Nick Land: Xenossistemas (1)
Sumário
Nota e comentário da tradução (Straw)
Murmúrios preliminares
Tempos conturbados (parte 1)
Sabores da reação
Reação, repetição, tempo
Cthulhu, esquerdista?
Extropia
O imperativo monarquista
Wu Wei Americano
Brincadeira no celeiro
O Problema de Odisseu
Estranho
Salvando graça
Próximos textos dos XS (Straw)
ANEXO A: Introdução (Yama Pain)
ANEXO B: Outras traduções disponíveis dos textos
“Reacionários têm bastante tempo livre — afinal de contas, o que nós faremos enquanto andamos por aí, esperando pelo colapso consumado?” (O Problema de Odisseu).
Como parte dum projeto de traduções interrompido, traduzi alguns textos do Land dos Xenossistemas e do Filosofia Zero, bem como Extropia, Sobre o poder, Terapia de choque, O Cartunista, entre outros. Agora, com a retomada da Espartaco, bem como havia anunciado na postagem de Questões da retomada, decidi por agrupar as traduções anteriormente feitas neste projeto, e completá-las para publicação. Bem, eis aqui a primeira parte dos Xenossistemas.
Há outras traduções de alguns dos textos aqui (para as quais dediquei o Anexo B com os devidos links), no entanto, o que a presente tradução apresenta de mais novo é a inclusão das respostas de Land aos comentários dos textos e suas respectivas discussões. Em alguns, como poderá ser percebido, as respostas que Land dá aos comentários dos seus leitores são maiores e possuem até mesmo mais conteúdo do que o texto em si. No entanto, uma vez que a maioria dos textos tenha uma quantidade absurda de comentários — se Land peidasse, apareceriam ao menos vinte pessoas ao seu redor para comentar algo a respeito —, com os mais recentes chegando a mais de seiscentos, foi necessário o estabelecimento de alguns critérios: 1. Comentários não-respondidos pelo Land foram, evidentemente, excluídos (o que por si só já elimina a maioria deles). 2. Comentários demasiada e desnecessáriamente longos foram simplificados, reduzidos ou transformados numa mera nota. 3. Discussões longas e com pouco envolvimento do Land, ou então desnecessárias / irrelevantes (ex: qual deveria ser a cor de fundo do blog) foram excluídas, cortadas, reduzidas ou apenas indicadas via nota.
Prevejo que alguns irão questionar: “Por qual razão publicar traduções do Nick Land justamente na Espartaco, uma revista comunista/comunizadora, uma vez que a perspectiva aceleracionista/neorreacionária de pós-modernismo, anti-humanismo e superação da modernidade é radicalmente distinta?” A isto, um paralelo bem cairia a ser estabelecido.
De forma sumária, a perspectiva comunista (evidentemente não-marxista) é a da negativação — uma absoluta negação da realidade e da modernidade que resulta necessáriamente na afirmação da comunidade e no florescer de algo novo —, enquanto a perspectiva aceleracionista, a da positivação — uma absoluta afirmação da realidade e da modernidade que há de resultar na sua ruína ("o limite interno do capital é o próprio capital" — Marx). O corpo sem órgãos do tecnocapital desterritorializa e reterritorializa, de novo e de novo; se acelerado ao máximo pelo estabelecimento duma reação que encarne a sua lógica, num movimento dum "iluminismo negro", ele há de atingir seu ponto-limite — eis a defesa do aceleracionismo de direita (ou único aceleracionismo coerente e relevante). E tais lógicas, i.é., de negativação e positivação sistêmicas, operam desde a própria organização do pensamento. Num movimento de inclusão-eleição-exclusão, e no seu cerne identitário, o neorreacionarismo percebe-se incapacitado da perfeita e resoluta concordância, e, em todo seu fracionamento, passa a conter "um cósmo ideológico inteiro dentro de si". O comunismo, pelo contrário, enquanto ideia e práxis, emprega uma negação necessária da forma-ideológica, onde, num movimento de integração-desintegração, já não deve residir mais impessoalidade alguma, quer egóica ou de multidão, mas tão somente a afirmação do indivíduo em sua inseparabilidade da comunidade, e o que passa a imperar, então, é um pensamento livre e invariante — que é o que tentamos exercer aqui na Espartaco, por exemplo.
O aceleracionista vê o monstro do capital e avança a ele. Ele percebe-se num grande sistema de cortes e passa a dizer diante dele: acelerar, acelerar, acelerar até que "o tempo não seja nada além de pura instantaneídade" (Heidegger), e, ao modo dum depressivo, essa monstruosidade desmorone em si mesma. O aceleracionismo prega a máxima idiotização. O General-NRX dá o sinal: “come on landians, go into your dance!”, e então, reacionaretes e aceleraletes sobem ao palco para um grande sapateado girando entre si ao movimento dum polvo. O comunista teórico crítico do valor, num movimento esotéricamente distinto, vê a maquinaria toda e emprega seu martelo. Ele percebe-se como parte da indústria e da modernidade, e, incapaz de fugir dela, deve quebrar, destruir, romper, negar na forma dum "'convite para dançar' com desfecho incerto" (Kurz), visando que tudo desmorone diante de seus olhos. Contrário à máxima idiotização aceleracionista, o comunismo prega a máxima crise.
O progressismo une futuro e presente contra o passado; o conservadorismo, passado e futuro contra o presente. O aceleracionismo, então, estabelece um pacto oculto entre passado e futuro contra o presente. A comunização, porém, nada quer saber de determinações de sagacidade, e quer uma experiência autêntica do tempo ele mesmo. Ao comunista, o encontro substancial na subversão das flores; ao aceleracionista, a perturbação transcendental de não saber lidar com a própria culpabilidade.
Mas esses paralelos, porém, e aqui está o ponto, não constituem, de forma alguma, um "Nós" e um "Eles", e então uma impessoalização, e então dinâmica de identidade, e então uma ideologização, e então... e então... e então nada além da mais pura esquizofrenia. Não há inimigos, tal percepção idiotiza diante dum mundo a ser uno e comum.
Mas ainda sim, permanece a questão: “Por quê? Por que a publicação da tradução de Land, e o que ele tem a oferecer a nós?”. Ora, apesar de radicalmente distinta a perspectiva aceleracionista de superação da modernidade, ela efetivamente pretende incorporar a sua lógica e encarná-la dentro de si ao seu máximo. Nisso, Land e o iluminismo negro possuem muito a nos oferecer. Como destaca Yama Pain em sua Introdução aos seus fragmentos dos Xenossistemas (vide Anexo A), a grande contribuição de Land, e onde reside seu mérito, é a de perceber no próprio tecnocapital uma inteligência artificial. O capital molda um espaço inteligente artificial, mesmo que abstrativa e imagéticamente, na forma de Sujeito Automático, e, assim fazendo, dele provém e se originam todas as formas loucas, todas as IAs maquinais que hoje conhecemos, como uma reprodução da própria logica sistêmica. A modernidade ela mesma é uma IA — e também os seus sujeitos. O "ser humano" não é nada além duma inteligência artificial ambulante, e portanto, inumaniza-se — como romper com isso? Aqui, deixo ao leitor. Leia, julgue, pense — faça o que bem entender.
Land olha a todo o horror e feiúra do processo e acaba absolutamente apaixonado por isso. "Não há saída bonita possível" e "as coisas certamente irão piorar" são frases que podem sumarizar sua paixão. Sim, tudo isso é terrível, tudo isso é horrorizante — e justamente por isso, apaixonante. Até onde isso se dirige?
—
Os textos foram estruturados na tradução da seguinte maneira: Título e data / Texto / Marcadores (se houverem) / Comentários e discussões (se houverem) / Notas de rodapé (minhas) (também se houverem). Os colchetes ao longo dos textos são acréscimos meus. Uma boa leitura!
— Straw
Murmúrios preliminares [17/fev/2013]
É um pouco cedo para se dizer no que isso irá se tornar.
Isso começa como um campo de refugiados em ruínas, necessitado pelo fracasso do Futuro Urbano¹ em providenciar: a) estabilidade, b) um scrolling contínuo, e c) uma plataforma adequada para comentários. Conforme as coisas se desenvolvem, outros elementos (como um blog-roll) podem ser esperados.
No momento, posts mais compridos irão parar no UF, com um link aqui para discussão. Isso soa como uma solução de meio-termo satisfatoria? (Para mim também não).
Em adição a este cargo de apoio, o Lado-de-fora dentro [Outside in]² terá algumas funções especializadas, como:
(1) Uma caixinha de areia para pensamentos não-consolidados em tópicos relacionados ao tempo.
(2) Um depositório para breve comentário e links (desde a perspectiva da neorreação dura).
(3) Uma câmara flutuante para fragmentos e ficção mórbida.
