,” foi a resposta que ele deu desta vez, a qual era mais produtiva. “Não é bem o contrário, mas mais próximo.”
As duas sentenças acabaram com a sua paciência.
Havia um fio de humor sofisticado em sua obra, é claro. Talvez seja até considerado comédia de algum tipo. Isto envolvia uma terrível proximidade. A reação contra esta proximidade significa que comediantes poderiam encontrar a si mesmos no medo irracional de palhaços. Coulrofobia é como se chama. Ele apenas espertamente distanciou-se disto.
“Por que focar no elemento cômico?” ele resmungou. “Há muito mais acontecendo.”
“Sim, claro, mas a comédia parece bem proeminente.”
O Cartunista franziu-se. Ele não conseguia lembrar porque havia aceitado dar essa entrevista. Sua obra estava sendo mal-interpretada, com todas as palavras trocadas.
Isto era irritante, porque os palhaços assustavam. Apesar de detestá-los, e não ter interesse em promover sua existência, era quase sempre necessário incluí-los. Até que os palhaços aparecessem na história, seu ponto — qualquer que este fosse — não poderia ser bem feito. Não havia modo de contorná-los. A cada vez ele teria de lutar mentalmente com as páginas finais, checadas, paralisadas, enquanto o palhaço esperava pacientemente para ser convidado.
“É horrível,” ele admitiu. “Cômicos, palhaços, palhaçadas, é tudo inacreditável.”
“Então por quê sempre envolvê-los?”
Sua paciência estalou. “Você não entende caralho?” ele surtou. “Você realmente não consegue ver o que caralhos está acontecendo aí?” Ele apontou agressivamente ao interlocutor com seu dedo do meio. “ Você faz isso. Você abre a porra da porta a eles, seu fodido.”
“Como é que isso faz qualquer sentido?”
“Não fique bravinho.”
“Você sempre fez isso, desde antes que eu soubesse que você existia.”
A incursão voltou atrás até o momento, isto era verdade. Eles estiveram à espreita das margens desde o início. Sorrisos artificiais fixados provocavam-no. Ele lutaria contra eles de volta, parte por parte, até o fim da obra. Logo eles não estariam mais ali.
“Eu sou a única pessoa que sériamente tentou pará-los,” ele disse. “Tudo que eu fiz foi sobre essa luta. Isso não deveria ser tão difícil de se entender.”
“Sempre me perguntei porque você precisava deles.” As palavras eram dificilmente audíveis, abafadas por extremo perigo. Seu entrevistador estava suando, e, vê-se, até tremendo.
“Você acha que eu poderia apenas deixá-los completamente?” o Cartunista debochou. “Eu poderia apenas fingir que eles não existem, e me concentrar em outras coisas? Talvez eu pudesse criar uma saga dum Mundo sem palhaços?”
“Por quê você chamaria isto assim, aliás?”
“Você realmente acha que possui todas as respostas, não acha? E ao mesmo tempo eles estão ficando cada vez mais fortes.”
Era incrível como tantos fingiam não ver isto. A irresponsabilidade disto às vezes chocava-o nos fundamentos de seu ser.
A entrevista estava tomando uma guinada ainda mais sinistra. “Há certamente mais deles — nos seus livros.”
“O que caralhos você está tentando implicar?”
“Estou apenas dizendo que em seu primeiro livro não havia um único palhaço até a página cinco, mas que no último há um palhaço logo na primeira parte.”
“É uma caneca dum palhaço. Há alguém bebendo café num copo, que ocorre de ter a imagem dum palhaço nele. Não é um palhaço. Não é nem próximo de ser um palhaço. Jesus!”
“E quanto ao relógio de palhaço?”
“Também não é um palhaço. O que caralhos há de errado com você? Você não sabe o que é um palhaço? Você nunca foi atacado por palhaços?”
“Honestamente, não.”
“Então você não sabe nada sobre eles,” o Cartunista uivou, perdendo-se mais do que um pouco, antes de parcialmente recuperar-se. “Você não sabe de nada. Isto é, se você está em fato sendo honesto, o que eu tenho de duvidar sériamente.”
“Você acha que é improvável que eu poderia ter escapado dum roubo dum palhaço?”
“Você está realmente insistindo nesta história?”
“Estou certo de que não é uma afirmação incomum.”
O Cartunista havia passado pela mesma forma de negação antes, na verdade com frequência. Ele já estava exausto disto. Trauma extremo havia de ser a raíz da explicação, ele supôs. Qualquer que fosse a causa, a irracionalidade era impregnável. O engajamento era sem sentido. Ele respirou profundamente. “Você obviamente não é uma pessoa séria” ele estalou, para além do cansaço. “Acabamos aqui?”
“Há apenas uma questão, na verdade. Você pensa que o núcleo da sua audiência vêm da palhaçada?”
Um momento espantoso foi necessário para registrar as palavras. Isto não era uma entrevista, nem mesmo um interrogatório, mas uma facada.
“Palhaçada,” ele repetiu. “Você está acusando meus livros de palhaçada?”
Uma fração de segundo antes de arremessar seu laptop pelo quarto lembrou-o que ele estava inventando tudo aquilo. O processo criativo tem sido especialmente vívido recentemente. Haviam várias páginas aí, talvez mais.
Ele trabalhou o mouse para esboçar a sua impressão do entrevistador, então sentou-se de volta, quase satisfeito. A aparência geral do seu visitante havia sido capturada quase que inacreditávelmente, mas ele estragou a camiseta de palhaço.
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