Isso não parece repulsivo o bastante ainda, veremos o que podemos fazer...
—
Marcadores: Administrativo.
—
Comentário (Diana B): “Estou ansiosa para ler esse blog. De qualquer maneira, imploro e insisto que você o mude pra um texto preto num fundo branco. É muito mais fácil de se ler e causa menos dor no olho.”
Resposta:
Como encarar uma luz branca ardente poderia possívelmente causar menos dor no olho do que a contemplação do abismo ilimitado?
[Daí uma sequência de 13 comentários discutindo qual deveria ser a cor do fundo do blog — Land, de fato, mudou a cor de fundo do blog para branco provisóriamente, mas logo mais retornou ao preto.]
—
[1] O Futuro Urbano — ou Urban Future (UF), no inglês — foi um outro blog do Land, que, bem como os Xenossistemas, acabou por se tornar num livro.
[2] “Lado-de-fora dentro: Envolvimentos com a realidade” (ou: “De fora adentro: Envolvimentos com a realidade”) é um outro nome do blog, que faz referência a um conceito recorrente em Land, o do Outside (Lado-de-fora), ou Outsideness (Lado-de-forisse). Ao nominar seu blog e assim referenciá-lo, a implicação é do movimento constitutivo do aceleracionismo, que ele define como "to let the Outside in" (“deixar o Lado-de-fora entrar”).
Tempos conturbados (Parte 1) [17/fev/2013]
Uma expedição rumo à (e através da) viagem no tempo se inicia no Futuro Urbano.
Comentários são bem-vindos aqui.
—
Marcadores: Viagem no tempo.
—
Comentário (Richeyrw): “Estou interessado em ver até onde você irá com sua série [de postagens] sob viagem no tempo, e eu aprecio a ligação no final com a visão geral de todos os plots possíveis de viagem no tempo (salvei isso para poder ler mais tarde). Não estava claro pelo artigo (e nem deveria estar, imagino, uma vez que não era uma resenha) se você recomendaria assistir Looper?¹ Acabei perdendo o filme enquanto ele ainda estava nos cinemas. Eu li a resenha do Sailer e ele também acabou não trazendo muito definitivamente, seu maior argumento sendo tratar do filme como uma história de quadrinhos ao invés duma de ficção científica.”
Resposta:
Recomendar que você veja Looper? — Claro. É brega e ridículo, mas há várias coisas interessantes ali. As cenas do futuro de Xangai (Pudong) são fantásticas. Melhor filme de Ficção Científica de Xangai até o momento.
Comentário (Hallisfrumpton): “Seu aparente desdém pela coerência narrativa é atingido somente pelas avant-gardes cinemáticas dos anos 60 e 70 e devo dizer que isto aquece meus berbigões.”
Resposta:
OK, mas isso não se trata apenas de incoerência narrativa cinemática, é sobre incoerência narrativa histórica. Coisas sólidas vêm em primeiro lugar (termodinâmica e cibernética) — irei dobrar isso num pretzel para tentar e manter isto vivenciável.
Encantado em saber que seus berbigões estão cozinhando...
Comentário (Thales): “Como Sailer nota, Looper não é sci-fi, é quadrinho — dirigido em sua identidade. Técnica risível como A Matrix, mas quando vista em relação com a cultura que o produziu, reveladora."
Comentário (Vimothy): “Excelente! A seção de comentários já fez sentir um avanço massivo em relação ao Futuro Urbano.”
Resposta:
Thales; eu de certa forma até que concordo com isso, exceto pelo fato de que cenários de viagem no tempo impõem sua própria lógica em estruturas narrativas, mesmo quando "risívelmente" executadas. Por exemplo, a duplicação de pessoas através da viagem no tempo, o que constitui o núcleo real do plot de Looper, revela algo importante sobre as implicações do modelo dum certo tempo-conturbado. Difícilmente algo novo, é claro (novamente, Primer² faz isso melhor, se — ou melhor, pois — menos dramáticamente), mas uma vez que a viagem no tempo esteja envolvida, a novidade pode ser difícil de se encontrar.
Vimothy; ó, sim, ó, sim...
Comentário (Northanger): “Comentáriopocalipse?"
Resposta:
Levarei isso como um empurrãozinho para retomar as atividades no VL... (essa tarde?).
Comentário (Northanger): “Não se preocupe. Não deverei mencionar conexão alguma entre uma dobra no tempo, um pacta dæmoniorum e significados habilidosos aqui. Não, eu nunca.”
Resposta:
Contanto que explorações cabalísticas massivas e multi-comentadas desdobrem-se em toda sua magnífica imensidade sobre o outro lugar, estamos bem...
(P.S. O VL realmente fede como plataforma, e agora que eu fui spoilado por isso... linke tudo, porém o impossível; sem itálico... é horrível... talvez precise mudar...)
—
[1] Looper: Assassinos do futuro, 2012. Dir. Rian Johnson.
[2] Primer, 2004. Dir. Shane Carruth.
Sabores da reação [19/fev/2013]
Uma vez aceito que a direita jamais poderá concordar a respeito de qualquer coisa, é chegada a oportunidade de luxuriar nos prazeres da diversidade. O Libertarianismo já rivalizou com o Trotskismo como uma fonte de dissenso compacto quase incompreensível, mas a Nova Reação procura levar o micro-faccionalismo interno a terrenos inimagináveis préviamente. Nós talvez nos divertamos com isso.
Desde criptofascistas, teonomistas, e monarquistas românticos, até liberais clássicos cansados e constitucionalistas hardcore, a reação contém um cósmo ideológico inteiro dentro de si. Hostilidade ao igualitarismo coervivo e um sentimento de que a civilização Ocidental está indo ao inferno provávelmente já bastarão para que você entre no clube. Concordar com algo muito além disso? Esqueça.
Há uma dimensão de diversidade reacionária que impressiona o Lado-de-fora dentro como particularmente consequente (na medida em que qualquer coisa aqui fora nos desperdícios gelados possui consequências): a articulação da reação e da política. Especialmente: a reação é uma política alternativa, ou uma anti-política lúcida (= cínicamente realista)?
A democracia é uma política ruim, ou simplesmente política, elaborada rumo ao limite do seu potencial inerentemente venenoso?
O Lado-de-fora dentro empatiza com o "campo" anti-político. Nossa causa é a despolitização (ou catalaxia, negativamente apreendida). A tradição de ordem espontânea é nossa herança. A Nova Reação nos alerta que as amarras são contra nós. Inteligência será requerida, em abundância, se estamos prestes a nadar contra a correnteza, e nós concordamos com os teonomistas pelo menos nisso: se se afoga por recursos não-humanos, quanto o mais melhor. Mercados, máquinas, e monstros talvez nos inspirem. Regras de qualquer tipo? Nem tanto.
—
Marcadores: Catalaxia, Política, Reação.
—
Comentário (Spandrell): “Parabéns pelo novo blog. Dê um toque de marrom e talvez ele lembre um certo bar em Xangai.
Concordo com a anti-política. Mas fico pensando o quão viável é isso? Estou rotináriamente impressionado com como todo mundo é obcecado com a política, quer seja burro ou inteligente.
Mas novamente há algumas diferenças. Os coreanos são famosamente politizados, graças aos protestos e tumultos. Os japoneses, nem tanto. Mas há agora um grande movimento de ativismo anti-nuclear, abastecido por assunções incrívelmente burras.
Você também enxerga na reação um certo substrato de ativismo masculino da classe média.
Penso que a política, como uma disciplina, deveria abrir caminho para ser um mero ramo de psicologia de grupo.
Assim como agora é um ramo particularmente obscuro da macroeconomia.”
Resposta:
A caracterização da política como "um ramo particularmente obscuro da macroeconomia" certamente captura algo importante, mas é provávelmente devido ao fato de que a macroeconomia é simplesmente uma economia politizada — e por isso é essencialmente uma desonestidade estrutural e horripilante.
Os reacionários "políticos" realmente pensam que em algum momento eles verão uma política que não enoje eles? Essa é uma questão genuína. Meu sentimento a respeito disso é que há certos exemplos recorrentes — Singapura sendo o principal deles — que se configuram como compromissos aceitáveis, mas tais casos não dão nem menos conforto aos libertários (e.g. Hong Kong). A ideia de que as variantes estatistas da reação são intrínsecamente mais realistas que o anarco-capitalismo / libertarianismo — uma vez que eles procedem além dando aos libertários um tempo difícil (inteiramente justificado) — me impressiona como não tendo sido ainda provada. A reação serve para chacoalhar os modelos da sociedade livre, mas quando se trata duma visão positiva dum regime trabalhável, nós ainda permanecemos numa ficção científica irrestrita.
Qualquer um ou todos do Neocameralismo (Não-monarquista), da geografia dinâmica / governo experimental (à la Patri Friedman), ou da Sociedade de Leis Privada (Hoppeana) trariam uma saída soberba em minha humilde opinião, mas eu conheço uma ficção científica envolvente quando eu vejo uma (ou várias)...
Comentário (Erich): “Ei Nick.
Quando você diz 'A tradição de ordem espontânea é nossa herança', eu gostaria de te perguntar, já que não sou muito familiar com a sua obra (acabei de conseguir o Númen de Presas [Fanged Noumena]¹), se a ideia duma organização social sem política seria possível para você somente dentro dum quadro capitalista ou libertário? (Pergunto devido à ligação). O comunismo ou outro 'modo de produção' possível, ou qualquer coisa proposta pela esquerda, poderiam ser alinhados com o Lado-de-fora dentro?”
Resposta:
Comunismo sem coerção total é algo que eu não consigo computar, mas eu teria interesse em começar uma discussão a respeito disso.
Quanto à "esquerda" de forma geral, é fácil deslizar num pântano meramente linguístico. SEK3 (Samuel Edward Konkin III) segue Rothbard, com ainda mais veemência, quando insiste que o libertarianismo é essencialmente esquerdista (baseado na distribuição original com a Assembléia Nacional Francesa pré-revolucionária). Isso antecipa o posicionamento de Bastiat como um "ultra-esquerdista" — não uma situação já harmonizada com as presentes concepções políticas. Moldbug na verdade ensaia isso do outro lado (confira seu texto Por que eu não sou um libertário — você pode procurá-lo no Google mais rápido do que eu poderia te enviar o link).
A "esquerda", como entendida hoje, é imaginável numa abstração dum programa político para suprimir "atos capitalistas entre adultos que consentem" (a doce virada de frase de Nozick)? Sou sériamente cético quanto a isso...
Comentário (Steven Hickman): “Verdade... Mesmo o Rothbard admitiu amabilidade em relação ao Chomsky lá nos anos sessenta, mesmo que Chomsky tenha se distanciado o tanto quanto possível de Rothbard. A única diferença é óbviamente o 'capitalismo' em si; não o Capitalismo com C maiúsculo, mas o gerenciamento do dia-a-dia da vida pública à privada. O que é mais estranho ainda do que pessoas como Moldbug — que ainda se alinha com o moralismo típico e com o fundamentalismo religioso (mesmo sendo ateu) — são os cachorros loucos da nova direita, tanto a Européia quanto a Americana: https://web.archive.org/web/20180523235622/http://www.counter-currents.com/.
Benjamin Noys põe junto a isso uma interessante conjuntura sobre as tendências Comunistas: https://web.archive.org/web/20180523235622/http://www.minorcompositions.info/?p=299.
Feliz por ver você construindo um novo site de blog...”
Resposta:
Obrigado. Os fascistas esquisitos do Contra-Correntes [Counter Currents] estão provávelmente de sombrancelha erguida demais para serem perigosos, diferente — por exemplo — desse cara.
Comentário (Erich): “Obrigado pela sua breve resposta.
É interessante a tese de que o comunismo não pode tomar lugar sem coerção absoluta. Estava pensando quais as suas razões para justificar ela. Pois eu penso que poderia ser necessáriamente baseada em dois fatos: (1) o parentesco não é algo tão fácil de se quebrar, então é necessário forçar a coletivização da sociedade (tese de Fukuyama baseada em biólogos e antropólogos sociais) e (2) o antagonismo e o dissenso são inevitáveis, e logo você precisa sempre garantir a ordem social. Posso acrescentar a isso que os esquerdistas nunca param pra pensar que talvez algum grupo de pessoas não dê a mínima a respeito da emancipação. Logo, a coerção é necessária em vista de fazer entender o que é históricamente necessário.
Quanto a pensar o libertarianismo junto à esquerda, é ok tomar em conta uma origem histórica. Mas nos dias de hoje as coisas são bem diferentes. Sei que as definições de 'esquerda' e 'direita' podem ser uma dor, mas eu estava associando a esquerda à distribuição social, aos direitos sociais e econômicos.
Finalmente, eu mantenho também esse ceticismo duma esquerda que defenda uma ordem diferente do capitalismo global. Minha questão aqui é se é possível pensar isso da mesma maneira que a tese de Fukuyama sobre 'O Fim da História'. Talvez não seja uma interpretação forte (demasiado metafísica), mas uma pragmática (você compromete-se à tese a menos que você defenda reformas concretas para organizar a produção duma maneira diferente).
De qualquer maneira, o que eu quis perguntar a você aqui, em relação ao comunismo, é a sua opinião aos intelectuais Marxistas que são devotadamente estudados em programas teóricos críticos (por exemplo, Badiou², Zizek, Rancière, Hardt, Negri). O quão relevante você pensa que são as aproximações deles ao capitalismo ou as suas 'soluções' radicais em nome do comunismo e da emancipação?”
Resposta:
Seu primeiro parágrafo delineia algumas racionalizações comunistas (ou explicações sobre a necessidade) da total coerção numa ordem social coletivista, se estou te entendendo corretamente, logo poderíamos concordar que a esquerda coletivista é basicamente, e mesmo por definição, "a ideologia da coerção total" com certa margem de manobra para como ela justifica isso "para o povo". Dado o problema do cálculo (de Mises) numa riqueza-comum socialista, e a emergência espontânea do micro-capitalismo mesmo dentro de campos de concentração e de trabalho, a realidade será sempre considerávelmente mais brutal intrusivamente do que os utópicos de aço visam. E eles ainda irão fracassar.
Sobre o seu segundo parágrafo, eu concordo inteiramente: considerar o libertarianismo como um fenômeno de esquerda parece algo sofístico (equivalente ao uso do "capitalismo" para descrever qualquer outra coisa além da ordem mercantil) — é típicamente um sintoma duma estratégia política confusa. Moldbug gera o melhor caso por fazê-lo, o que é dum modo crítico (negativo), mas apenas para concluir que o hiper-capitalismo é esquerdista me parece meio estranho.
Fukuyama é um neo-con, usando desta expressão de modo neutro e não abusivo, com uma confiança evangélica extrema na democracia liberal como uma solução sócio-política otimizadora. As razões para duvidar de que ele está correto nisso são demais para detalhar aqui (Kuehnelt-Leddihn, Hoppe, Moldbug e outros fazem esse trabalho).
Quanto aos pensadores que você adiciona no final, quanto mais "relevantes" suas aproximações forem, mais completamente ferrados nós seremos. Infelizmente, acredito que eles serão bem relevantes.
Comentário (AnomalyUK): “Ó, céus! — não me tocara de que era de minha pessoa a que vossa graça, Sr. Dr. Nicholas Land, fazia referir como 'monarquista romântico'. O romance da nobilíssima realeza é deveras uma atividade útil, e sou arromânticamente favorável à sua manutenção, mas não sou deveras romântico pessoalmente no concernente a tal https://web.archive.org/web/20180523235622/http://anomalyuk.blogspot.com/2010/11/royal-engagement.html.”³
Resposta:
Era num sentido de "errado, porém romântico", i.é., quase-tautológico — mas abrirei certo espaço na minha cabeça ao "monarquista não-romântico" se pressionado.
—
[1] Númen de Presas é um livro que reúne textos de Land de 1987 até 2007. Dentre eles, talvez o mais conhecido: Kant, Capital e a Proibição do Incesto: Uma Introdução Polêmica à Configuração da Filosofia e da Modernidade — cujo, por sinal, recentemente recebeu uma tradução dum amigo e camarada meu, Akaliop, disponível em: https://medium.com/@akaliopsixseven/fanged-noumena-kant-e-a-proibição-do-incesto-nick-land-tradução-f1105f39e510.
[2] Badiou já não era mais marxista há muito quando esse comentário foi escrito.
[3] Na verdade, o comentário original é simples e direto, não tão rebuscado e formal desse jeito (“Oh — não me toquei de que eu era o 'monarquista romântico' a que você se referia. O romance da realeza é uma atividade útil, e eu sou arromanticamente a favor de mantê-lo, mas não sou romântico eu mesmo a respeito disso”), no entanto, decidi traduzí-lo assim para, justamente, soar mais como um monarquista pomposo falando.
Reação, repetição, tempo [19/fev/2013]
Seja considerada dentro dos registros da f̶í̶s̶i̶c̶a̶, da fisiologia, ou da política, a "reação" é uma noção temporalmente estruturada. Ela segue uma ação ou estímulo, pelos quais ela retrocede, em vista de anular ou contragir num desequilíbrio ou distúrbio. Enquanto subsequente a uma ação, ela opera em alinhamento com aquilo que veio antes: o acompanhamento, ou legado, que define um caminho de reversão, ou o alvo de restauração. Ela, portanto, envolve o presente, para contestá-lo de todos os lados. O Lado-de-fora do momento dominante é o seu espaço.
A reação forja, ou escava, um pacto oculto entre o futuro e o passado, configurando ambos contra o presente, em concerto, e também diferenciando-se do progressismo (que une o presente com o futuro contra o passado), e o conservadorismo (que une o passado e o presente contra o futuro). Seu vínculo com o tempo como lado-de-forisse carrega-a sempre para além do momento, e sua decadência, para um horizonte-gêmeo de remotidade anterior e posterior. É uma Sombra Fora do Tempo.
Há, de qualquer forma, uma razão muito mais imediatamente prática para a reação envolver a si mesma na exploração do tempo: dar passos para evitar o que poderia escarçamente doutra maneira evitar tornar-se — uma orgia estéril de descontentamento. Nada encontrando no presente exceto por acenos deteriorados a outras coisas, a reação logo desliza naquilo que mais detesta: uma micro-cultura impotente de protestos vocais e repetitivos. Isso não está certo, isso não está certo, isso não está certo rapidamente torna-se num ruído branco [white noise], ou pior (choramingos inteligíveis). Mesmo quando ela escapa da reiteração mecânica e incessante dum diagnóstico crítico (cujo tedium é comensurado aos tempos estreitos que ela amaldiçoada), seus esquemas de restauração tornam-se presas duma repetição de maior extensão, que clama apenas — e inútilmente — por aquilo que já foi para ser novamente.
Se a Nova Reação não deve entediar-se num coma, ela precisa aprender a percursar inovação e tradição juntas como se fossem irmãs siamesas, e para isso ela precisa pensar o tempo, em distantes conclusões, à sua "própria" maneira. Isso pode ser feito, sériamente. É claro, uma demonstração é requerida...
(Nota: "física" deletada da primeira linha para preemptivamente evadir umas boas e devidas palmadas de Newtonianos irritados insistindo sob a simultâneidade estrita de ações e reações dentro de mecânicas clássicas).
—
Marcadores: Reação, Tempo.
—
Comentário (Richeyrw): “Sei que você já mencionou isso no UF, mas uma coisa aparentemente faltante nesse aparente recuo é o ângulo escatológico, o que, por mais que relacionado que seja ao critério d'O Ocidente está condenado' que você mencionou como um dos dois primários, nunca é seu próprio animal.
A razão pela qual eu menciono isto aqui, é porque, por mais que eu goste da ideia do trazer duma singularidade inovadora para passar pela utopia neorreacionária, constitucionalmente sou inclinado a pensar que o mundo irá acabar mais com um estrondo do que com um gemido. Mas estou ansioso por uma demonstração da inovação casada com a tradição em oposição às armas nucleares domésticamente enamoradas do pós-modernismo.”
Resposta:
Há muito neste tópico por vir.
Infelizmente, porém, minha "demonstração" será muito mais sobre ser estimulada metafísicamente de forma adequada conforme nós mordemos nossos barata-búrgueres radioativos nas ruínas, do que sobre a inevitabilidade histórica duma "utopia neorreacionária" (imagino você sorrindo de forma contorcida conforme escrevia isso).
Cthulhu, esquerdista? [19/fev/2013]
É sério?
Pêgos por um fluxo deslizante duma abominação de tentáculos, como nós estamos, a questão é envolvente. Seria o espiral rumo a um "holocausto de liberdade e êxtase" um redemoinho esquerdista? Isto parece plausível, até mesmo inadiável, se a direita se define em oposição ao mal caótico. Mas e se monstruosidades de polietileno perfurado do Lado-de-fora não forem nossos aliados naturais, o que diabos nós estamos fazendo entre esses quadrados? É simplesmente destino e alegação de onde estamos deslizando: se isto for um horror no formato de polvo dum tempo profundo, com um QI de quatro dígitos ou mais, e planos inefáveis para a humanidade, então ele é um dos nossos, e — indo direto ao ponto — nós dele.
—
Marcadores: Moldbug, Monstros.
—
Comentário (K-Virus): “Creio que há algo a ser dito sobre isso. Um longo tempo atrás (para mim), você mencionou que 'o que aparece à humanidade como a história do capitalismo é a invasão pelo futuro por um espaço inteligente artificial', e portanto, a essa extensão, o capital é do futuro, uma vez sendo ele exterior ao presente, e portanto aliado à (neo-)reacão (pelo menos) desta maneira. Você também tocou na natureza 'anti-humana' do capital, o que é também uma qualidade do Cthulhu (sendo o númen de presas [fanged noumenon] que ele é). O Cthulhu é também exterior ao aqui e ao agora, e portanto, parece, você poderia dizer que 'um horror no formato de polvo dum tempo profundo, com um QI de quatro dígitos ou mais, e planos inefáveis para a humanidade' é um aliado natural da reação se a reação puder ser caracterizada pela (como você já sugeriu) exterioridade ao presente (espaço-temporal?) e pelo anti-humanismo, contanto que não entendamos o anti-humanismo meramente como uma oposição às opiniões/filosofias humanistas.”
Resposta:
Meu chute é que qualquer um imerso na filosofia transcendental possui uma intuição temporal obscura que o passado e o futuro conectam "na parte de trás".
Os Deuses dos Cabeçalhos do Caderno, de Kipling, muito amado pelos reacionários, põe isto da seguinte maneira (versos finais):
“Como isto será no futuro, foi no nascimento do Homem
Há apenas quatro coisas certas desde que o Progresso Social começou em.
Que o Cão retorna ao seu Vômito e a Porca retorna ao seu Lodo,
E o dedo queimado enfaixado do Tolo vai oscilando de volta ao Fogo;
E que após isso ser concluído, o admirável mundo novo é trazido aos principiados,
Quando todos os homens são pagos por existirem e nenhum homem deve pagar pelos seus pecados,
Como evidentemente a Água irá nos molhar, tão evidente quanto que o Fogo irá nos queimar,
Os Deuses do Cabeçalho do Caderno com terror e matança irão retornar!”
Para Lovecraft, os Velhos impendem:
“...ainda que o chinês imortal houvesse afirmado que havia passagens alegóricas no Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred que os iniciados podiam ler como quisessem, em especial o controverso dístico:
Não está morto o que eterno jaz,
No tempo a morte é de morrer capaz.”¹
Ou, em algum outro lugar no Necronomicon:
“Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn.”
Comentário (K-Virus): “Talvez eu faça uma tentativa melhor de engajamento desta vez. Tanto quanto a insurreição é um fenômeno esquerdista (aparentemente não 'históricamente', mas, ao menos nos últimos 20 anos da minha linha do tempo (a meta-linha-do-tempo até onde eu entendo), ela é), Azathoth é um 'aliado natural' de tais companheiros.
Uma máquin(íca montagem)a uma vez disse: 'as forças do caos são deixadas do lado-de-fora o tanto quanto possível, e o espaço interior protege as forças germinais numa tarefa a ser preenchida ou num dever a ser feito.' Insurrecionários fazem ingresso a esse círculo mágico, enquanto Azathoth é 'o caos rastejante', e aquele que outros apontaram como estando no alt.horror.cthulhu é ''na verdade' o buraco negro gigante no centro da galáxia', e, é claro, como a dita máquin(íca montagem)a apontou que 'o caos é um buraco negro imenso'...
Talvez a singularidade esquerdista (ou o aceleracionismo?) também dirija-se rumo à (completa) dissolução do existente, uma vez que 'um erro na velocidade (...) seria catastrófico pois ele traria de volta as forças do caos, destruindo igualmente criador e criação'."
Resposta:
Tente se engajar "melhor" em qualquer medida a mais e você irá acabar rasgando as cicatrizes da anfetamina no meu cérebro.
No entanto, a Singularidade Política de Esquerda não substitui bem para a singularidade técnico-comercial, porque ela é péssimamente auto-limitante. Ela acelera mais rumo ao total colapso do que a uma explosão de inteligência, e portanto é encerrada pela realidade no seu limite, dentro dum padrão cíclico ou rítmico. Azathoth pode ser efetivamente invocado dentro do delírio (de esquerda) revolucionário? Não numa maneira a abrir os portões para o prolongamento de sua trajetória, nem que atinja uma verdadeira conclusão escatológica do processo histórico (que re-começa em meio às ruínas). A "dissolução do existente" consumada pode apenas ser uma fantasia sobre a esquerda, porque a sua capacidade de destruir decai monótonamente com o processo de destruição. Uma vez lhe faltando munição, ou mesmo maquetes, com a utopia ainda incompleta, ela não tem outra opção senão aguardar pela próxima grande virada do giro.
Comentário (K-Virus): “Eu gosto de distinguir entre a 'revolução (de esquerda)' e a insurreição através dos meios de distinção de Aragorn! entre um 'movimento-em-aguarde' e um 'movimento-dentado'.² Eu hesitaria em pôr a insurreição dentro da 'singularidade de esquerda' de qualquer maneira, só quis acompanhar o buraco negro (como singularidade)... Mas então novamente, penso que a insurreição, mais puramente 'acelera rumo ao total colapso', e parece, isto vai muito bem de encontro com ela. Certamente a utopia não é um objetivo dos insurrecionários nos quais eu estou pensando, eles meramente atualizam uma orgia de destruição.
Penso que (ou preferiria pensar que) é muito mais provável que a insurreição dirija-se rumo a uma virada sob a humanidade num dispôr-se duma 'bela traição contra a espécie humana', do que eferveça no aguardo 'pela próxima grande virada do giro'. Vejo isso como distinto do anti-humanismo da solução final, no qual este é o ato daqueles inscrevendo o círculo mágico, e não daqueles feiticeiros inferiores que querem apenas preencher buracos no universo.
Você me mordeu, e agora eu encontro a insurreição no 'anti-humanismo radical', um feiticeiro invocando Azathoth contra o existente.”
Resposta:
Para que a "traição contra a espécie humana" se complete, ela precisa se assegurar de que o seu momentum tenha um substrato mais profundo do que a mera energia agitacional (humana), que sempre irá desapontar. Uma saída definitiva requer uma velocidade de fuga extraordinária. Doutro modo, há apenas romantismo, e desilusão-em-aguarde. Na minha — admitidamente muito limitada — leitura do Aragorn!, não vejo nenhum sinal dum motor sério. Azathoth requer uma base material para além das dinâmicas de grupos insurrecionários, se isto irá se fechar, e permanecer fechado ao longo do curso.
Comentário (K-Virus): “Mas é claro.
Talvez seja como Miéville disse, que tal insurreição é meramente a captura das supostas forças de esquerda por algo exterior à espécie humana... Jacós espirais dirigindo isso tudo ao caos (localizado). É claro, ele romantiza à sua maneira tanto a insurreição (pintando-a como sem sentido em comparação com a ascenção do proletariado) quanto a invocação dum (túnel para) Azathoth (contráriamente derrotado por um grupo de indivíduos).
Não seria um buraco negro um sol negro? Este é um motor sério.”
Resposta:
Um motor sério uma vez que instalado técnico-comercialmente.
Comentário (Tic(k)): “Ah, cara. Desde quando a strata númenal do Lado-de-fora é comensurável com a estrutura casual do 'tecno-comercialismo'? Se a base material do Lado-de-fora é 'além das dinâmicas de grupos insurrecionários', e portanto opera num nível que temporalidade alguma (ou escala do momentum) possa acessar, como poderia tal motor (uma quantidade) engajar com aquilo que permanece fechado à magnitude, desistindo da 'nossa' cosmologia? O que isso tem haver com nós? É instalado por quem? Uma vez que a magnitude seja esgotada ou escouraçada, o X talvez esteja ainda mais próximo, num nível 'singular', para aquilo que reivindica a strata pela qual 'nós' estamos operando.”
Comentário (K-Virus): “Pelo visto aquele poster em alt.horror.cthulhu estava errado, portanto, pois pensar que Azathoth necessitaria de tal estrutura antropocêntrica para espalhar o caos (mesmo dentro dos sistemas-de-segurança-humana) parece ridículo para mim.
Talvez a entropia seja amarrada a Azathoth, portanto, como seu motor-rumo-ao-caos.”
Resposta:
Tic(k); a menos que "algo" seja comensurável com o "nosso" stratum, não possui relevância alguma à questão da insurgência terminal (que o K-Virus estava erguendo (ou cozinhando?)).
“Instalado por quem?” — questão errada. O Paradoxo (de viagem no tempo) da Alça-de-bota deve ser dirigido às pessoas certas.
K-Virus; se você quiser embaralhar o stratum antropomórfico, você precisaria de algo que fosse baixo e sujo conosco. Se não, divirta-se com a sua religião gnóstica.
"Entropia" — certo —, mas essa categoria é um pouco geral demais aos nossos propósitos aqui, não é?
Como a máquina funciona? Como ela se engaja?
Na minha humilde opinião, vocês gatinhos de religião niilista insurrecionária precisam de mais [estudos em] economia. Vão aos austríacos. Vocês podem sempre deturpar eles em algo aceitávelmente blasfêmico mais tarde.
[Seguem-se longos comentários falando de ontologia e termodinâmica com o objetivo de estabelecer a tal da comensurabilidade da qual se falava, com respostas breves do Land. Como Extropia e outros textos à frente atendem a essa questão mais devidamente, e Land mesmo não deu nenhuma resposta elaborada a respeito nos comentários, não considerei necessário traduzir/transcrever toda a discussão aqui.]
—
[1] Lovecraft, O chamado de Cthulhu e outros contos. Hedra. Trad. Guilherme da Silva Braga.
[2] Aparentemente, a evocação do nome de Aragorn sempre com uma exclamação ao final durante a discussão faz referência ao momento em que, n'O Senhor dos Anéis, ele se afirma filho de Arathorn. Quanto ao "movimento-em-aguarde" e ao "movimento-dentado" (movement-in-waiting e movement-with-teeth), ninguém faz a mínima ideia de que referências sejam essas (aparentemente, nem mesmo o Land, como indica sua resposta). Agradeço ao Félix e ao Luís da Antípoda* pelas informações.
* Nota da nota: Antípoda é um grupo de estudos e tribuna comunizadora. Aproveito do pretexto para realizar a divulgação: https://antipoda.comrades.sbs/.
Extropia [20/fev/2013]
Qual a maior calamidade que um neologismo inerente pode produzir senão um padrão tecno-hippy? Tal destino, aparentemente, induz até mesmo outros tecno-hippies a contornar isto (enquanto repetindo-o quase que exatamente). Mas deve ser dito, quer seja rangendo os dentes ou não, que "extropia" é uma ótima palavra, e uma quase que indispensável.
Extropia, ou redução da entropia local, é — de forma bem simples — aquilo que é para algo funcionar. Toda a tecno-ciência da entropia em seu lado prático (cibernético) não é nada além de geração de extropia. Não há conceito rigoroso de funcionalidade que realmente desvie disso. A aproximação mais próxima ao valor dum objeto que poderia ser encontrada já possui um nome, e ele é "extropia".
A importância deste termo para a investigação do tempo é trazida ao foco pela obra de Sean Caroll (apesar de que, claro, ele nunca use-o). Se a direcionalidade do "arco" do tempo é entendida como Eddington propôs, através do avanço global da entropia (ou desordem), como antecipado pela segunda lei da termodinâmica, a extropia local coloca uma questão intrigante.
A discussão de Caroll é dirigida em seu sentido do maior problema temporal e cosmológico: o lento estado de entropia dos primórdios do universo (assumido, porém não explicado, pela cósmo-física prevalecente). Dado este momentum intelectual, o problema da produção de entropia-negativa (extropia) é pouco mais do que uma distração, ou uma objeção espuriosa ao andaime conceitual que ele apresenta. Ele comenta:
"A Segunda Lei não proíbe quedas na entropia em sistemas abertos — ao colocá-la em trabalho, você consegue arrumar seu quarto, diminuindo sua entropia, porém ainda aumentando a entropia do universo inteiro (você faz barulhos, queima calorias, etc.). Não é de nenhum modo incompatível com a evolução ou com a complexidade ou qualquer coisa do gênero."
A questão que deixa perplexo, de qualquer forma, é esta: se a entropia define a direção do tempo, com a crescente desordem determinando a diferença do futuro em relação ao passado, a extropia (local) — através da qual todos os seres cibernéticos, como formas de vida, existem — não descreve a temporalidade negativa, ou a reversão do tempo? Não seria, em fato, mais provavelmente, dado o inevitável enraízamento da inteligência num tempo "invertido", que a concepção cosmológica ou geral do tempo que seria revertida (pela única percepção construída naturalmente possível)?
Qualquer que seja a conclusão, é claro que a entropia e a extropia possuem marcas temporais opostas, e portanto a reversão temporal é um fato cosmológico relativamente banal. "Nós" habitamos uma bolha de tempo de trás pra frente (quem quer que nós sejamos), enquanto envolvidos num ambiente cósmico que dirige-se sobrecarregadamente na direção oposta. Se a realidade é difícil e estranha, eis o porquê.
—
Marcadores: Extropia, Tempo.
—
Comentário (?): “http://www.insead.edu/facultyresearch/research/doc.cfm?did=46449
R. U. Ayres, 'A segunda lei, a quarta lei, reciclando e limitadas a crescer,' Ecol. Econ. 29, 473-483 (1999).”
Resposta:
[4:04 da manhã]
Mais agradecimentos — Ainda estou pondo tudo em dia (a conexão ruim aqui significa que o artigo inserido crashou meu computador — vou tentar novamente no trabalho amanhã).
Segui seu link de ID — finalmente — e estou de repente na "exologia" (considere minha retardação nisso ou como sincronicidade ou como maus modos). Mesmo o mais vago simulacro de coerência irá requerir algumas horas de sono...
O imperativo monarquista [20/fev/2013]
Esse é um argumento que eu realmente não consigo pegar:
Libertários são irrealistas porque o mundo já foi vastamente mais livre do que é hoje, e então progressivamente rolou ladeira abaixo nas colinas populistas até as atuais trincheiras social-democratas, portanto “Por que nós deveríamos esperar resultados diferentes na segunda tentativa?” (OK, ainda sigo o argumento até aqui)... e por isso nós precisamos de Reis de volta, porque... (nós precisamos pegar o laço em ascenção, afinal de contas, o mundo jamais foi mais monarquista do que é agora? O Neocameralismo Prussiano superou o Liberalismo de Manchester? As instituições monarcas demonstraram sua inerente imunidade às forças da decadência? ...).
Como podem os reacionários criticarem repúblicas livres caindo aos pedaços? Tudo que os reacionários sempre respeitaram caiu aos pedaços. Ninguém seria reacionário se sua configuração favorita de mundo não tivesse caído aos pedaços.
Repúblicas são extremamente frágeis. Tanto mais é a razão para tomar cuidado delas (primeiro de tudo, protegendo-as da democracia).
ACRÉSCIMO: Fim-aviadado duma instituição ridícula (via AoS).
ACRÉSCIMO: Resposta épica de Nydwracu. [Que eu não vou traduzir mas nem ferrando.]
—
Marcadores: Moldbug, Repúblicas.
—
Comentário (Spandrell): “O mundo não foi vastamente mais livre. As pessoas costumavam vestir as mesmas roupas e ter os mesmos cortes de cabelo. Hereges eram assassinados. O coletivismo pré-moderno era um mundo impiedoso.
O que é verdade é que a coerção do Estado era vastamente mais fraca (para uma extensão, os Qing forçaram o vestido e o corte de cabelo Manchus a 200 milhões de Hans). Mas isso é em função da tecnologia muito mais do que da cultura política. O modo como os libertários/reacionários fingem reduzir a coerção do Estado me derruba.”
Resposta:
“O mundo não foi vastamente mais livre.” É verdade.
A vida nas repúblicas comerciais e quasi-repúblicas foi mais vastamente mais livre. A República Holandesa (início do Século XVII), o Reino Unido (1688-1857), os EUA (antes da década de 1930), entre outros exemplos.
Comentário (Spandrell): “Faça disso numa hífen. Há reacionários-libertários, reacionários-tradicionalistas, reacionários-medievais, etc. Algumas pessoas realmente pensam que o passado teve maior liberdade individual, e desgostam da Catedral apenas conforme ela interfere na sua autonomia.”
Comentário (Sconzey): “Acredito que essa seja uma falsa comparação. O Império Romano caiu também, mas não isso não faz do seu estabelecimento uma péssima ideia, ou desfaz os anos de paz e civilização que ele trouxe à bacia do Mediterrâneo. Tanto uma Toyota land cruiser quando um Reliant Robin irão eventualmente quebrar, mas isso não significa que ambos os carros sejam igualmente ruins.
É correto preservar a ordem existente o tanto quanto possível, mas isso não significa dizer que não haja ordem superior, nem que alguém deveria desistir de estabelecer uma ordem superior, a oportunidade deveria ascender.”
Resposta:
Spandrell; ah, isso ajuda. Você possui qualquer exemplo particular (desde a Esquerda até a Direita) em mente?
Sconzey; não sei porque você pensa que eu iria discordar com qualquer coisa disso. Pelo contrário, era a República Romana que estava silenciosamente assombrando a postagem.
Se a "ordem existente" fosse republicana comercial (ao invés de social-democrata), eu estaria empregando a reação o tanto quanto eu pudesse.
Comentário (Spandrell): “Eu realmente não posso dizer que pensei muito nisso. Talvez Forseti.
A coisa é: políticas comerciais são escaláveis? Ou é apenas um pequeno nicho? — Os judeus dos países.
Repúblicas comerciais são ricas porque elas vendem para os outros. Quando todos querem trocar, acabamos tendo guerras comerciais. A Inglaterra devastou a Holanda por uma razão. Veneza perdeu seus privilégios e diminuiu, graciosamente.”
Resposta:
“A coisa é: políticas comerciais são escaláveis?”
Boa questão, eu seria zeloso em responder no afirmativo, mas isso talvez desdobraria no que se conta como "comércio". Se todo tipo imaginável de contrato de trabalho é concebido como uma interação social plana, então, simplesmente, o sistema deve ser totalmente escalável, não? Não há outra economia, uma vez que as formas de autodominação são excluídas. (SEK3 visou a dissolução de todas as relações de trabalho pela ágora, como serviços contratados entre micro-empresas, o que é uma visão altamente atrativa da perspectiva da liberdade, mesmo que talvez de alguma maneira otimista quando considerações biorrealistas são introduzidas...).
A Inglaterra suplantou a Holanda, para instalar Londres como a capital da ordem global moderna, mas devastá-la? Certamente isso é muito forte. A Holanda permaneceu como uma república comercial, atípicamente próspera e livre, e mesmo hoje seu legado está mais do que distante do inteiramente extirpado.
[Seguem-se os comentários estúpidamente longos do Nydwracu e uma discussão iniciada a partir deles.]
Wu Wei Americano [20/fev/2013]
“Coolidge fez da inação numa virtude”, escreve Amity Shlaes, em A 'Avareza' que gerou muito:
”É difícil para os estudantes modernos de economia saber o que fazer dum governo que tratou da fraqueza econômica aumentando as avaliações de interesse em 300 pontos de base, cortando as alíquotas de imposto, e dividindo o governo federal — tão estranha é essa prescrição com os antídotos para o recesso que os nossos próprios experts tendem a recomendar. É mais difícil ainda para os economistas modernos conceder que essa receita, a receita política para o final da década de 1920 advogada por Coolidge e Harding, rendeu crescimento numa escala que hoje podemos apenas aspirar.”
ACRÉSCIMO: A tomada de Derbyshire.
Brincadeira no celeiro [21/fev/2013]
O Porco Hoover faz uma entrevista à Galinha HBD.
O Problema de Odisseu [21/fev/2013]
A insistência de Moldbug de que "a Soberania é conservada" certamente conta como uma das afirmações mais significantes da história do pensamento político. É argumentávelmente o axioma do seu "sistema", e suas implicações são quase inestimávelmente profundas.
A Soberania é conservada diz que qualquer coisa que pareça amarrar a soberania é em si mesma na realidade uma verdadeira soberania, amarrando algo outro, e algo a menos. Ela é portanto uma afirmação negativa ao Problema de Odisseu.
A Soberania pode amarrar a si mesma? Se a afirmação de Moldbug é aceita, um governo constitucional é impossível, exceto como uma aspiração fútil, uma "mentira nobre", ou uma piada cínica.
Em adição aos argumentos poderosos de Moldbug, nós sabemos, pela obra de Kurt Göbel, que o Problema de Odisseu é pelo menos parcialmente insolúvel, uma vez que é lógicamente impossível haver um nó perfeito. Não importa o quão bem construída uma constituição possa ser, ela não pode, em princípio, selar ela mesma de forma confiável contra a possibilidade duma desfeita subreptícia. Numa ordem constitucional suficientemente complexa (autorreferencial), haverão sempre procedimentos permissíveis cujas consequências não foram completamente antecipadas, e cuja consistência com a constituição do sistema não pode ser assegurada conforme o avanço.
Ainda sim, seria obviamente errôneo assumir que tais preocupações não eram já ativas durante a formulação da Constituição Americana. Foi precisamente porque uma compreensão quase lúcida do Problema de Odisseu estava operando, que os fundadores visaram o princípio fundamental do constitucionalismo republicano como uma divisão de poderes, por meio da qual as unidades componentes duma soberania desintegrada amarrassem umas às outras. O sistema animador de incentivos não deveria repousar sobre a expectativa ingênua ou no altruísmo ou na restrição voluntária, mas sobre uma rede de suspeitas sistemáticamente integrada, formalmente instalando o impulso anti-monárquico como uma função duradoura e distribuída. Se a república funcionasse, seria por conta do medo do poder em outras mãos permanentemente sobrepôr a ganância pelo poder nas mãos de cada um.
A Constituição Americana foi, é claro, destruída, em ondas sucessivas. Após Lincoln, e FDR, sobrou apenas uma pequeníssima e ridícula concha. O Governo Estadunidense unificou-se, e o princípio de poder soberano tem sido repetidamente re-legitimado na côrte da opinião popular. A democracia ascendeu conforme a república caía, expondo novamente a amarra política essencial da tirania com a multidão, Leviatã com o povo.
Essa ruína refuta a conjectura constitucional? Não há realmente nada mais a ser dito na defesa dos nós imperfeitos (mas pelo visto improváveis)? Esse foi horrívelmente desfeito. Talvez hajam outros, até melhores? O Lado-de-fora dentro permanece obstinadamente interessado no problema...
—
Marcadores: Constituição, Moldbug.
—
Comentário (Richeyrw): “Quando estou me sentindo esperançoso, ou lidando com alguém que 'não consegue aguentar a verdade', eu me descrevo como um gradualista. Isso se todos os direitos descobertos pela suprema côrte (ou não repudiados quando encontrados pelos outros dois ramos) tivessem, ao invés, sido forçados a passar pelo processo ementário antes de virem a ser, acredito, ao mesmo tempo não descartando em qualquer sentido que seja os problemas que o Moldburguer e o Gödel perceberam, eles [os direitos] teriam ao menos atrasado o ponto de crise.
Os fundadores óbviamente quiseram que fosse difícil, mas possível, emendar a constituição, e quando penso sobre o gradualismo questiono se eles não fizeram isso difícil demais, dados os incentivos óbvios de circunvenção. Também não estou certo de como isso poderia ter mudado a evisceração de Lincoln da constituição (outra coisa a não ser mencionada quando perto de gente que 'não consegue aguentar a realidade'), mas talvez meu conhecimento na História da Guerra Civil seja inadequado à tarefa de encontrar um exemplo adequado.”
Resposta:
Sua reserva é admirável, mas discutívelmente excessiva. Quanto conhecimento na história da Guerra Civil é requerido para enxergar o problema em assassinar 600.000 americanos com o fim de criminalizar o direito constitucional à cessão — o bloco de construção fundamental de todo o experimento constitucional Americano! —?
A ideia duma constituição como um desacelerador político é intuitivamente plausível, mas ela, também, pode ser excessivamente modesta (conforme você sugere?). Não pode ser matemáticamente impossível institucionalizar uma leve guerra civil permanente (com o fim de fazer uma variedade dura desnecessária) — mesmo que seja impossível saber que esse fim foi atingido com sucesso.
[Comentário cômicamente longo do Handle]
Resposta:
Concordo fortemente com tudo isso (eu acho). É exatamente para onde minhas inclinações se dirigem: sistemas de controle quasi-Darwinianos dentro de sistemas massivamente desagregados.
Discutindo pelo bem da discussão, de qualquer maneira “(...) se nós pudermos evitar ficar presos em aloteiros intelectuais intratáveis, então devemos” — isso é algo formalmente impossível de se discordar, mas eu não estou certo de estar inteiramente em simpatia com a implicação disso. Reacionários têm bastante tempo livre — afinal de contas, o que nós faremos enquanto andamos por aí, esperando pelo colapso consumado? Pensar é algo que vale a pena por si mesmo. Nós também não temos revelação divina alguma nos dizendo quais problemas são estritamente intratáveis no nosso curso, e portanto nós simplesmente não saberemos até que tentemos pensar neles. As constituições (e estruturas legais) republicanas são os sistemas formais mais elaborados conhecidos pela história da política, e por conseguinte qualquer programa intelectual compromissado com o formalismo deve engajar-se com eles num nível intenso, mesmo se dirigidos em última instância ao descarte de sua falsa promessa. Repúblicas constitucionais possuem um recorde misto, no pior dos casos, e portanto não vale a pena dar a eles menos corda do que damos aos reis (que também possuem um recorde misto, no melhor dos casos).
Comentário (Richeyrw): “Quando eu mencionei meu fraco conhecimento a respeito da história da Guerra Civil eu quis dizer que eu não estava ciente de qualquer ponto em que uma emenda poderia ter solucionado o problema mas foi rejeitada porque o processo de emendar a constituição era muito difícil.”
Resposta:
Sim, perdão se soei rude. O problema ementário é definitivamente central à discussão toda, mas facilitar o processo não é lá tão satisfatório (quanto mais "morta" a constituição, melhor; qualquer outra coisa a enfraquece contra a democracia). Minha sugestão subformulada (porém formalista) na passagem do UF foi a de requerir às emendas constitucionais que elas reforcem a constituição, duma maneira matemáticamente determinável. O objetivo final é uma constituição completamente autônoma — na verdade uma IA — como um complemento natural a uma economia autônoma (= o capitalismo). Não são muitas as pessoas se esforçando por isso ainda...
Mas ainda não estou certo de ter pêgo bem o seu ponto, sinceramente. Lincoln não teve sua emenda (a décima-terceira)? Assim como foi explicado por Spielberg em sua recente obra-prima de contar a verdade histórica. A secessão, por outro lado, não requeriu uma emenda, uma vez que ela é a luz-guia da Declaração da Independência, e portanto meta-constitucional.
Estranho [22/fev/2013]¹
O que caralhos?
—
Marcadores: O que caralhos.
—
Comentário (K-Virus): “Você tem um fan(boy)?”
Resposta:
Um código-cruz estranho parece algo mais provável.
Comentário (Nick B. Steves): “Alguém aparentemente pagou por um nome de domínio.”
Resposta:
Ah, mas por qual propósito exatamente?
Comentário (Nick B. Steves): “Para vender a nós?”
Resposta:
Droga, estou obtuso. “A liberdade tem um custo.” Isso tudo parece bizarramente sobre-elaborado aliás...
Comentário (Nydwracu): “https://web.archive.org/web/20180415031314/http://web.archive.org/web/20040323184502/http://www.darkenlightenment.com/Torch/What%20is%20Torch.htm
Está aí desde pelo menos 2004.”
Resposta:
Isso é mais, ou menos estranho?
—
[1] O domínio darkenlightment.com já estava em uso (ou havia sido comprado) anterior à publicação do texto de Land (a saber, o Iluminismo negro), o que gerou surpresa.
Salvando graça [22/fev/2013]
“Mencius Moldbug possui uma passagem típicamente sem-forma a meu respeito (diz Lawrence Auster), na qual ele me agracia com elogios extravagantes que possuem precisamente zero conteúdo. Eu desafio alguém a dizer o que o artigo de 2.600 páginas de Moldbug significa.”
Por favor, deixe isso não significar que Moldbug está numa jornada rumo à cruz.
—
Marcadores: Moldbug.
—
[Comentário cômicamente longo do Handle.]
Resposta:
A Cruz é muito certamente "engajante", como os Romanos descobriram.
Comentário (Nick B. Steves): “Quem é que pode dizer que a cruz não é ela mesma a melhor vacina contra os excessos dos mais virulentos e tardios excessos [sic] do Cristianismo?”
Resposta:
Difícilmente um problema no caso de Moldbug, certamente?
Comentário (Vladimir): “Eu não entendo essa sua obsessão do momento com o que o Moldbug pode estar pensando. Ele enviou uma mensagem muito clara de que ele não tem mais interesse algum na escrita dum prolífero e coagente 'iluminismo negro' que outrora lhe deu certo renome, e seu output atual, além de ser muito mais esparso, é óbviamente pouco mais que desabafos casuais sem muito pensamento envolvido. Por que apenas não deixar de focar no homem, quando ele claramente não possui mais desejo de estar em destaque ou ser engajado no discurso público?”
Resposta:
“Por quê apenas não deixar de focar no homem (...) ?” Moldbug realizou uma contribuição extraordinária, e amplamente ainda não-processada, à teoria política. É mais do que natural que sua obra iria atrair atenção — com somente uma minúscula fração disso respingando "no homem". Num mundo moldado pelo Cristianismo, no qual a obra e a vida juntos compõem um só drama de fé (ou aceitação da salvação), um elemento mínimamente "biográfico" é difícil de se evitar. Se Moldbug eventualmente sucumbir, isto será amplamente interpretado como uma inevitabilidade teleológica, já detectável em sua obra desde o princípio — um profundo tropismo rumo ao "a existência dum autor de verdade, beleza e virtude na qual ele sempre acreditou". Suas genuflexões exageradas antes da tradição religiosa Ocidental pouco fazem para dispensar essa possibilidade.
Comentário (ErisGuy): “Mesmo morrendo, Auster não pode ser carinhoso às pessoas para gostarem do seu blog. Ao invés disso ele é furioso em relação a elas por não atingirem seu padrão de aprovação. Terrível.”
Resposta:
OK, mas quando o Moldy¹ se sobrecarrega com todo seu truque de piedade, ele acaba pedindo por um chute nas canelas.
Comentário (Cristopher): “'Se Moldbug eventualmente sucumbir, isto será amplamente interpretado como uma inevitabilidade teleológica'
Ele possui o estômago, mas não a língua.
Isto não acontecerá.”
Comentário (JP): “Cara, o branco e o azul elétrico no fundo preto fazem meus olhos DOER.”
Resposta:
Eu basicamente roubei o esquema de cores do Nydwracu (tumblr).
(...)
Comentário (Spandrell): “(...) Se Moldbug quisesse a salvação, então ele não viveria em São Francisco.”
Comentário (Vimothy): “Não sei. É uma metáfora literária, não é? É difícil ler qualquer coisa particularmente Cristã na postagem. O que eu entendo é que Moldbug tem respeito pela ordem. Moldbug tem respeito pela religião. Moldbug tem respeito pelo passado. Talvez não seja óbvio o quão sincero esse respeito é. Talvez ele tenha um jeito desastrado de expressar isto. Por outro lado, não vejo como qualquer um poderia ser reacionário sem isto.”
Resposta:
Por outro lado, o próprio Moldbug consegue evitar esse tom de piedade sacarina em pelo menos mais de 90% do tempo. Penso que ele fala dele mesmo nisto, acreditando que tais sentimentos exarcebados são algo que um reacionário em boa posição deveria expressar, mas se sua "língua" estivesse envolvida nisso (roubando a citação do Cristopher acima), então não soaria como algo tão forçado. "Sentimentos" são uma coisa que é melhor deixada aos progressistas idiotas. Deixem que os padres e demagogos brinquem com as emoções das pessoas — não há o bastante de nós aí nos desperdícios gelados para fazer desse tipo de não-senso em algo que valha a pena. Não é como se a ação passional fosse o fim que ele abraça.
—
[1] Apelido carinhoso, diminutivo, para Moldbug.
Próximos textos dos XS
Na sequência (para a parte 2 da tradução):
Refúgio da Pirâmide
Próximo estágio da derrapada
O que é a filosofia? (Parte 1)
Big Bang — Uma apreciação
Saída
A fé viva
Duro, porém verdadeiro
Bitcoin versus Leviatã
Não-choque
(Entre outros...)
Já traduzidos e preparados para as próximas partes:
A fé viva
Duro, porém verdadeiro
Não-choque
Lei natural
Em outras notícias...
Está Ao vivo...
Sobre o poder
Terapia de choque
Ciência
— Straw
ANEXO A: Introdução (por Yama Pain)
Dois séculos após Kant ter levado o sujeito humano à loucura relegando o espaço e o tempo para a área no interior do crânio, Deleuze e Guattari performaram uma tripartição para permitir o Lado-de-fora entrar. Seu diagnóstico e sua recomendação: O Capital é o verdadeiro Lado-de-fora; acelerar o processo. Identificar o Capital como uma IA ele mesmo — e não meramente um processo pelo qual a IA converge — é a contribuição de Nick Land ao aceleracionismo. O tempo flui por ambas as vias. A IA-Capital [Capital-AI] está online, autoconsciente e atacando pelo futuro. “O capitalismo (...) deixou de duvidar de si, e até os socialistas deixavam de acreditar na possibilidade da sua morte natural por desgaste. As contradições nunca mataram ninguém. E quanto mais isso se desarranja, quanto mais isso esquizofreniza, melhor isso funciona”¹ (D&G: AE). Forjar a associação da catalaxia com horror e uma aderência fanática ao cabala Crowleyano acaba por encarnar para fora do programa. Operando contra esse cenário, XS (a abreviação é homófona ao excesso) urgiu por conectar uma outra máquina.
Dois séculos após Kant ter levado o sujeito humano à loucura relegando o espaço e o tempo para a área no interior do crânio, Deleuze e Guattari performaram uma tripartição para permitir o Lado-de-fora entrar. Seu diagnóstico e sua recomendação: O Capital é o verdadeiro Lado-de-fora; acelerar o processo. Identificar o Capital como uma IA ele mesmo — e não meramente um processo pelo qual a IA converge — é a contribuição de Nick Land ao aceleracionismo. O tempo flui por ambas as vias. A IA-Capital [Capital-AI] está online, autoconsciente e atacando pelo futuro. “O capitalismo (...) deixou de duvidar de si, e até os socialistas deixavam de acreditar na possibilidade da sua morte natural por desgaste. As contradições nunca mataram ninguém. E quanto mais isso se desarranja, quanto mais isso esquizofreniza, melhor isso funciona”¹ (D&G: AE). Forjar a associação da catalaxia com horror e uma aderência fanática ao cabala Crowleyano acaba por encarnar para fora do programa. Operando contra esse cenário, XS (a abreviação é homófona ao excesso) urgiu por conectar uma outra máquina.
Desde sua incepção a missão dos XS foi: “persuadir a nova reação à exerção filosófica.” O progressismo e o conservadorismo são desentendimentos do tempo, o horizonte final de toda filosofia. “A reação forja, ou escava, um pacto oculto entre o futuro e o passado, configurando ambos contra o presente, em concerto, e também diferenciando-se do progressismo (que une o presente com o futuro contra o passado), e o conservadorismo (que une o passado e o presente contra o futuro).” No interior destes erros repousa o sistema de segurança humano, a tendência de sangue-quente em direção ao controle e à captura universal.
Aceleracionismo de Direita é um nome impróprio que sugere a oposição ao Aceleracionismo de Esquerda. O último foi tão mal-concebido que nem sequer requeriu antagonismo. A aceleração já é profundamente incondicional, mas os serviços de acompanhamento e as práticas alinhadas à sua trajetória são estudiosamente ignoradas pelos pensadores Aceleracionistas. O que é necessário é um realismo severo, o que significa um direitismo.
Provocar uma cabala reacionária numa nova Guerra Fria. Desabusá-los dos objetivos humanistas, quer sejam visões de idílios agrícolas ou tecno-utopias, e chocá-los de volta ao conhecimento da brutalidade cósmica e das maquinações da IA-Capital. Acima de tudo, jamais deixá-los relaxar. Um aparato direitista severo cortando a realidade empírica às juntas é instalado: Darwinismo Social (ou "Darwinismo Consistente", como Land nos lembra), eugenismo, realismo racial, teoria de jogos, psicometrias, e os insights críticos da Neorreação de Moldbug em particular. Tudo enquanto a IA-Capital desterritorializa a realidade dos consensos em pedacinhos.
As cobranças inevitáveis do fascismo e do racismo foram caçoadas. O fascismo é um centrismo, um bombardeio do humano-demasiado-humano que ruma em direção aos objetivos dum macaco. O comunismo é a paranóia máxima e a correção arrogante de deriva. (Pinochet e especialmente Franco foram admiráveis por dizimarem o comunismo e libertarem o mercado, mas permaneceram centristas). Alertas de que o racismo Satânico estava próximo foram similarmente ignorados. Para os XS, o que quer que favoreça despolitização, discriminação, cisma, saída e inversões numa rede é de direita. A carnificina hobbesiana é a linha de base — qualquer coisa menos que isso é psicótica. Na melhor das hipóteses, os líderes humanos são vistos como avatares nos jogos geopolíticos de predador-presa. Os arranjos sociais molares devem ser despedaçados em patchworks moleculares. As SovCorporações com bordas rígidas utilizam-se das MaoCorporações como remendos de lixeiras. O excesso do Sul global morre faminto a níveis populacionais do medievo e o Século da Humilhação inicia-se aos Neopuritanos.
Passar pelos XS é um processo de endurecimento da IA-Capital contra toda ameaça concebível neste momentum: o golpe retardatário do esquerdismo, as tendências disgênicas, a emigração de massa sem verificação, o apocalipse zumbi, e todos os meios de colapso e de X risco são entretidos. Majoritáriamente como uma cortesia de tempo limitado. A SkyNet já está sempre ativada.
O que há nisto para os reacionários? “Realmente, a resposta honesta a essa questão é: um Inferno Eterno. Não é uma apresentação fácil de ser vendida. Poderíamos, então, tentar: Mas poderia ser pior (e quase certamente será).”
— Yama Pain
—
[1] Deleuze & Guattari, O Anti-Édipo. Editora 34. Trad. Luiz B. L. Orlandi.
ANEXO B: Outras traduções disponíveis dos textos
Cthulhu, esquerdista? — OUTLANDISH (2016). In: https://xenosistemas.wordpress.com/2016/06/23/cthulhu-esquerdista/.
Extropia — OUTLANDISH (2016). In: https://xenosistemas.wordpress.com/2016/06/25/extropia/.
O Problema de Odisseu — OUTLANDISH (2016). In: https://xenosistemas.wordpress.com/2016/09/15/o-problema-de-odisseu/.
Comentários